O desenvolvimento não é o remédio à globalização, é o problema!

De Protopia
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Serge Latouche

(Original em francês)



Existe uma quase unanimidade na esquerda (e mesmo no centro) da denúncia dos problemas de uma globalização liberal, ou ultraliberal.

Essa crítica consensual se articula em seis pontos:

1) a denúncia das crescentes desigualdades tanto entre o Norte e o Sul, quanto no interior de cada país,

2) A armadilha da dívida para os países do Sul, com suas consequências sobre a exploração desmesurada das riquezas naturais e a reinvenção da servidão e da escravatura (particularmente infantis),

3) a destruição dos ecossistemas e as ameaças da poluição global sobre a sobrevivência do planeta,

4) o fim do welfare, a destruição dos serviços públicos e o desmantelamento dos sistemas de proteção social,

5) a onimercantilização, com os tráfico de órgãos, o desenvolvimento das “indústrias culturais” uniformizadoras, a corrida para patentear os seres vivos,

6) o enfraquecimento dos estados-nações e a ascensão ao poder das empresas transnacionais como “os novos chefes do mundo”.

Para suprir as fraquezas do mercado, no Sul, faz-se amplamente um apelo ao “mundial” do qual as ONGs humanitárias, os socorristas são a ferramenta capital. O terceiro setor ou a economia social e solidária têm a finalidade de buscar o mesmo objetivo no Norte. O (re)desenvolvimento pode ser o remédio a esses maus?

No fundo, muitos pensam, e em particular todos aqueles que defendem “uma outra globalização”. Ele falha ao regressar ao desenvolvimento ao corrigi-lo, se há ligação com seus efeitos negativos. Um desenvolvimento “durável” ou “sustentável” parece assim como uma panaceia tanto para o Sul quanto para o Norte. É mais ou menos a conclusão disso que ouvimos ainda recentemente em Porto Alegre. Essa aspiração ingênua a um retorno do desenvolvimento testemunha por sua vez uma perda de memória e uma ausência de análise sobre o significado histórico desse desenvolvimento.

A nostalgia dos “gloriosos anos trinta”, essa era da regulação keyneso-fordista que foi a da apoteose do desenvolvimento nos faz esquecer que em maio de 1968, é precisamente essa sociedade de “bem-estar” – a que era denunciada como sociedade de consumo e sociedade do espetáculo não criando mais que a lassitude de uma vida sem outra perspectiva que não seja “metrô-trabalho-cama”, fundada sobre um trabalho em cadeia repetitiva e alienante. Se ainda se exalta de bom grado o ciclo virtuoso desse crescimento que constituía um “jogo vencedor-vencedor-vencedor”, se esquecem de bom grado duas perdas: o terceiro mundo e a natureza. Certamente, o Estado ganha, o patronato ganha e os trabalhadores, mantendo a pressão, melhoram seu nível de vida, mas a natureza era pilhada sem vergonha (e não terminamos de pagar a conta...), enquanto que o terceiro mundo dos independentes se afunda um pouco mais no subdesenvolvimento e na aculturação. Em todo caso, esse capitalismo regulado da era do desenvolvimento terá tido uma fase transitória levando à globalização.

Se o desenvolvimento, de fato, não foi mais que a continuação da colonização por outros meios, a nova globalização, por sua vez, não é mais que a continuação do desenvolvimento com outros meios. O Estado desaparece atrás da marcha. Os Estados-nação que já se faziam já mais discretos na passagem do testemunho da colonização ao desenvolvimento, deixam a frente da cena em benefício da ditadura dos mercados (que eles organizaram) com seu instrumento de gestão, o FMI, que impõe os planos de ajustes estruturais. Entretanto, se as “formas” mudam consideravelmente (e não mais que as formas), estamos sempre em face de slogan e de ideologias que visam legitimar o empreendimento hegemônico do Ocidente, e em particular dos Estados Unidos, hoje em dia. Lembremos a frase cínica de Henry Kissinger, “La globalização não é ais que o novo nome da política hegemônica americana”. Não há nessa abordagem colocar em questão o imaginário econômico. Acha-se sempre a ocidentalização do mundo com a colonização dos espíritos pelo progresso, pela ciência e pela técnica. A economização e a tecnização do mundo são levadas ao seu extremo. Assim, é ela mesma que constitui a origem de todos os problemas de que se acusa a globalização.

É esse desenvolvimento realmente existente, esse que domina o planeta após dois séculos, que gera os problemas sociais e ambientais atuais. O desenvolvimento não é mais que um empreendimento visando a transformar as relações dos homens entre eles e com a natureza em mercadorias. Ele trata de explorar, de colocar valor, de fazer lucro dos recursos naturais e humanos. Qualquer que seja o adjetivo que se lhe dê, o conteúdo implícito do desenvolvimento é o crescimento econômico, a acumulação do capital com todos os efeitos positivos e negativos que se conhece dele: competição sem compaixão, crescimento sem limite das desigualdades, pilhagem sem controle da natureza. O fato de se acrescentar o qualificativo “durável” ou “sustentável” não faz mais que confundir um pouco mais as coisas. Neste exato momento, circula um manifesto para um desenvolvimento sustentável assinado por várias celebridades, entre as quais Jean-Claude Camdessus, o antigo presidente do Fundo Monetário Internacional!

Nosso supercrescimento econômico já ultrapassa em muito a capacidade de aguentar da terra. Se todos os cidadãos do mundo consumissem de acordo com o modo de vida americano, os limites físicos do planeta seriam ultrapassados em muito. Se o tomamos como o índice de “impacto” ambiental de nosso modo de vida “a pegada” ecológica deste na superfície terrestre necessária obtemos resultados insustentáveis tanto do ponto de vista da igualdade nos direitos de emissão sobre a natureza quanto do ponto de vista da capacidade de regeneração da biosfera. Tendo em conta as necessidades materiais e de energia, essas necessárias para absorver dejetos e rejeitos da produção e do consumo e acrescentando o impacto de moradia e das infraestruturas necessárias, os pesquisadores que trabalham para o World Wide Fund (WWF) calcularam que o espaço bioprodutivo per capita da humanidade seria se 1.8 hectare. Um cidadão dos Estados Unidos consome em média 9.6 hectares. Um canadense, 7.2, um europeu médio, 4.5. Estamos, então, muito longe da igualdade planetária e, mais ainda, de um modo de civilização durável que precisaria se limitar a 1.4 hectare, admitindo que a população atual fique estável. Pode-se discutir esses cálculos, mais eles são infelizmente confirmados por um número considerável de índices (que tem, ao mesmo tempo, ajudado a estabilizá-los). Assim, para que a criação intensiva funcione na Europa, falta que uma superfície para isso que se chama “culturas atrás das cenas” equivalente a sete vezes aquela desse continente seja empregada em outros países para produzir a alimentação necessária aos animais assim criados em um modo industrial... Para sobreviver ou perdurar, é então urgente organizar o decrescimento. Quando se está em Roma e se deve se tomar o trem para Turim, se se embarca por engano para Nápoles, não é suficiente desacelerar a locomotiva, frear ou mesmo parar, é necessário descer e pegar um outro trem na direção oposta. Para salvar o planeta e assegurar um futuro aceitável a nossos filhos, não falta somente sair totalmente do desenvolvimento e do economicismo, como também falta sair da agricultura produtivista que é parte integrante para acabar com a vaca louca e com as aberrações transgênicas.

Conclusão: O desenvolvimento como a globalização são “máquinas” que esfomeiam as pessoas. Antes dos anos 70, na África, as populações eram “pobres” sob o ponto de vista dos critérios ocidentais, no sentido de que eles dispunham poucos bens manufaturados, mas ninguém, em tempos normais, morria de fome. Depois de 50 anos de desenvolvimento, isso ocorre. Mais, na Argentina, país tradicional de criação bovina, antes da ofensiva desenvolvimentista dos anos 80, desperdiçava-se sem consideração a carne de boi, abandonando pedaços não nobres. Hoje, as pessoas pilham os supermercados para sobreviver e o leito oceânico, explorados sem vergonha pelas águas estrangeiras entre 85 e 95 para aumentar as exportações sem grande benefício para a população, não podem mais constituir um recurso.

Como disse Vandana Shiva: “Sob a máscara do crescimento se esconde, de fato, a criação da pobreza”.

Geroge W. Bush declarava em 14 de fevereiro de 2002 em Silver Spring que “porque ele é a chave do progresso, porque ele fornece os recursos que permitem investir nas tecnologias adequadas, o crescimento é a solução, não o problema”. Afirmamos o contrário que, bem longe de ser o remédio à globalização, o desenvolvimento econômico constitui a fonte do mal. Ele deve ser analisado e denunciado como tal.


Traduzido por oceano.



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