Contra o Multiculturalismo

De Protopia
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Peter Lamborn Wilson


Os Estados Unidos sempre se supôs uma "mistura", um "cadinho cultural". O Canadá, por outro lado, se considera um "mosaico", que poderia explicar o porque os canadenses parecem sofrer um tipo de crise de identidade prolongada e perpétua. Que significa ser "canadense" ao contrário (ou também) dos Quebecois, dos Celtas, ou dos Nativos?


Nos anos 50, os EUA foram supostos estar imunes a tais preocupações. Todas as culturas iriam se "dissolver" e se fundiriam na personalidade americana, o córrego principal. Na verdade, porém, esta cultura do "consenso" era simplesmente a cultura colonial inglesa com amnésia, e uma desbotada pátina da petulância da fronteira.


As culturas imigrantes que resistiram a essa fusão foram consideradas simplesmente anormais; os irlandeses, por exemplo, foram vistos como selvagens rebeldes até muito recentemente. Claro, era difícil dizer se determinadas culturas ficavam "de fora" porque queriam ou porque eram excluídas. Nos anos 60, os negros eram identificados como uma cultura injustamente excluída, e o progresso foi feito para absorvê-los no comportamento predominante (dentro da integração escolar, por exemplo). Os americanos nativos continuaram sendo excluídos pela lei, que os definem melhor pelo sangue do que pela cultura, e mantêm a "segregação" através do sistema reservado. Judeus, latinos, asiáticos, cada um seguindo sua própria trajetória em direção a assimilação ou resistência.


No final dos anos 70 e início dos anos 80, tornou-se óbvio que a mistura tinha falhado de algum modo. A cultura negra, o exemplo do teste, mostrava-se agora impossível de absorver. O "consenso" estava em perigo. O partido de direita, com suas atitudes esquizofrênicas em relação à raça e a cultura, tinha hesitado. Um novo consenso "liberal" foi proposto. Foi chamado Multiculturalismo.


Não há lugar para dúvidas: o Multiculturalismo é uma estratégia projetada para conservar a "América" como uma ideia, e como um sistema de controle social. Cada uma das muitas culturas que caracterizam a nação, são agora permitidas a uma pequena escala de auto-identidade e algum simulacro de autonomia. Os livros escolares refletem agora esta estratégia, com ilustrações dos anos 50, com alguns felizes brancos históricos, modificados por incluir alguns negros, asiáticos e mesmo nativos. Uma dúzia ou mais de departamentos de Multiculturalismo brotam no nível universitário. Cada minoria deveria agora ser tratada com "dignidade" no curriculum. Os conservadores protestam: o slogan canônico da civilização ocidental está em perigo! Nossas crianças serão forçadas a estudar... a história negra! Este murmurar na direita outorga ao Multiculturalismo um aura de retidão "radical" e corretismo político, e a esquerda dá um impulso para a frente para defender o novo paradigma. No meio, de acordo com a teoria - o equilíbrio será restaurado, e o consenso funcionará novamente. O problema é que a própria teoria nem se origina da Direita, nem da Esquerda, nem do Centro. Emana do alto. É uma teoria do Controle.


Os antigos livros escolares descreviam toda a particularidade étnica/cultural como uma mácula que poderia somente ser superada no grande banco da conformidade à norma. Apesar disso, a norma era em si mesma uma forma clara e simples de particularismo hegemônico, os livros desgastaram e tornaram-se consequentemente transparentes. Eles foram obrigados a isso - eu concordo. Agora nós temos alguns textos que admitem, por exemplo, que Colombo era bom, mas tinha defeitos e que os africanos não eram moralmente responsáveis por serem escravos. Isso é um avanço - eu concordo. Entretanto, eu continuo interessado em saber precisamente quem nos permitiu acreditar em tais opiniões - e porque ?


Em primeiro lugar, parece óbvio que cada uma das "muitas" culturas particulares está sendo avaliada em oposição ou assemelhada a uma cultura "universal" predominante. A única diferença é que a corrente predominante agora, aparentemente, avalia um pouco da "diversidade", e sente um pouco de nostalgia admissível para costumes étnicos variados. No coração do discurso, entretanto, o discurso completo, que se define agora como "Multicultural", permanece "um curriculum de núcleo sólido", composto dos mesmos velhos axiomas do Euro-racionalismo, triunfo pseudo-científico, e teleologia da classe dominante.


Essa tendência predominante constitui a Civilização, e somente na periferia desta centralidade é que as culturas conseguem achar um lugar. O que quer que as culturas possuam, que possa ser adequado à civilização, naturalmente será aceito de bom grado. Cada pequena cultura local rara tem algo a oferecer, algo do que se "orgulhar". Uma paixão museológica inspira o centro; todos colecionam pequenas particularidades étnicas; todos são turistas; todos tomam posse.


A conversa Multicultural como o monólogo totalista deveria ser algo como: Sim, seus pequenos trabalhos manuais ficarão bem em minha sala, onde ajudarão a disfarçar o fato de que minha casa foi projetada por - e talvez para - uma máquina. Sim, sua bela cerimônia irá nos fornecer a "experiência" de um fim de semana agradável. Ó Deus, não somos nós os Mestres do Universo? Por que teríamos que investir nesta velha mobília Anglo-Americana quando nós podemos pegar a sua? Vocês não estão agradecidos? E não é mais também um Imperialismo Colonial: nós pagamos pelo que pegamos - e até mesmo o que quebramos! Pague, pague, pague. Apesar de tudo, é somente dinheiro.


Deste modo, o Multiculturalismo está preocupado, em primeiro lugar, em propor o Universalismo e o Particularismo ao mesmo tempo - de fato, uma totalidade. Cada totalidade indica um totalitarismo, mas neste caso, o Todo aparece de uma forma amigável, um grande parque temático onde cada "caso especial" pode ser infinitamente reproduzido. O Multiculturalismo é o "espetáculo" da comunicação – uma fraternidade que se transforma em produto de consumo e que trás retorno financeiro àqueles que o sonharam. Neste sentido, o Multiculturalismo aparece como uma necessária reflexão ideológica do Mercado Global ou "da nova ordem mundial", o "único" mundo do capitalismo tardio e o "fim da História".


O "fim da História" é naturalmente o código para o "fim do social". O Multiculturalismo é a decoração do fim do social, as imagens metafóricas da completa atomização do "consumidor". E que o consumidor consumirá? Imagens da cultura.


Em segundo lugar, multiculturalismo não é apenas uma falsa totalidade ou unificação, mas também falsa separação. Sobre as "minorias" é dito inclusive que nenhum objetivo ou valores em comum poderia uni-las, exceto é claro, os objetivos e valores do consenso. Negros possuem a Cultura Negra, por exemplo, e não pode mais ser assimilada. Tão logo a Cultura Negra reconhece tacitamente a centralidade do consenso - e sua própria posição periférica - a ela será permitida e até mesmo encorajada a prosperidade. Autonomia genuína, no entanto, está fora de questão, então qualquer "consciência de classe" poderá podar tanto linhas de etnicidade como "modos de vida" para sugerir parcerias revolucionárias. Cada minoria contribui para o centro, mas nenhuma circulação na periferia é autorizada, e certamente nenhum poder de coletividade será bem visto. Um diagrama poderia se parecer com isso:


Ao contrário de uma flor, que se abre para abelhas e insetos e flui para a vida, o "consenso" suga toda energia e absorve ela num sistema fechado de controle rígido parecido com o processo da morte, no qual eventualmente acaba em esterilidade e histerismo.


Viver como nós fazemos na era do global total e no ambiente físico e cultural que esta era secreta, deveria ser óbvio que a particularização pode representar uma forma de resistência. A totalidade tem subjugado para apropriar a energia da resistência oferecendo uma falsa forma de particularismo, vazio de todo poder criativo, como um simulacro produtificador de desejo de insurreição. Neste sentido, o multiculturalismo é simplesmente o outro lado daquela página que o verso é "limpeza étnica". Ambos lados advogam pela desaparição de qualquer forma autêntica de particular cultura de resistência.


Ao mesmo tempo, o Consenso secretamente estimula o ódio de raça e mesmo de classe. Na misteriosa ausência daquele “Império Diabólico” que fornecia uma desculpa para cada ato de repressão violenta e corrupção, baseada na “defesa das Civilizações Ocidentais”, o Consenso agora deve buscar ou mesmo criar os seus “inimigos” dentro de si mesmo. Organizações de Inteligência se apaixonam pelos violentos nacionalistas, separatistas, e chauvinistas de todos os tipos. Nesses círculos, multiculturalismo significa “deixemos que eles se matem, e salvemo-nos dos problemas”. Portanto, cada ato de revolta e manifestação violenta de ódio simplesmente aumenta o poder da “Segurança de Estado”. Já podemos observar que o Discurso do Poder está perdendo a paciência com essas “malditas minorias e suas tolices de P.C.. Nós os oferecemos multiculturalismo e olhe! Eles continuam se rebelando. Criminosos!”


The Left has believed so long in the "International" that it has - so far - failed to adjust to the post-1989 situation with a clear response to the "New Globalism." When the Berlin Wall fell, in the moment of freedom which opened there, a new form of internationalism rushed to fill the breach. As United States politicians crowed about how "the Cold War is over and we won" international Capital declared the end of all ideology. This means not only that Communism is "dead" but also that "democratic republicanism" has served its purpose and transformed itself into an empty idol. Henceforth only one force will "rule" - the rationality of money. Abstracted from all real valuation, representing nothing but itself, money is etherealized, and finally divinized. Money has "gone to Heaven" and left mere life behind.


In this situation both Right and Left will rebel - and in some cases it will be hard to tell the difference. A myriad forms of particularism will arise, consciously or unconsciously, to oppose the false totality and pitiful booby-prizes of multiculturalism's "New World Order". The Social has not ended, of course, no more than everyday life itself. But the Social will now involve itself with the insurrectionary potential of difference. In its most unconscious and deeply deluded form, this passion for difference will simply repeat the old and empty rhetoric of classical nationalism or racism. Hence, ethnic cleansing" from Bosnia to California.


Against this hegemonic particularism, we might propose a more conscious and socially just form of anti-hegemonic particularism. It's difficult to envision the precise shape such a force might assume, but it grows easier to identify as it actually emerges. A miraculous revival of Native-American culture steals the fire of the Columbus celebrations in 1992, and sharpens the debate over cultural appropriation. In Mexico the Zapatista uprising, according to the New York Times, the first "post-modern rebellion", constitutes the first armed actionagainst the New Globalism - in the particularise but antihegemonic cause of the Mayans and peasants of Chiapas. I regard this as a struggle for "empirical freedoms" rather than "ideology." In a positive sense one might say that all cultural and/or social forms of particularism deserve support as long as they remain anti-hegemonic, and precisely to the extent that they remain so.


In this context we might even discover uses for "multiculturalism", since it may serve as a medium for the propagation of subversive memes, and the insurrectionary desire for radical difference. Such a subversive "entry into the media," however, can serve only one ultimate purpose: the utter destruction of multiculturalist neo-imperialism and its transformation into something else. If the secret agenda of multiculturalism demands universal separation under the aegis of a false totality, then the radical response to multiculturalism must attack not only its ersatz universality but also its invidious alienation, its false separatism. If we support true anti-hegemonic particularism, we must also support the other half of the dialectic by developing a force to penetrate all false boundaries, to restore communicativeness and conviviality across a horizontal and random web of connectivities and solidarities. This would constitute the true force of which multiculturalism is merely the empty simulacrum. It would complement anti-hegemonic particularism with a genuine reciprocity among peoples and cultures. The "economy of the Gift" would replace the economy of exchange and cormodification. The Social would resume circulation on the level of experienced life" through the exercise of imagination and generosity.


In this sense the answer to the problem of "appropriation" would arise from the concept of a "universal potlach" of giving and sharing. As a test case, examine the issue of cultural appropriation of Native-American values. The original identity of tribal peoples in the "New" World was tribal, not racial. Anyone could be adopted into a tribe, as were many drop-out whites and run-away blacks. The twentieth-century renaissance of Native Culture has discovered certain spiritual universals which it wants to give and share with everyone, and it has discovered an anti-hegemonic particularism which it desires for itself. The Elders charge that too many Americans want to appropriate or commodity the latter (sweat-lodges, sun-dances, etc.) but ignore or despise the former (reverence for Nature, love of place as topocosm, etc.) . The Native tradition is not closed, despite the just anger and bitterness of the tribes, but demands reciprocity rather than appropriation. Let us Euro's first evolve a serious revolutionary attitude toward the restoration of wild (er) ness; then it will be appropriate for us to make the fine Alexandrian gesture of "worshipping local spirits".


The Situationists already envisioned this strategy when they coined that much-abused slogan: "think globally, act locally". Our true interests include global realities, such as "environment", but eff ctive power can never be global without being oppressive. Top-down solutions reproduce hierarchy and alienation. Only local action for "empirical freedoms" can effect change on the level of "experienced life" without imposing categories of control. A New-age Nietzsche might have called it "the will to self-empowerment".


The poet Nathaniel Mackay calls it cross-culturalism. The image expresses a non-hierarchic, de-centered web of cultures, each one singular, but not alienated from other cultures. Exchange takes place as reciprocity across the permeable boundaries of this complex of autonomous, but loosely defined, differences. I would add a further refinement. This reciprocity will produce more than the mere sum of exchanges within the system, and this more will constitute a universal value in circulation among free collectivities and individuals. Hence the term cross-cultural synergetics might describe the precise term (or slogan) proposed as a replacement for "multiculturalism".


Conclusion

The multicultural paradigm presupposes a false totality within which are subsumed a set of false particularities. These differences are represented and packaged as "lifestyle choices" and "ethnicities", commodities to appease the genuine passion for genuine difference with mere "traces" and images of "dignity" and even of "rebellion". Against this, cross-cultural synergism proposes actual autonomy, whether for individuals or cohesions of individuals, based on radical consciousness and organic identity. In this sense, cross-culturalism can only oppose itself to "multiculturalism", either through a strategy of subversion, or through open assault. Either way, "multiculturalism" must be destroyed.



Textos

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