Por que eu tapo o rosto?

De Protopia
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Anônima


Quando fui para a marcha contra o aumento da passagem, não tive dúvidas sobre ir com o rosto tapado, e foi o que eu fiz. Não tinha dúvida sobre isso, sabia que era o jeito que me sentia mais confortável no protesto, mas também não tinha parado necessariamente para pensar os porquês dessa opção. Depois de duas marchas observando e recebendo reações à cara tapada, fui tendo mais certeza da escolha, e elaborando melhor as explicações. Eis aqui algumas delas (não há uma ordem de importância, acho todas elas igualmente válidas):

  • Vamos começar do começo: sou anarquista.

Isso significa muitas coisas, (é só olhar as centenas de outros textos sobre o assunto neste site) mas para agora vou me limitar a dizer o seguinte: eu acredito que podemos viver sem Estado, que existem muitas maneiras de nos auto-organizarmos sem que exista "um grupo de pessoas com monopólio da violência". Eu não acredito que seja possível fazer algo "menos pior" através do Estado, acredito - com algum estudo da história - que tomar o poder não é uma solução, e sim um problema, porque a lógica do poder centralizado busca sempre se reproduzir de algum jeito.

  • Eu vivo numa sociedade do controle.

Apesar de tudo o que fazem para eu engolir essa ideia, não acredito que vivamos numa democracia onde somos realmente livres para expressar nossas opiniões. Vivemos numa sociedade do controle, há câmeras por todos lados, a desculpa da "insegurança" respalda a coleta de dados sobre todxs e cada uma das pessoas, por mais "inofesniva" que ela pareça. Segurança pra quem? Inofensiva pra quem? Pra mim, insegurança é saber que há todo um aparato, tanto estatal, quanto privado, pensado e operado para saber quem eu sou, onde vou, o que faço, o que compro, o que opino, em quem (não) voto, o que estudo, o que quero. E eu não quero dar informação de bandeja para esse aparato. Não quero contribuir com mais uma informação na minha ficha: "participou de tal ato, com tal pessoa do lado, com tal plaquinha, através de tal trajeto". O que mais tem nessas manifestações é gente tirando foto, polícia, jornais, qualquer umx que vai botar no facebook. E o controle está por todos lados, interiorizado na família, nxs colegas, em qualquer umx que se alimenta de informação sobre a vida alheia. Sobre a minha, só para quem estou a fim de compartilhar.

  • Por que é que não ver meu rosto incomoda?

Fiquei surpresa com as reações incomodadas com meu rosto tapado. Por que é que isso incomoda? Provavelmente, porque discordamos nos dois pontos anteriores, e quem se incomoda com meu rosto tapado acredita piamente que temos que nos relacionar "democraticamente". Mas já que tu quer democracia, partamos de outro ponto: eu não opinei sobre tua roupa, nem sobre teu corte de cabelo. Por que tu opina sobre a minha maneira de me colocar nessa situação? Isso não é "democrático", é? Provavelmente porque isso faça tu te sentir ameaçadx. Porque tu funciona na lógica que quer controle, que quer a segurança do cidadão de bem, que jura que tem muitas liberdades e que qualquer pessoa que não acredite nisso é uma ameaça. Podem haver muitos outros motivos pra gerar incômodos, eu não conheço eles, afinal estou explicando minha lógica, não a de quem se incomoda. Mas o importante é que o fato de incomodar me motiva mais ainda a tapar o rosto. Quero mesmo incomodar, porque estou muito incomodada com o jeito como "as coisas são", estou muito incomodada com a sociedade na qual vivemos, e quero mais é que quem está confortável se incomode, se desacomode e se provoque a pensar sobre estas coisas.

  • Podia ser qualquer umx.

Os zapatistas têm uma frase muito bonita sobre seus rostos tapados com passamontanhas: "não ter rosto nos faz iguais". Eu não preciso reafirmar meu ego e minha individualidade. Não sou só eu que estou ali naquela manifestação, somos muitxs, e podíamos ser muitxs mais. Tem muita gente que queria/podia estar aqui, e se eu abro mão se "ser eu", podia também ser qualquer uma delas. Na hora de pagar a passagem, somo todxs iguais para a catraca e para quem enche o bolso no fim do mês. O problema nos afeta igual, por que faria diferença se fui eu ou se foi tu aquele dia caminhando na rua?

  • Vândalo é quem recebe do Estado pra matar gente, quem enriquece com a miséria alheia, quem cria uma sociedade da escassez.

Tapar o rosto me faz estar necessariamente no "bloco" daquelxs que pixam, quebram, "depredam patrimônio"? Ótimo. Apesar de que, pra começar, essa é uma construção da tua mente (quem se veste igual necessariamente age e pensa igual, se representam entre si, blábláblá), o que tu achava que seria uma ofensa pra mim acaba sendo um reconhecimento. Pode ser que eu atue igual a quem tu chama de "vândalo", pode ser que eu atue diferente, não importa. O que importa é que a raiva dessas pessoas é legítima. Violência são as opressões que vivemos todos os dias. Violência é ter que pagar pra nos locomover. Violência é ter que trabalhar em coisas que não gostamos, que destroem o planeta, que enriquecem uns poucos. Violência é supostamente existir um estado democrático - que como eu já disse, acho uma porcaria - e nem as regras do seu próprio estado eles respeitarem. Violência é não poder discordar sem apanhar. Se violência gera violência, então é óbvio que as reações serão "violentas". Não sou cristã, não vou dar a outra cara a tapa.

  • Aprendemos com outras experiências

As manifestações que têm acontecido em Porto Alegre são muito interessantes, mas de alguma forma, ainda inofensivas para o poder que está aí instalado. No entanto, já vão alguma situações nas quais tem havido repressão e represálias: quando o poder se incomoda, ele sabe como reagir. Se eu levo a sério o que eu acredito, significa que quero mesmo que ele se incomode. Então, nada mais sensato que aprender a reagir também e a se proteger da reação do poder. Não acho um êxito ver amigxs apanhando, nem respondendo a processos, nem presxs. Coisas simples, como tapar o rosto, usar meios de comunicação seguros e tomas algumas precações são muito necessárias. Muitos outros casos já nos ensinaram a nos proteger, ignorar isso é desprezar a história das lutas que vieram antes de nós, e também daquelas que estão acontecendo agora em outras latitudes.

  • Existem anarquistas por aí

É a primeira vez em muito tempo que vejo a palavra "anarquista" estar no debate público sem ser necessariamente de maneira pejorativa. É um mínimo de justiça para um conjunto tão amplo e variado de ideias e práticas que mostram que outras formas de viver e de se organizar de maneira libertária. Isso é resultado de muita gente que já vive dessas outras formas, que não aceita as injustiças, que se organiza, que se liberta, que luta, que não engole essa história de que "é assim e pronto". Tem muitxs anarquistas que não tapam o rosto e que fazem muita coisa interessante, eu diria até que uma grande maioria. Mas acho muito bom que o fato de que alguns tapem sirva para alimentar o imaginário de que a gente existe. A gente tá por aí, chega mais e vem conhecer do que se trata.

  • Vamos parar de nos levar tão a sério

Talvez nem seja tudo tão sério assim. Vai dizer, me ver ali com o rosto tapado não é uma coisa meio performática, meio fantasia? É até burlesco. Eu acho engraçado provocar reações. Acho engraçado gerar polêmica e tu nem saber pra quem tem que responder. A gente luta, mas também se diverte no meio do caminho.