Medo de Conflito

De Protopia
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Wolfi Landstreicher



«“Verdadeiramente não é uma falha sua que você se enrijeça contra mim e asserte sua distintividade ou peculiaridade: você não precisa abrir caminho ou renunciar a você mesma(o)” (Max Stirner)»
({{{autor citado}}})
Em qualquer lugar onde mais do que algumas(ns) anarquistas se encontrem, ocorrerão discussões. Isto não é uma surpresa, já que a palavra “anarquista” é usada para descrever uma ampla gama de ideias e práticas muitas vezes contraditórias. O único denominador comum é o desejo de se livrar da autoridade, e anarquistas nem sequer concordam em uma definição de autoridade, quem dirá a questão de que métodos são apropriados para eliminá-la. Essas questões levantam várias outras, e então discussões são inevitáveis.

As discussões não me incomodam. O que me incomoda é o foco em tentar chegar a um acordo. Se supõe que “porque somos todas(os) anarquistas”, devemos todas(os) na verdade querer a mesma coisa; nossos conflitos aparentes devem ser meros desentendimentos sobre os quais podemos dialogar1, encontrando um terreno comum. Quando alguém se recusa a dialogar e insiste em manter sua distinção, é considerada(o) dogmática(o). Essa insistência em encontrar terreno comum pode ser uma das fontes mais significativas do diálogo infindável que seguidamente toma o lugar da ação para criar nossas vidas em nossos próprios termos. Essa tentativa de encontrar um terreno comum envolve uma negação de conflitos muito reais.

Uma estratégia frequentemente usada para negar os conflitos é dizer que uma discussão é uma mera discordância sobre as palavras e seus significados. Como se as palavras que uma pessoa usa e como escolhe usá-las não tivesse uma conexão com suas ideias, sonhos e desejos. Eu estou convencido de que são muitas poucas as discussões em que se trata meramente de palavras e significados. Essas poucas discussões podem ser facilmente resolvidas se os indivíduos envolvidos explicarem clara e precisamente o que querem dizer. Quando indivíduos não podem sequer concordar sobre quais palavras usar e como usá-las, isso indica que seus sonhos, desejos e formas de pensar são tão distantes que mesmo dentro de uma mesma linguagem, não conseguem encontrar uma língua comum. A tentativa de reduzir um abismo tão imenso a mera semântica é uma tentativa de negar um conflito muito real e a singularidade dos indivíduos envolvidos.

A negação do conflito e da singularidade dos indivíduos pode refletir um fetiche por unidade que vem de um esquerdismo ou coletivismo residual. A unidade sempre fora altamente valorizada pela esquerda. Já que muitas(os) anarquistas, a pesar de suas tentativas de se separar da esquerda, são meramente esquerdistas antiestatais, estão convencidas(os) que apenas uma frente unificada pode destruir esta sociedade que nos força perpetuamente à unidades que não escolhemos, e que nós devemos, portanto, superar nossas diferenças e nos juntarmos para apoiar a “causa comum”. Mas quando nos jogamos à “causa comum”, somos forçadas(os) a aceitar o mínimo denominador comum de entendimento e luta. As unidades que são criadas dessa forma são unidades falsas que só prosperam ao suprimir os desejos e paixões únicas dos indivíduos envolvidos, transformando-os em uma massa. Tais unidades não são diferentes da formação do trabalho que mantém uma fábrica funcionando ou a unidade do consenso social que mantém as autoridades no poder e as pessoas na linha. Unidade de massa, por ser baseada na redução do indivíduo a uma unidade em uma generalidade, nunca pode ser a base para a destruição da autoridade, apenas para apoiá-la de uma maneira ou outra. Já que queremos destruir a autoridade, devemos começar de uma base diferente.

Para mim, esta base sou eu mesmo – minha vida com todas suas paixões e sonhos, seus desejos, projetos e encontros. Desta base, eu não faço “causa comum” com ninguém, mas posso frequentemente encontrar indivíduos com quem tenho uma afinidade. Pode bem ser que seus desejos e paixões, seus sonhos e projetos coincidam com os meus. Acompanhado por uma insistência em realizá-los em oposição a qualquer forma de autoridade, tal afinidade é uma base para uma unidade genuína entre indivíduos singulares e insurgentes que dura apenas enquanto estes indivíduos desejarem. Certamente, o desejo pela destruição da autoridade e da sociedade pode nos mover para lutar por uma unidade insurrecionária que se torna de larga escala, mas nunca um movimento de massa; em vez disso, teria que ser uma coincidência de afinidades entre indivíduos que insistem em se adonar de suas vidas. Este tipo de insurreição não pode ocorrer por meio de uma redução de nossas ideias a um mínimo denominador comum com o qual todas(os) possam concordar, mas apenas por meio do reconhecimento da singularidade de cada indivíduo, um reconhecimento que acolhe os verdadeiros conflitos que existem entre indivíduos, independentemente de quão ferozes possam ser, como parte da incrível riqueza de interações que o mundo tem a nos oferecer uma vez que nos livremos do sistema social que nos roubou nossas vidas e nossas interações.





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