Fragmentos da História da Repressão Político-estatal

De Protopia
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Filipe Silva Siqueira
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«"Primeiro, eles vieram atrás dos comunistas. E eu não protestei, porque não era comunista. Depois, eles vieram pelos socialistas e eu não disse nada, porque não era socialista. Mais tarde, eles vieram atrás dos líderes sindicais. E eu me calei, porque não era líder sindical. Então, foi a vez dos judeus. E eu permaneci em silêncio porque não era judeu. Finalmente, vieram me buscar. E já não havia ninguém para protestar."»
(Martin Niemoller, pastor protestante alemão, sobre os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial)


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No dia 13 de setembro de 1999, num período pré-eleições presidenciais, uma bomba explode num complexo de edifícios na avenida Kachirski, em Moscou, matando cerca de 124 pessoas. A motivação por trás do ato parecia obviamente coisa dos chechenos, visto esses possuírem um histórico aguerrido de combate às forças russas logo após o fim do comunismo. Três anos antes, o Exército Russo havia sido surrado pelos separatistas chechenos numa guerra que durou dois anos - e terminou com a independência de fato da república. Entretanto, investigações posteriores revelaram provas bastante fortes que os atentados foram arquitetados por integrantes do FSB, a polícia secreta herdeira de parte do poderio do famoso KGB. O plano era bastante simples: colocar chefes do serviço secreto no governo russo, ainda bastante fraco com o desmantelamento da União Soviética e dos anos de administração de Boris Yeltsin. A estratégia deu certo, e através de contínuas influências políticas e chantagens, todas as instâncias do poder russo aprovaram a guerra, mesmo com os chechenos deixando claro que estavam dispostos ao diálogo e que os atentados não haviam partido de lá. O cerco do FSB fora tão poderoso, que envolveu ameaças a diversos jornais russos, que noticiaram em uníssono as provas governamentais de que haviam sido guerrilheiros chechenos que tinham explodido os prédios. Esses atentados foram somente o estopim, já que uma série de outros atentados ocorreu na república vizinha da Chechênia: o Daguestão, que também ficaram sob forte suspeita de terem sido arquitetados pelo serviço secreto.

O quadro de medo e paranóia entre a população estava completo e boa parte dela apóiava as atitudes enérgicas do novo Homem Forte da Rússia: o primeiro-ministro recém-nomeado Vladimir Putin, que em muitos aspectos mostrava uma clara similaridade com os governantes soviéticos. Com o pano de fundo perfeito preparado, Putin ordenou um pesado bombardeio a república, que de cara matou um enorme número de civis, incluindo crianças. Em poucas semanas, a capital da Chechênia, Grozny, sumiu do mapa, sendo reduzida a uma pilha de escombros. Em menos de um ano toda a república já estava sob controle russo e Putin venceu facilmente as eleições presidenciais daquele ano, dando início a mais de uma década de poder ininterrupto. No campo internacional, a guerra trouxe consequências bastante tensas: a Arábia Saudita apoiou os separatistas e inclusive facilitou o transporte de mujahedeens para lá, e logo depois recebeu ameaças de uma guerra com a Rússia, caso algum ataque terrorista ocorresse no país; a Geórgia também apoiou os separatistas, e meses depois viu tropas russas entrarem em seu território (em 2008, um novo ataque russo ao país destrói grande parte da infra-estrutura georgiana).

Dia 7 de dezembro 1975, três dias depois de se tornar independente da colonização portuguesa, Timor Leste é invadida por tropas indonésias e passa ser considerada a 27º província do país. O massacre que se seguiu a essa invasão é um dos capítulos mais sangrentos da história das últimas décadas: os indonésios explodem vilas inteiras, jogam napalm em escolas, alegando serem esconderijos de guerrilheiros - exterminando um terço da população timorense no processo, pelo menos umas 200 mil pessoas. Grande parte da vegetação do Timor foi destruída, e em 1991, uma manifestação em prol de um estudante morto pelas forças indonésias foi fortemente reprimida, terminando num banho de sangue que deixou mais de 200 mortos - e as tropas da Indonésia, não satisfeitas, mataram mais dezenas de manifestantes dias depois, no que ficou conhecido como o Massacre de Santa Cruz. As chacinas e mortes prosseguiram até 1999, quando se iniciou uma tímida pressão internacional.

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Antes, em 1998, uma série de crises financeiras e pressões populares violentas terminou por causar o fim do regime ditatorial do general Suharto, que governou a Indonésia por mais de 30 anos; o que possibilitou que, um ano depois, um referendo popular decidisse pela independência timorense. Mas a liberdade não veio sem mais mortes: milícias treinadas e protegidas pelo exército indonésio promoveram um banho de sangue nas ruas de Timor Leste antes que o resultado do referendo fosse divulgado. Dezenas de milhares de pessoas foram sequestradas e torturados em locais até hoje desconhecidos e jornalistas internacionais foram expulsos do país sob ameaça de morte. Somente em setembro de 1999, com a chegada de soldados australianos de uma missão da ONU é que Timor Leste conseguiu a independência, após ter toda a sua infra-estrutura destruída e grande parte da população assassinada.


Noite de 16 de setembro de 1982. Parecia tudo normal nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, no Líbano, quando tropas com fardas sem insígnias entraram no lugar e iniciaram um lento e decidido genocídio. A matança durou cerca de 36 horas e oficialmente matou 3 mil pessoas, entre homens, jovens, mulheres, crianças e velhos - os números divergem porque as milícias queimaram inúmeros corpos e os jogaram em valas. A entrada dos milicianos na região foi tão inesperada e repentina que, segundo reportagem da VEJA, houve mulheres metralhadas com a panela na mão, enquanto cozinhavam, homens abatidos quando tentavam enfiar roupas em malas, sofregamente, e velhos mortos embaixo de mesas e cadeiras, como animais. Em várias casas que pareciam ter sido poupadas pelos matadores, as pilhas de corpos foram encontradas no último cômodo, refúgio inútil de famílias inteiras abraçadas de medo. Ao término da chacina, havia um catálogo completo de selvageria: pescoços cortados, ventres rasgados, costas perfuradas de balas. As vítimas, entre homens, mulheres, crianças e velhos palestinos, estavam desarmadas. Até a presente data, não culparam oficialmente o responsável pela chacina: uma tropa mista do exército da Falange Cristã do presidente que havia sido recentemente assassinado, Bachir Gemayel; tropas rebeldes do major Saad Haddad, e alguns outros grupos paramilitares apoiados pelo governo de Israel (o mesmo caso dos dois anteriores), que armava toda uma horda de malucos para desestabilizar o regime libanês - o que se mostraria útil no combate aos guerrilheiros do Hezbollah, que seria fundado naquele ano e décadas depois venceria uma longa batalha contra a ocupação de Israel no Líbano.

Os israelenses, mesmo tendo um histórico de massacres vergonhosos, gritaram não ter nada a ver com o ocorrido. Ariel Sharon, à época Ministro da Defesa, disse a imprensa: "As mãos de nossos soldados estão limpas, e eles mantêm a pureza de suas armas." (não vou comentar a ridiculamente paradoxal relação entre pureza e armas). Mas o envolvimento das Forças Armadas de Israel era bastante conhecido; diariamente eles lançavam bombas sobre os campos para obrigarem as pessoas a permanecerem em suas casas, além de imprimirem o terror expresso na mente deles - só nos oito primeiros dias de agosto daquele ano, o próprio governo israelense calculou 267 bombardeios aos dois campos. E foi num intervalo dessas chuvas de bombas que as tropas invasores entraram em Sabra e Chatila, diretamente autorizadas pelo Ministério da Defesa do Estado de Israel. Para reforçar essa tese do envolvimento de políticos israelenses, aviões do país sobrevoavam os campos no momento dos assassinatos, para iluminar os crimes dos milicianos libaneses com seus potentes faróis. Semanas antes, o Mossad, o serviço secreto israelense, alertou o governo que os falangistas com toda a certeza massacrariam os palestinos caso fossem autorizados a entrar nos campos, informação que foi propositalmente ignorada pela cúpula que mandava em Israel.

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Os que não morreram pelas rajadas de armas automáticas, estupros, decapitações, enforcamentos, estripamentos, apedrejamentos, atropelamentos, entre outros métodos bárbaros de assassinato, pouco encontraram guarita em hospitais e se esconderam entre cadáveres para tentar sobreviver. O jornal Jerusalem Post escreveu um editorial condenando o massacre: "Rosh Hashanah 5743 (o Ano-Novo que se comemorava no sábado, dia 18) tomou-se o Rosh Hashanah da vergonha... É a vergonha de todo cidadão individual, pois todos fomos feitos cúmplices do horrível massacre de Beirute". Em fevereiro de 1983, Ariel Sharon, considerado o responsável israelense pelo massacre, é obrigado a se demitir; e Elie Hobeika, comandante-chefe dos serviços secretos das Forças Libanesas (que mandavam na Falange Cristã), é considerado o responsável direto do lado libanês - ele não sofreu qualquer punição, mas foi assassinado pela explosão de um carro bomba em Beirute, que correntes do governo libanês disseram que partiu de Israel, que na época tinha como primeiro-ministro... Ariel Sharon.


No dia 8 de maio de 1945, o mundo comemorava a recente vitória sobre os nazistas, enquanto os argelinos organizavam gigantescas manifestações para pressionar o imperialista e colonizador governo francês a concederem a independência a eles. Na mesma época, soldados argelinos retornavam das frentes européias e africanas, onde lutaram ao lado dos franceses. Aviões e soldados franceses reforçaram as tropas coloniais estacionados na região. Em poucos dias, cerca de 45 mil argelinos foram cruelmente assassinados em bombardeios e fuzilamentos sumários, no episódio conhecido como Massacre Setif e Guelma, pois nesses dois territórios se concentravam a resistência aos franceses. Somente durante o dia 8, nas manifestações, os franceses mataram cerca de 6 mil argelinos. A partir dessa crueldade, foi fundada Frente de Libertação Nacional (FLN), que declarou guerra aos franceses. Na guerra que durou até 1962, os franceses promoveram assassinatos até mesmo em seu próprio território. Um exemplo é o Massacre de Paris, ocorrido em 17 de outubro de 1961, quando o chefe da polícia de Paris , Maurice Papon, deu ordens para que uma pacífica manifestação pró-FLN, com 30 mil pessoas, fosse violentamente reprimida. O governo francês, 37 anos depois, admitiu 40 mortes, embora estimativas apontem para 200 mortes.

Em 4 de novembro de 2008, dia das eleições presidenciais americanas, a cúpula de poder israelense decide romper a trégua com o Hamas por um motivo que somente eles conhecem. Há seis meses, o grupo que administra a Faixa de Gaza não realizava qualquer tipo de ataque contra as forças armadas israelenses. Provavelmente por essa paz anormal, os israelenses decidiram que era hora de mergulhar Gaza em sangue mais uma vez e recolocam o território sob um cerco semelhante ao empreendido por nazistas nos infames guetos que existiram por vários países da Europa - e ironicamente eram cheios de judeus. A desculpa para a volta do bloqueio foi "evitar que o Hamas faça túneis de contrabando na região" - que eles não tinham qualquer prova de existência. Barak Ravid, um importante jornalista israelense que escreve no Haaretz, diria depois que todos os passos para a invasão total da Faixa de Gaza para um genocídio já eram planejados. "Fontes do 'establishment' da defesa disseram que o ministro da Defesa Ehud Barak deu instruções às forças de defesa israelenses para se prepararem para a operação, há mais de seis meses, na altura em que Israel estava a começar a negociar um acordo de cessar fogo com o Hamas", escreveu ele dia 31 de dezembro, quatro dias depois do início da operação.

O Hamas, em resposta, atirou mísseis caseiros sobre Israel, mísseis que eram tão imprecisos, que de 2001 até fevereiro de 2008, haviam matado 14 israelenses - e dessa vez feriram duas. Israel atirou mísseis de aviões F-16 sobre casas palestinas, como contra-resposta. O Hamas oferece nova trégua ao governo judeu: os ataques cessam, em troca do fim do bloqueio e dos ataques seletivos de Israel. A proposta nem chegou a ser apreciada por eles. E foi no dia 27 de dezembro que veio a verdadeira ofensiva israelense - batizada de Operação Chumbo Fundido -, a mais sangrenta operação militar do país desde a Guerra dos Seis Dias, mais de 40 anos antes: tanques, aviões, helicópteros e toda uma corja de terroristas fardados foram mobilizados para a operação, que tinha como objetivo oficial impedir que novos ataques com foguetes do Hamas partissem da Faixa de Gaza. De 27 de dezembro a 3 de janeiro, choveram bombas sobre a Faixa de Gaza, sobre os mais diversos alvos; escolas, casas, plantações, hospitais, ambulâncias, parques infantis... nada escapou a precisão assassina dos soldados israelenses. Em alguns momentos, em intervalos de quatro minutos, Israel jogava cerca de 100 mísseis sobre Gaza. Dentro dos bairros residenciais, colonos e franco-atiradores posicionados em janelas e tetos de casas matavam crianças, velhos, membros do Crescente Vermelho (o órgão da Cruz Vermelha que atua nos países islâmicos), e até mesmo animais, espalhando um terror psicológico sem precedentes. Na costa, barcos de ajuda humanitária foram sumariamente bombardeados, mostrando mais uma vez a face terrorista do Estado de Israel. No dia 3 de janeiro, os soldados e tanques finalmente irrompem pra dentro do território, complementando e derrubando tudo que os aviões haviam deixado de pé, como mesquitas e universidades. Ambulâncias e médicos recolhendo corpos de palestinos mortos foram sumariamente alvejadas por soldados.

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O massacre durou até 21 de janeiro, posse de Barack Obama, que nada fez contra seus aliados. Ao todo, Israel empregou 620 mil soldados na Operação e exterminou 1.314 pessoas, pelo menos metade delas sem qualquer relação com o Hamas, sendo a vasta maioria mulheres e crianças. Outras cinco mil ficaram feridas ou mutiladas, e 53 instalações de assistência da ONU foram alvos de tiros, incluindo escolas e hospitais. Do ponto de vista militar, a operação fui um fracasso completo, pois nem arranhou a infra-estrutura de armas do Hamas, nem destruiu os túneis e nem acabou com os foguetes - o que indica que a operação tenha sido feita exclusivamente para derramar um banho de sangue na Faixa de Gaza. Do lado israelense, morreram 13 pessoas, contando três deles por fogo amigo (embora os palestinos afirmem que tenham matado 48 soldados), 100 vezes menos.

Uma comissão do Conselho de Direitos Humanos da ONU liderada pelo juiz sul-africano Richard Goldstone, chega a Gaza quatro meses depois da Operação Chumbo Fundido para iniciar investigações sobre possíveis violações de direitos humanos, crimes de guerra e contra a humanidade. Em 15 de setembro de 2009, a comissão apresentou seu relatório, concluindo que Israel "cometeu crimes de guerra e, possivelmente, contra a humanidade", e que "embora o governo israelense tenha procurado caracterizar suas operações essencialmente como uma resposta aos ataques de foguetes, no exercício do seu direito de auto-defesa, a comissão considera que o plano visava, pelo menos em parte, um alvo diferente: a população de Gaza como um todo", como escreveu o New York Times, no dia 19 de setembro de 2009. A devastação empreendida por Israel não poderia ser pior, como é possível constatar pela lista de alvos destruídos pelo terrorismo oficial do país: 47 mil casas, todos os postos de polícia, toda a estrutura portuária, dois comboios humanitários da ONU, a sede da ONU em Gaza, o Complexo Jornalístico Internacional, todas as empresas de saneamento, água e energia elétrica, 2/3 dos ministérios palestinos - incluindo o Ministério da Educação, entre inúmeros outros edifícios.

Acusações mais graves viriam depois. O jornal britânico The Times apresentou provas que as Forças Armadas Israelenses usaram armas de fósforo branco - de fabricação americana - na Operação, armas que causam queimaduras químicas profundas, e são proibidas pela III da Convenção sobre Armas Convencionais, de 1980, de serem usadas contra civis, ou contra militares estacionados em regiões com civis. Em março de 2009, soldados que participaram da operação, declararam ao jornal Haaretz que mataram palestinos e destruíram casas “porque quiseram e podiam”, e não por verem neles qualquer ameaça militar. Duas semanas depois, Danny Zamir, diretor de um instituto preparatório militar isralense, confirma a autenticidade dos relatos ao jornal ao mesmo Haaretz e diz que a prática é comum entre as tropas do país. Um ano depois do término da operação, o Exército Israelense formalmente admite o uso de bombas de fósforo contra a população civil, inclusive sobre a sede da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente, onde centenas de palestinos se abrigaram.


Todos esses crimes sangrentos, vergonhosos e desumanos - que são apenas exemplos de inúmeros que ocorrem a todo o momento, em diversos pontos do Espaço-Tempo - têm alguns grandes fatores em comum: jamais viram ser punidos os verdadeiros responsáveis por eles, se valendo de bodes expiatórios de baixo escalão para se resolverem; e foram, sem exceção, praticados por Estados constituídos e reconhecidos, sempre contra povos que não tinham Estados soberanos. E como dá pra perceber, todos esses fatores estão intimamente ligados.

A soberania e liberdade de um Estado é algo completamente relativo, pois se vale de aprovações de grupos formados pelos Estados mais poderosos da Terra. Se o Irã, se valendo de suas leis - leis questionáveis, só pra deixar claro -, apedreja uma mulher adúltera, o país é largamente condenado internacionalmente e ameaçado de intervenções militares; mas se os EUA passam por cima das próprias leis, e torturam prisioneiros em Abu Ghraib, dando continuidade a sua largamente conhecida política de intimidação, só sofrem umas parcas acusações internacionais, que no fim não servem de nada. A dubiedade é ainda mais profunda quando entram na linha de discussão questões geopolíticas. A Aliança do Norte (ou Frente Islâmica Unida para a Salvação do Afeganistão, seu nome oficial) é reconhecido pela maioria dos países ocidentais como um grupo legítimo de resistência ao regime Taliban; enquanto o Fatah e o Hamas, que lutam contra a ocupação de Israel na Palestina e operam em linhas semelhantes, são considerados grupos terroristas por boa parte dos mesmos países. O aiatolá Ali Khamenei, sucessor de Khomeini na liderança do Irã, é taxado de ditador pelos EUA, enquanto Pervez Musharraf, ex-ditador golpista do Paquistão, que comprovadamente apoiou e financiou grupos terroristas na Caxemira, era um dos maiores aliados dos EUA na luta contra o terrorismo.

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Alguém que estuda esse tipo de discrepância provavelmente parte para a eterna solução barata de caçar Bodes Expiatórios, apontando nomes de criminosos conhecidos, como George Bush (pai e filho), Ariel Sharon, o general Suharto, Pol Pot, Stalin, Hitler... ou qualquer outro de um vasto arsenal de governantes e ditadores megalomaníacos e viciados em poder. Logicamente que esses homens foram responsáveis por mortes e degradações humanas das mais inacreditáveis, mas não existiriam - ou suas ações seriam bem menos abrangentes e nefastas - sem uma superestrutura de poder legítima, constituída e sólida por trás deles. Atacar essa ferramenta é o que provavelmente deveria ser o objetivo dos analistas, filósofos, militantes, párias... ou qualquer sorte de dissidente social que se põe a questionar o modo de funcionamento dos escalões de poder.


O Estado - a tal ferramenta de poder - teve uma criação enuviada, longa e, de certa forma, obscura. Aristóteles dizia que o homem é naturalmente político (ou: O homem é um animal político, como afirma sua conhecida frase), e sem qualquer tipo de pressão ou acordo, criou estruturas para auto-governar-se. Para ele, uma sociedade que era formada em cidades e conglomerados urbanos necessitava de formar complexas e intrincadas formas de auto-gerir-se para melhorar a própria existência. Seguindo uma lógica darwinista moderna misturada com a visão clássica aristotélica, um resumo disso seria: os homens têm uma espécie de predisposição de seguir líderes, não tendo possibilidades sociais de criar vivências igualitárias, terminando por basearem-se em hierarquias.

O pensamento teórico político grego pode ser considerado o primeiro documentado do mundo Ocidental, e todos os posteriores incorporaram diversos elementos do que os filósofos helênicos escreveram. Tal modo de ver o mundo provavelmente derivou dos conceitos de conhecimento do pensamento dos gregos, essencialmente místicos e metafísicos, centralizando sua visão de mundo num pesado Olimpo divino. Platão levou o pensamento político grego um pouco mais adiante. Sua citação da Carta Sétima é um bom resumo do que ele tinha na cabeça com relação ao assunto: "Os males não cessarão para os humanos antes que a raça dos puros e autênticos filósofos chegue ao poder, ou antes, que os chefes das cidades, por uma divina graça, ponham-se a filosofar verdadeiramente." Na visão de Platão, os Filósofos, habilmente dotados de conhecimentos morais, eram os mais (por mais, entenda únicos) indicados para governarem um povo. Ou os políticos já no poder deveriam adquirir conhecimentos filosóficos. Não tinha exceção - como é o caso de toda a Filosofia Clássica Grega, que é sempre taxativa e absoluta.

Se olharmos as Teorias do Conhecimento desenvolvidas por Platão - ou por Sócrates, como apontam alguns detratores de Platão, já que Sócrates não escreveu nada, sendo quase toda a obra dele transcrita por seu principal pupilo, Platão - saberemos que ele entendia que a principal missão da Filosofia e da produção de Conhecimento era a busca por uma Verdade Universal e Incontestável, e isso era vastamente refletido nos escritos políticos dele. Platão usou uma alegoria mitológica grega para descrever a origem da necessidade política na raça humana.

«No desenrolar da guerra de Cronos - Titã que é a divindade suprema da segunda geração de deuses gregos - contra Zeus, o mundo é coberto de uma desordem até então inexistente. A balbúrdia resultante desse momento transitório quebrou a harmonia que existia entre a raça humana, acentuou suas divisões e fechou-a em grupos com pesados regimes políticos, que nasceram como uma forma de defesa para a selvageria das relações humanas no início dos tempos de Zeus.»


Dessa forma, os políticos para ele seriam enviados diretos de (Z)Deus, absolutos, o que excluía qualquer visão democrática com relação a política. O pensamento dele com relação à própria Filosofia é bastante análogo, algo mais ou menos na linha das atitudes do próprio Zeus, que puniu o Titã Prometeu por ele ter levado o conhecimento do Fogo a Humanidade. O Conhecimento era algo exclusivo para poucos Iluminados, não estando o povo preparado para ele.

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Assim pensava Platão. Os Filósofos modernos seguidores da Linha Clássica que o defendem, podem alegar que se trata de uma derivação da forma de pensamento oriundo da cultura estratificada da Grécia naqueles tempos, e isso explica o pesado absolutismo das teorias política platônicas, que propunham a divisão social em camadas privilegiadas e desprivilegiadas. Essa forma de encarar os fatos pode demonstrar que a visão dele era unânime, fruto do meio, que não havia gregos contemporâneos a Platão que pensassem diferente. Mas isso é uma inverdade. Nessa época, existiam os Sofistas, que viam a política como um negócio essencialmente terreno, humano, não incutiam qualquer idéia metafísica ou divina na política. Para eles, a Arte Política não era inerente ao método de exercer a política, mas sim ao modo de conseguir aliados, na retórica, na chegada ao poder. Para os Sofistas, a política era essencialmente popular, e deveria permitir o acesso de todas as camadas da população ao poder. E tais pensamentos se estendiam as teorias de conhecimento deles, baseadas em complexos jogos de palavras e numa mistura de empirismo e sabedoria terrena. Platão - e seus discípulos - não ficou feliz com as teorias subversivas dos Sofistas, e passou a persegui-los, se valendo de seu prestígio para destruir grande parte das obras deles, que eram ricos por passarem seus conhecimentos a inúmeras camadas da população grega em troca de dinheiro. Tal fato claramente parece mostrar Platão como alguém que imaginava a política de forma absolutista e sem qualquer tipo de oposição.

Claro que é ilógico analisar a concepção política platônica somente por esse ângulo, baseado em nossa forma de pensamento moderno. Se olharmos o contexto em que ela está inserida, perceberemos que era um ambiente de crescente corrupção e degradação moral - principalmente em Atenas, e a idéia principal dele era dar vazão a formas mais rígidas de estruturas governistas, com menor possibilidade da chegada de líderes amorais e injustos a postos de comando. Sua principal guinada em direção ao absolutismo político se deu após a condenação à morte de seu mestre Sócrates, o que o levou a questionar que tipo de governo poderia assassinar o homem mais puro que ele já conhecera. Daí surgiu seu primeiro conceito mais amadurecido na política, a de que o homem, para ser cidadão, deve estar inserido na vida da Pólis (as grandes cidades gregas, erroneamente chamadas de Cidades-Estado).

Após uma intensa observação das ações dos gregos no ambiente político, Platão tira uma conclusão fantástica (para ele, claro): os Filósofos eram a classe liberta pelo conhecimento, e por isso deveriam ocupar os cargos políticos, ter o poder... e isso não era discutível. Platão cria piamente que a Filosofia limpava o homem de qualquer injustiça e corrupção, e por isso o capacitava para os delicados caminhos do poder - os Sofistas eram bem mais avançados nesse aspecto, e diziam que o Conhecimento poderia servir à vontade do homem, seja para o bem ou para o mal. Mesmo parecendo essencialmente utópica, a concepção de Platão da política e do embrião estatal estava profundamente calcada numa forma mais mística e abstrata de encarar nossa passagem pela vida, o que contrasta profundamente com o Modernismo Iluminista e excessivamente racional, a oposição moderna mais clara às idéias dele.

Então, é natural que conceitos como o Bem Espiritual estejam presentes na forma dele de encarar e teorizar sobre a política. Platão, de forma inovadora e intensa, pregou a separação dicotômica do corpo humano entre os campos físicos e espiritual. O Mundo das Idéias - espiritual, perfeito - era inalcançável devido a limitações materialistas do nosso corpo físico, que deveria ser suprimido, vencido. Seguindo essa idéia, ele afirmou que existiam duas políticas: a Falsa, que se dedicava a buscar prazeres corporais, carnais e mundanos; e a Verdadeira, que amplificava o Espírito, as Idéias e a Filosofia. O Conhecimento era o caminho para levar o povo a se dedicar a purificar a própria alma, e o principal dever dos governantes políticos era justamente espalhar o conhecimento quando o povo estivesse pronto pra ele. Dessa linha, se deriva uma série de pensamentos platônicos com relação a Justiça, Guerra e Paz.

Teoricamente, o que Platão concebe mais se assemelha a uma formação estatal utópica, pois coloca o Estado e seus Governantes no papel de intermediários na construção do caráter filosófico de seus comandados, mas no processo dá poder absoluto a essas figuras, não prevendo que homens mal-intencionados pudessem se valer disso. Ao descrever o mundo terreno como essencialmente miserável, inútil e prisional, Platão dá brecha para um sério levante político no sentido do absolutismo, como ficou bastante patente no trato dele próprio para com sua oposição filosófica, que dizia que todo o conhecimento deveria ser provado com argumentos ou testes empíricos - sim, os Sofistas foram os originadores dos primeiros conceitos científicos concretos.

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Mas, como os fortes geralmente ganham, foi a teoria política platônica que passou a frente. Tanto, que boa parte das teorias ocidentais posteriores foram calcadas fortemente no absolutismo e no expansionismo. E isso originou a maioria das mazelas da maior parte das sociedades do mundo. O italiano Nicolau Maquiavel, outro famoso pensador político, ficou famoso pela frase mal interpretada de "Os fins justificam os meios" (que segundo Newton Bignotto, filósofo da UFMG, nem existe na obra dele) que basicamente parece indicar que os caminhos do poder justificam qualquer atitude inglória. Maquiavel, pensador absolutista, escreveu seu pretensioso e mais conhecido compêndio de pensamento político, O Príncipe (1513), como um manual de conselhos a governantes. Mesmo inserido numa realidade degradada e num momento carregado de ostracismo após ficar quase um mês preso, seu O Príncipe se tornou um manual obrigatório, e é considerado como a origem da ciência política moderna.

Muito disso se deve ao fato de que Maquiavel não era utopista, descreveu o Estado e os jogos políticos de forma nua, sem caracterizações floreadas, se atendo a realidade e dando conselhos para governantes controlarem sua população e alcançarem um governo estável e duradouro. Maquiavel também rompeu com o pensamento medieval, que se apoiava em conceitos religiosos, e inseriu contextos exclusivamente políticos em suas teorias, se mantendo no Reino Terreno do pensamento. Ele também estudou profundamente os modos de governos da Roma Antiga e aplicou seus conhecimentos em teorias empíricas para entender as formas de poder, e as inseriu numa Ética extra-religião, onde dizia que as ações de governo deveriam ser para manter o funcionamento do Estado e não para se encaixar em regras espirituais. Maquiavel, então, significou uma quebra definitiva da base olímpica da política, mesmo que absorvendo diversos conceitos relativos a Poder propostos por Platão - principalmente com relação ao absolutismo. E como ser mundano tem seu preço, seu conterrâneo Papa Paulo IV colocou seu livro direto no Index Librorum Prohibitorum, em 1559.

Os principais conceitos teórico-práticos propostos por Maquiavel em O Príncipe podem ser absorvidas com certa facilidade, embora devam ser analisados em conjunto com as outras duas obras mais importantes dele: Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio e A Arte da Guerra. Sintetizando a teia de idéias de O Príncipe, é possível dizer que ele se inicia discorrendo sobre as diferentes formas de poder estatal e seus principais modos de governo - monarquia e república - e depois entra num campo de atitudes pessoais que o governante deve adotar para ser admirado por sua corte, se valendo de relativa bondade financeira para conquista seus súditos e o próprio povo.

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Lá pela metade do livro, ele insere o conceito de temor melhor que amor, demonstrando de forma prática como amizades palacianas somem sem deixar vestígios quando as coisas apertam. Depois lista uma série de virtudes essencialmente "boas" que o governante deve possuir, como interesse, religiosidade e piedade, se preocupando para manter o povo feliz. O Príncipe também foi inovador ao teorizar - pela primeira vez, de acordo com historiadores - que Estados deveriam possuir exércitos regulares, doutrinados e obedientes, em oposição aos grupos de mercenários que eram formados em guerras e situações de emergência. Tal conceito foi fundamental para o estabelecimento moderno definitivo do Estado, baseado em forças punitivas, que estenderia sei poder baseado na força.

As interpretações da obra de Maquiavel, especialmente O Príncipe, são bem variadas e extensas. Os católicos naturalmente repudiaram seu pensamento sem relação com moralismos religiosos, enquanto outros tentaram unir sua obra ao pensamento cristão, errando da mesma maneira, já que se utilizavam de maneirismos muito parecidos para descontextualizar os escritos de Maquiavel. Outros analisavam a obra como essencialmente diferente ao que ela é - embora a possibilidade seja válida: ao invés de ser um guia de conselhos para reis e tiranos, o livro seria uma forma de mostrar ao povo o que rolava nos corredores palacianos. O principal argumento para isso é o fato de Maquiavel ser um apoiador do modelo republicano de governo, de certa forma condenando o absolutismo monárquico em obras posteriores. Mas a principal contribuição de Maquiavel foi a inserção uma cara científica no modo de se pensar política, contrastando com a utopia reinante em tempos passados. Isso se tornaria regra entre os teóricos políticos daí pra frente.


Após Maquiavel, que está para Ciências Políticas da mesma forma que Copérnico está para a Astronomia, vários dos outros teóricos, olhando de certa forma, limitaram-se a acrescentar elementos aos escritos dele. Thomas Hobbes acrescentou o chamado Estado Natural, em que teorizou sobre o homem pré-sociedade e civilização, iniciando uma inédita contraposição à idéia aristotélica com relação a necessidade humana de organizar-se politicamente de forma automática. Mesmo sem evidências científicas, Hobbes achou lógico que em algum momento da história os homens não tivessem métodos de criarem estruturas sociais. Mas o erro de Hobbes passa por um pré-julgamento sem embasamento da psique humana como essencialmente ruim, maléfica. "O homem é o lobo do homem", disse ele, o que parece ser verdade sob nossa ótica moderna, mas ele não atentou para o fato de que olhamos o comportamento humano somente sob o prisma da existência da época dele, sendo necessários dados para comprovar que o humano repete esses comportamentos predatórios em ambientes sociais menos coercivos.

Dentro da lógica de Hobbes, a Sociedade não foi criada visando o bem comum, mas apenas para erguer barreiras que impedissem o homem de se auto-destruir. O Homem é um ser de guerra, que não vive em paz, e por isso se faz necessário a criação de uma rígida estrutura social para impedir que essa extinção ocorra. Essa era a teoria de Hobbes. John Locke imaginava algo semelhante, e complementou que o Estado torna o Estado Natural humano reprimido, mas ainda presente na sociedade, condicionando uma necessária e contínua coerção dele por parte de instrumentos repressivos do próprio Estado. Em comum para eles fica a idéia do Estado ser construído sob a base do medo e violência que os humanos sentem dos seus semelhantes. Max Weber terminou por fazer a definição aceita até os dias de hoje sobre a questão: o Estado é a única organização que pode exercer legitimamente a violência numa nação, desde que isso seja aprovado por seu povo em algum momento da história dele. Tal poder do Estado se tornou inerente a ele com o passar dos anos, o que resultou no argumento dos teóricos de que o Estado deixa de ser Estado se perder o poder do monopólio da justiça e da violência para exerce-la. O problema dos que abraçam essa definição é natural: se todos reconhecerem o Estado como único detentor de qualquer meio violento, todas as revoluções armadas - inclusive a que pariu a Idade Contemporânea - soam ilegítimas. Esse tipo de pensamento, que pode ser encarado como uma desvirtuação moderna do pensamento platônico, é o que deu vazão as atrocidades descritas no início do artigo, pois legitima massacres perpetuados pelo Estado e minimiza qualquer manifestação de independência popular.

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Obviamente que o descrito acima é apenas uma porção fragmentada da vasta obra desses pensadores. John Locke, por exemplo, defendia uma espécie de democracia, ao discorrer sobre a tolerância como fator importante do Estado. Mas essa tolerância não era total, e estava atrelada a um pensamento capitalista e um conceito hierárquico e étnico abertamente absolutista. Locke dizia que os índios e outros nativos não eram merecedores dessa tolerância, por não estarem organizados em sociedade (ao menos não no modelo europeu). Os católicos estariam na mesma situação por seu histórico de roubos - Locke era anglicano. Obviamente que existia um contexto para tais opiniões - o que não as justifica - mas é importante ressaltar que não eram unânimes na época. Michel de Montaigne tinha um pensamento bastante diferente com relação aos indígenas, por exemplo. Montaigne conceituou uma humanidade pluralista, complexa, e com uma visão um pouco mais ampla do que o pensamento "Sociedade vs Selvagens".

Mas as próprias idéias de Montaigne podem ser consideradas tímidas se comparadas aos escritos de um dos precursores do verdadeiro Humanismo: o suíço Jean-Jacques Rousseau. O principal pensamento de Rousseau era "O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros . Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto eles". A essa altura, o pensamento de um Estado forte e carregado de violência já estava tão arraigado - inclusive entre os Iluministas, que entraram pra história como supremos defensores da liberdade e da racionalidade - que o próprio Rousseau foi alvo de perseguições por parte de uma elite social que estava substituindo cada vez os que os perseguiram a pouco tempo. Outro ponto que tornou Rousseau perseguido foi sua crítica a propriedade privada, bastante clara em seu conceito de Estado da Natureza Humano. "O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe."

Rousseau foi além da política e, assim como Locke, escreveu sobre a Natureza Humana. Ele entendia o homem como um ser com necessidades que foram crescendo a partir do momento em que a sociedade foi evoluindo. O Homem Natural - de uma forma generalista - não poderia ser brutal ou desejar o mal um do outro, já que seu conhecimento sobre violência coletiva era limitado. Isso era reforçado pela suposição dele de que os homens tinham um pequeno círculo de conhecidos, geralmente não passando da própria família. A natureza seria seu ambiente natural, e a simbiose com ele somada a necessidade de extração alimentícia diminuiria até próximas a zero as chances do homem ser verdadeiramente "o lobo do outro homem". Sua relação com a natureza exclui do homem a maioria das relações com outros homens - principalmente as predatórias, pois o ambiente selvagem contém todos os ingredientes necessários para a sobrevivência.

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O instrumento humano para sobreviver em meio ao ambiente selvagem seria o Instinto, uma série de conteúdos e funções cerebrais inerentes ao homem desde seu nascimento. A Razão para ele seria uma espécie de capa lançada sobre o Instinto humano, habilitando-o a viver coletivamente, numa sociedade constituída. Linguagem, ciência, construções... tudo seria fruto da sociedade, ajudando na adaptação humana a uma série de estruturas sociais. E essa adaptação - forçada, em vários casos, como na ação dos maiores impérios da época - ocasionaria uma mudança profunda na forma de se comportar da humanidade, que fora do seu habitat se tornaria um predador, tanto da natureza, quanto da própria espécie.

Além de filosofar sobre a Sociedade, Rousseau, com certeza o patrono da maioria dos movimentos sociais da Idade Contemporânea, escreveu obras sobre Política e a Liberdade. A Liberdade natural do ser humano seria aquela pura, da natureza, para satisfazer os instintos dele. Como vive em pequenos grupos de interesses comuns, essa Liberdade pode ser exercida de forma praticamente plena, pois rejeita relações sociais em comunidades. A chave para uma existência humana plena seria viver em estado quase isolado, longe de dominações de grupos organizados. Esse estado de retiro só seria quebrado para fins de reprodução, e não estaria esperando para ser mudado, como disseram Hobbes e Locke. Rousseau imaginava exatamente o inverso desses dois: a imposição de uma forma de sociedade seria uma quebra desses estado humano perfeito, de integração com a natureza, e geraria as controvérsias entre humanos, suprimindo liberdades individuais e instintos com estruturas sócio-políticas como o Estado. Mas a sociedade para Rousseau não é de toda ruim, seria ambígua. Com a vida coletiva, os homens desenvolveram o amor, o afeto e o sexo feito de forma completa e não puramente reprodutiva, além do pensamento racional. Mas esse seria o preço graças a perda de liberdade e o soterramento de instintos humanos básicos.

Ao final da sua vida, perseguido, Jean-Jacques Rousseau colocou em prática sua teoria e viveu isolado em meio a natureza. Seriam justamente os escritos rousseaunianos que dariam origem a Revolução Francesa, aos direitos humanos e a Idade Contemporânea.


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Nos séculos XX e XXI - vamos nos ater a eles - todas essas teorias sofreram uma série de misturas para a criação de versões inteiramente distintas do Estado. Talvez a maior vitória da mais conhecida e estabelecida de poder seja uma vitória psicológica, ao fazer bilhões de pessoas imaginarem que o Estado seja a única organização social eficiente. Com essa visão - chamada Relativismo Sociológico - se tirou o foco dos problemas do ângulo global para contextualiza-los para um ângulo individual e socialmente darwinista, e esse é o praxe hoje de quase todas as correntes de teorias sociológicas e psicológicas. Os homens que se sentiam incomodados com as sociedades formadas é que estão com o problema, já que não são fortes o bastante para se adaptar a ela, pregam os seguidores dessa linha de pensamento sociológico.

Derivados dessa visão, surgiram dois conceitos: a) Uma sociedade que em princípio funcionasse, seria saudável; b) As doenças psíquicas eram uma consequência de erros no indivíduo; os doentes psíquicos não teriam sido suficientemente capazes de se adaptar. Erich Fromm, psicanalista e filósofo alemão, descreve esse fenômeno como Humanismo Normativo, e se contrapõe a essa problemática individualizante, já que vê o Inconsciente como portador de necessidades psíquicas básicas, e uma constante repressão social colocaria os humanos em estado de doença psicológica. A ação predatória da classe dominante que controla os Estados é primariamente culpada pela contínua condição degradante da humanidade. É só observar todos os países, com estruturas de poder bastante parecidas - uma ditadura ou uma classe dominante no trono há bastante tempo - para observar problemas de saúde mental bastante análogos. Fromm chega a romper com Freud com relação ao superego - uma espécie de polícia psicológica de todo o ser humano - e propõe que a ação dele não seria básica da psique humana, mas sim derivada da ação de autoridades sociais, como políticos, família e religiões. Falhas humanas para ele, seriam quase sempre geradas pela ação cultural coletiva, geralmente através de repressão, e não por algum tipo de função psicológica inerente ao ser humano.

A espontaneidade, por exemplo, é largamente incentivada pela mídia e pelos empregos, e hoje é vista como um característica básica do ser humano. Os que não se encaixam nesse tipo de comportamento são excluídos, e pior: medicados com drogas recheadas de efeitos colaterais. Sabemos que muitas pessoas são introspectivas, reflexivas, e isso é inteiramente normal. Mas um misto de marketing e entrevistas com médicos subornados leva um sem-número de pessoas a crerem que estão doentes. A verdade é que grande parte das disfunções comportamentais "da moda" (Síndrome do Pânico, Hiperatividade ou até a Timidez “Aguda”), são efetivamente geradas pela indústria farmacêutica através de pesados financiamentos a classe médica, aliado a subornos a imprensa. Esses problemas existem, mas têm seus sintomas largamente ampliados para tornarem-se lucrativos. E como todos os remédios são aprovados por comissões estatais, podemos sacar rapidamente uma forte conivência do Estado em esquemas como esses.

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Ademais, os verdadeiros remédios sociais para doenças psíquicas reais seriam amortizantes comunicativos, como os programas de televisão e grandes eventos esportivos, que serviriam como um "desvio de atenção e um muro anti-ataque de pânico global", além de servirem como fugas catárticas para impedir um acúmulo excessivo de desordens psíquicas. Remédios (drogas) comportamentais, um pouco de "pão e circo" são apenas ferramentas para diminuir certo número de bagunças do Estado, o verdadeiro controle social é exercido pelos núcleos familiares, segundo as mesmas teorias de Fromm. Valores distorcidos - às vezes religiosos - e repressão geralmente são exercidos primeiro dentro das famílias, que preparam indivíduos ainda crianças para viverem sob contínuo peso da autoridade social. Desde cedo se aprende valores essenciais para a vida dentro de cidades, como ordem e pontualidade, através de pais que carregam neles os chamados "fatores sociais" mais bem aceitos em cada país. A família seria então a melhor forma de perpetuar a existência da sociedade, o que acontece de forma bastante eficiente. Escolas, geralmente pertencentes ao governo ou a grupos econômicos fortes, cumprem papel parecido: doutrinação e imposição de normas.


Além dessa forma mecânica de manter uma população arrebanhada através de núcleos familiares horizontais e geralmente repressivos, os próprios caminhos dito democráticos de chegada ao poder são construídos de forma a perpetuar a atuação de apenas um grupo econômico no cenário político. Campanhas dependem de altos investimentos financeiros para serem bem sucedidas e por isso fazem uso de doações e financiamentos da iniciativa privada. Os candidatos vencedores se acham atrelados a essas empresas comandadas por grupos pequenos após vencerem, além de herdarem um sem-número de dívidas e contratos do governo anterior. É natural que empresas queiram benefícios para compensar seus investimentos - sim, investimentos, não doações - nos candidatos. Sem esse tipo de ajuda financeira da iniciativa privada um político não vai muito longe. Talvez vereador, deputado estadual... daí não passa sem enfiar o pé na lama. Quando não se aliam a empresas, os políticos fazem pior: se aliam a criminalidade. Coisa parecida acontece nas empresas de mídia, igualmente dependentes de dinheiro externo, às vezes das mesmas empresas que são denunciadas por elas.

Para ilustrar bem esse fenômeno, usemos como exemplo a situação política do Rio de Janeiro exposta em Tropa de Elite 2, que é uma representação de uma situação recente vivida pelo governo da cidade. Em 2006, o governo do estado do Rio começou a aumentar de forma exponencial a repressão nas favelas, apoiado por tropas especialmente treinadas em guerra urbana - os combatentes do BOPE são considerados os melhores soldados nesse estilo de guerra no mundo inteiro. Os resultados logo apareceram: toda a Zona Oeste foi praticamente limpa do tráfico de drogas em um período de cinco meses. Vários comandantes policiais corruptos ficaram sem seu rendimento extra na casa das dezenas de milhares de reais, e resolveram tomar medidas para recupera-los. O resultado foi o fortalecimento de milícias formadas por policiais militares - ativos e reformados -, bombeiros e ex-traficantes. Em dezembro de 2006, cerca de 92 das mais de 500 favelas do Rio eram comandadas por milícias. Parecia ótimo para expor em notícias e trazer fortes dividendos políticos. Na capa noticiosa, eram grupos do Estado defendendo comunidades pobres da ação de traficantes cruéis. O governo carioca gostou e deixou as milícias cresceram num tamanho assustador. Vários grupos de mídia, pessoas dessas comunidades e até o prefeito César Maia, deram apoio a ação das milícias. Logo a verdade começou a aparecer, e as milícias se mostraram versões brasileiras das máfias italianas, cobrando pagamentos semanais em troca de proteção e serviços pirateados - como TV a cabo e internet. Quem não pagava, morria de forma tão cruel quanto as execuções dos traficantes. Os políticos no poder usaram as comunidades "libertas" pelas milícias como feudos eleitorais, trazendo de volta o conhecido voto do cabresto. Em 2008 foi aberta a CPI das Milícias, que em seu relatório final apontou 226 políticos envolvidos com elas, pedindo indiciamento de todos eles, incluindo Álvaro Lins, ex-Chefe da Polícia Civil do Rio, nomeado por Garotinho.

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Esse é um caso extremo - porém comum, mesmo em países ditos desenvolvidos - em que o Estado acaba efetivamente se tornando o mal que ele diz combater. E essa escalada de crime dentro das estruturas governamentais só é possível graças a sistemas políticos falhos e pouco efeitos a fiscalizações, além de extremamente dependentes de investimentos particulares. O próprio princípio da necessidade de repressão por parte do Estado para garantir a ordem terminou por induzir uma situação extremamente desconcertante e particular na Rússia, por exemplo.

No país existem cerca de 30 grupos armados dedicados a garantir a Segurança do Estado - o KGB, hoje FSB, é só o mais famosos deles - e com o fim da União Soviética o governo taxado de democrático e não-autoritário tomou uma atitude louvada por liberais anti-comunistas: pulverizou esses serviços em vários outros grupos separados e os colocou sob a tutela de uma comissão governamental (a Comissão de Atividades de Segurança), que seria fiscalizada por uma outra comissão (a Comissão de Controle das Atividades de Segurança), formada por deputados da Duma eleitos pelo povo. Parecia o fim dos mandos e desmandos dos integrantes da(s) polícia(s) secreta(s) russas… mas a realidade se mostrou extremamente contraditória ao objetivo de Boris Yeltsin, presidente russo na época, e sua gangue.

Na prática, a Comissão de Atividades de Segurança, livre do forte controle do Partido Comunista que existia na era soviética se tornou toda-poderosa, chantageando deputados - e a própria família do presidente -, realizando atentados e mandando fuzilar administradores que os desagradassem, situação mais ou menos parecida a da época do Terror Stalinista, quando a polícia secreta era comandada por Yezhov e depois por Beria (ambos acabaram vítimas do terror, violentamente fuzilados sob ordens dos chefes supremos do Estado soviético). Mas dessa vez eles foram um pouco além e efetivamente se tornaram o crime na Rússia, fazendo nascer a temida Máfia Russa, comandada pelos próprios serviços secretos. Claro que nem todas as atividades mafiosas são controladas pelo FSB e similares, mas boa parte deles sim (como atesta o caso do poderoso grupo criminoso dos Irmãos Alexander e Serguei Larionov). A Comissão de Atividades de Segurança, em maior ou menor grau, controla quase todos os 100 mil mafiosos russos (números levantados pelo próprio serviço secreto), cerca de 40% de toda a riqueza russa, além de estar envolvido em tráfico internacional de armas e entorpecentes. Em suma, é um Estado dentro de outro, com poder de arrancar dinheiro de oligarcas russos (como Boris Berezovsky) e influenciar pesadamente a vida política do país. Em 31 de dezembro de 1999, esse grupo atingiu seu objetivo: colocou um dos seus chefes - Vladimir Putin - no cargo de presidente. O círculo de poder que ele instaurou continua no controle total até hoje.

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Esses dois casos servem para mostrar como as estruturas internas de um Estado - mesmo nominalmente democrático, com gente eleita pelo povo - podem favorecer o aparecimento de grupos repressores que só não são taxados de criminosos por estarem acima da lei. No âmbito internacional, das relações externas entre Estados, tais situações se repetem com frequência, quando os fortes fazem questão de massacrar os Estados mais fracos, visando que uma ideologia contrária a deles seja propagada e sirva como exemplo para outros. Essa situação ficou patente nos mais de 40 anos de Guerra Fria. A polarização extrema desse período só serviu para para mostrar como a ganância de poder dos Estados pode trazer ao mundo consequências drásticas, principalmente em mortes de vida humanas. Houve também uma cristalização de teorias políticas polarizadas: só o Socialismo e o Capitalismo eram teorias válidas, sendo todas as outras alternativas automaticamente espúrias. Mas uma simples observação do comportamento dos Estados-leme das duas idéias políticas leva a clara conclusão de que os métodos deles eram bastante parecidos, somente a casca e a bandeira eram conflitantes. Da mesma forma que a União Soviética patrocinou ditaduras na Alemanha Oriental, Romênia, Hungria e Tcheco-Eslováquia, os EUA fizeram o mesmo na Argentina, no Chile, no Brasil e em vários outros países. Cuba é um exemplo de como essa bipolarização estatal pode causar danos irreparáveis. Fidel Castro, apesar de ser amigo de Che Guevara, nunca foi totalmente comunista nem tinha a intenção de se alinhar com o governo soviético. Mas após a expulsão de Fulgêncio Batista do país, os EUA começaram um embargo ao país, e Castro se viu obrigado a se pedir ajuda à URSS, e o resto da história todos conhecem.

Tal polaridade permanece bem presente até hoje. Muitos apóiam incondicionalmente o Capitalismo por um expresso "medo de uma nova ascensão comunista". Parece uma medida acertada, principalmente se lembrarmos como os países ditos comunistas tratavam seus opositores. Mas esse tipo de ferrenho posicionamento ideológico leva a seu seguidor relevar, esquecer, ou mesmo nem perceber abusos graves de países Capitalistas com relação a direitos humanos, por exemplo. A Ameaça Vermelha faz os que estão borrados de medo dela apoiarem um país tão ruim quanto a União Soviética, principalmente no período pós-Guerra Fria. Ainda durante o embate ideológico entre as superpotências, um sem-número de violações contra milhões de pessoas foi ignorado. Conhecemos os mais clássicos: Vietnã, Afeganistão, ditaduras da América Latina, entre vários outros. Crimes que ficaram sem qualquer penalização para os verdadeiros responsáveis por eles: os Estados superpoderosos e acima de qualquer lei. Olhemos o caso da Nicarágua, para abordarmos melhor o conceito.

Na década de 80, Reagan decidiu iniciar uma cruzada contra o terrorismo internacional (cruzada que teria uma nova encarnação ainda mais cruel em períodos recentes, como falarei mais a frente), e colocou os olhos na Nicarágua. Era um alvo fácil, tava ali perto e nem exigiria muito. É o tipo de medida fácil para aumentar a popularidade. O país havia acabado de passar por uma revolução política interna que tirou do poder a ditadura da família Somoza após 40 anos de atrocidades. Durante essas quatro décadas de terror, os EUA jamais interviram ou planejaram resolver a situação anti-democrática nicaraguense. Em 1979, a guerrilha sandinista toma o poder no país e começa uma política mais igualitária no país: expropriaram terras de latifundiários e as distribuíram para os camponeses, tomaram a indústria das mãos de estrangeiros - que as haviam adquirido através de subornos ao governo de Somoza - e as submeteram ao planejamento estatal. Os 40 anos de Somoza não pareceram terrorismo para os EUA, mas o governo sandinista sim, e por isso o governo Reagan apoiou uma guerrilha anti-sandinista conhecida como Contras. E aí um escândalo estourou…

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O governo americano logo achou um bode expiatório para entregar ao mundo: o coronel Oliver North - que já tinha uma condenação por tráfico de drogas para diversos países da América Central com a ajuda da CIA. As acusações contra ele foram posteriormente retiradas, o que mais uma vez demonstra como o sentido de Justiça só serve para os que são inúteis para as forças estatais. Na Nicarágua, foram dois anos de guerra civil entre a Frente Sandinista de Libertação Nacional e os Contras, apoiados pelos EUA e baseados em Honduras. Em 1986, a corrupção envolvida na ajuda aos Contras ficou tão descarada que o caso Irã-Contras explodiu, revelando uma nefasta conexão entre a venda de armas contrabandeadas ao Irã, e o dinheiro fruto dessa venda indo para apoiar os Contras. Na visão americana, isso era a Liberdade, isso era levar a Paz, o que fizeram logo depois de acusar o governo sandinista de receber apoio de Cuba e da URSS (o que jamais foi efetivamente provado). Mas os EUA esqueceram de observar que o regime político sandinista estava muito mais aproximado da democracia ocidental do que do comunismo soviético: o pluripartidarismo foi preservado, assim como a propriedade privada e as eleições diretas.

A Nicarágua não tinha como responder militarmente a esses ataques americanos, que deram prejuízo material de cerca de 17 bilhões de dólares e vitimaram cerca de 38 mil pessoas. Eles foram aos organismos internacionais que poderiam ajuda-los, e apresentaram seu caso na Corte Mundial, que aceitou o caso perante as evidências e condenou os EUA por "uso exacerbado e ilegal de força" - um eufemismo para terrorismo internacional. O que fez os EUA, amantes da liberdade e da democracia? Não reconheceram a sentença e disseram que o caso não era competência da Corte Mundial. O governo da Nicarágua não desistiu e levou o caso ao Conselho de Segurança, que decidiu em favor do país... com exceção de um veto dos EUA. A saída foi levar para a aprovação da Assembléia Geral, onde eles conseguiram uma nova vitória... que foi vetada pelos EUA, Israel e El Salvador. Os caminhos da justiça se esgotaram para a Nicarágua, e os EUA haviam sido condenados por terrorismo em todas as instâncias possíveis e vetado todas as decisões. Investigações posteriores ainda revelaram que os americanos davam ordens para os Contras atacarem alvos civis para espalhar "terror psicológico" (palavras do relatório americano enviado aos Contras). E boa parte da mídia americana, como reagiu ao terrorismo praticado pelo seu governo? Comemorou! Sim, elogiou os métodos adotados e louvou como os EUA asseguraram a vitória da democracia. A revista Time gostou bastante da forma como os EUA se esforçaram "para acabar com a economia e posicionar-se contra uma guerra longa e mortal que duraria até que os nativos tirassem o governo do poder pelas próprias mãos". O New York Times foi ainda mais cínico e publicou uma matéria de capa intitulada "Unidos na Alegria". A mídia ainda fez pior e condenou veementemente todos os esforços do exército da Nicarágua de se defender, atingindo diretamente a soberania do país.


"Ahh, mas isso era nos tempos da Guerra Fria, onde todos os países estavam no limite, inclusive os EUA", pode pensar uma pessoa mais resistente a mudanças no modelo estatal de administração. Bom, após a dissolução da União Soviética e a vitória na Guerra do Golfo, os EUA se tornaram a maior e única superpotência do mundo - mesmo não sendo grande o suficiente para dominar o planeta por completo. Então, se os EUA eram defensores da democracia, seria no período pós-Guerra Fria que poderiam demonstrar essa inclinação. Cerca de 10 anos depois um superevento envolvendo o país mais poderoso do mundo nos demonstrou o quão amante da paz e da democracia ele era, além de nos dizer bastante sobre o funcionamento de relações entre Estados. No dia 11 de setembro de 2001, dois aviões se chocaram contra dois dois edifícios comerciais mais importantes do planeta, no que foi classificado como o maior ataque terrorista da história (isso se excluirmos o terrorismo estatal, como duas bombas atômicas, por exemplo), com 2.993 mortos.

O ataque em si foi significativo, e mesmo com sua ampla magnitude ensinou mais ao mundo nos desdobramentos posteriores a ele. Pela primeira vez desde seus embates com a Inglaterra no século XIX, os EUA não eram atacados diretamente em seu próprio território, e os que perpetuaram o 11/9 trataram de mudar isso. Logicamente que tal evento não foi isolado, seria quase estúpido pensar que um ricão numa montanha simplesmente teve a idéia de chamar uns terroristas, e manda-los para os EUA explodirem uns prédios. Quem desenvolve esse tipo de pensamento simplista talvez tenha um desejo gigantesco de ver o mundo num ângulo bidimensional e maniqueísta, colocando os maus e os bons separados. A bem da verdade, é mentalmente reconfortante olhar a questão assim, de um ângulo individualista: um cara meio insano, com uma ideologia fundamentalista não gosta do modelo democrático e financeiro do Ocidente - na verdade tem inveja dele - e decide tocar o terror. Assunto encerrado… e que comecem as perseguições!

Analisando um pouco a história é relativamente fácil chegar às raízes (mesmo que de modo ainda superficial) de como Osama Bin Laden - o homem apontado como autor dos atentados - pôde perpetrar tais atos, e eles também nos revelam um pouco mais da mentalidade estatal, principalmente americana. Em primeiro lugar é interessante observar a Guerra contra o Terror decorrente dos atentados do 11/9 (não vou me ater a Teorias da Conspiração quanto aos autores do ato aqui, nesse texto aceitarei integralmente que foi Bin Laden e a Al-Qaeda que arquitetaram os atentados). O próprio inimigo Terror é perfeito... não tem rosto, não tem uniforme e o termo pode ser aplicado a um sem-número de organizações. Terror/Terrorismo é um arquétipo psicológico poderoso, pois envolve algo desconhecido, oculto e nominalmente amedrontador. A simples menção do termo e a rotulação de um grupo com esse nome faz a maioria da população ir contra ele, mesmo que efetivamente não exista nada de concreto pra provar isso - o rótulo "Dilma terrorista", já devidamente retirado após a vitória dela, nessas eleições mostrou bem isso, um monte de gente fisgou a história sem pestanejar.

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Terrorismo é a contraposição perfeita de um espírito nacionalista culturalmente inconsciente que existe na maioria das populações, é só inflama-lo da forma correta que uma espécie de senso primata de defesa territorial é ativado. É só apontar o inimigo, lançar o osso, que todos vão atrás.

Como exemplo: Stalin, na II Guerra Mundial, quando viu que os russos não defenderiam o governo dele e os próprios militares estava se entregando aos milhões, não apelou para o comunismo, governo de trabalhadores ou mesmo ao líder Lênin... mas sim a Pátria, a Mãe Rússia. E todos sabem como funcionou perfeitamente, e a Alemanha foi vencida violentamente. Mas os nazistas não eram terroristas, eram um inimigo com características bem demarcadas e até previsíveis. Já os terroristas podem estar em qualquer lugar, não tem sede, uniforme ou coisa parecida, e por isso a guerra contra eles pode ser eterna, e os EUA se esforçam ao máximo para tornar isso prático e vantajoso. Para colocar a população americana "no clima", eles utilizam o nacionalismo/patriotismo, que nada mais é do que uma chave psicológica que ativa conceitos comportamentais retrógrados, primatas. E esses conceitos, por serem extremamente antigos e ainda arraigados na psique humana, se sobrepõe a coisas como direitos civis, sistemas de justiça e outras coisas absolutamente mutáveis e que vieram com a cultura e convivência social. Também é maior que a própria razão. Imagine situação: um brasileiro é surrado no Irã; e com muita probabilidade, antes mesmo de sabermos os possíveis motivos que podem ter levado a isso (não que esses motivos necessariamente justifiquem o espancamento), vamos interpretar essa atitude como uma afronta a todos os brasileiros. Esse tipo de chave psicológica primitiva é largamente usada por Estados para que toda uma população aja de acordo com os interesses dele. Quer um exemplo histórico? Pesquise sobre a Guerra da orelha de Jenkins.

O que muitos parecem não entender é que o terrorismo radical islâmico não existe de fato, ele é uma criação americana que saiu de controle. No fim da década de 80 - Anos Reagan de novo, o início da escrotização que o século XXI herdou foi nessa época, talvez numa intensidade maior que a Era Nixon - os EUA viram a oportunidade de dar à União Soviética uma guerra desgastante como foi o Vietnã para eles. A tática foi simples e envolveu financiar e treinar guerrilheiros islâmicos para desestabilizarem o governo do Afeganistão, que era comandado pelos soviéticos. O governo americano investiu cerca de US$ 3 bilhões de dólares para criar o que ficou conhecido como exército mujahedeen. O dinheiro para financiar essas operações é o que os serviços secretos classificam como "sujo", pois teve origem no tráfico internacional de heroína. Cerca de 35 mil mujahedeens lutaram no Afeganistão na guerra que se iniciou contra os soviéticos, e outros 100 mil foram treinados - boa parte deles vindos de outros países islâmicos, que recebiam propaganda americana para se alistarem e lutarem contra o "grande demônio anti-islâmico".

Segundo Milton Bearden, chefe do escritório da CIA no Paquistão de 1986 a 1989, esses estrangeiros traziam cerca de US$ 300 milhões de financiamento a guerra anualmente, o que contribuiu para o crescimento de redes secretas de radicais, que se tornaram ricas e independentes financeiramente. Após o fim da campanha soviética - e da própria URSS - no Afeganistão, os guerrilheiros foram abandonados, eles não eram mais necessários aos interesses norte-americanos. Os mujahedeens usaram a chegada de mais de meio milhão de soldados americanos a Arábia Saudita - o país mais sagrado do islamismo, que tem uma família de monarcas bastante obedientes aos EUA no poder - na época da Guerra do Golfo como estopim para alimentarem o ódio contra os americanos. Bin Laden, filho de um iemenita que se tornou bilionário, na época era só um tesoureiro dos guerrilheiros, até se utilizar de diversas táticas de guerra eficientes, e virar herói logo depois de ser expulso da Arábia Saudita - e usar o treino que recebeu da CIA para preparar atentados contra os EUA. Claro, existem teorias que dizem (com bastante lógicas e razoavelmente embasadas) que setores do governo americano de fato ajudaram a Al-Qaeda a atacar os EUA - principalmente se focarmos as relações dos Bush com os Bin Laden e os Saudi (príncipes da Arábia Saudita), num longo jogo de troca de armas por petróleo -, mas não entrarei nesse assunto, isso exigiria outro texto, com muita especulação.

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Então, o 11/9 deveria ser encarado, no mínimo, como uma consequência de ações mal fadadas e criminosas dos próprios Estados Unidos. Mas os americanos foram além e usaram o nascido terror internacional - criado por eles - para espalhar suas forças multinacionais no Afeganistão, pilharem o país e iniciarem um genocídio. Uma das primeiras medidas da diplomacia americana assim que entraram no Afeganistão foi iniciar uma guerra biológica subjetiva, mandando o Paquistão impedir que toda a ajuda da ONU e de todas as instituições humanitárias entrassem no país - mesmo sabendo que de 7 a 8 milhões de afegãos dependiam dela. No final de outubro, o governo Taliban fez uma proposta: entregaremos Bin Laden como um prisioneiro, se for apresentada alguma evidência que ele é culpado e se as tropas americanas sairão do país imediatamente (admitamos que são propostas bem razoáveis). Um assunto tão importante como esse apareceu apenas em uma pequena nota de página escondida no Boston Globe, sendo completamente rejeitada nos outros grandes jornais americanos. Unindo o modo como os EUA solaparam a entrada de comida para civis afegãos feita pela ONU e rejeitaram qualquer proposta para não iniciar a guerra, podemos entender quem talvez representa o terrorismo internacional - e mata vidas inocentes com objetivos político-econômicos. Se formos analisar o modo como os EUA agiram no Iraque (e planejam agir no Irã), chegaremos a conclusões bastante análogas: financiam alguém que esteja disposto a derrubar um governo que os esteja incomodando, abandonam esse alguém, que depois se volta contra ele. É o que a CIA chama de Efeito Bumerangue, bastante comum no século XX, devido a essa política externa predatória dos EUA.

Mas os EUA não usaram o terrorismo somente para iniciar uma campanha de massacres contra populações civis, mas começaram um cerco interno baseado em leis que em outros tempos jamais seriam aprovadas. Foi mais ou menos a tática stalinista para fazer seu regime sobreviver aos tormentos da guerra: criar uma poderosa máquina repressora para matar inimigos internos enquanto destruía os externos. Em meados de 1941 (oficialmente em 1943), Stalin deu plenos poderes ao III Departamento da GRU (serviço secreto do Exército), responsável pela contra-inteligência, para que caçasse inimigos do Estado. O nome do novo serviço era SMERSH (SMERt SHpionam, Morte aos Espiões). A função da SMERSH era identificar e matar "traidores da pátria" e espiões estrangeiros. Como eram tempos de guerra, com o país a beira de um colapso, o golpe foi especialmente violento. Qualquer um que falasse com um alemão era morto, além de existirem unidades do serviço em cada quarteirão, subornando pessoas para que testemunhassem contra seus próprios vizinhos.

Dentro do Exército Vermelho, o SMERSH criou um mecanismo de fazer salsichas: os Batalhões Penais. Os Batalhões Penais eram simples: uma companhia da guarda e comando, com soldados e sargentos que recebiam quatro vezes mais o salário normal, além de serem selecionados pela raiva e fanatismo na defesa ao regime soviético; o restante era composto por três companhias recheadas de traidores selecionados pelo SMERSH. A companhia de comando ficava na retaguarda, apontando suas armas para os traidores. As três companhias de traidores tinham duas opções: tentar fugir e ser metralhados pelos guardas, ou atacar com todas as forças os soldados inimigos e serem poupados. Eles eram covardes, mas não suicidas, por isso os ataques dos Batalhões Penais eram especialmente violentos e altamente eficientes - a política de terror de Hitler para com a população também ajudava muito. Se um condenado por traição sobrevivesse a 10 ataques com batalhões penais, ele era liberto - segundo estatísticas dos militares russos, essa taxa de sobrevivência foi de cerca de 0,8%. O mesmo sistema funcionava na Força Aérea. Nessa época, os bombardeiros contavam com metralhadores que ficavam na parte traseira dos aviões para atacar os aviões inimigos. Era ali que os traidores eram colocados. Naturalmente, por garantia, os metralhadores-traidores eram presos na cadeira e, ao contrário dos pilotos, não recebiam pára-quedas. Ou seja: o destino dele dependia da vitória dos aviões soviéticos. O prêmio era o mesmo: cada vôo era menos um ano de pena, e como as penas-padrão eram de 10 anos, 10 vôos e a liberdade chegava. Fora isso, a SMERSH espalha o terror nos batalhões regulares das forças armadas, procurando desertores, espiões, ou alguém que cochichasse falando mal de Stalin. Além, é claro, de aproveitar do próprio poder para roubar dinheiro, mulheres e tudo que estivesse a mão.

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Claro que mais uma vez, esse é um caso extremo, de tempos de guerra, mas algo análogo tomou forma nos EUA. O nome do SMERSH americano se chama Departamento de Segurança Interna, que atua em conjunto com agências especiais americanas, como a CIA, NSA, FBI, Departamento de Justiça e outras. Apenas 45 dias depois do 11 de setembro, o presidente George Bush envia ao Congresso Americano a Lei Patriota, e a presidência do Legislativo americano impediu e brecou qualquer tentativa de debate por parte dos congressistas - além de só permitir discursos do tipo "Ou está conosco ou contra nós" - e a lei terminou aprovada no Senado por 96 a 1. John Ashcroft, que na época era Secretário de Justiça dos EUA, deu a seguinte declaração ao Comitê Judiciário do Senado: "Para aqueles que assustam as pessoas amantes da paz com fantasmas de perda de liberdade, minha mensagem é a seguinte: suas táticas ajudam apenas os terroristas, pois estes corroem nossa unidade nacional e diminuem nossa resolução. Eles dão munição aos inimigos dos EUA e causam hesitações entre os amigos". O sentido da declaração é claro: ou você aceita a Lei Patriota, ou é um terrorista, não existe meio termo. Não vou me ater aqui a examinar minuciosamente a Lei Patriota, mas basta dizer que ela elimina a necessidade de provas ou mandados judiciais para fazer escutas, buscas e apreensões, investigações secretas. Além disso tornava os imigrantes inimigos em potencial e dava o direito do governo prender um não-cidadão por até seis meses sem qualquer interferência judicial. Ou ainda dá ao presidente dos EUA o direito de declarar qualquer cidadão (sim, cidadão) americano um "combatente inimigo", podendo, em caso de falta de provas, manda-lo para o limbo de Guantánamo por tempo indefinido. Lindo, não? Essa lei foi aprovada definitivamente em 2006, e sinceramente não sei se Barack Obama mandou mexer em algum conteúdo dela, mas creio que não.

"Mas isto está afetando somente uma penca de imigrantes que estão nos EUA como ilegais, gente de bem não é afetada", podem pensar alguns. Ledo engano, a sanha de perseguição das autoridades dos EUA vão atrás de todos, a não ser eles próprios, os verdadeiros terroristas. Um dos terroristas que controlavam os aviões que se chocaram nas torres tinha visto de estudante - embora nunca tenha pisado numa instituição educacional - e o Departamento de Justiça achou por bem controlar rigorosamente os estudantes estrangeiros. Não estamos falando de centenas de estudantes, mas de centenas de milhares de estudantes estrangeiros. Somente no período 2002-2003, 586 mil estrangeiros entraram nos EUA para estudar, e eles representam o futuro dos avanços científicos americanos. Cerca de 41% dos graduados em engenharia nos EUA não são americanos, assim como 39% dos formados em matemática e todos os cursos ligados a computação. Um terço de todos os ganhadores do prêmio Nobel pelos EUA não nasceram em solo americano.

São números bem sólidos que expõe uma aparente verdade: sem os estrangeiros os EUA provavelmente não teriam metade dos avanços tecnológicos que possuem - inclua na conta aí também que os estrangeiros contribuem com o sistema educacional, ajudando a formar novos cientistas. Mesmo com esses dados à favor dos estudantes, o governo viu no corpo estudantil um bom lugar para reprimir, e criou o Sistema de Informação de Estudantes e Visitantes Estrangeiros (SEVIS), ligado ao Departamento de Segurança Interna. As universidades devem manter dados extremamente minuciosos sobre cada estrangeiro que ingresse em algum curso. Onde eles moram, o que estudam, com quem conversam, quais matérias têm dificuldades, fraternidades ou grupos que pertencem. Um mínimo erro - como uma rasura - pode mandar o estudante de volta para o país de origem.

Yashar Zendehel, um iraniano estudante de economia da Universidade do Colorado, foi preso e quase deportado em 2002 por... ter créditos universitários insuficientes. Estabeleceram uma fiança de US$ 5 mil, mas por estar sem dinheiro no momento dormiu na cadeia e precisou da intervenção da faculdade para sair. Nessa mesma leva, outros cinco estudantes foram presos em Colorado por créditos insuficientes, o que mostra o espírito paranóico pós-11/9. Cerca de cinco mil estrangeiros foram presos nos EUA de 10/2001-10/2003 dentro do guarda-chuva da Lei Patriótica; de todos esses, só três foram acusados de terrorismo; dois foram inocentados, e o terceiro foi liberto depois de ter o recurso julgado. Em outras palavras: a Lei Patriótica, em seus dois primeiros anos, não serviu pra absolutamente NADA, apertar as leis não teve utilidade que o governo esperava, pois nenhum terrorista foi detido - provavelmente porque não existem.

Prisão para imigrantes em Michigan

Nem estrangeiros convidados a visitar os EUA escapam da insanidade do governo. Eugene Angelopoulos, professor da Universidade Técnica Nacional de Atenas, foi chamado pela Universidade de Nova York para uma conferência de filosofia em meados de 2003. Sem problemas... só que, Angelopoulos, assim que chegou ao aeroporto, foi algemado e preso, levado para o escritório do FBI. Lá ele ficou preso por cinco horas, sem saber porque ou quando seria solto. Depois um agente entrou na sala e perguntou: "O senhor é contra a guerra [do Iraque]?" "Por isso que me algemou?" "Responda a pergunta" "Sim, sou..." "O senhor é antiamericano?" "O QUE??? Eu sou contra a guerra. Isso é ser antiamericano?". O agente mandou anotar e fez uma série de perguntas a Angelopoulos sobre um possível envolvimento dele com um grupo terrorista. Ele foi liberado depois de uns minutos de conversa, mas somente após concordar com uma segunda entrevista. Ele iria pra conferência àquela noite, mas reescreveria o texto de seu discurso pra refletir sobre a situação que acabara de passar. No dia seguinte ele iria embora do país sem comparecer à segunda entrevista, e sob proteção do cônsul-geral da Grécia. Esses são só exemplos do espírito de paranóia que um Estado impõe a sua população com o intuito de adquirir mais poder.

Em 21 de dezembro de 2002, o governo americano anunciou que todos os imigrantes acima de 16 anos de 25 países árabes e predominantemente muçulmanos deveriam se registrar. Era gente vinda - às vezes fugida - da Líbia, Irã, Iraque, Sudão e Síria. Parecia ser simplesmente um ato do burocrático do Departamento de Imigração, mas a realidade foi outra. Em Los Angeles, por exemplo, as algemas para prender esses imigrantes acabaram. Para maximizar o efeito terror da ação, as autoridades transportaram vários presos do local onde moravam, levando milhares de parentes a não saber onde estavam seus familiares. Dos mais de 85 mil que voluntariamente se registraram no programa dos EUA nos dois anos que ele funcionou, cerca de um quinto entrou direto no estado de deportação. Nos primeiros 10 meses do funcionamento do programa, algo em torno de 15 mil, somente entre imigrantes paquistaneses, tentaram fugir dos EUA, indo pro Canadá, Europa ou mesmo Afeganistão... mas foram devolvidos em pontes aéreas pagas pelo governo americano.

Uma história específica mostra bem como um clima pior foi instaurado, se transformado em anti-islamismo nos EUA no pós-11/9. Mohammed Hamdani, um paquistanês de 23 anos, era um cadete da polícia e técnico de emergências médicas. No dia dos atentados foi ajudar as vítimas do World Trade Center. Mas ele não chegou a ser visto por lá, o que gerou uma onda paranóica absurda na imprensa americana. A família dele espalhou fotos o procurando, mas ficou horrorizada ao ler uma reportagem no New York Post com o seguinte título: Desaparecido... ou escondido? O mistério do cadete paquistanês da NYPD. A polícia foi na onda terrorista da matéria - deve-se ficar atento que não existiam provas de envolvimento dele em nada suspeito, eles basearam certas insinuações simplesmente no desaparecimento dele - e fez cercos a casa dos Hamdani, os interrogando ameaçadoramente. Dias depois, o DNA dele foi encontrado nos destroços das Torres... e o governo teve que pedir desculpas publicamente pelo ocorrido.



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Nesse ponto muitos devem estar se perguntando se existem alternativas ao modo de governo baseado no Estado e na Política. A resposta é sim, sempre existem alternativas válidas a qualquer coisa, mas as raízes capitalistas e competitivas em que se baseiam as sociedades ocidentais (e orientais também, a essa altura. Mas quando falo ocidental, me refiro ao modo de pensamento ocidental, principalmente o filosófico, bastante herdado dos gregos) nos dão a impressão que o ruim é melhor que o péssimo, que tudo é bipolar.

Aristóteles foi um dos principais desenvolvedores dessa dualidade. Tudo pode - e deve - ser configurado e enquadrado em Sim ou Não, Certo ou Errado, Verdadeiro ou Falso, Branco ou Preto. Não existe o Talvez, o Incerto, o Cinza... a realidade do jogo platônico-aristotélico que herdamos e nos baseamos é inteiramente construída dentro de preceitos absolutos que se opõem. Por isso que logo imaginamos uma sociedade sem Estado como uma sociedade bagunçada, com indivíduos ocupados apenas em prejudicar o próximo (como Hobbes tanto afirmava).

Tal desvirtuação semântica, segundo os registros mais confiáveis que possuo, se originou entre os filósofos gregos - sim, voltemos a eles. Era uma prática relativamente comum entre eles mudar o sentido das palavras para se adaptarem a um modelo distorcido de realidade que comprovasse suas próprias teorias. Como exemplo ficam os próprios Sofistas. A palavra Sofisma significa sabedoria, conhecimento superior, o que diz muito sobre a natureza deles de transmitir conhecimento para quem quisesse (mesmo que em troca de dinheiro. Mais sobre os Sofistas nesse meu texto). Mas, como as idéias deles iam de encontro a do grupo mais poderoso de filósofos da época - os Seguidores de Sócrates -, estes cuidaram de realizar uma campanha difamatória para mudar o sentido da palavra Sofisma, que passou a ser enganação, uma mentira propositalmente maquiada por argumentos verdadeiros, para que possa parecer real.

Outro caso parecido ocorreu com os Cínicos. A linha filosófica Cínica, fundada por um discípulo de Aristóteles, pregava um total desapego aos bens materiais. Mais uma vez, ela ia de encontro a alguns conceitos dos Filósofos dominantes da época e uma nova campanha difamatória rolou, mesmo com esse grupo defendendo um forte desenvolvimento das virtudes morais. Para os Cínicos, bastava o homem ser virtuoso para alcançar a plenitude, a felicidade. A esse conceito os Cínicos chamavam de Autarquia, que era o estado de auto-suficiência dos sábios. A libertação de grilhões externos - coisas materiais, reconhecimento alheio e mesmo a preocupação com a saúde, o sofrimento e a morte - seria justamente o caminho para a felicidade. O motivo para a difamação é bastante claro para mim, e envolve justamente o conceito político de Platão, que defendia que os filósofos eram os mais preparados para ocupar os cargos públicos. Por esse motivo, Cinismo não entrou para a história como renúncia a bens materiais ou busca pela virtude, mas como descaramento, desaforo, provocação, imprudência.

Foi dessa forma, afastando os seus opositores e destruindo suas obras, que a Filosofia Platônica-Aristotélica (derivada da Socrática, naturalmente) passou para a história como a mais pura, correta, o que dá a ela aparência de única. Historicamente é natural que no Ocidente esse tipo de situação ocorra, inclusive num campo que deve ter lugar para todo o tipo de teoria: a Ciência. Uma elite científica canoniza dogmas e conceitos e literalmente impede que outro tipo de teoria seja desenvolvida ou mesmo pesquisada. Como exemplo rápido (em breve escreverei um texto sobre Fundamentalismo Científico, o assunto exige mais espaço que um ou dois parágrafos) fica a teoria darwinista com relação a Evolução das espécies. Uma vasta maioria da população deve pensar ser a teoria da Evolução de Darwin - baseada em competitividade - a única com base científica que discorra sobre o assunto. Analisando um pouco as obras científicas sobre o assunto logo se entende que a teoria darwinista é somente a pregada pela comunidade científica que está no poder, o que não faz dela a única. As outras são suprimidas, não recebem qualquer destaque. O fato da teoria de Darwin, não por coincidência a que melhor se encaixa na dinâmica capitalista competitiva, ser a mais conhecida deriva do fato das outras serem relegadas a segundo plano por motivos econômicos.

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No dia 24 de setembro de 1981, a revista Nature, o periódico científico mais respeitado da Inglaterra, publicou uma reportagem condenando à fogueira o mais recente livro do PhD Rupert Sheldrake. O tal livro era A New Science of Life, que propunha uma Teoria Evolucionista que ia de encontro a Seleção Natural de Darwin. No livro, o Dr. Sheldrake teorizava sobre a existência do que ele chamou de Campo Morfogenético, que seria como uma memória coletiva das espécies, o que explicava como tipos diferentes de animais contém ferramentas adaptativas análogas. Tal teoria torna científico o conceito jungiano de Inconsciente Coletivo, e ainda tira dos genes a responsabilidade de transmitir os conteúdos presentes nele - o que a Biologia listou como impossível.

O Campo Morfogenético seria como estações de TV transmitindo informações básicas às espécies, e os genes seriam as TVs em si. Piotr Kropotkin (sim, um dos pensadores pioneiros do Anarquismo Filosófico), em 1902, também propôs uma teoria evolucionária diferente da darwinista, exposta em seu livro Mutualismo: Um Fator de Evolução. Ali ele expõe a ajuda mútua entre insetos e outras espécies como um fator mais importante para a evolução do que a competição, e se cerca de argumentos e exemplos tão bem fundados quanto Darwin. Tais teorias foram reputadas, ou mesmo suas provas analisadas? Não… foram simplesmente abandonadas pela maioria dos cientistas por motivos obscuros - Eu diria político-econômicos, mas deixa isso pra depois.

Existem muitos outros exemplos - dentro e fora da Biologia - que mostram como dogmas elitistas são a base de muito do pensamento ocidental. A História básica (aquela ensinada nas escolas) geralmente só se fixa em ensinar sobre as mesmas civilizações - Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, Mesoamérica - não coincidentemente as que melhor espelham os conceitos de Estado e organização social moderna do Ocidente. Mas como disse, deixemos a Ciência para outro ensaio. O que importa é conectarmos essa idéia de imposição dogmática com o modo como o pensamento relativo a grandeza do Estado se incrustou em todo o mundo.

Naturalmente, existem povos que vivem sem Estado, assim como teorias anti-Estado. A mais conhecida dessas teorias é a Socialista, que na sua aplicação acabou desvirtuada ao ponto de se tornar um amplo fortalecimento do poder ditatorial do Estado, como bem mostra as aplicações soviéticas e chinesas, por exemplo. Em sua base essencialmente teórica, o Socialismo visava dar aos trabalhadores força suficiente para resistirem a dominação elitista, como a política dos Sovietes nos primórdios revolucionários russos demonstrou. Entretanto, os bolcheviques utilizaram a forma como os Sovietes solaparam o poder czarista para instituírem eles mesmos uma nova ditadura que centralizava sob o guarda-chuva deles todas as atividades do país. Voltando para o exemplo de Darwin, o Capitalismo seria como o Evolucionismo e o Socialismo como o Criacionismo. O Aristotelismo cria a impressão dos dois conceitos serem insolúveis e não se misturarem, e esse conflito naturalmente esmaga qualquer tentativa Cinzenta de propor alguma teoria que una as duas - ou mostre algo completamente diferente. Quem apóia um dos pontos defendidos pelo Socialismo é automaticamente perseguido pelos defensores do Capitalismo como se fosse integralmente Socialista. Quem apóia o Campo Morfogenético na visão fundamentalista automaticamente cospe em cima de Darwin. O mesmo princípio pode ser aplicado a uma infinidade de coisas. É a Lógica Dualista Aristotélica.

David Graeber (esq), que não teria seu contrato com a Universidade de Yale renovado por causa das suas idéias anarquistas

Em meados da década de 1980, David Graeber viajou para o Madagascar para fazer uma pesquisa para o PhD em Antropologia dele. Ficou por lá uns seis meses e formulou uma Teoria Prática de Aplicação do Contrapoder efetivamente calcada em experimentalismo e não unicamente em captações teóricas. No continente africano, Graeber conheceu vários povos e sociedades que não se baseavam em hierarquias ou Estados, o que lhe permitiu observar e encontrar outros grupos que viviam sob condições parecidas. O Contrapoder ali presente seria um conjunto de instituições sociais e auto-geridas que existiriam justamente para impedir que estruturas de poder os governe - sindicatos, milícias populares. Em diversos países esse tipo de mobilização popular acabou se incorporando e beneficiando o Estado e o Governo, mas em outros assumiu um caráter fortemente radical e revolucionário, tanto física quanto psicologicamente. Em alguns casos também, as instituições de poder utilizam a essência dessas organizações para joga-las num contexto social e desmoraliza-las. O "problema" é que esses meios alternativos de auto-gestão não constroem ferramentas para garantir a própria longevidade, e acabam despedaçados ante a força de ataques exteriores ou por fragmentações decorrentes de facções internas. As comunidades libertárias que prosseguem em sua existência são justamente as que venceram essa barreira psicológica de aceitação do Estado e uma capacidade de mobilização ou simplesmente fuga quando pressentem a chegada do poder. Todos esses elementos se integraram ao ensaio sobre Antropologia Anarquista de Graeber.

Um dos exemplos mais recorrentes para mostrar como uma auto-gestão de trabalhadores pode funcionar é a Comuna de Paris. Classificado como o primeiro governo operário da história, ela foi fundada em 1871, após a invasão alemã a capital francesa. Mas o governo francês comandado por Louis Thiers, amplamente favorável a capitulação frente aos germânicos, não gostou que formas autônomas de gestão ganhassem vida e servissem de exemplo para o resto dos trabalhadores amotinados - somente os parisienses estavam resistindo a invasão alemã, o resto havia se entregado. Oficialmente, o governo da Comuna durou de 26 de março a 28 de maio, mas antes disso já enfrentava tanto as tropas invasoras quanto as francesas. Posteriormente eles seriam massacrados pelos militares, resultando numa chacina onde mais de 30 mil trabalhadores perderiam suas vidas, 38 mil seriam aprisionados e 7 mil deportados. Mas nessas poucas semanas de governo operário, uma série de medidas foram tomadas. O tipo de decreto do governo da Comuna, simbolicamente mostra bem como provavelmente seria uma administração a longo prazo feita por ele.

O site Espaço Acadêmico descreve algumas dessas medidas:

«A Comuna suprimiu o serviço militar obrigatório e o exército permanente, substituindo-o pelo povo armado. Isentou os pagamentos de aluguel de moradias durante o período da guerra; suspendeu a venda de objetos empenhados nos estabelecimentos de empréstimos (mais tarde ordena a supressão das casas de penhor, pois estas eram uma forma de exploração dos operários); decretou a separação da Igreja do Estado; estabeleceu um teto salarial para os funcionários públicos que não deveria exceder ao dos trabalhadores; destruiu símbolos do chauvinismo e de incitação do ódio entre as nações (a bandeira da Comuna era a bandeira da República mundial); ordenou a ocupação das fábricas fechadas pelos patrões e organizou o reinício de suas atividades pelos operários organizados em cooperativas; declarou extinto o trabalho noturno dos padeiros. A Comuna, porém, não teve força ou clarividência para tomar e nacionalizar o Banco da França, o que a deixou economicamente nas mãos de seus inimigos.»


Uma experiência essencialmente anarco-socialista também foi experimentada por algumas regiões da Espanha - com ênfase na Catalunha e Aragão - na época da Revolução Espanhola, no período de 1936-39. Com o desenvolvimento econômico espanhol no final do século XIX, várias organizações socialistas e anarquistas se desenvolveram e criaram bolsões de governos operários independentes da autoridade central. A poderosa Confederación Nacional del Trabajo (CNT) e a Federação Anarquista Ibérica (FAI) se uniram, recusaram-se a participar das eleições partidárias e proclamaram governos revolucionários e independentes em várias regiões espanholas, criando um vazio político extremamente forte.

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Segundo a Wikipedia: "Os trabalhadores nela organizados a controlam em regime de democracia direta. Nenhum cargo é pago. Os sindicatos, além de usar a ação direta como meio para defender os interesses dos trabalhadores, criam escolas e várias atividades educativas, que procuram suprir a inexistência de uma educação pública estatal. Tais escolas possuíam forte tendência anticlerical, o que torna-as ainda mais escandalosas aos olhos dos católicos". Em oposição a essas organizações, surgiu uma união da Igreja Católica com a elite agrária do país, grupos que se opunham a qualquer tipo de forma ou concessão de poder para trabalhadores. Com essa forte oposição formada, uma série de acontecimentos começou a derrocada da Revolução que se estabelecia. A CNT e outros sindicatos são considerados ilegais e passam a ser perseguidos tanto por militares quanto por mercenários contratados. Tanto guerrilheiros de esquerda como pacifistas foram assassinados pelas forças do governo. Grupos armados de orientação anarquista como o Los Solidarios foram formados com a intenção de resistir ao terror empreendido pelo Estado espanhol. Com a vitória de um governo de esquerda nas urnas, um golpe militar apoiado pela Igreja Católica parecia cada vez mais iminente. Vários empresários fugiram do país com medo de uma guerra civil, e os trabalhadores aproveitaram esse vácuo administrativo para coletivizarem fábricas e terras (sem qualquer ordem dos grupos esquerdistas eleitos), que eram dirigidas pelo recurso da auto-gestão.

Entretanto, no dia 18 de Julho de 1936, o golpe militar começou, lento, aos poucos. O governo pareceu extremamente desorientado e em um dia de golpe quase toda a sua estrutura estava desbaratada pelos militares rebeldes. Os sindicatos trataram de armar os trabalhadores para impedir a vitória golpista, carros com as siglas CNT-FAI patrulhavam as ruas. O povo terminou por garantir uma vitória preliminar sobre os militares e uma revolução se instaurou. Símbolos da antiga sociedade - dinheiro, igrejas, ídolos - eram queimados, casas de burgueses eram saqueadas e as coletivizações se espalharam por todo o país.

Um exemplo interessante dessas auto-gestões indicando o sucesso delas pode ser encontrado na administração das barbearias (Bryan Caplan): "Antes da Revolução, haviam muitas barbearias pequenas, muitos desempregados, e os que estavam empregados trabalhavam longas horas por dia. Após terem tomado posse das barbearias, os cabeleireiros decidiram fechar várias delas, reduzindo a competição entre locais próximos. Além disso, todos os barbeiros foram admitidos, resultando na diminuição das horas de trabalho para cada indivíduo. Como o lucro deixou de ser subtraído pelo patrão, eles passaram a receber mais, e a poder reinvestir em seus instrumentos de trabalho, melhorando o atendimento".

Até mesmo a milícia popular que atuava militarmente na manutenção eram tomadas por um certo Caos, que entretanto funcionava muito bem. Os soldados aceitavam a disciplina voluntariamente e os comandantes eram eleitos por eles - e poderiam perder o mandado a qualquer momento, caso a confiança neles depositada diminuísse. As mulheres tiveram seus direitos assegurados e puderam frequentar lugares em que antes eram proibidas de ir. A política do grátis se estendeu a vários produtos e um certo racionamento se foi instaurado a outros, visando impedir que poucas pessoas monopolizassem qualquer bem - é novamente importante frisar que todas essas medidas eram populares, não impostas por nenhuma forma de governo externo.

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Mas os olhos de outros Estados vizinhos foram colocados sobre os desdobramentos revolucionários dentro da Espanha. Uma aliança de países fascistas - Alemanha, Itália, Portugal - se organizou para derrubar a Revolução militarmente, fornecendo tropas e conselheiros militares para os golpistas - até padres foram treinados para serem snipers no alto das Igrejas. Entretanto, não é só do Fascismo que a classe trabalhadora encontrou oposição. EUA, Inglaterra, França e outras potências aliadas além de não a ajudar, empreenderam um bloqueio comercial somente a parte republicana (revolucionária) da Espanha. Nem mesmo a União Soviética ajudou os revolucionários, se limitando a vender alguns armamentos que se mostraram pouco úteis. A ajuda veio na forma das Brigadas Internacionais, mais de 40 mil trabalhadores vindos de todas as partes do mundo - a maioria da França e Alemanha, mas o contingente era integrado até mesmo por brasileiros - se voluntariaram para combater pela causa operária, condenando-se a uma prisão ou morte certa caso voltassem aos seus países. A Revolução terminou por ser esmagada completamente em 1 de Abril de 1939, e a Espanha mergulhou definitivamente no Fascismo da ditadura de Francisco Franco por mais de 35 anos.

No caso da Espanha ficou claro (ou pareceu ficar) como um modelo de anarco-socialismo nos moldes propostos por Kropotkin e Bakunin poderia funcionar - e efetivamente funcionou -, mesmo que sob intensa pressão militar interna e externa. Também ficou claro como todos os maiores grupos políticos da época - Capitalismo, Comunismo, Fascismo - se uniram para sufocar qualquer modelo ou fagulha de ideologia que mostre ao mundo como funciona uma nação sem Estado, sem domínio dos poderosos. Tal iniciativa foi esmagada justamente pelo caráter pacifista desse tipo de gestão, que se opõe às práticas predatórias e criminosas de Estados e nações listados nesse ensaio. Com essa forte oposição de forças colossais, é natural que povos ou sociedades libertárias sejam pequenas e façam o possível para não fazer parte de iniciativas agressivas, mesmo que disso dependa a sobrevivência delas.

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Um dos pioneiros do modelo de antropologia política - analisar povos e sociedades a partir de relações de poder e somente não por mitos e hábitos - foi Pierre Clastres. Apesar de ter morrido prematuramente num acidente, seu trabalho serviu de base para todo um grupo de antropólogos e sociólogos que se punham a esse tipo de análise um pouco mais aprofundada dos primórdios da política. Ao longo de suas viagens e pesquisas, Clastres identificou várias sociedades que ele classificou como primitivas, que além de não possuírem Estados, criaram estruturas que lutavam contra o aparecimento de um. De um modo geral, a impressão que fica é que essas sociedades sejam extremamente atrasadas e com fragmentos de facções políticas incontroláveis, mas a verdade que ele constatou é justamente oposta: esses grupos humanos eram tão desenvolvidos socialmente que não necessitavam de figuras de poder, hierarquias ou Estado. O desenvolvimento chegava a tal nível que pelos escritos de Clastres essas sociedades pareciam possuir a consciência da ganância e das divisões resultantes do aparecimento do Poder. O Estado seria uma estrutura inviável e dispensável nessas sociedades pelo fato delas serem altamente organizadas.

Como exemplo ele começa seu estudo listando os índios Yanomami da Venezuela. Apesar do significado semântico dos nomes dos seus cargos, os "chefes" das tribos Yanomami efetivamente não têm nenhum poder, apenas desfrutando do poder de falar para o vazio. Ele é como uma figura decorativa, um pastiche do verdadeiro poder coercivo estabelecido em outras sociedades. Como uma espécie de privilégio para o fato de ser meramente uma posição decorativa, o chefe pode ser polígamo e distribuir presentes a todo o povo da tribo, colocando em prática o caráter de generosidade que deve ser inerente a todos os chefes indígenas. A figura que poderia ser reconhecida como portadora de poder, o pajé, é isolada e só pode se dirigir ao povo completo, sendo impedido de formar um corpo de sacerdotes ou algo similar, evitando a estratificação social entre a tribo. Aliás, a figura do pajé/xamã serve como metáfora para o que deveria ser o Estado ideal. As autoridades religiosas de tribos indígenas ou nativas são as que mais se aproximam de figuras dotadas de algum poder, mas terminam por ser reféns deles. Um pajé precisa efetivamente curar uma pessoa doente, assim como afastar maus espíritos que porventura assombrem alguém. Se o povo decidir que ele está falhando nessa tarefa, a punição pode ser o exílio ou mesmo a morte. Os primórdios do Estado são justamente assim: uma instituição para servir o povo, mas ela terminou por se tornar auto-suficiente e o povo passou a servi-la, numa inversão de papéis dramática.

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Como era de se imaginar, os Yanomami sofreram constantes ataques devido a buscas de garimpeiros a suas terras. David Graeber, que em parte continuou o trabalho antropológico de Clastres, identificou outros povos também. Os Piaroa são um povo indígena que também habita a Venezuela. Ao contrário dos Yanomami, os Piaroa não são dados a guerra, tendo relações extremamente pacíficas, tanto internas quanto externas. Segundo organizações indígenas venezuelanas, o número de assassinatos entre os Piaroa muito dificilmente sai do zero em índices anuais. Os Tiv são outro exemplo de povo libertário e habitam as margens do rio Benue, na Nigéria. Mas ao contrário dos povos latino-americanos análogos, eles possuem estruturas familiares bastante estratificadas, mesmo que um certo conjunto de famílias formem um clã, mostrando uma aproximação com o modo de organização do homem paleolítico.

Duas características eram bem marcantes tanto nos povos estudados por Clastres (que discorreu sobre MUITO mais povos do que falei aqui) quanto os por Graeber: existe um forte elemento psíquico oculto que serve como ferramenta anti-poder. Se na maioria dos Estados o sentimento de segurança ante ameaças externas e uma certa promessa vazia de enriquecimento - em conjunto com ferramentas amortizantes, como TV e outros grandes eventos catárticos, como os esportivos - agem como esse elemento que garante a longevidade do grupo de poder, nessas sociedades libertárias essa ferramenta é um tipo de fardo mitológico. Os sacerdotes religiosos e xamãs desses povos estão em contínua guerra contra forças espirituais que estariam prontas a matar todos que estariam dispostos a abraçar o poder. Então, da mesma forma, essas sociedades reprimem a ganância e busca pelo poder através de chaves psicológicas, só diferenciando-se de Estados por não precisarem de meios físicos para empreenderem repressão, se limitando a uma guerra mítica e imaginária.

Analisando empiricamente os resultados obtidos pelos dois modelos, creio ser desnecessário dizer qual que parece mais eficaz no sentido de estabelecer uma sociedade igualitária e pacífica. Com isso, não quero dizer que uma sociedade baseada numa espécie de terror religioso possa ser mais bem estruturada do que outra secular, mas sim que a troca de valores empreendidas por boa parte das sociedades ocidentais - aliado a uma distorção mercantilista na religião cristã, que em muitos lugares se une ao poder governamental de forma indivisível - leva a uma ampliação da ganância por parte dos que habitam nelas. Pode parecer papo teórico e retrógrado, mas analisando a questão de forma prática e comparando sociedades ocidentais com algumas libertárias se entenderá a extensão das diferenças estruturais entre elas. Peguem índices puramente matemáticos (o que naturalmente nos fornece um panorama incompleto, mas bem convincente), como número de crimes, para entender estatisticamente o alcance dessas diferenças.

E agora vem a outra pergunta crucial. Esse modelo com elementos fortemente retrógrados para a visão científica do Ocidente poderia funcionar numa sociedade que está livre desses dogmas religiosos, como boa parte dos povos deste lado do globo? Bom, em primeiro lugar é preciso dizer que ocidentais não estão livre de dogmas, pois eles são inerentes a Cultura. Como foi demonstrado acima, existem Chaves Psicológicas que têm como função desviar a atenção humana de uma questão e colocá-la em outra. Seu uso é comum por parte dos Estados, são como coisas como Nacionalismo, Terrorismo, Drogas... são inimigos tão reais quanto as evidências que os Tiv e Piaroa possuem dos Deuses que se vingam dos que querem mandar em outros. Existem indícios e histórias que circulam pelo imaginário popular e que raramente chegam a ser provados de fato, mas que passam pra posteridade como verdades absolutas. A diferença é que certas histórias, dogmas ou Chaves Psicológicas são melhor aceitas em cada tipo de sociedade… mas o efeito delas é o mesmo.

E mesmo livre desses dogmas é possível encontrar iniciativas libertárias e igualitárias - sem estruturas de poder - dentro de Estados ou outras formas de organização baseadas em pesadas hierarquias. Um bom exemplo foi o centro do estudo de David Graeber: os malgaxes, do Madagascar. A própria ilha de Madagascar tem um histórico de atividades libertárias, sendo palco do maior refúgio pirata por muito tempo: a quase mítica República de Libertatia. Os Piratas que ali moravam eram lúdicos, entregues ao prazer e a bebida, e boa parte deles se punha a libertar navios negreiros. Com os Piratas, os Malgaxes aprenderam a tática do Escape (ou Recuo), simplesmente se afastando para terras mais selvagens quando a colonização vinha junto com a civilização dos impérios - aqui no caso, junto com os franceses.

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Os Malgaxes são outro povo com raízes libertárias que vivem dentro de um Estado. A observação dos questionáveis métodos franceses - escravidão, ordens, divisões sociais, hierarquias - levou-os a ampliarem suas atitudes e tradições pacifistas, considerando até mesmo coisas socialmente aceitas - como o trabalho remunerado - abominações sociais. Mesmo na década de 1980, a forte presença de pesadas raízes religiosas que poderiam ser classificadas como coercivas foram encontradas por Graeber. Diz a religião própria deles que aquele que enriquecesse em demasia tinha o risco de sofrer pesadas maldições enviadas pelos deuses, e cabem aos feiticeiros e xamãs entrarem em guerra espiritual contra eles.

Isso durou até meados da década de 1980 - período em que começou uma crise econômica degradante na ilha -, quanto uma série de medidas do governo de Madagascar, visando integrar o povo Malgaxe ao restante da população (na verdade seria o inverso, já a enorme maioria da população da ilha é descendente dos Malgaxe), começou a deteriorar a cultura deles, chamada Fihavanana. A falta de um Estado atuante colapsou o país em poucos meses. A polícia não mais investigava crimes, o saneamento básico estava em frangalhos, o lixo não era recolhido e faltava alimentos. Só os Malgaxes continuaram organizados, pois não dependiam dos serviços estatais, criando formas de auto-governo que funcionaram a contento. Foi justamente essa autonomia que chamou a atenção do governo, que enviou uma série de bispos e autoridades para "integrar" os Malgaxes. Pela primeira vez em mais de um século o sentido da frase malgaxe "a relação é mais importante do que o dinheiro" se perdeu. O choque cultural entre os católicos e os Malgaxes acabou gerando conflitos profundos entre as duas partes, entretanto, parte dos Malgaxes cumpriram sua tradição e experimentaram um novo recuo.

Mas os Malgaxes, mesmo que de certa forma integrados a sociedades ditas modernas - não-primitivas, como diriam alguns sociólogos que se expressam mal -, podem ainda ser descritos como um exemplo isolado que também depende de de repressão psicológica para manter sua condição libertária. Mais exemplos são inúmeros: os Bororo, os Baining, os Onondaga, os Wintu, os Ema, os Tallensi, os Vezo, onde um estudioso poderia apontar as mesmas rupturas psicológicas estruturais envolvendo uma religião que serve como muro anti-poder. O problema de arranjar um exemplo estruturado de uma sociedade moderna que viva em moldes anarquistas e libertários soa contraditório por si só, já que mais uma vez a desvirtuação semântica exige que quando se der um exemplo de uma sociedade anarquista, inconscientemente se quer um Estado anarquista, o que é impossível. Estados Anarquistas são a raiz da contradição, já que a abolição dessa estrutura de poder é que seria a primeira característica de uma sociedade assim. Portanto, o Brasil não pode ser anarquista, por exemplo, pois o Brasil é um Estado... mas é esse tipo de exigência que está implícita em todos pedidos de exemplo.

Ademais, existem outro tipo de exemplo, como iniciativas sem estruturas hierárquicas. Uma delas é o Linux. Qualquer um com um razoável conhecimento em computação sabe que fazer um Sistema Operacional envolve muito esforço e mão-de-obra qualificada. A iniciativa Linux, que se integrou ao Projeto GNU, é uma organização - é, de certa forma podemos chama-la assim - é baseada em dádiva, que também sedimenta a maioria das sociedades libertárias. Ninguém (ou quase ninguém) ganha nada pelo trabalho e é tudo distribuído gratuitamente. Não vou discutir a qualidade ou falta de qualidade do sistema em si, mas é de se notar que é um projeto vencedor, principalmente no setor de servidores. O Linux parece ser um exemplo claro de como pode ser uma estrutura social onde a ganância funcione num nível mínimo.

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Outro exemplo é a Cooperativa Mondragón, um remanescente comercial da Revolução Espanhola. É formada por mais de cem sociedades cooperativas que atuam em diversos setores: alimentação, eletrodomésticos, universitário, máquinas e ferramentas, instituições financeiras. O segredo do sucesso de Mondragón está baseado na extrema preocupação com a formação profissional e social, a qual se tornou o elemento transformador de uma região pouco desenvolvida. Isso lá pela década de 1950. Apesar de furtar-se de ferramentas criadas para manter Estados - escolas e trabalho -, a Mondragón pode ser vista como um exemplo de corporação que funciona a base do cooperativismo e assistência social, e não unicamente em lucros. Na Mandragón existem praticamente 60 dias de férias, 14 ou 15 salários, além de uma adaptação da empresa a realidade do país, visando a o crescimento humanístico - a empresa não tem donos, mas associados, que ganham salários ligeiramente maiores que funcionários que trabalham em outras empresas do ramo.

No entanto, o Linux e a Mondragón seriam uma forma passiva de atuação anarquista no interior de um Estado Hierárquico. Esses exemplos servem como vitrines que expõe serem viáveis alternativas de modelos que muitos consideram absolutos e únicos. E o problema é justamente esse: Modelos Alternativos. A escassez de exemplos nos moldes desejados pelos céticos que estão confortáveis, entediados e infelizes passa também pelo fato que anarquistas não desejam um embate, uma disputa de poder armada, não querem se mostrar e fincar uma bandeira num palácio presidencial. São unicamente movimentos organizados de base popular que têm em comum o fato de não terem chefes todo-poderosos para mandar e desmandar. E o fato de movimentos e manifestações anarquistas não serem exatamente fãs de publicidade só ajuda. Mas exemplos sempre existem - principalmente de TAZ, como a Rainbow Family, a Freetown Christiania, o movimento Zapatista calcado no municipalismo, a Whiteway Colony… além de revoltas históricas como a da França de 68, a Abahlali baseMjondolo na África do Sul, a revolta dos trabalhadores italianos em 1919, etc.

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Poucos parecem entender que ímpetos revolucionários megalomaníacos só servem pra instaurar o terror e substituir o antigo governo - que geralmente é ditatorial - por outro muito parecido. Exemplos tenho um monte: os Jacobinos, os Bolcheviques, os membros do Khmer Vermelho, Fidel Castro & Cia... Mesmo Estados com o rótulo de democráticos cometem crimes piores do que aqueles que dizem combater, como em vários exemplos que já citei - Israel, EUA, França.

Os anarquistas e o Anarquismo não se baseiam em criar estruturas para se manter no topo do poder, mas sim em desconstruí-lo a ponto de fazer uma divisão igualitária dele entre todos, além de criar formas de impedir o aparecimento de novas hierarquias. Por isso que geralmente recorre-se a sociedades com um povo possuidor de uma língua e costumes análogos pra mostrar exemplos de aplicação anarquista, já que é esse tipo de exigência cética que é enfrentada quando são necessárias exemplificações práticas. Muitos não aceitam exemplos de povos rotulados de primitivos - ou seja: que não têm costumes ocidentais - por puro preconceito, já que acham bastante difícil colocar na cabeça que podem aprender alguma coisa com um bando de africanos que moram "na selva".

Pessoas com essas idéias na cabeça estão novamente presas ao Dualismo Aristotélico: se aceitarmos o modo de organização dos Yanomami seremos pessoas vivendo em ocas e usando tangas, não existe meio termo. É essa capacidade de aprendizado que diferencia sociedades/organizações anarquistas do restante. O Anarquismo é um enclave, ele vive dentro de um Estado simplesmente porque nunca será um, no máximo fugindo da repressão. Ele nasce através de bases populares e por esse motivo é visto como uma ameaça extremamente perigosa por todo e qualquer grupamento ideológico.

Como diria Graeber: Isso por sua vez significaria que existem infinitos exemplos de anarquismo viável: praticamente qualquer forma de organização contaria como uma, desde que não fosse imposta por uma autoridade superior, desde uma banda de klezmer a um serviço postal internacional... e estão aí os casos da Comuna de Paris e da Revolução Espanhola para provar como Estados não suportam ver qualquer tipo de iniciativa independente dentro das fronteiras dele.


PS: Obviamente que o objetivo do artigo é a repressão estatal, e não necessariamente alternativas anarquistas. Falar mais sobre o Anarquismo, mesmo que de forma resumida, exigiria um ensaio do tamanho desse, e talvez faça isso no futuro. Mas creio que o que falei aqui sobre o assunto serviu pra concluir bem a minha idéia.



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