Tempestade de Merda

De Protopia
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Shitstorm - Franco Berardi "Bifo"

Original em italiano

Kill All Normies, o livro de Angela Nagle que muitos estão lendo, não é uma pedra angular do pensamento filosófico, mas um relato útil de uma vasta massa de mensagens que circulam online, relacionadas de vários modos à galáxia da alt-right americana. Um continente emerso nos últimos anos sem que nos déssemos conta: um continente de caos mental, de pauperização social e sofrimento psíquico difuso que erodiu todos espaços de ação política e de governo racional, enquanto os legados de solidariedade se desagregavam.

A mínima base de consenso ético e linguístico necessária para o consenso – e para o dissenso – político fora destruída por efeito da agressão infonervosa à mente social, e por efeito da humilhação social. No lugar da hegemonia que nasce do consenso racional, foi montada uma onda de nacionalismo e de racismo que nasce das frustradas reivindicações dos direitos sociais. Aquilo que emerge do continente de ressentimento é uma mistura de verdadeiro nacionalismo e falso socialismo: um filme que já vimos um século atrás, mas devemos preparar-nos para vivê-lo em versão pós-moderna.

Não me parece que exista no futuro próximo uma possibilidade de resistir a esta onda, menos ainda de subvertê-la. Um longo período de violência, guerra e demência está por vir.

A única coisa que podemos fazer – além de jamais perder o bom humor e a ironia – é forjar conceitos para a compreensão do mundo que está emergindo, por mais horrível que ele seja. Não podemos fazer outra coisa no breve tempo de vida que resta à minha geração, a não ser entregar ao futuro a possibilidade de vida feliz que corre o risco de ser sepultada pela tempestade de merda.

O fim do cool

Aprisionados na sua impotência os povos perderam a calma. A cultura do cool está perdendo terreno, mas ao mesmo tempo prevalece uma onda de desrazão.

O livro de Nagle publicado pela Zero Books há poucos meses concentra as atenções sobre as atuais tormentas psicoculturais. É cheio de informações úteis sobre o discurso online dos últimos anos e ensaia um tipo de antropologia da cultura online que devastou a razão política. Também sendo exclusivamente dedicado ao contexto americano devemos levar em conta o fato que as características do discurso online tendem a homologarem-se em escala global.

Nagle descreve a fenomenologia da mente pós-alfabetica do ponto de vista da hiper-expressividade que deriva das forças convergentes do free-speech libertário e da tecnologia conectiva.

Um fluxo de linguagem e de neuroestimulações engolfa as faculdades de elaboração racional e de experiência emotiva.

A tempestade de merda – shitstorm, termo cunhado pelo filósofo Byung-Chul Han – é a forma geral das comunicações na infosfera hipersaturada. Inumeráveis tempestades de merda, somando-se, transformaram a Inforsfera global em um tsunami de merda que desativou o universalismo da razão, reduziu a sensibilidade e destruiu os fundamentos do comportamento ético.

A onda de ressentimento agressivo que transfigurou a democracia deriva sobretudo das condições de impotência política e de empobrecimento social, mas não se explica plenamente a não ser como efeito da mutação que ataca a linguagem, o inconsciente e a autopercepção pela intensificação ilimitada das infoestimulações e das infossimulações.

Nagle descreve a atmosfera psicoética da era Trump com estas palavras:

“um espírito de profundo cinismo niilista veio à tona na cultura da internet mainstream e tornou-se dominante uma forma absurda de humor perverso”

O ressentimento identitário substituiu a solidariedade social, assim a cultura do pertencimento substituiu a razão universal. As heranças do humanismo e do iluminismo são apagadas junto à herança do socialismo. O socialismo, no entanto, retorna como reivindicação de crédito em uma moldura agressivamente nacionalista: por mais arrepiante que possa parecer, o nacional-socialismo é o discurso e o programa político de Trump, Putin, Salvini, Orban, Erdogan e Modi.

O nacional-socialismo promete restaurar a segurança econômica destruída pelo globalismo ultra-liberal, e reforçar a nação repudiando os migrantes e multiplicando os fronts de competição.

A herança do colonialismo, o fim do privilégio imperialista é um não-dito que está no contexto, reservatório de conflitos identitários que não encontraram uma recomposição internacionalista.

Nagle liga a ascensão de Trump à emergência da cultura online como espaço hegemônico da formação do sentimento público e do discurso prevalecente.

“O triunfo dos trumpistas é também a vitória na guerra contra a mídia mainstream, hoje desprezada pela maioria dos eleitores e das subculturas estranhas e irônicas da internet, sejam de direita ou de esquerda, que igualmente tomam distância ao odiado mainstream… Talvez lembremos do ano de 2016 como aquele no qual morreu o domínio da mídia oficial sobre a política formal. Mil memes com Trump e Pepe, O Sapo floresceram e um grande Homem Forte/troll de Twitter que exibia a própria hostilidade contra a mídia mainstream e o establishment de ambos os partidos conseguiu assumir a Casa Branca sem e contra eles” (Nagle).

Segundo Nagle, a explosão do movimento alt-right, cuja importância foi crucial na vitória de Trump, é efeito de uma polarização identitária que é também resultado das políticas identitárias da esquerda, da transgressão como bandeira, do feminismo puritano, do vitimismo gay, da política das cotas, e de grande parte do partido democrático clintoniano.

“As políticas online são um produto do estranho período de ultrapuritanismo em que vivemos”

É interessante o fato de Nagle ligar a ascensão das políticas identitárias com o ultrapuritanismo. A rigidez puritana, a incapacidade de perceber os nuances e de decifrar a ambiguidade, é uma característica emergente da mente digital. No seu romance Purity, Jonathan Franzen sugere que a diferença essencial da geração millenial esteja no refuto à ambiguidade e na binarização da sensibilidade, o simplismo moralista, a agressividade contra o impuro, a irritação contra o incompatível são as manifestações políticas da binarização puritana.

Dark Enlightenment

Kill All Normies é a primeira tentativa de cartografar o vasto território online da alt-right, que deu força de maioria ao Dark Enlightenment. A expressão “dark enlightenment” (Iluminismo sombrio) fora cunhada pelo teórico de formação marxista Nick Land, há tempos alinhado às posições alt-right, e define um filão reacionário e ao mesmo tempo supremacista, antifeminista e anti-igualitário.

A explosão de cultura reacionária online fora antecipada por alguns pensadores como Nick Land, Peter Thiele e o russo Alexander Dugin. O seu pano de fundo comum é a consideração de que trinta anos de globalização desestabilizaram o privilégio da raça branca.

“Fundamentalmente o movimento neoreacionário e a alt-right são expressões da ansiedade nascida do fato que o Ocidente é incapaz de afrontar a globalização mantendo o privilégio do qual gozou nos últimos duzentos anos” Yuk Hui, “On the Unhappy Consciousness of Neoreactionaries”, e-flux, #81.

Na ausência de qualquer projeto de internacionalismo pós-colonial a dinâmica do declínio ocidental provocou um contragolpe reacionário. Não uma tentativa de assimilar e gerir um declínio imparável, mas uma tentativa de parar e subvertê-lo, assim reafirmando o privilégio da classe média ocidental, “Make America Great Again” é o slogan que melhor sintetiza este espírito ressentido.

Hegemonia do ruído de fundo

A revolta cínica de massa não é resultado de uma conversão ideológica mas o efeito de um aluviamento digital. O fluxo submergiu a mente crítica e o pânico identitário tomou o controle: assim se explica o triunfo de Trump. O problema é que nenhuma ação linguística ocorrida no interior desta tempestade semiótica pode subverter seu efeito: ruído de fundo do significado.

Nagle compara a influência cultural da alt-right com o conceito gramsciano de hegemonia.

“Parece que na guerra cultural online aqueles que são mais atentos as ideias da esquerda, como a teoria gramsciana da hegemonia e da contra-hegemonia, aqueles que a aplicam mais estrategicamente são mesmo aqueles da direita.”

A hegemonia da alt-right de que fala Nagle, na verdade, não é fundada no consenso ideológico mas sobre uma introspecção do senso, uma centrifugação do significado. Deriva-se uma espécie de tsunami de merda identitária. A esquerda contribui com este turbilhão porque é a única maneira de existir, mesmo que sem nenhuma eficácia.

O discurso político moderno visava essencialmente a persuasão e à construção de consenso, enquanto que o infofluxo contemporâneo gera permeações, saturações do tempo de atenção e desativa a faculdade crítica, a capacidade de distinguir entre verdadeiro e falso, entre bem e mal.

A faculdade crítica, capacidade de formular juízos sobre aquilo que é bom ou verdadeiro, não é um dado natural, mas o efeito de uma organização da esfera da comunicação social. Segundo Jack Goody – The Domestication Of The Savage Mind, 1977 – o pensamento lógico pode nascer apenas quando são disponíveis textos escritos. Quando a tecnologia de Gutenberg se difunde na Europa, no início da modernidade, o pensamento lógico torna-se capacidade socialmente difusa de juízo crítico. O acesso popular ao debate político e a participação nas decisões coletivas foi uma consequência da ampla disponibilidade de testes, e da criação de uma esfera pública discursiva.

Após a difusão da internet, a proliferação de fontes de informação cria uma nova infosfera e intensifica a circulação de sinais com o efeito de aceleração ilimitada do tempo mental. A exposição da mente consciente aos conteúdos trazidos pelo ambiente midiático (mediascape) torna-se tão rápida, tão breve que a elaboração crítica é desativada.

Marshall McLuhan antecipou este processo, em Understanding Media (1964). Segundo ele, quando a sequencialidade da mente alfabética é substituída pela simultaneidade eletrônica, o pensamento tende a passar da modalidade da elaboração crítica à modalidade da mitologia.

O retorno da identificação mitológica modelou a cultura política dos decênios passados, na sequência da visualização do discurso público (Mirzoeff, Visual Culture, 1997).

Então a internet absorveu todos os fluxos semióticos no oceano da navegação online, engolindo no turbilhão tanto os signos visuais como os verbais, cancelando a própria possibilidade de discriminação crítica entre verdadeiro e falso, entre bem e mal.

Memética

Na nova semiosfera a persuasão foi substituída pela permeação e o raciocínio crítico foi substituído pelo contágio memético.

O meme é a condensação mitológica de conteúdo imaginário, tecido de crenças e pressupostos e enfim sedimentado de signos enigmáticos de pertencimento cultural.

A foice-e-martelo, a cruz e a suástica funcionam como memes, mas trata-se de memes rígidos. Pepe The Frog, o sapo Pepe, não tem significados fixos, não significa nada, mas seu referimento é dividido como a chave que dá acesso a uma comunidade identitária.

O meme não funciona em maneira referencial (verdadeiro ou falso), mas em maneira metafórica: o conteúdo da metáfora não é definido conceitualmente, mas traduzido pragmaticamente em pertencimento.

O meme funciona como assignificante, mas é só procurar interrogá-lo do ponto de vista do significado que se dissolve. A esfera pública acelerada não faz senão registrar efeitos de estimulações assignificantes.

Segundo Kirk Packwood, um especialista de memética que se identifica com a alt-right americana:

“Um meme é a linguagem sociocultural que escreve o programa que produz o modelo mental, ou seja, a consciência. Um meme é o equivalente a um átomo mental: a representação interna da consciência. Por último, um meme é a unidade fundamental da transmissão sociocultural, que tende a replicar a si mesmo o máximo possível” (“Memetic Magic: Manipulation of the Root Social Matrix and The Fabric of Reality”, p. 27).

O meme age como um vírus que se replica para invadir o organismo.

“A replicação das estruturas meméticas é análoga à reprodução dos organismos biológicos. Para que uma estrutura mimética possa replicar-se deve ligar-se a uma outra estrutura memética para acoplar-se e replicar-se no interior do organismo” (Packwood: 38)

Por fim:

“É importante entender que a estrutura memética chega a dominar a Matriz social graças ao fato que são as mais adaptadas a replicar-se com sucesso” (Packwood, ibidem)

A eficácia de um meme depende da sua replicabilidade e deve agir como um mneme: unidade de memorização.

Em um artigo entitulado They Say We Can’t Meme, Geert Lovink e Marc Tuters escrevem:

“Os memes são simplesmente subprodutos do ecossistema do app: o meio, não o meme, é a mensagem. Os memes são fumaça nos olhos em uma ação que procura penetrar o mais profundamente possível o sistema límbico humano. Podemos ver os memes como um sintoma do estado acelerado da nossa tecnologia […] Os memes agem sobre aquele elusivo meio segundo que passa entre o pensamento e a ação.”

A pergunta que se segue é: o que fazer na esfera memética?

E isto implica em uma segunda pergunta: pode a cultura de esquerda agir memeticamente? (“Can the Left meme?”) Podem os conceitos universalistas do Iluminismo ou os conceitos internacionalistas da esquerda novecentista traduzir-se na modalidade pós-crítica (não-crítica) da cultura online? Em um segundo artigo intitulado Rude awakening: memes as dialectical images, Lovink e Tuters procuram desconstruir a prática memética, e construir a hipótese de undétournement (descooptação) progressista daquela prática.

A imaginação memética é um efeito de condensação mas é também um efeito da aceleração técnica. A mensagem é o meio, não o meme. O meme funciona apenas em ambientes tecnicamente acelerados, saturados, sintéticos e portanto o meio conectivo implica e condiciona o próprio conteúdo (o funcionamento pragmático) da mensagem.

Não mais fundada em estratégias discursivas de persuasão, a política torna-se uma batalha de sugestões mitológicas condensadas em estimulações nervosas de tipo memético. Não mais capaz de juízo crítico por causa da contração do tempo de elaboração, a mente reage a estímulos nervosos de maneira não-lógica, e desenvolve identificações mitológicas.

Os memes são ativados na esfera subconsciente, e são mais eficazes em organismos cognitivamente debilitados, afetados pela desorientação, expostos ao caos mental e desesperadamente necessitados de um caminho de saída de seu desespero. Tome por exemplo os trabalhadores brancos daquilo que costumava ser o Ocidente, de cujos valores de solidariedade colapsaram e cuja identidade social fora dissolvida.

Machos beta

No caso dos homens brancos a perda social desenvolve-se como ressentimento e agressiva procura de identidade: o racismo branco tende a prevalecer na população do hemisfério Norte, na Europa, na América e na Rússia, mesmo se suas características são diversas daquelas do racismo da época imperialista.

Os trabalhadores brancos, que por um tempo gozaram do privilégio social garantido pela colonização imperialista e do privilégio cultural da solidariedade social e do progresso foram socialmente humilhados, e a democracia fora reduzida a um ritual de imposições automáticas do governo financeiro (governance). É um racismo dos derrotados, aquele de hoje, não mais o racismo dos dominantes colonialistas.

A humilhação política é acentuada pelo declínio demográfico e pelo conseguinte declínio da energia, com as suas implicações sexuais e psíquicas.

Estas tendências convergentes alimentaram uma onda de ressentimento e de vingança que no mundo ocidental toma a forma do supremacismo branco.

Kill All Normies é um guia útil nesta tendência cultural emergente.

“O movimento Men Going Their Own Way (MGTOW) (Homens traçando o próprio caminho) é um grupo de separatistas brancos cujos membros escolheram (ehm…) evitar relações românticas com as mulheres para protestar contra uma cultura destruída pelo feminismo e para concentrarem-se na realização individual e a independência em relação às mulheres (…) o discurso é geralmente enriquecido de referências às putas que enganam, deixam, usam o seu dinheiro e assim por diante. Gostam de discutir sobre mulheres que se atiram com vinte anos e depois com trinta quando seu patrimônio sexual começa a diminuir investem tudo em relações sérias. O feminismo destruiu a civilização ocidental etc., e vão obrigar-nos a criar filhos que não são nossos, ou ainda engravidarão intencionalmente para nos prender ou nos acusarão falsamente de estupro.” (Nagle)

E ainda:

“Uma frustrante contradição e hipocrisia […] está no fato que querem manter os benefícios da tradição sem dever acatar as limitações e deveres. Querem o melhor da revolução sexual (sucesso sexual com mulheres pornografizadas, lubrificadas e dispostas a tudo) sem as inseguranças de uma sociedade na qual as mulheres têm liberdade de escolha sexual […] Os modelos sexuais que emergem como resultado do declínio da monogamia veem um aumento da escolha sexual para uma elite de homens e um crescente celibato involuntário para a população que se encontra na base da ordem hierárquica [no original “pecking order”, ordem de prioridade, N.d.T.].”

O ressentimento masculino age como fator de identificação: o jovem homem isolado na sua frágil cápsula digital e o homem que está ficando velho e deprimido reagem à sua frustração identificando-se no herói branco, o sapo Pepe é uma contração imaginária desta identificação cínico-irônica.

“Não é novo o curto-circuito da compensação psíquica. O fetiche nietzschiano do homem fisicamente forte, da hierarquia e do exercício da vontade, que atraía os leitores nazistas de Nietzsche, contrasta de modo patético com a realidade do seu estado físico: miopia, prostração nervosa, doença crônica, desordens digestivas e naturalmente amarga rejeição por parte das mulheres […] Uma das preocupações dominantes da manosphere (“machosfera”) é a ideia de que existem machos beta e machos alfa. Se discute longamente se as mulheres preferem machos alfa ou se os usam cinicamente ou ignoram completamente os machos beta, ou seja aqueles homens dos níveis baixos da hierarquia cruel na qual interpretam todos aspectos da interação humana” (Nagle)

Transgressões e grosseria na esfera pública

Nagle insiste no efeito produzido pela revolução sexual dos anos sessenta na economia psíquica do ocidente, e particularmente sobre aquela parte da população masculina que se sente excluída e marginalizada pela liberdade de escolha das mulheres.

Denis de Rougemont, no livro Amor no Ocidente diz que a fonte de sofrimento mais importante entre seres humanos é o amor, e o ressentimento pela ausência ou recusa de amor. Este tipo de ressentimento fora acentuado pela explosão tardo-moderna da publicidade, da estimulação visual do desejo sexual e da exibição pública do prazer feminino. Na percepção dos homens frustrados a condição de isolamento, solidão e miséria sexual é um efeito do declínio da monogamia e da liberdade de escolha feminina. Esta percepção corresponde apenas parcialmente à realidade da economia sexual geral, mas é no entanto uma forte motivação da agressividade antifeminista que se alastra na época presente.

A frustração masculina em um ambiente hiperestimulado explica alguma coisa da onda de violência antifeminina contemporânea.

Segundo Angela Nagle as coisas pioraram pelo culto da transgressão, que seria um traço distintivo da cultura dos anos sessenta e em particular do movimento feminista: “A transgressão fora abraçada como uma virtude por parte da cultura liberal ocidental, como demonstra por exemplo o texto de Bell Hooks Teaching to Transgress.”.

Não creio que a transgressão deva ser ligada à cultura dos movimentos sociais. Pelo contrário, se trata de um valor que pertence ao filão tardo-moderno da vanguarda artística. Os movimentos sociais distinguiram-se pela procura de autonomia, e a transgressão não se identifica com a autonomia, inclusive os dois conceitos se contradizem. A transgressão implica a norma como condição que deve ser transgredida, enquanto a autonomia se funda na ideia de que a sociedade pode desenvolver-se por fora da norma, segundo normas que evoluem com a sociedade.

Não obstante um estilo transgressivo foi importante na definição da cultura feminista e radical no momento em que a transgressão podia ser vista como um modo de romper a regra do poder, e de dar expressão às potencialidades culturais reprimidas pela sociedade. Hoje é de qualquer maneira claro que a direita alternativa radical se apropriou do estilo transgressivo que é um tipo de paródia da provocação transgressiva dos libertários de esquerda do passado.

Originariamente nos anos sessenta atos de provocação transgressiva eram intensos ao golpear a imaginação comum e ao romper os tabus da cultura e da sociedade conservadora. De então no entanto este gênero de atos foi redefinido e ressignificado na esfera da publicidade, e a cultura neoliberal exaltou a transgressão das regras sociais como condição para o pleno desenvolvimento da competição e da produtividade.

O culto da liberação produziu efetivamente a política de desregulamentação, mas seria simplista identificar o primeiro com a segunda.

Hoje contudo a razão da direita joga com o estilo transgressivo de modo invertido: romper os tabus da esquerda e do politicamente correto tornou-se um requisito para a comunicação eficaz. Agressividade, grosseria, brutalidade linguística tornaram-se um fenômeno corrente no discurso público.

Ainda assim não penso que a onda de grosseria que se apresenta como um caráter distintivo do discurso público contemporâneo deva ser considerada essencialmente como uma consequência do estilo transgressivo que descende dos movimentos de libertação cultural e sexual. Pelo contrário, penso que a epidemia contemporânea de grosseria esteja ligada às condições mudadas de interação social: o efeito da mutação digital é o isolamento dos corpos no processo de comunicação, a redução da linguagem a um instrumento de competição. A desaprendizagem da cortesia é um efeito da condição de isolamento crescente: enquanto os indivíduos interagem cada vez mais como agentes econômicos, ao mesmo tempo encontram-se cada vez menos no mesmo ambiente físico e erótico. Na nova condição de solidão ressentida e de separação da troca linguística da presença corpórea, podemos talvez encontrar as raízes da grosseria agressiva que é o caráter principal do discurso público contemporâneo.

Ironia e cinismo

Qual é o registro retórico no qual se manifesta o meme?

“Ainda que a maioria dos memes seja absurdamente banal, uma parte evoca explicitamente o subliminar, em quanto se relaciona com o ridículo e o irônico. Exemplar é o conceito de “kek” que significa caos mágico e se imagina ser o resultado das ações coordenadas de meme-makers que usam a imagem do sapo Pepe, um elemento largamente usado na campanha de 2016 de Trump” (Lovink-Tutters)

A ironia costumava ser o domínio da linguagem literária ou ainda do eufemismo popular: a dissimulação, a ambiguidade intencional, a consciente desterritorialização do vínculo do significante com o significado.

Não é mais assim. O espírito irônico do dadaísmo está infiltrado no ambiente midiático (mediascape), sobretudo através da publicidade.

O registro retórico da ironia fora então mesclado com a amargura e transformado em cinismo.

A ironia é a consciência da liberdade ontológica da linguagem, mas é também tolerância ética da imperfeição. O cinismo divide com a ironia a consciência de que a linguagem é ontologicamente livre (sem fundamento que não seja de troca), mas rejeita a imperfeição, remove a morte e o declínio, e quer vingança contra o destino.

Quando o espírito torna-se incapaz de tolerar as imperfeições, de portar a consciência da morte, quando o espírito se enfurece pela humilhação e pelo ressentimento a ironia se torna sarcasmo, e então agressividade.

No espaço em branco da verdade, que é a fonte da liberdade da linguagem, a ironia é retomada alegremente contanto que não se pretenda estabelecer uma ordem, e contanto que seja livre de todas as vontades de poder.

A ironia é consciência alegre da impotência metafísica que é inscrita no tempo.

A cultura online parece fundada em uma condição de permanente agressão e de autodefesa, no registro da ironia cínica, que diverge totalmente da ironia ética que pode florescer apenas em um espaço de silêncio.

Não se trata então de ironia, mas, ao contrário, de sarcasmo, insulto e por fim ameaça. Está em curso uma mutação da linguagem cotidiana, e devemos estar conscientes das implicações políticas desta mutação.


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