O Atrativo do Trabalho

De Protopia
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Charles Fourier


Na civilização, encontramos por toda parte um acervo de infelicidade ao invés de um de charme. Vamos julgar a exemplo do trabalho. Ele é, segundo as Escrituras, com razão, uma punição ao homem: Adão e seus descendentes foram condenados a ganhar seu pão com o suor do seu rosto. Isso, já é uma aflição por si só; mas esse trabalho, esse ingrato trabalho do qual depende o ganho de nosso mísero pão, nós nem entendemos! a um trabalhador falta o trabalho do qual o seu sustento depende - ele pede em vão por adversidades! Ele sofre novamente, com o trabalho cujo o fruto pertence ao seu superior e não a si mesmo, ou atarefado com coisas das quais ele está completamente desacostumado... O trabalhador civilizado sofre uma terceira aflição através das moléstias com as quais ele geralmente é afetado pelo excesso de trabalho demandado por seu chefe.

Ele sofre uma quinta aflição, a de ser desprezado e tratado como um pedinte porque a ele faltam os bens básicos dos quais ele consente em adquirir com a angústia do repugnante trabalho. Ele sofre, finalmente uma sexta aflição, da qual ele nunca vai obter nem aumentos nem o pagamento necessário, e que a sua vexação do presente momento está somada a perspectiva de sofrimentos futuros, e para não ser levado à forca ele demanda o trabalho que ele pode não ter amanhã.

O trabalho, todavia, é o deleite de várias criaturas, como os ursos, abelhas, vespas, formigas, as quais tem toda a liberdade de preferir a inécia: mas Deus as as muniu de um mecanismo social que as atrai à indústria, e as faz encontrar felicidade ali. Por que ele não nos fez o mesmo favor que a esses animais? Que diferença a da condição industrial deles e a nossa! Um russo, um argelino, trabalham por medo do chicote ou da bastonada; um inglês, um francês, por medo dos famintos que espreitam próximos às suas pobres casas; os gregos e romanos, cuja liberdade se gabaram-se, trabalharam como escravos, e por medo de punições, como os negros nas colônias de hoje.

Trabalho associativo, para exercer uma forte atração sobre as pessoas, terá de diferir em todas particularidades das condições repulsivas que o tornam tão odioso no estado existente das coisas. É necessário, com o intuito de se tornar atraente, que o trabalho associativo preencha as seguintes sete condições:

1. De que todos os trabalhados sejam parceiros, remunerados por dividendos e não salários. 2. Que todos, seja homem, mulher ou criança, sejam remunerados em proporção Às três faculdades, capital, trabalho, e talento. 3. Que as sessões industriais variem cerca de oito vezes ao dia, sendo impossível sutentar entusiasmo por mais de uma hora e meia ou duas horas no exercício de atividades agrícolas ou manufatura. 4. Que seja levado a cabo por amigos, unidos de maneira espontânea, interessados e competitivos entre si. 5. Que os locais de trabalho se mostrem aprumados e limpos. 6. Que a divisão do trabalho seja levada a seu último grau, para que todo sexo e idade possa se devotar aos deveres a si atribuidos. 7. Que nessa distribuição, todos, homens, mulheres, ou crianças, estejam plenamente satisfeitos com o seu direito ao trabalho e o direito de engajar-se no ramo que escolherem atuar, tendo provado integridade e habilidade para tal.

Por fim, que nessa nova ordem, as pessoas possuam a garantia de bem-estar, de um mínimo suficiente para o presente e futuro, e que essa garantia as liberte de todas inquietações quanto a si mesmas e suas famílias.

Nós encontramos todas essas propriedades no mecanismo associativo, cuja descoberta eu torno pública.

Com o objetivo de atrair a felicidade, é necessário introduzí-la nos trabalhos que engajamos a maior parte de nossas vidas. A vida é um longo tormento para aquele que exerce tarefas pelas quais não se sente atração. A moralidade nos ensina a amar o trabalho: deixe-a saber, então, como tornar o trabalho adorável, e, em primeiro lugar, como introduzir pompa, no campo e na oficina. Se os arranjos são pobres, repulsivos, como atrair à indústria?

No trabalho, assim como no prazer, a variedade é evidentemente o desejo da natureza. Qualquer divertimento prolongado, sem interrupções, por mais de duas horas, conduz a saciedade,ao abuso, embota os nossos sentidos, e exaure o prazer. Um banquete de quatro horas não irá passar sem excessos, uma ópera de quatro horas acabará enjoando o espectador. Variedade periódica é necessária para o corpo e mente, uma necessidade em toda natureza; mesmo o solo requer alternância de sementes, e as sementes alternância de solos. O estômago irá logo rejeitar a melhor refeição se a ele for oferecida todos os dias, e a alma será cegada no exercício de qualquer virtude se não for aliviada por outra virtude.

Se há qualquer necessidade de variação no prazer depois de saciado por mais de duas horas, muito mais o trabalho requer essa diversidade, a qual é contínua no estado associativo, e é garantida aos pobres tal qual aos ricos.

A principal fonte de um coração leve entre Harmonians é a frequente mudança de sessões. A vida é um tormento perpétuo para nossos trabalhadores, que são obrigados a gastar doze, e frequentemente quinze, horas consecutivas em algum trabalho tedioso. Mesmo ministros não são excessões; nós encontramos alguns deles reclamando de ter passado um dia inteiro na atordoante tarefa de assinar milhares de documentos oficiais. Tais deveres enfadonhos são desconhecidos na ordem associativa; os Harmonians, que devotam uma hora, ou uma hora e meia, ou no máximo duas horas, para diferentes tarefas, os quais, nessas curtas sessões, são sustentados por impulsos cabalísticos e por uma união amistosa com os sócios escolhidos, não podem falhar em trazer e encontrar alegria por toda parte.

O grande mal de nosso sistema industrial é empregar o trabalhador em uma única ocupação, a qual corre o risco de se tornar fixa. Os cinqüenta mil trabalhadores de Lyons que são pedintes atualmente (além de cinqüenta mil mulheres e crianças), estariam espalhados em duas ou três centenas de repartições, que fariam da seda seu principal artigo de manufatura, e que não seriam jogados fora em um ou dois anos estagnados naquele ramo da indústria. No fim daquele tempo a sua fábrica deveria falir completamente, ele deveriam começar uma de um tipo diferente, sem terem parado de trabalhar, sem nunca ter feito sua subsistência diária depender de uma continuação ou suspensão de ordens de fora.

Em uma progressão gradual todos os grupos adquirem muito mais quanto mais a habilidade em que seu trabalho é subdividido, e que todos membros se compromete somente com o tipo de tarefa que ele escolhe exercer. As Cabeças da firma, estimuladas a estudar devido à rivalidade, colocam no seu trabalho o conhecimento de um estudante de primeira linha. Os subordinados são inspirados com um ardor que ri de todos os obstáculos, e com fanatismo pela manutenção da honra da firma contra as concorrentes. No calor da ação eles alcançam o que parece humanamente impossível, como os granadeiros franceses que escalaram as rochas de Mahon, e que, no dia seguinte, eram incapazes, a sangue frio, de subir a rocha que eles atacaram sob o fogo inimigo. Assim são trabalhadores em série no trabalho; todo obstáculo se esvai antes do orgulho que os domina; eles ficariam irados com a palavra impossível, e as tarefas mais desencoranjadoras, como cuidar do solo, são para eles os esportes mais leves.


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