Hacktivismo - Ação Direta nas auto-estradas da informação

De Protopia
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por Ricardo Rosas


Se pra você hacker ainda é sinônimo de nerd que entende de programação e só invade sites pra deixar mensagens tipo “Estive aqui” ou por puro vandalismo, talvez seja hora de mudar seus conceitos. Há já alguns anos tem aparecido um novo tipo de hacker no ciberespaço, um misto de programador e ativista social, que age não pelo ego mas por causas políticas, geralmente conhecido como hacktivista.

Espécie confrontacional de cyberativismo, os hacktivistas não são ativistas de mídia, como os participantes dos Indymedia (centros de mídia independente) e outros sites de mídia alternativa, pois sua atuação equivale muito mais à atividade dos grupos que fazem ação direta nas ruas, só que agindo no espaço virtual.

Embora se possa reportar ações isoladas em anos anteriores, 1998, ao que tudo indica, foi o ano-chave para a consolidação do movimento hacktivista. Foi neste ano que o hacker inglês “JF” invadiu mais de 300 sites colocando textos e imagens com mensagens anti-nucleares. Foi igualmente em 1998 que surgiu o primeiro site dedicado ao tema, pelo grupo de hackers do Cult of the Dead Cow (Culto da Vaca Morta), a cujo membro “Oxblood Ruffin” é atribuída a criação do termo Hacktivismo. Também neste ano, na tentativa de auxiliar a situação dos zapatistas de Chiapas, o grupo de Nova York Eletronic Disturbance Theater (Teatro do Distúrbio Eletrônico) realizou diversas ações de “Desobediência Civil Eletrônica” contra o governo mexicano, com o programa FloodNet, que permite repetidos dowloads num site por várias pessoas no mundo inteiro, congestionando o acesso. Ao longo de todo o ano, foram reportadas diversas ações hacktivistas em sites da Austrália, Índia, China e países de quase todos os continentes. Desde então, o movimento só fez crescer.

Seja para protestar contra a situação na Palestina, contra a Organização Mundial de Comércio (OMC) ou a CNN, a dominação das grandes corporações, pornografia infantil, transgênicos ou a censura em países como a China, o campo de ação dos hacktivistas é bastante vasto. O que não impede, igualmente, as controvérsias entre os diferentes grupos em ação. Para alguns, por exemplo, congestionar o acesso a sites é violar a livre expressão.

As táticas podem ser várias, da pura invasão no estilo do hackerismo tradicional, “sit-ins”* virtuais (ou net strikes) tipo o já citado FloodNet para impedir acessos, programas de mensagens escondidas em imagens para fugir da censura (tipo o “Camera/Shy”, criado pelo Cult of the Dead Cow), até pichação com mensagens anti-guerra em games online.

Se as táticas diferem, os grupos também. Poderíamos distinguir, pelo menos três tipos de hacktivistas. Primeiro, os grupos mais próximos dos hackers tradicionais, como o já citado Cult of the Dead Cow, que são hackers visceralmente anti-censura, criadores do famoso aparato hacker “Back Orifice”, espécie de “cavalo de Tróia” que confisca o controle sobre a máquina da vítima pela Internet, e fundadores do grupo “Hacktivismo”. Nessa mesma linha, estariam a polêmica Legion of the Underground (LoU), que supostamente teria atacado sites chineses, mas, ao que consta, negaram tudo publicamente, ou ainda os brasileiros do grupo Microfobia que hackearam sites israelenses em protesto contra a política na Palestina.

Um segundo grupo, mais intelectualizado e politicamente atuando tanto em terreno virtual como real, estariam grupos como os britânicos Electrohippies, que participam de protestos de rua e também agem na arena virtual, tendo feito ataques à OMC ou à Monsanto, e o mais conhecido Eletronic Disturbance Theater, criadores do FloodNet. O EDT tem trabalhado principalmente pelos rebeldes de Chiapas, mas também já entrou na batalha com o grupo de artistas europeus do site etoy.com contra a loja EToys, que queria tirar o domínio dos grupo e acabou desistindo da causa por conta das ações hacktivistas e da consequente polêmica na mídia. Também atuam no campo da teoria. Ricardo Dominguez, um dos fundadores do EDT, é igualmente membro do Critical Art Ensemble, já conhecido no Brasil pelo livro Distúrbio Eletrônico, da coleção Baderna.

Finalmente, poderíamos distinguir um terceiro grupo que trabalharia mais na confluência de ativismo, net arte e programação de software. Esta mistura, que tem cada vez mais se popularizado entre artistas eletrônicos e programadores, atualiza as questões postas por grupos como os dadaístas e situacionistas, polemizando sobre questões políticas, direito autoral (anti-copyright) e interatividade. Entre outras ações, o plágio de sites restritos para permitir acesso público como fez o www.0100101110101101.org com sites de net arte, o apoio do RTmark à invasão de games violentos para colocar imagens de rapazes se beijando, ou o Knowbotic Research, que realizou em Hamburgo o “Connective Force Attack” (Força de Ataque Conectiva), permitindo que a população da cidade, via CD ROMs distribuídos gratuitamente nas estações de metrô, postasse mensagens suas em domínios protegidos por senha, no próprio servidor de Hamburgo.

Variadas como pareçam ser, as ações hacktivistas se guiam sobretudo pela luta pró-liberdade de expressão, pelos direitos humanos ou uma maior justiça social e política. Na esteira destes tempos de tantas e imprevisíveis mudanças, esta nova faceta da atividade hacker só faz ampliar os horizontes de atuação de uma prática que parecia fadada a uma “glória” pessoal de adolescente, não muito distante daquelas das gangues de pichadores urbanos. Abrindo-se para os problemas mais candentes da nossa sociedade, essa cria mutante da tecnologia finalmente se humanizou e, quem sabe, chegou à idade adulta.

  • Sit in é uma prática não-violenta de protesto de rua em que as pessoas se sentam barrando a passagem ou entrada/saída de veículos ou pessoas.

Conheça alguns sites dedicados ao Hacktivismo:


Rizoma.png   Este texto foi originalmente publicado por Rizoma.net.



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