O consumo ideológico das redes

De Protopia
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Fábio Malini¹
E-spaço


As identidades sócio-comunicacionais como vetores da cidadania desterritorializada


"O espaço da reflexão sobre o consumo é o espaço das práticas cotidianas enquanto lugar de interiorização muda das desigualdades sociais, desde a relação com o próprio corpo até o uso do tempo, o habitat e a consciência do possível para cada vida, do alcançável e do inatingível. Mas também enquanto lugar da impugnação desses limites e expressão dos desejos, subversão de códigos e movimentos da pulsão e do gozo. O consumo não é apenas reprodução de forças, mas também produção de sentidos: lugar de uma luta que não se restringe à posse dos objetos, pois passa ainda mais decisivamente pelos usos que lhes dão forma social e nos quais se inscrevem demandas e dispositivos de ação provenientes de diversas competências culturais". (Jesús Martin-Barbero)

Considerações Iniciais

Este trabalho parte da hipótese de que os movimentos sociais, originados a partir da emergência da Internet, não só atualizam a organização das lutas sociais como produzem riqueza, que se opõe, veementemente, à lógica de produção vigente do capital. Para sustentar essa hipótese, esse estudo percorre um itinerário pela abordagem do pós-fordismo, parando em três pontos. O primeiro consiste em mostrar as bases materiais que tornam possível o surgimento do trabalho em rede. Especificamente, é no deslocamento do modelo de acumulação capitalista - do fordismo para o pós-fordismo - que emerge a nova qualidade do trabalho (imaterial), gerando um sistema social baseado na economia da informação e impulsionando os EUA a recuperar, por intermédio das information superhighays, a hegemonia econômica internacional (até então sob domínio japonês).

A segunda parada discorre sobre as especificidades do trabalho imaterial, uma nova articulação entre trabalho manual e intelectual, mas que os supera, por meio de uma noção de trabalho que para se desenvolver não precisa mais se subsumir diante do trabalho morto, mas se caracteriza como potência relacional, comunicativa e cooperativa entre sujeitos sociais. Seu locus de manifestação ocorre no conjunto de redes sociais territorializadas nos espaços urbanos, como também nas redes (sócio-técnicas) desterritorializadas nos espaços de não-lugares. O terceiro momento trata de interrogar como os modos de consumo dessas redes possibilitam repensar a própria noção de consumo da sociedade, sem ignorar o que é mascaramento ideológico atribuído pela sociedade do consumo. Reportar-se-á o "consumo como produtor de riqueza e a transação como transformadora do produto" (Cocco). O último plano de análise tenta demonstrar como esse debate se constitui nas redes sócio-técnicas, especificamente na Internet.

Contextualiza a gênese do embrião dessas redes, particularmente nos idos dos anos 70, apresentando ainda o duelo entre os californianos, que creditam o futuro das redes a um locus virtual comercial, e os cibercomunistas, que sem negar o lado comercial, sustentam a hipótese de a rede se caracterizar como um espaço da cultura da doação, da livre e gratuita circulação de informação (gift economy). Aqui, residiria o espaço onde os movimentos sociais da rede atuariam.

A fuga das fábricas, o encontro nas redes

"Podemos e devemos imaginar um conceito de acumulação que integre em sua definição todo o tipo de trabalho social (tanto material como imaterial), tal como se organizam o homem hoje em dia. Ao meu ver, neste momento, a acumulação só pode ser interpretada como um momento prévio de uma constituição comunista de sociedade. Para ser sincero e claro: o Império explora a máxima capacidade de cooperação da sociedade com o objetivo de acumular; portanto, explora as bases do que é o comunismo" (Antonio Negri)

No início dos anos 70, a máxima racionalização do fordismo, sustentada por um conjunto de mecanismos rígidos, tais como o investimento de capital fixo de larga escala e de longo prazo em sistemas de produção em massa, o absoluto controle da força de trabalho, a produção fincada em estruturas organizacionais e na ordenação hierárquica do fluxo da autoridade da informação, impulsiona uma verdadeira "fuga das fábricas", solidificada no aumento de ondas de greve, do trabalho informal, dos contratos terceirizados, no crescimento de pequenas e médias empresas. Somado à essa fuga, os rígidos compromissos do Estado com a proteção social e a política inflacionária aprofundada com a crise do petróleo corroía as bases da sustentação fordista.

Cocco (1999) chega a dividir em fordismo e pós-fordismo os modelos de acumulação do capital, defendendo a tese que há um deslocamento de "hegemonia social do chão de fábrica (do qual o fordismo foi o auge para um regime de acumulação) para pós-fordista em que produção e circulação se confundem com uma cooperação social que a fábrica não padroniza mais" (idem, p.277). O autor ratifica sua tese elaborando fatores que distinguem um modelo do outro:

- o pós-fordismo estabelece uma lógica produtiva em que "produz-se o que já foi vendido", estimulando uma integração da reprodução e produção. Ao contrário do fordismo, em que vende-se o que já foi produzido ("a produção comanda a reprodução").
- No pós-fordismo, a força de trabalho não consiste em um indivíduo pré-programado que trabalha silenciosamente, caracteriza-se como comunicativa, "trabalha falando e tomando iniciativas aleatórias, não-programáveis". A fábrica deixa de ser o núcleo da produção para se tornar um elo, o que significa que não mais determina, mas é determinada pela cadeia produtiva social e comunicativa que atravessa o território social (a cidade e as redes interativas). "Suas maquinarias são máquinas lingüísticas de fluidificação da informação na economia da circulação em massa" e não mais "instrumento de decomposição dos fluxos na economia da produção em massa".
- No fordismo, é a "inserção na relação produtiva que legitima a cidadania", no pós, é a cidadania que determina a inserção produtiva" .

Dois fenômenos distintos impulsionam a emergência do pós-fordismo. Um primeiro foi a "flexibilização defensiva", que visava a diminuição de custos operacionais e a manutenção da disciplina da Organização Científica do Trabalho. Para isto, as estratégias desenvolvidas caracterizaram-se, inicialmente, pela descentralização de uma parte das atividades industriais para alguns países do Terceiro Mundo. Posteriormente, pela corrida para a automação da linha de montagem, diminuindo drasticamente a força de trabalho no processo produtivo.

Um segundo fenômeno foi a "desvalorização crescente do valor do trabalho fabril". Primeiro, com uma fuga da fábrica pela força de trabalho mais qualificada e de militantes sindicais mais ativos. Depois, pelo aparecimento, a partir de 68, de organizações sociais, tais como, o movimento estudantil, o feminista, o da contra-cultura e os da lutas urbanas, que não se legitimavam politicamente a partir da relação capital-trabalho. "São essas contradições de tipo novo, de abertura social dos conflitos e da própria relação sala.rial, que acabam determinando um processo de difusão territorial de novas figuras e de novas formas de empresariado. Aqui é que nascem as redes de micro-empresas" (Cocco, 1999, p.271). A partir desse quadro é que emerge um novo tipo de trabalho (assunto abordado no item seguinte), feito de atividades de coordenação, inovação e gestão. "O trabalho acabou absorvendo as características distintivas da ação política [de fazer e agir], sendo que o modo de produção contemporâneo integra, como força produtiva fundamental, uma intelectualidade de massa que se tornou social, isto é, pública" (Cocco, 1995, p.15).

Harvey, a partir de seu debate sobre a acumulação flexível, acrescenta mais dois processos decisivos, que se alimentam reciprocamente, na crise do fordismo: a aceleração do tempo de giro da produção e aceleração do tempo de giro do consumo. O primeiro ocorreu graças ao uso intensivo de novas tecnologias produtivas (automação, robôs) e de novas formas organizacionais (just in time, sistema de gerenciamento de estoques que reduziu a quantidade de material necessária para manter a produção fluindo). "Esses sistemas de produção flexível permitiram uma aceleração do ritmo da inovação do produto, ao lado da exploração de nichos de mercado altamente especializados e de pequena escala - ao mesmo tempo que dependeram dela. Em condições recessivas e de aumento da competição, o impulso de explorar essas possibilidades tornou-se fundamental para a sobrevivência" (Harvey, 2000, p.148). No entanto, junto com a aceleração do tempo de giro da produção ocorreu o mesmo na esfera do consumo, por meio de mecanismos que reduziram a vida útil dos produtos pela metade, trazendo, ainda, uma estética da diferença, da efemeridade, do espetáculo e da moda. Alguns produtos da era fordista, que duravam cerca de cinco a sete anos, em algumas indústrias, como a de informática e jogos eletrônicos, em dezoito meses já estavam obsoletos.

Mais dois aspectos constituem o modelo do pós-fordismo: a financeirização da economia e o uso interativo das tecnologias de informação para a produção/consumo. Amparada em uma estrutura informacional global, a financeirização da economia é capaz de gerar cada vez mais capital, ao descartar a mercadoria como fonte de acumulação. A fórmula marxista Dinheiro produz Mercadoria que produz Dinheiro (D-M-D) é substituída por Dinheiro produz Dinheiro (D-D): "Os novos sistemas financeiros implementados a partir de 1972 mudaram o equilíbrio de forças em ação no capitalismo global, dando muito mais autonomia ao sistema bancário e financeiro em comparação com o financiamento corporativo, estatal e pessoal. A acumulação flexível evidentemente procura o capital financeiro como poder coordenador mais que o fordismo o fazia" (Harvey, 2000, p.155).

Segundo Castells (1999), estaríamos vivendo, desde a década de 70, uma revolução informacional, proporcionada pelas tecnologias da informação, processamento e comunicação. A tecnologia da informação para essa revolução consiste no que foi as novas fontes de energia e os combustíveis fósseis para a revolução industrial. Em sua investigação, Castells destaca as tecnologias como determinantes de novas relações sociais estabelecidas no interior [e a favor] do sistema de produção capitalista, agora se organizando em "rede de conexões entre agentes econômicos". Informacional e global, aponta o autor, a concorrência é feita em uma "rede global de interação".

Três campos da tecnologia deram visão a revolução informacional baseada em eletrônica: microeletrônica, computadores e telecomunicações. O primeiro criou o microprocessador, que é o comutador em um único chip e tornou possível a instalação do processamento da informação em todos os lugares. O segundo marcou pelo lançamento, em 1981, do microcomputador, superando as tecnologias de mainframe. Aliado as inovações na parte física, os computadores precisavam de interfaces gráficas para operar. Logo, inovações em software ocorriam, por meio do predomínio da Microsoft a partir de 1976.

Essas duas inovações na eletrônica, microprocessador e computador, formaram a base material para o surgimento das Redes de Castells, identificada a priori como nós de computadores. "Desde os meados dos anos 80", dizia ele, "os PC’s não podem se concebidos isolados, eles atuam em rede" (idem, p.55). Porém, a condição do desenvolvimento das redes foi os avanços das telecomunicações, ocorridos também nos anos 70, por meio da combinação das tecnologias de nós, roteadores e comutadores, tais como, TCP/IP e o ATM, e tecnologias de transmissão, fundamentalmente a fibra ótica e o laser.

A revolução tecnológica das novas tecnologias da informação e comunicação opunha a capacidade criativa e cooperativa das forças sociais à coerência do modelo fordista de organização do trabalho, que se pretendia científico universal, e apostava na massificação/padronização das necessidades e desejos, bem como na cooperação somente entre as grandes empresas e o Estado. 'Essa revolução faz a cultura, a comunicação, a produção lingüística e a produção social de saber emergirem como meios de produção e como produtos, exatamente o que a economia tinha excluído do seu campo de investigação'. (Corsani, 2000, p.131.).

O grifo é nosso. Segundo Castells, essas tecnologias são a base da Infovia da década de 90. "O surgimento da sociedade em rede não pode ser entendido sem a interação entre estas duas tendências relativamente autônomas: o desenvolvimento de novas tecnologias da informação e a tentativa da antiga sociedade de reaparelhar-se com o uso do poder da tecnologia para servir a tecnologia do poder" (idem, p.69). Portanto, essas transformações não só consolidam a emergência do multimídia e das superestradas da informação, mas determina um novo regime de produção. "Quer dizer que a produção cultural e o desenvolvimento das redes de difusão - networks - e das tecnologias de two ways não atravessam somente o mercado de multimídia, mas o conjunto das atividades econômicas" (Cocco, 1995, p.03). A característica produtiva dessa economia da informação é a interatividade, capitaneada pela integração da forma (indústria de hardware e eletrônico), do conteúdo (indústria de software, cinema, programas televisivos) e da difusão (indústria de telecomunicações).

Por um lado, as superinfovias serão então constituídas por redes de circulação (e não somente de difusão) das informações e, por outro lado, elas serão estruturadas por instrumentos de armazenagem e de tratamento das informações que permitiam, ao mesmo tempo, uma conexão simplificada às redes e, um uso intuitivo dos serviços oferecidos. Elas não vão constituir a base técnica da venda de uma nova geração de serviços que teriam que circular nas suas redes, mas o espaço virtual de atuação das relações de serviços. Mais que de produção, é preciso falar de co-produção de serviços. Nesta perspectiva, o primado da materialidade do objeto tende a se apagar atrás do valor de uso, real ou imaginário, do serviço prestado por esse objeto (idem, p.05. o grifo é nosso).

Antecedido por uma fase que Cocco denomina de convergência externa, em que o crescimento da indústria de informação é orientado por capital externo e não havia integração entre as mídias, a fase de convergência interna ("um regime de acumulação endógeno de desenvolvimento do setor global da comunicação, da informação e das telecomunicações") é antecipada, em 1993, a partir da construção das Information Superhighways, um marco do deslocamento do regime de produção (do fordismo para a economia da informação - pós fordismo) e possibilitará aos Estados Unidos a retomada da hegemonia internacional, até então, sob o domínio do Japão. Enquanto o Japão produz o meio (material), os Estados Unidos, o meio e, principalmente, conteúdo (imaterial).

A atual estratégia americana visa a pensar e organizar, ao mesmo tempo, a economia, a tecnologia digital e a formação-constituição de uma força de trabalho adequada. O feito é que os EUA estão passando da economia dos serviços baseados nas tecnologias digitais, às redes continentais em fibra ótica e às redes satelitárias planetárias. Mesmo se os japoneses conseguiram ir mais longe que todo mundo na integração industrial da subjetividade operária, eles têm, hoje em dia, que se confrontar com o superamento definitivo do papel específico da fábrica (Cocco, 1995, p.04).

O Trabalho nas Redes: novas formas de enfrentamento político

"O trabalho imaterial se refere unicamente ao fato de que muito produtos, ou muitos elementos desses produtos, são imateriais, não é que o trabalho em si seja imaterial. Hoje em dia, o processo de produção se reparte pelo nosso corpo, pelo nosso cérebro, pela nossa afetividade e, por conseqüência, por todas as forças da vida." (Michael Hardt)

A tese do pós-fordismo sustenta-se na assertiva que, ao fugir das fábricas, a subjetividade operária se liberta nas redes sociais, com ênfase nas redes sócio-técnicas. Para Lazzarato (1998), na fase do pós-fordismo, todos os grupos sociais participam da produção de riqueza, pois o tempo da vida e o tempo de trabalho são indissociáveis e articulados por meio da economia da informação. "O coletivo em nós e o coletivo fora de nós", argumenta o autor italiano, "interconectam-se através de máquinas que os atravessam e os constituem". Não se trata aqui de uma vulgata tecnicista, mas na percepção de que a economia da informação produz subjetividades.

A forma da rede e do fluxo exprimem, ao mesmo tempo, a capacidade desses dispositivos [do capital] de capturar não somente as formas de cooperação e de produção de subjetividade caracterizadas pela nova capacidade de agir, mas também de cooperação e de produção de subjetividade fordistas e pós-fordistas, que se reproduzem na economia/mundo. A economia da informação nos permite criticar o conceito de trabalho porque o motor das formas de cooperação não é mais apenas o seu tempo, mas o tempo da vida. Não se trata mais somente do fato de que o trabalho desempenhe funções de controle das potências da técnica, da ciência e das forças genericamente sociais, mas também da mudança de sua natureza (idem, p.98).

A possibilidade de pensar a produção de subjetividade, nas redes ou não, sem nos remeter à "estrutura", torna-se possível graças ao conceito de Trabalho Imaterial. E o que caracteriza esse trabalho? Quais as evidências que possibilitam pensar o legado dessa conceituação nos estudos sobre as redes sócio-técnicas? Veremos de perto.

Há muita confusão em torno do trabalho imaterial, descrito muitas vezes como intelectual. Contudo, ele não está restrito a isto. Trata-se, como afirma Cocco (1997), da recomposição do trabalho manual e intelectual, mas ultrapassando essas duas visões. "As novas competências no pós-fordismo devem ser capazes de propor inovações técnicas e soluções comunicacionais adequadas a uma organização do trabalho, cuja mecânica implica níveis cada vez mais importantes de cooperação e de subjetividade nos locais de produção, mas sobretudo entre esses locais e as redes de comunicação e consumo que estruturam os territórios sociais" (Cocco, 1999, p.273). Na economia da informação, o trabalho imaterial existe somente na forma de fluxos e networks, ou seja, é exterior à fábrica. Seu espaço é o território (cidade e redes interativas), seu tempo, o tempo da vida, pois é inserido no trabalho toda a dimensão coletiva da força de trabalho. O trabalho imaterial consiste no "valor de uso do trabalho vivo", envolvendo habilidades intelectuais, manuais e empresariais em atividades de coordenação, gestão, de pesquisa e de inovação, em que o trabalhador torna-se um manipulador de símbolos.

O trabalho imaterial dota a mercadoria de dois conteúdos: informacional e cultural. O primeiro como habilidades envolvendo cibernética e controle computacional, além da comunicação horizontal e vertical. O segundo como as atividades nos produtos que fixam padrões culturais e artísticos, modas, preferências, normas de consumo e, mais estrategicamente, a produção de opinião pública. Consiste em um trabalho que, para ser exercido, necessita de uma lógica cooperativa e comunicativa, em que ocorre a "socialização dos níveis de cooperação, dos saberes, das subjetividades dos trabalhadores, dos dispositivos tecnológicos e organizativos" (Negri & Lazaratto, 2000, p.15). Manifesta-se tanto no operário qualificado, quanto no precarizado (dado como virtualidade, ou seja, fruto da "luta contra o trabalho" fordista, e favor da socialização do trabalho, qualificação profissional e autovalorização cultural). Em um primeiro momento, o domínio desse trabalho era da burguesia e seus filhos. A partir da década de 70, o domínio se transfere para a "massa intelectualizada" (General Intelect).

"A dimensão material do trabalho no pós-fordismo quer dar conta exatamente de seu caráter relacional, comunicativo e cooperativo. Ela não se opõe ao material, pois o trabalho imaterial é a condição da produção de bens e serviços. Mas ela dá conta da qualidade nova de um trabalho vivo que, para se concretizar, não precisa mais de sua subsunção dentro do sistema de máquinas, no trabalho morto. O trabalho imaterial é, como dizia Marx, o trabalho não-materializado mas vivo, que existe como processo e ato" (Cocco, 1999, p.274).

A hipótese central é de que a economia da informação capta e coloca no trabalho não mais o "tempo do trabalho", mas o "tempo da vida" (Lazaratto). É um trabalho que implica cada vez mais a capacidade de escolher alternativas. "Para o novo management, ‘é a alma do operário que deve descer na oficina’, ou seja, é a subjetividade operária que deve ser organizada e controlada" (Negri & Lazaratto, 200, p.05). torna-se necessário ampliar, assim, o argumento de Foucault sobre o poder exercido pelas tecnologias disciplinares no capitalismo, pois estas tinham como objeto o homem-corpo, enquanto hoje há dispositivos bio-políticos que visam o homem-espécie. "O tempo da vida implica não apenas o inorgânico, mas também, e sobretudo, uma vida a-orgânica. E por vida a-orgânica entendo fundamentalmente o tempo e suas virtualidades. Não o tempo abstrato, o tempo medida, mas o tempo-potência, o tempo como fonte de criação contínua de imprevisíveis novidades, aquilo que faz com que tudo se faça" (Lazaratto, 1998, p.95).

Contudo, se tempo de trabalho e tempo da vida são indissociáveis, como pensar a autonomização do trabalho, ao mesmo tempo, como um fator gerador do aumento da exploração capitalista e como catalisador de um novo enfrentamento político? Como pensar, afirma Negri, o seguinte paradoxo atual: o capital reduz a força de trabalho em capital fixo, subordinando-a cada vez mais ao processo produtivo, porém, o ator fundamental do processo social de produção é tornado agora o saber social geral.

Essa perspectiva especula que para haver produção imaterial, o Capital precisa não só do controle do tempo-medida, mas da comunidade, fundamentalmente. "A subsunção da comunidade" na lógica capitalista é a subsunção dos elementos lingüísticos, relacionais, sexuais que a definem, visto que é na comunidade que se expropria o que é colocado no trabalho: comunicação e linguagem. É o que Negri & Lazaratto denomina de mais-comunidade. "A autonomização do trabalho não só reduz custos e flexibiliza a produção, mas captura as ‘externalidades’ positivas produzidas pela cooperação".

No âmbito da organização, essa captura ocorrerá por meio da gestão participativa (e todos os seus dispositivos de controle dos processos subjetivos), da política autoritária da expressão ("alguém tem de falar!") e do enrijecimento da comunicação (presa a uma forma e um conteúdo). São essas as estratégias que visam codificar a subjetividade operária para fomentar as necessidades de produção.

Se a subjetividade torna-se uma forma de valorização do capital, ou seja, se a produção capitalista invadiu toda a vida, a comunicação torna-se produtiva, porque de um certo modo produz produção. Diante disto, só nos resta o desalento de assistir o despertar de um novo mundo? Ao contrário, se consolida a máxima de Marx (quando se refere à lógica contraditória do capital): as mesmas forças produtivas e relações sociais que mantêm a base do capital, tornam-se, ainda mais, condições para explodi-las. Isto porque "é o trabalho que define o capital e não o contrário"; e o processo de produção de subjetividade se constitui "fora" da relação de capital. Para Negri, a cooperação não é determinada pelo econômico, porque se trata da própria vida da sociedade. Os elementos criativos, da inovação, são ligados àqueles que só as formas de vida produzem. O econômico pode só se apropriar das formas e dos produtos dessa cooperação, normatizá-los e padronizá-los, gerir e regular as atividades do trabalho imaterial: criar dispositivos de controle e de criação do público através do controle das TIC´s e seus processos organizativos.

Quando o trabalho se transforma em trabalho imaterial e o trabalho imaterial é reconhecido como base fundamental da produção, este processo não investe somente a produção, mas a forma inteira do ciclo "reprodução-consumo": o trabalho imaterial não se reproduz (e não reproduz a sociedade) na forma de exploração, mas na forma de reprodução da subjetividade. A "intelectualidade de massa" se constitui sem ter a necessidade de atravessar a "maldição do trabalho assalariado". A sua miséria não é ligada à expropriação do saber, mas, ao contrário, à potência produtiva que concentra no seu interior, não apenas sob forma de saber, mas, sobretudo enquanto órgão imediato da práxis social, do processo da vida real. A "abstração capaz de todas as determinações", segundo a definição marxiana, desta base social, permite a afirmação de uma autonomia de projeto, ao mesmo tempo positiva e alternativa (Negri & Lazaratto, 2000, p.11).

Emerge, como afirmamos anteriormente, uma forma de trabalho que gera um novo enfrentamento político, uma força de trabalho alternativa e não dialética ao capitalismo, já que sua genealogia é externa ao modo de produção capitalista.

Preferimos ler o "tempo libre" e as "atividades culturais, relacionais, cognitivas, etc." não como uma exterioridade dada às relações de mercado e espaço que deveríamos defender contra "a extensão a todos os âmbitos da economia capitalista de mercado", mas como novo terreno de enfrentamento político. A exterioridade ao capitalismo necessita ser construída através de formas de recusa, de cooperação e de organização que atravessem de modo antagônico o "tempo de vida" colonizado pela produção de mercado (idem, p.26).

Em suma, a conceitualização de trabalho imaterial e de intelectualidade de massa traz consigo novas relações de poder (o que significa novos processos de subjetivação), já que como poder entende-se "a capacidade dos sujeitos livres e independentes intervir sobre a ação de outros sujeitos livres e independentes". Na economia da informação, a crítica radical se manifesta como autonomia da constituição dos sujeitos.

O tornar-se revolucionário dos sujeitos é o antagonismo constitutivo da comunicação contra a dimensão controlada da própria comunicação, isto é que libera as máquinas de subjetivação de que o real é hoje constituído. A revolta contra o controle e a reapropriação da máquina da comunicação são operações necessárias, mas não são suficientes; elas não fazem mais do que repropor sobre novas vestes a velha forma do Estado, se a revolta e a reapropriação não se encarnam em um processo de liberação da subjetividade que se forma ao interior próprio das máquinas de comunicação. A unidade do político, do econômico e do social se determina na comunicação: é no interior desta unidade, pensada e vivida, que os processo revolucionários podem hoje ser conceituados e ativados.

O Consumo (comunicação) produtivo das redes

"As práticas do consumo são os fantasmas da sociedade que leva o seu nome. Como os ‘espíritos’ antigos, constituem o postulado multiforme e oculto da atividade produtora" (Michel de Certeau)

O novo papel do consumo é impulsionado por um somatório de especificidades do ciclo do trabalho imaterial, que Negri & Lazaratto dividem em quatro processos:

  1. a submissão à lógica capitalista da forma de cooperação e do "valor de uso" do trabalho, não tolhe a autonomia e a independência da sua constituição e do seu sentido.
  2. os produtos (tornados ideológicos e efeitos das mercadorias) produzem não o reflexo da realidade, mas novas formas de enxergá-la. Ou como prefere Negri, "novas estratificações da realidade, novos modos de ver, de sentir, que pedem novas tecnologias e novas tecnologias pedem novas formas de vida e de sentir".
  3. as formas de vida constituem-se como fonte de inovação, ou seja, a inovação é fruto de uma relação de criação social.
  4. o público tem uma dupla função produtiva: elemento constitutivo da obra (a quem o produto ideológico é dirigido); e recepção, por meio da qual o produto encontra um lugar na vida (logo integrado na comunicação social) e faz-se viver e envolver-se. A recepção é então um ato criativo e parte integrante do produto.


Sublinho essa afirmação, porque ela contém uma outra hipótese da abordagem da economia da informação: o consumo é produtor de riqueza no interior das redes. É o consumo que torna ativo as redes sócio-técnicas e individualiza o seu uso. O trabalho realizado pela intelectualidade de massa tem como função servir de cimento entre a produção e o consumo, promovendo inovação contínua nas condições de comunicação, e produzindo necessidades, imaginários que, por conseguinte, torna o produto um produtor poderoso de necessidades, imagens e preferências. Há uma dupla qualidade desse produto. Ele não é destruído no ato de consumo, o que se destrói é invólucro material, logo, a informação do produto é multiplicada. Esse consumo transforma a pessoa que usa o produto imaterial. Não há reprodução física do trabalhador, mas reprodução de seu ideário, de seu universo cultural. Somente se atendido esse objetivo, a mercadoria imaterial tem valor de troca. Portanto, trata-se de um consumo que produz subjetividade, amplia o ambiente ideológico dos produtos e produz relação social. "No ato do consumo, enquanto o suporte material da mercadoria é destruído, seu conteúdo informacional e comunicacional participa tanto da produção do ambiente ideológico e cultural do consumidor quanto da reprodução das condições de produção" (Cocco, 1999, p.278).

Em suma, o consumo participa da produção desde o momento de sua concepção, em dois níveis: "pela integração em tempo real dos comportamentos de consumo; e pela proliferação disseminada dos atos criativos, lingüísticos e comunicativos" (idem, p.274). São as trocas lingüísticas que passam a se inserir na produção imaterial dos manipuladores de símbolos.

Se o consumo se torna produtivo e a vida é mobilizada, enquanto tal, dentro dos processos de valorização, é porque o intercâmbio lingüístico se torna produtivo. As redes de integração virtual que as novas TIC´s proporcionam se tornam estratégicas. Com efeito, é o comando sobre os processo de globalização das redes informático-comunicativas que decidirá, ao mesmo tempo, a nova divisão internacional do poder e a capacidade do capital fixo continuar subsumindo um trabalho vivo que ele não consegue mais abstrair. O poder está rapidamente dirigindo-se na direção da hierarquização da divisão internacional da propriedade do saber, da propriedade daquela matéria-prima cujo custo da produção determina de maneira crescente os preços relativos dos bens e serviços trocados ao nível internacional. Daqui para frente, “copyrights”,” trade-marks” e “trade-secrets”, serão os verdadeiros objetos de negociações internacionais (idem, p.274).

Nas redes interativas, o consumo ocorre devido à integração das mídias, que possibilitou a interatividade e que, por sua vez, impulsiona o desenvolvimento de infovias como o "próprio espaço de produção de bens imateriais nos quais produção e reprodução coincidem", e não como infra-estruturas rodoviárias do tipo fordista (circulação de produtos). Esse é um traço característico da mass customization, ou seja, a produção de mercadoria depois da encomenda das massas, um processo de produção que não se caracteriza pelas pequenas escalas de produção, mas pelo nível de integração produtiva com o consumo, cujo protótipo deixa de ser a fábrica para as redes interativas. A captura do valor da mercadoria se desloca para as relações de serviços, ou seja, para a relação com o cliente.

Os próprios softwares, como o Word e o Windows não são nem flexíveis - no sentido de personalizados - nem produzidos em pequenas séries. O que os diferencia dos bens de consumo de massa do fordismo (e mesmo dos hardware eletrônicos) é o fato de basear a rentabilidade deles, por um lado, na propriedade intelectual e, por outro, na capacidade de uso de um consumidor que não os consuma, mas os valoriza. Essa capacidade de uso é uma capacidade comunicativa (Cocco, 1995, p.08).

Contudo, essa capacidade de consumo oculta um duplo processo social: a crise de comando do modo de produção e uma "nova" mistificação do Capital. Quanto ao primeiro consiste na crise da produção de mercadorias por meio do comando. Isto porque aparece a possibilidade de trabalhadores interferirem na esfera do comando, seja pelo processo de produção, como também pelo processo de gerência não apenas da força de trabalho, como da própria produção. "O comando - o capital, a ciência e tecnologia do capital - não constituem mais a condição necessária de produção, se desloca para a Administração, da forma imediatamente política do controle do ciclo de produção-reprodução" (Cocco, 1995, p.17).

Esse mesmo autor exemplifica essa crise de comando a partir da análise da atuação das empresas de multimídia, que possuem uma margem de lucro dos seus produtos quase igual a zero, o que, a princípio, contrariaria à lógica de acumulação. Mas essa é uma estratégia de lucratividade do capital, pois, diante da proliferação social da criação intelectual e da facilidade da imitação dos seus produtos (e depois a difusão das cópias), as empresas são obrigadas a apoiar a difusão gratuita (ou quase) de seus produtos, porém, tentam se antecipar uma das outras para que sejam tornadas um elemento natural da cooperação em rede. "Esse processo de naturalização não é nada mais que o de mistificação da figura imediatamente política de um capital que produz comando - standards de extração de valor nas relações sociais produtivas - por meio de comando - isto é, das redes infra-estruturais como bases das relações sociais produtivas" (idem, p.11).

Essa é uma mistificação, pois as infovias são tidas como estoques e não como fluxo de cooperação (que o capital tenta fragmentar e segmentar, tentando inserir a cooperação nos mecanismos regulados do mercado). E, ao distribuir cópias gratuitamente, oculta a sua intenção de se tornar um elemento incontornável e fundador das relações sociais produtivas das redes interativas (baseadas em uma lógica de produção fora das relações mercantilizadas). Em ambos os casos, o Capital busca tornar a comunicação um elemento fundador da expropriação e da exploração, do controle dessas formas de cooperação sociais da rede.

Diante desse quadro, como pensar a cidadania na rede? A ação política depende da comunicação produtiva dos produtos gerados pela cooperação social em rede, visto que esse consumo "fabrica" novas formas de usos da rede que escapam à lógica da propriedade. Além disso, esses usos são determinados por novas formas de construção da identidade, pois, paralela a identidade territorial e monolíngüística (formadora da etnia, da nação etc), há aquela construído no interior do espaço sócio-comunicacional transterritorializado das mídias e das redes. Consumo das redes, portanto, torna-se um problema de pesquisa privilegiado para pensar as novas formas de ação social estabelecidas pelos homens. Uma delas já está em vigor: o cibercomunismo.


Californianos versus cibercomunistas: a cristalização da comunicação produtiva

"Quem é dado por morto, vive mais"
(Adágio Popular)


Como bem disse Gramsci, a construção do discurso que articula os sentidos da sociedade, gerando hegemonia de classe, depende da ação dos intelectuais orgânicos de determinado campo em disputa. No caso das redes interativas, embora os rumos sobre a sua identidade ainda esteja em aberto, há duas interpretações vigentes sobre os atributos do medium, a corrente da new economy (e-business; e-commerce) e a abordagem da gift economy. Ambas compartilham a idéia que as redes são o locus da formação de uma identidade transterritorial, são espaços de fluxos (de mercadoria e relações sociais) e não de permanência (física territorializada). Contudo, se para a primeira quem impulsiona a formação dessa identidade é um agente exógeno à rede - o mercado, que forja uma financeirização da economia (capital produz capital) e consolida nas redes um espaço de trocas de mercadoria, subsumindo as relações sociais às mercantis; para a segunda, são as especificidades do próprio meio (medium is message), ou seja, a cultura da doação das redes que forja a elaboração de "ambiente sociais socializados", logo, a mensagem (não confundir com conteúdo) das redes é proveniente da sua construção sócio-histórica, caracterizadas como espaços onde opera a livre e gratuita circulação de informação. Veremos de perto os discursos dessas intelectualidades.

Os cibercomunistas discordam absolutamente da construção da hegemonia das ponto.com’s, ou da ideologia californiana - elaborada por um conglomerado de mídia personificada por uma aliança de intelectuais, hackers, empresários e artistas da Costa Oeste dos EUA. Para Barbrook, as redes estão produzindo a superação do capitalismo, ao mesmo tempo que uma elite tecnocrática desenvolve nos EUA uma nova ideologia econômica, a fim de conter o espírito libertário das redes sócio-técnicas.

"A ideologia californiana é uma ortodoxia heterogênea, uma fé que emergiu de uma "estranha fusão entre a boêmia cultural de San Francisco e a indústria de tecnologia de ponta do Vale do Silício", afirma o inglês Richard Barbrook (1999). E como essa ideologia é produzida?

Promovida nos mais distintos ambientes das redes, a ideologia californiana combina, de forma promíscua, o espírito despreocupado dos hippies com o ardor empresa.rial dos yuppies. Em síntese, os ideais dos anos 60 se realizam mediante ao determinismo tecnológico e ao livre mercado. Na utopia digital, todos seremos alegres e ricos. Quanto aos ideais hippies, são oriundos da recusa das rígidas convenções sociais impostas pelas estruturas sociais que davam configuração ao "homem-organização". Duas respostas foram dadas a essa rigidez. A primeira recusa o progresso científico e se refugia na natureza. A segunda acredita que o desenvolvimento tecnológico inevitavelmente se espalharia nas práticas sociais, e que a convergência das mídias geraria uma ágora virtual, um lugar em que todos poderiam expressar suas opiniões sem temor da censura, o que explica o ativismo dos meios comunitários de informação nos EUA. "Animados pelas prospecções de Mcluhan, os ativistas da Costa Oeste se implicaram a desenvolver novas tecnologias aplicando-as na imprensa alternativa, nas rádios comunitárias, em espaços domésticos de fabricação de produtos de informática e nos vídeos comunitários (Barbrook, 2000, p.03)". Por meio de um pacto que lhes assegura altos salários, autonomia no ritmo e espaço de trabalho, esses ativistas foram elevados à "classe virtual". Em lugar de liberdade coletiva, a bandeira consiste na liberdade individual dentro do mercado. "A ideologia californiana é um híbrido das duas formas sem criticar nenhuma delas". De um lado, a fé nas comunidades virtuais, na ágora eletrônica. Do outro, a defesa do laissez faire.

En esta versión de la Ideología Californiana, a cada miembro de la "clase virtual" se le promete la oportunidad de llegar a ser un empresario de tecnología punta de éxito. Las tecnologías de la información, sigue diciendo el argumento, capacitan al individuo, amplían la libertad personal y reducen radicalmente el poder del estado-nación. Las estructuras de poder social, político y legal existentes se irán debilitando para ser remplazadas por las interacciones libres entre individuos autónomos y su software. Estos mcluhanistas de nuevo tipo argumentan vigorosamente que el gran gobierno debería dejar vía libre a los empresarios con recursos, que son las únicas personas lo bastante serenas y audaces para correr riesgos. En lugar de regulaciones contraproducentes, los ingenieros visionarios están inventando las herramientas necesarias para crear un "mercado libre" en el ciberespacio, como la criptografía, el dinero digital y procedimientos de verificación (Barbrook, 1999, p.02).

Dentro dessa ideologia, a era da informação do século XXI será a realização dos ideais liberais do século XVII, ou como chamam os californianos, no êxito da “democracia jeffersoniana”, que se sustenta em dois pilares: mercado livre e liberdade como escravidão, ou seja, a crença que, ao eliminar as restrições que regulam o funcionamento das empresas de tecnologias de informação, há progresso social.

Apesar de sua retórica radical, o interesse maior desses eruditos conservadores era provar que as tecnologias da informação obrigariam à privatização e à desregulamentação de toda atividade econômica. Quando a Internet se popularizou, esse fundamentalismo de livre mercado não demorou a ser adaptado para adequar-se à nova realidade. Numa instância que se tornou célebre, a revista "Wired" argumentou que o chamado "novo paradigma" da concorrência não regulamentada entre ciberempreendedores está ampliando a liberdade individual e encorajando a inovação técnica nos EUA (idem, p.02).

Todavia, a ideologia californiana esconde a (forte) atuação estatal que cooperou para seu desenvolvimento e a cultura do “faça você mesmo” dos jovens dos anos 70, que gerou o microcomputador, por exemplo. No centro do sonho americano, ressalta o sociólogo inglês, há uma profunda contradição: os indivíduos só prosperam graças ao sofrimento dos outros. As liberdades políticas só são exercidas através do direito à propriedade privada individual. "Em lugar de compartilhar a riqueza com seus vizinhos pobres, negros e latinos, os yuppies se refugiam em seus subúrbios opulentos, protegidos por guardas armados, logo, satisfeitos com seus serviços privado de bem-estar. Os deserdados só participam na era da informação proporcionando mão de obra barata e não sindicalizada para as empresas dos produtores de chips do Vale do Silício" (idem, p.03).

Portanto, ao final do século XX, na perspectiva dos californianos, as tecnologias da liberdade estão se transformando em máquinas de dominação, de segregação social. A ideologia californiana sustenta-se, pois, em uma fé excludente: não é otimista nem emancipatória, mas revela-se pessimista e repressiva do futuro. Interessante é alusão, desenvolvida por Barbrook, do modelo da ideologia californiana à economia soviética de cunho estalinista, resumida nos seguintes itens:


Partido de vanguarda/literatos digitais Plano quinquenal/o "novo paradigma"

Garoto conhece trator/nerd conhece Internet

Terceira Internacional/Terceira Onda

Moscou/Vale do Silício

"Pravda"/"Wired"

linha partidária/pensamento único

democracia soviética/"Câmaras Municipais eletrônicas"

Sociedade-fábrica/sociedade-colméia

Novo homem soviético/pós-humanos

Quebra das regras stakhanovistas/profissionais temporários,

sobrecarregados de trabalho

Expurgos/"downsizing" (demissões em massa)

Nacionalismo russo/chauvinismo californiano. (idem, p.02)


Quanto ao cibercomunismo, sustenta-se na "gift economy" (economia da doação), em um trabalho cooperativo gerador de reconhecimento público, como na comunicação científica. Esse trabalho só é possível graças à arquitetura das redes com base em protocolos iguais, que pressupõe que múltiplas cópias dos documentos podem ser facilmente capturados em toda rede. Cada um recebe da rede muito mais do que fornece ao outro. E, acima de tudo, doa tempo e idéias, produz relação social, por meio da comunicação mediada por computador.

Durante los sesenta, la Nueva Izquierda creó una nueva forma de política radical: el anarco-comunismo. Sobre todo los situacionistas y otros grupos parecidos creían que la economía tribal de donaciones probaba que los individuos podían vivir juntos satisfactoriamente sin necesidad del mercado o del estado. Desde mayo de 1968 hasta fines de los noventas, esta visión utópica del anarco-comunismo ha inspirado a la economía de la media y a los activistas culturales DIY. En las universidades, la economía de donación era el método fundamental para socializar el trabajo. Desde sus primeros días, la estructura técnica y las costumbres sociales de la Red ha ignorado la propiedad intelectual. Aunque el sistema se ha expandido mucho más allá de la universidad, el auto-interés de los usuarios de la Red perpetúa esta economía de donación en la alta tecnología. Como una actividad cotidiana, los usuarios hacen circular la información gratuitamente, en e-mails, servicios de enlaces, newsgoups, en las conferencias en línea y a través de los sitios en la Red. Como se demuestra con los programas Apache y Linux, la economía de donación en la tecnología está a la vanguardia en el desarrollo de software. Contrariamente a la visión purista de la Nueva Izquierda, el anarco-comunismo en la Red sólo puede existir en una forma consensual. El dinero-mercancía y las relaciones de donación no sólo están en conflicto entre ellas, sino que también manejan una coexistencia en simbiosis. La "Nueva Economía" del ciberespacio es una forma avanzada de social-democracia (Barbrook, 2000, p.03).

O cibercomunismo é a fresta da contradição destrutiva da lógica do capital na "new economy". Por um lado, as empresas da nova economia precisam acelerar a difusão dos seus produtos, pois quanto maior é a aceleração do lançamento das mercadorias, maior é o seu valor no mercado. Mas para isto ocorrer a condição é a desaceleração da socialização, ou seja, que a maioria das pessoas não consuma o produto na mesma velocidade do seu up to date. Onde reside a brecha? Justamente na socialização, pois imbuída por uma lógica cooperativa pública, desrespeita-se à propriedade intelectual por meio da difusão de cópias "ilegais" dos produtos, reduzindo valor dos produtos, mas não sua riqueza, à medida que muitos desses produtos são a base para se criarem outros, porém, gratuitos, por meio de um método primário da socialização do trabalho, marcado pela abundância das trocas e doações (copyleft) e não pela escassez do conhecimento (copyright). Uma triste contradição porque quem financia isto tudo é o próprio capital. Explico. Conter os fluxos desses novos movimentos sociais - que não só organizam a luta, mas produzem riqueza - eis o objetivo do capital. Logo, não são os movimentos sociais que fazem contra-informação, mas o próprio capital, por meio de grandes fusões. Um exemplo claro disto é a comunidade Napster, que por meio da tecnologia MP3 (construída por meio de cooperação social) impôs uma crise na indústria fonográfica, que, no ano de 2000, não conseguindo proibir a ação em rede, fez uma aliança com o site, que já atingiu um número elevado de usuários (5 milhões), porém, com a submissão do site às "grandes" da música (copyright) e a intervenção jurídica da Corte Americana, boa parte do público está migrando para outras comunidades (a gnutella.com, criada a partir do dinheiro obtido com a venda do Napster). Depois da compra do Napster pela gravadora alemã se intensificou o uso de novos sites na área da música, gerando novos produtos baseado no copyleft. Um outro excelente exemplo é o conjunto de software denominado open source, cujo principal protótipo é o Linux, software de inovação contínua, elaborado por um processo de socialização do trabalho, construído "fora" dos interesses mercantis. "A circulação de saberes, a identificação coletiva com uma ética da partilha cognitiva, as práticas coletivas de criação em rede, as tentativas de ‘moralização’ da relação mercantil, etc, sugerem que estejamos em presença de sujeitos sociais híbridos, atores de uma formidável decolagem produtiva, mas também atores de uma verdadeira mobilização pela conquista de novos direitos" (Moineau & Papathéodorou, 2000, p.117).

Los fundadores de la Red nunca se preocuparon en proteger la propiedad intelectual en las comunicaciones mediadas por la computadora. Por el contrario, ellos estaban desarrollando estas nuevas tecnologías para desarrollar sus carreras en el seno de la economía de donación de la academia. Lejos de querer reforzar la marca registrada, los pioneros de la Red trataron de eliminar todas las barreras a la distribución de la investigación científica. Técnicamente, todo acto en el ciberespacio comprende la copia de materiales de un computador a otro. Cuando se coloca en la Red la primera copia de un trozo de información, el costo de cada copia extra es casi igual a cero (Barbrook, 2000, p.13).

Logo, novamente, o capitalismo se vê diante do comunismo, ou melhor, do cibercomunismo. Mas não no comunismo de Lênin e Stalin, mas no de Marx. "O cibercomunismo que existe hoje é uma experiência cotidiana nos EUA, algo que não tem nada fora do comum. Os usuários da Internet adotam espontaneamente maneiras mais prazerosas e eficientes de trabalhar em conjunto. Em lugar de destruir a economia de mercado, os americanos empreenderam o processo lento de superação do capitalismo (Marx)" (idem, p.05).

Considerações Finais

Esse trabalho consistiu na tentativa de descortinar algumas das "idéias-feitas" da "new economy", que, de alguma forma, está ganhando forma e conteúdo em setores acadêmicos críticos, como na economia da conhecimento, ou da aprendizagem, como queiram. Minha intenção não foi mostrar a impossibilidade das atividades comerciais no interior da rede, mas de sua absolutização como modelo de acumulação do capital. Quis mostrar que o capital está gerando controle na ânsia de regular as relações sociais produtivas desses ambientes em rede. É a primeira vez que o controle midiático inicia-se post-medium, quer dizer, a constituição do medium é anterior à tentativa de controle do capital, por isso, que concluo afirmando que as dificuldades em se comercializar na rede não tem explicações somente sobre o modo de comercializar, mas devido à estrutura e à natureza do medium.

Sugestiva é a provocação do pós-fordismo sobre a produção de subjetividade que resgata a informação como produto do comportamento coletivo, excluindo a idéia de que o conhecimento seja acúmulo de informação mais classificação. Essa abordagem nos possibilita uma entrada que possa mostrar como ocorre a dominação vista sobre um outro ângulo: o consumo. Mas, ao mesmo tempo, identifica nessa mesma categoria a chave para a criação de novos valores sociais, pois "a riqueza virtualmente separa-se dos ricos. Abrem-se as possibilidades de fundar um outro padrão de valores: não na mensuração do mundo, mas contra o mundo. No inferno da produção, nossa solidão não é mais a das criaturas, mas a dos criadores" (Cocco, 1999, p.288). Pareceu-me, também, provocadora a postura da gift economy para pensarmos o modelo social que produziremos. Se o cibercomunismo existe no terreno do software, ainda não no de hardware. Aqui reside o papel do Estado, logo da universidade. Pois cresce a necessidade de formulação de políticas includentes e universais, precisamos fazer renascer a Modernidade. E seguir o exemplo relatado por Martin-Barbero:

Num bairro pobre de Lima, um grupo de mulheres organizou um mercado. Nele havia um gravador e alto-falantes, que apenas o administrador utilizava. Com a colaboração de um grupo de apresentadores, as mulheres do mercado começaram a usar o gravador para saber o que os habitantes do bairro pensavam sobre o mercado, para tocar música nas festas e para outros fins. Até que a censura se apresentou, na figura de uma religiosa que ridicularizou o jeito de falar dessas mulheres e condenou a ousadia de pessoas que, "sem saber falar", atreviam-se a usar dos alto-falantes. Provocou-se assim uma crise; durante algumas semanas, as mulheres não quiseram saber mais do caso. Algum tempo depois, porém, o grupo de mulheres procurou os apresentadores e afirmou: "Pessoal, a gente descobriu que a religiosa tem toda a razão; a gente não sabe falar, e nesta sociedade quem não sabe falar não tem a menor possibilidade de se defender nem pode nada. Mas a gente também passou a entender que com a ajuda desse aparelhinho aqui - o gravador - a gente pode aprender a falar". Desde esse dia as mulheres do mercado decidiram começar a narrar suas próprias vidas; deixando de usar o gravador apenas para escutar o que os outros diziam, elas passaram a usá-lo para aprender a falar por si próprias (Martin-Barbero, 1997, p.257).

Referências

[1]fmalini[a]aol.com


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Fábio Malini é Jornalista, Mestrando em Ciência da Informação da ECO-UFRJ/IBICT-CNPq - NUCA/IE-UFRJ. Fonte: INTERCOM - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (www.intercom.org.br).


Rizoma.png   Este texto foi originalmente publicado por Rizoma.net.



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