Comunidades de Resistência

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Comunidades de Resistência
Informações sobre o filme
Nome original

Communities Of Resistance: interview with Peter Lamborn Wilson

Idioma original

Inglês

Lançamento

Maio de 2009

Excelente entrevista com o historiador e escritor libertário Peter Lamborn Wilson, também conhecido como Hakim Bey em sua casa, em Maio de 2009. Wilson fala entre outras coisas, sobre a emergência do estado, comunidades intencionais, impacto da tecnologia, a negação do social na sociedade estadunidense, a velha e embolorada esquerda, piratas e zonas autonomas, permacultura e muito mais.

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Transcrição[editar]

Parte 1

…e não está claro para mim que o Estado algum dia precisou emergir. Por isso que eu chamo “Golpe de Estado”. Acredito que ele foi antes uma conspiração. Aconteceu localmente. Mas uma vez que aconteceu, foi como uma infecção viral que acabou se tornando incontrolável. E devagar, lentamente se espalhou a partir de seu epicentro até que no Século XX alcançou seu fim. Já não existem mais espaços selvagens. Não restou lugar em que a civilização não entrou. Verdade, não restou lugar algum. Se restaram espaços eles estão em luta contra a civilização o que significa que eles não estão de forma alguma intocados. Você entende, estamos falando dos caras lá na Amazônia atirando flechas envenenadas contra os helicópteros. Quando vejo estas imagens, tenho uma mistura de sentimentos. Em primeiro lugar, eu admiro-os tanto e gostaria de estar com eles, e ao mesmo tempo sei o quão fútil isto é, entende? O quão condenado isso está.

(Peter Lamborn Wilson – conhecido por Hakim Bey – Comunidades de Resistência)

Tecnologia, o triunfo do capital, o que eu chamo de tecno-patocracia, o reinado da maquinaria doentia, o que parecia ser o absoluto triunfo do capitalismo neoconservador/neoliberal que subitamente, não era mais possível sequer criticar o capitalismo, subitamente era como se fosse água ou ar, é algo dado em nossa sociedade. E a internet e outras formas de tecnologia de comunicação moderna, a pesar da maioria das pessoas pensar que aumentam a comunidade, a meu ver, a destrói. Porque comunidade, para mim, é baseada na realidade física, não em aparelhos de comunicação. E quando eu escuto coisas sobre a comunidade da internet, simplesmente me dá vontade de vomitar! É como falar na comunidade policial, que é outra frase favorita do jornalismo norteamericano, como se esses fossem amigáveis vizinhos, emprestando açúcar uns aos outros. Isto é a porra de uma força de ocupação! À qual pagamos do nosso próprio bolso – ajude a polícia, espanque-se a si mesmo! E, é claro, os EUA estão na vanguarda disto. Nós começamos toda essa cultura de televisão, automóvel e subúrbio. Isso é atomização… Essas não são ideias originais.

Vamos simplesmente nos referir à algumas das primeiras ideias de Baudrillard[1]. As pessoas vêm pensando sobre isso por um bom tempo e se torna mais e mais… O que? trágico. O pensamento torna-se mais e mais trágico conforme fica claro que essas não são só divagações sobre um futuro distante, algo de ficção científica, mas que isso tem um verdadeiro impacto em nossa vida cotidiana. Então, há um livro que saiu uns anos atrás chamado “Jogando Boliche Só”[2], o que achei inteligente, sabe, por causa da ideia, em outras palavras, que não há mais vida social nos EUA. Onde você vai que não seja nem trabalho nem família? Onde é o terceiro lugar – como chamamos, em sociologia? Onde fica este terceiro lugar? Se voltarmos ao século XIX, os terceiros lugares eram muitos, sabe? Não só haviam comunidades, comunas, comunidades intencionais muito mais elaboradas e sofisticadas do que as que temos agora. Havia também as organizações fraternais e sororais, os Maçons, os Elks[3], a Aliança de Fazendeiros[4], A Granja[5], os ateneus em todas as cidades, certo? Cada pequeno burgo nos EUA costumava ter um ateneu, onde as pessoas se encontravam para discutir ideias. Por que elas faziam isto? Porque não haviam televisões, por isso! Sabe? Esse era o seu entretenimento. Não se pode depender da boa vontade das pessoas para estas coisas, toda a sociedade deve estar estruturada de forma que assegure isso, que isso se reproduza, certo? E o que foi quebrado em 1989 e eu penso que de uma forma histórica, quase que de “fim do mundo”, foi a ideia de que havia algo de natural na comunidade. Agora temos a ideia de que o que quer que fosse, não era importante e pode ser substituído por tecnologia de qualquer forma, então quem se importa?

E pelos últimos oito anos [2001-2009], neste país [EUA], temos sofrido sob uma caricatura exagerada destas ideias, então tem sido bastante doloroso intelectualmente ver o que está acontecendo com o tecido social nos EUA. Sabe, eu sempre fui um tipo de pessoa excluída, rebelde, individualista, sabe, desde a década de 1960, e você pensaria que eu não seria a primeira pessoa a se aborrecer com a degradação do social, pois ele tinha o seu lado negativo também, como tudo, sabe, reforçava a conformidade, ou que seja, você sabe, aspectos negativos, mas os aspectos positivos que perdemos junto dele pareciam a mim, que os superavam de longe, e há algo de desesperado agora. É por isso que – os números são contraditórios, mas – algumas pessoas dizem que mais da metade dos norte-americanos usam inibidores de serotonina, sabe, antidepressivos. Primeiramente, temos a medicalização da tristeza à agradecer por isso, em alguma medida, mas, realmente as pessoas estão genuinamente deprimidas. Por que elas estão deprimidas? Elas não sabem. É porque tudo que elas têm em suas vidas é sua, sabe, o que eu chamo de “família do divórcio”, provavelmente, você sabe, elas têm uma família, mas são divorciadas, porque isto descreve algo em torno de cinquenta, sessenta, setenta por cento da população e elas têm seus trabalhos, seu emprego, sua situação de escravidão salarial onde têm que estar…

Ah, deixe-me contar uma anedota que uma mulher me contou uma vez. Ela disse que você está, sabe, ela estava brigando com sua mãe por anos, elas não se entendiam, até que finalmente após um longo telefonema elas decidiram tentar se encontrar de novo e renovar sua relação mãe-filha. Então ela viaja, sabe, mil milhas para a casa de sua mãe e elas estão sentadas e começando a ter uma conversa de coração, quando sua mãe diz “ah, espere um minuto, tem um programa de TV que eu preciso assistir. É – algo como – Hollywood Squares” e, você sabe, a filha fica estarrecida, sabe, e a mãe liga a televisão e começa a assistir o programa. E ela diz algo como “Mãe! Eu viajei mil anos – Eu viajei mil milhas para nos reconciliarmos e agora você senta aí para assistir Hollywood Squares!?” e ela responde “Você não entende. As únicas pessoas que tenho em minha vida, as únicas pessoas que conheço em minha vida são as pessoas com quem trabalho, e todas elas assistem este programa e se eu for trabalhar segunda-feira de manhã e não tiver visto este programa, não terei nada com que conversar com meus amigos”. Esta era a base de todas suas relações humanas. Então a filha simplesmente desabou, sabe, não havia nada a ser feito a respeito daquilo. E esta, para mim, foi uma anedota muito, muito significativa, eu senti toda a sociedade americana nesta anedota.

Então, o que temos para lutar contra isto? Existe todo tipo de possibilidades, você poderia… Tudo desde o tipo de coisa de, você sabe, comunidade intencional de classe média, ideias de consórcio de terras dos quais você estava falando, às quais as pessoas são atraídas por causa de sua grande sede por comunidade mesmo sendo de fato pessoas de classe média, motoristas de carro e assistidoras de televisão, ainda há algo que falta em suas vidas, e elas têm dinheiro suficiente para retificar isto. Então, desde isto até as mais intensas comunidades intencionais de resistência, sabe, eu não sei… Nacionalistas muçulmanos negros ou, você sabe, a comuna anarquista, esses tipos de modelos. Essas são as únicas coisas que sobraram nos EUA, não vou tentar falar pela Europa, a pesar de eu pensar que isto é amplamente verdadeiro por lá também – chegarei lá em um minuto, nas diferenças entre os EUA e Europa – mas a comunidade intencional, desde ‘89-’90, para mim, ganhou uma nova importância. Eu sempre me interessei por elas, agora eu penso que são absolutamente vitais, porque é a ponta-de-lança da resistência.

Parte 2

Agora, por que a Europa é diferente dos EUA neste quesito, eu pedi que vários Europeus me explicassem. O enigma é que, nos EUA, se tem que cinquenta a sessenta porcento da população vai à igreja. Na Europa, é como 2%. Por que esta enorme diferença? Então eu perguntei, toda vez que tive a chance de encontrar um europeu inteligente, eu perguntava à elas, e eu finalmente consegui umas respostas interessantes, as quais não eram o que eu esperava. Eu perguntei à uma pessoa francesa uma vez, disse, “É o café? Essa é sua cola social?”, “Não, não mais, não é”. Eu disse “Bom, e o que é?” e ela respondeu "Bom, primeiramente, todos países europeus são pequenos e falam línguas diferentes. Então se você se muda para um emprego novo, você não se muda para cinco mil milhas [cerca de 8.000km] de distância, como se faz nos EUA. Você se muda para duzentas milhas de distância [cerca de 320km], você ainda pode vir e ver seus pais no final de semana, ou os primos, ou o que for. Então a família estendida ainda significa muito mais na Europa do que aqui. Nos EUA, a família estendida se rompeu há tempos, largamente devido às forças do capital. É fácil, sendo alguém que cresceu no mundo acadêmico eu sei disto muito bem, você recebe uma oferta de emprego na Dakota do Norte, com possibilidade de estabilidade[6], você vai! E se você nunca mais ver sua família, seus pais ou seus primos de novo, pfft! É a vida. Sempre há o e-mail, para manter o contato com e-mail, sabe?

Havia uma propaganda de telefone na década de ’80, de uma companhia telefônica – “alcance e toque em alguém”! Eu sempre dei uma boa risada disso, porque é exatamente o que não se faz no telefone, você não alcança nem toca em ninguém. Você “alcança” uma distância. Você os distancia, para não ter que tocá-los, não ter que dividir o… Respirar o mesmo ar, na mesma sala que os filhos-da-mãe, você sabe, eles estão lá longe e você pode ter algum tipo de bobagem como “comunidades telefônicas” ou comunidades da internet ou algo assim, e fazer de conta que você tem uma existência social.

Quando eu digo estas coisas diante de um público, sempre tem uma pessoa que diz "ah, isso não é verdade, eu conheci meu namorado pela internet, você sabe, é uma coisa muito social e eu não teria nenhum amigo se não fosse pela internet!" e, ai deus, eu me sinto tão mal por vós... (risos). Quero dizer, isto é como dizer "eu não teria uma esposa se não fosse pelos Filipinos, você sabe, tipo de coisa como pague por uma esposa filipina", sabe? Bem, isto não é uma defesa, temo que não seja - você não está me convencendo da sua sanidade filosófica quando diz algo assim. Está me deixando triste, simplesmente. Sabe o que quero dizer?

Então, a importância da comunidade intencional agora, como a importância da Zona Autônoma Temporária[7] (TAZ) que é, digamos, a communitas temporária, mesmo isso, para mim, se tornou ainda mais importante do que quando eu comecei a pensar nessas ideias no início da década de '80. Porque então você poderia supor que a TAZ ou a comunidade era uma terceira via, que você poderia simplesmente optar por sair do espetáculo, sabe, que se explodam as duas (outras) vias. Vamos nos retirar para o campo e vamos ter nossa própria vida. Mas agora, não é uma terceira via, é a única outra via. Então, se há uma dialética da resistência restante nos EUA seria, a meu ver, possível somente através da comunidade intencional. E eu estou desesperado para ver mais consciência sobre isso. É por isso que continuo a escrever sobre estes assuntos. Não há nada que eu possa fazer a respeito, não sou uma pessoa prática, não sou fazendeiro, não sou arquiteto, não sou construtor, não sou uma pessoa muito organizada de qualquer forma. Então eu não sinto que eu possa ser, você sabe, o profeta que guia as pessoas para o verdadeiro, você sabe, selvagem. Mas ao menos eu posso indicar isto. Que temos um histórico de comunidade intencional, de comunidades de resistência nos EUA, que seria bom ser inspirado por ele, porque nós realmente precisamos desta informação agora.

Nós realmente precisamos pensar na possibilidade de desengajar da tecno-patocracia. É como abandonar[8], como dizíamos na década de '60, não é tão diferente. Você sabe, eu não gosto de me sintonizar, em parte porque faz você soar como um rádio. Eu não quero ser uma máquina. Mas a parte de largar tudo, eu sou a favor. Eu vejo, por exemplo, as comunas Anabatistas, como os Amish[9], e eu vejo que eles e elas estão levando uma vida confortável em comunidade porque recusaram certos tipos de tecnologia. Não têm telefones em casa porque sentem que iria atrapalhar em sua física - seu aspecto físico de sua comunidade. E todo pedaço de tecnologia no qual pensaram - eu estudei a história - pensaram não porque, você sabe, deus disse que telefones eram do mal, mas porque com telefones a sua comunidade começaria a se despedaçar. Perceberam isto com bastante clareza em 1907, quando decidiram não usar telefones. Se tivessem carros, significaria que poderiam morar longe umas(ns) das(os) outras(os), em vez de próximas(os) umas(ns) das(os) outras(os), então decidiram não ter carros. Porque seu valor primeiro era a comunidade e a chance de viver o que consideram ser uma vida autêntica. Agora, para eles e elas, isto significa, você sabe, algum tipo de fanatismo protestante pelo qual eu não sou lá muito atraído, mas eu as admiro porque eles e elas são as(os) únicas(os) verdadeiras(os) Ludditas modernos que eu vejo. Elas são o único povo que percebeu a conexão entre o social e a tecnologia e fez algo a respeito. Então, este é o principal da minha resposta, sobre a importância destas comunidades.

Parte 3

Uau, se tem uma coisa que me deprime sobre a esquerda estado-unidense, é como nós temos que re-inventar todas as rodas cada dez anos. “Ah! Você quer dizer que haviam pessoas que se sentiam assim no século XIX? Que surpresa!”. Bem, isso é porque nem no ensino médio nem na faculdade as(os) norte-americanas(os) são ensinadas sobre algo disso. Você tem que ser uma pesquisadora independente – o que, para meu pesar, eu sou – para que quando você começar a seguir esta linha de pesquisa, você não tenha a(o) chefe do departamento dizendo “tsc, tsc tsc… Lembre-se! Estabilidade! Você talvez não consiga estabilidade se se envolver nessa merda anarquista comunista!” Esses controles são bem reais. E pra completar, ninguém sabe de nada mesmo, então ninguém se importa. Não se dão conta que estão sendo privadas(os) da chance de estudar. Claro, desde a década de ’60, houve uma mudança nisto. Nos anos ’60, houve uma certa radicalização da academia.

Ainda temos algumas(ns) marxistas com estabilidade por aí. E algumas(ns) delas(es) prestaram atenção à algumas destas ideias, e foram bastante inspiracionais para mim. Eu estava pensando, eu recém havia, depois de anos e anos, conhecido Jesse Lemisch[10], que fez alguns artigos radicais na década de ’60 sobre navegantes radicais na Revolução Americana, e como não era a burguesia instruída que estava lá fora socando as pessoas, socando soldados britânicos no nariz, eram os marinheiros bêbados. Ele tem um ensaio maravilhoso chamado Jack Tar[11], que é como chamavam o marinheiro médio naquela época, como uma figura radical da Revolução Americana. Esse tipo de pesquisador da década de ’60 fez trabalhos maravilhosos, e me inspirou a ir além… Quero dizer, por exemplo, estávamos falando sobre piratas, sobre meu livro de piratas[12] antes – as comunidades piratas nas quais eu me interessava, que chamei de utopias piratas, você sabe, não tanto os barcos em si, mas as ilhas onde eles e elas estabeleciam suas – como terminou sendo – zonas autônomas temporárias, nenhuma delas durou mais que alguns anos, mas o navio pirata em si também pode ser visto como – esqueço quem cunhou a frase – república flutuante, porque cada navio não tinha nenhuma lei a não ser os artigos que os e as navegantes tinham assinado entre si. Quero dizer, quem ia lhes dizer o que fazer a não ser elas(es) mesmas(os)? Então, basicamente o que se está olhando aqui é uma pequena comuna flutuante anarquista.

E de fato em muitos casos nem a posição de capitão não era certa. Se a tripulação sentisse que a(o) capitã(o) não era bom o bastante ou que era muito azarada(o) - isso era muito importante - elas(es) a(o) depunham e escolhiam outra pessoa. Geralmente a(o) contramestre era, de fato, uma figura mais importante do que a(o) capitã(o) de qualquer maneira. Mas as(os) capitãs(es) em navios piratas geralmente ficavam com uma parte muito pequena - sua parcela era apenas um pouco maior do que a da(o) tripulante média(o). Por exemplo, se a(o) tripulante média(o) ganhasse uma fração, a(o) capitã(o) não ganharia mais do que duas ou às vezes até mesmo uma fração e meia. Enquanto que em corsárias(os) de navios de guerra, que eram comissionadas(os) pelos governos, a(o) capitã(o) ganharia 40 frações para cada uma da(o) tripulante. Então esta é a diferença entre a pirataria e corsários, certo?

Então aqueles como, você sabe, Bucaneiros em Hispaniola ou o Capitão Mission em Madagascar, essas figuras já eram de bastante interesse para alguns historiadores radicais e anarquistas, notadamente Christopher Hill, que no final dos anos 1970 já começara a falaram em piratas como comunidades radicais, pelo que ele foi severamente criticado por historiadores marxistas ortodoxos, que negavam que piratas fossem qualquer coisa mais que brutos proto-capitalistas, porque, bem, estão por aí tomando ouro, é só o que estão fazendo, devem ser capitalistas. E Hill tinha uma leitura muito mais sutil e sofisticada da situação na qual ele via que todo tipo de resistência social poderia ser incluída nesta categoria, estranha categoria. E então, eu acredito que ele foi quem cunhou o termo “piratas radicais”, se não estou enganado. Ele está morto agora, descanse em paz, e eu fiquei muito muito satisfeito quando ele me escreveu uma citação atrás de meu livro, porque ele era o “Reitor” dos estudos de piratas radicais. Há outros – Marcus Rediker, Peter Linebaugh[13], Jesse Lemisch foi um dos primeiros a se interessar no “mundo atlântico do navio” como um locus focal para resistência, então há uma pequena escola de nós, piratólogos radicais, sabe? Mas a maioria das pessoas não vê dessa maneira mesmo, mesmo agora não vêem desta maneira. (…)

Ou, por exemplo, as chamadas comunidades “isoladas tri-raciais” e comunidades vermelhas que estudamos em “Fomos Para Croatã”[14] – você sabe disto, certo? Sim. Então James Koehnline e Ron Sakolski e essas pessoas, como anarquistas, entramos neste estudo e nos encontramos muito entusiasmados sobre alguns destes grupos isolados como sendo um tipo de “abandonadores” (dropouts) naturais com continuidade – é algo que é interessante sobre elas, que ao contrário de muitas comunidades intencionais, essas comunidades “abandonadoras” realmente persistem por vezes, certo? Muito poucas comunidades intencionais persistiram e normalmente só as fanáticas religiosas. Isso é um problema. Nós poderíamos voltar a isto – o que nós, seculares, sabe, tipos radicais, podemos encontrar como possível substituto para esse nível de fanatismo que permite que você abra mão das vantagens da civilização e do progresso para ter algo que você considera mais valioso mas muito mais difícil, que é comunidade. Então, estes tipos de exemplos.

Parte 4

Muito bem, vou tentar dar uma definição curta. O termo “isolado tri-racial” não é um termo legal. Foi inventado por eugenistas. Mas ele realmente descreve a situação para ao menos alguns destes grupos. A ideia de miscigenação, no entanto, era uma obceção dos eugenistas, e eles viam miscigenação talvez onde, de fato, não havia ocorrido em grande profundidade. Alguns destes grupos podem ser, de fato, completamente negros ou completamente brancos, os completamente indígenas, mas ganharam uma reputação, através do desentendimento e preconceito dos seus vizinhos e a pseudo-ciência da eugenia, de tri-raciais. Então, normalmente negra, indígena e branca seriam as três raças aqui no Novo Mundo. E as pessoas brancas aqui (no interior de Nova York), por exemplo, eram holandesas. E nós presumimos que eram holandesas sem muita influência, ou casta, talvez fossem excluídos. E elas subiram e viveram nos morros, talvez tenham se casado com negros ou indígenas, é possível. Em alguns casos, certamente o fizeram. Mas em qualquer caso, elas se tornaram um tipo de povo à parte. Uma amiga minha cresceu em uma parte da Pensylvania onde havia um desses grupos, e ela disse que elas(es) tinham até mesmo sua própria linguagem. Quero dizer, era um dialeto, e era difícil para outras pessoas entendê-los quando falavam entre si. Então, bastante isolados, e as vezes por séculos, elas(es) meio que desapareciam.

Mas no século XIX e depois no século XX, quando tudo se tornou conhecido, quando não havia mais lugares escondidos, esses grupos tornaram-se conhecidos, fora de sua pequena área. Normalmente na área, elas(es) eram vistos como tipos inferiores, estranhas(os), caipiras, incestuosas(os), lá nas montanhas, falam esquisito, esse tipo de coisa… E então, as(os) eugenistas vieram e disseram “Ah, é muito pior que isso! Estes são verdadeiros vira-latas raciais” você sabe, “todos os homens têm que ser vasectomisados”, você sabe, leis foram aprovadas nos EUA para fazer isso, e adivinhe quem gostou destas leis, quem pensou que essas leis eram brilhantes…? Os alemães. Os alemães modelaram, os nazistas modelaram suas leis raciais nas leis americanas. E durante os julgamentos de Nuremberg dos cientistas nazistas, eles iam pegar os eugenistas alemães e enforcá-los. Então um brilhante advogado de defesa, um norte-americano, esqueço seu nome, disse “Espere! Se vocês condenarem estas pessoas pelas leis raciais, vão ter que prender um montão de norte-americanos também, porque essas leis são traduções palavra por palavra das leis norte-americanas, que ainda estão em vigor”. E em muitos casos, essas leis nunca deixaram de vigorar, não são muito usadas mais, mas estão lá, caso alguém queira usá-las.

E a ideia é que esse povo degenerado, você sabe, há muitos retardadas(os)… Quem era? O chefe de justiça da Suprema Corte disse algo como – eu esqueço a citação exata – “sete gerações de retardados já é o suficiente!”[15] Você sabe… Mas o fato é que a pesar de terem problemas de saúde, são pobres, são um pouco endocruzados as vezes, e algumas destas questões genéticas, mas são apenas pessoas como outras pessoas, sabe. Mas o que nos interessou sobre elas, você sabe – eu admito – de certa perspectiva romantizada, foi precisamente suas – as maneiras nas quais iluminavam toda a ideia de comunidade e comunidade intencional. E estivemos muito satisfeitos em ver, mesmo no século XX algumas destas pessoas foram capazes de superar seus próprios sentimentos de inferioridade que foram introjetados nelas, você sabe, se chega em uma situação em que…

Há um lindo livro de um cara que cresceu em uma família onde havia – ele sentia que sempre havia algo que não estavam contado a ele. Seus pais e suas tias e tios, havia algum mistério que… As vozes se silenciavam quando ele entrava na sala, esse tipo de coisa… E ele estava, sua vida toda, como “o que está acontecendo?”, e finalmente ele pôs uma de suas tias contra a parede e fez com que ela confessasse: “Bem, querido, somos melungeons e não queremos que ninguém saiba e por isso tentamos criá-lo sem sequer saber qual era sua herança, para que pudesse ser livre deste fardo”, e ele disse “o que é um melungeon?” – como você estava indicando… E era um destes grupos, você sabe… É um destes grupos.

Sua linhagem havia descido dos morros e tentado tornar-se pessoas “normais”. E estavam tentando perder seu passado, que consideravam ser uma desgraça. Mas ele, provavelmente sob influência dos anos 1960, sabe, hippie-ismo, decidiu que “Ei! Isso soa muito legal!”, sabe, então ele foi atrás e começou a pesquisar os melungeons e ele eventualmente publicou um livrinho muito interessante, sugerindo, entre outras coisas, uma ancestralidade islâmica. Sua hipóstese era que mouros convertidos, os moriscos que vieram como serventes com os espanhóis talvez tenham fugido para a floresta e se misturado com os indígenas, como muitas pessoas fizeram na América antiga. A ideia do indígena branco, você sabe… Cotton Matter, um divino[16] e ministro puritano na Nova Inglaterra, que esteve envolvido em, você sabe, queima de bruxas, não é um cara muito legal, uma vez ele reclamou amargamente, disse que os indígenas haviam roubado centenas de nosso povo, mas nós nunca fomos capazes de converter sequer um indígena ao Cristianismo.

E a ideia era que se você estivesse na parte de baixo do “totem” colonial, se você fosse um(a) servo(a), o que a sociedade branca e a civilização europeia tinha de tão legal que te impedisse de fugir e se juntar aos indígenas? Que sabiam onde encontrar comida, que não tinham reis sobre eles, os dizendo o que fazer… Você sabe, que tinham ideias diferentes sobre sexualidade e amor… Que estavam claramente em casa neste novo mundo, no qual elas(es) não se sentiam em casa nem um pouco… Então as tentações de fugir e “se tornar indígena” – coloco isto entre aspas – é um dos impulsos mais antigos da resistência norte-americana, e esse arquétipo continua reaparecendo de novo, de novo e de novo e até mesmo tomando formas ridículas, como faz-de-conta, você sabe, ser indígenas faz-de-conta da forma que os escoteiros ou, você sabe, algumas organizações fraternais, colocando penas na cabeça e, você sabe…

Há um tipo de desejar romântico por trás da mais idiota destas coisas, nas quais eu sempre penso quando nossos camaradas norte-americanos originários acusam os hippies de apropriação, e eu penso “bem, sim, isso é verdade”, como um dos curandeiros Lakota Sioux disse “por que vocês brancos não arrumam uma religião própria de vocês?” e há uma verdade nisto, você sabe, eu não vou negar, e eu não tento – eu aprendi a não tentar agir como um apropriador com relação a estas culturas, mas me parece que elas deveriam ter um pouco mais de sentimento com a ideia que de fato por gerações o povo branco se sentiu alienado em sua própria sociedade e admirou altamente este outro modelo. Quero dizer, nós realmente pensamos, “nós”, você sabe, realmente pensamos que indígenas vivem melhor do que nós. Bem, isto não deveria ser um elogio aos indígenas? De qualquer forma… Algumas(ns) delas(es) se sentem elogiadas(os) por isso, entendem isso e são simpáticas(os) com relação às pessoas brancas que, você sabe, querem, de uma maneira respeitosa, querem participar em algum nível nestes mistérios, em mistérios da natureza. Mas outras(os) não, há muito racismo e muitos sentimentos ruins por trás e eu não posso as(os) culpar por isso. E sua crírica da apropriação tem muitos pontos fortes, mas eu não quero jogar fora o bebê com a água do banho. E eu acho que seria ruim demais se as pessoas brancas dos EUA decidissem que temos que ignorar toda nossa herança indígena norte-americana por causa deste problema. Me parece que seria melhor enfatizar casos como as linhagens dos Cherokee, que acolheram as(os) fugitivas(os), brancas ou negras, ou os Seminoles, por exemplo, que fizeram o mesmo.

E de fato, você sabe, mesmo a Confederação Iroquois, ou tribos locais de Nova York, escreveram a Constituição inspirados em Hiawatha, alguns dizem que ele escreveu a Constituição ou a criou verbalmente, e depois ela foi escrita, e toda uma grande seção da Constituição diz respeito à adoção. Como adotar pessoas para a sua confederação, seja por tribos ou indivíduos, como tribos inteiras ou como um indivíduo. E toda a coisa foi produzida, como fazer. Eles e elas não tinham nenhum conceito de que para ser um Iroquois você tinha que ter determinados genes ou linha sanguínea. Era sobre a forma que você vive. Se você vivesse como indígena, você era indígena e poderia se juntar à confederação. E de fato - como se descobriu - em uma atitude bastante ingênua mas charmosa, a Confederação Iroquoi convidou a França a se juntar, como uma sétima nação. Ficaram surpresas(os) com a recusa. Mais tarde, descobriram que haviam sido mal aconselhadas(os). Mas em teoria poderia ter sido feito. Na teoria, você sabe, o povo branco de Nova York poderia ter dito "bem, que tal aceitar-nos como a sétima tribo" (risos) e então nós teríamos uma América do Norte bastante distinta da que temos. Pura ficção científica, obviamente. Mas mesmo assim pelo menos como historiadoras(es) eu penso que nós poderíamos olhar para estas sociedades estranhas, pele-vermelhas, essas sociedades tri-raciais, assim chamadas, e encontrar inspiração em vez de apenas olhar para elas como falhas, você sabe, as histórias de fracasso na grande marcha estado-unidense em direção ao progresso e à democracia. Que é como foi interpretado, no passado.

Parte 5

Neoconservadores, essas mesmas pessoas a quem você estava citando, uma das coisas que elas adoram dizer é que não existe sociedade caçadora-coletora pura, que não se pode provar que alguma destas sociedades caçadoras-coletoras no presente etnográfico sempre foram caçadoras-coletoras. E de fato, as evidências indicam que elas reverteram de agricultoras para uma economia caçadora-coletora porque falharam enquanto agricultoras. E toda essa ideia “hipponga” sobre a pureza de caçadores-coletores não passa de bobagem. De fato, são todas(os) agricultoras(es) mal-sucedidas(os). E não deveríamos admirar a caça e a coleta porque simplesmente representa o fracasso. Essa era mais ou menos a parte não escrita da mensagem, mas era bastante clara.

Então, quando eu ouvi pela primeira vez essa ideia de reversão, eu fiquei extremamente bravo. Porque eu sou um “hipponga”. Eu sou um homem dos anos ’60, não há como negar: Marshall Sahlins[17], “Homem Caçador”[18], Pierre Clastres, todas essas pessoas que estavam aparecendo nos anos ’60, são meus homens, são meus caras. Eu ainda os sigo, até certo ponto, com algum revisionismo, mas basicamente, estou com eles. E então, esta ideia de reversão era um anátema para mim, eu achei horrível! Mas então comecei a pensar a respeito, e disse "Bem, e se for verdade? Então o que significaria? Significaria que elas fracassaram? Ou significaria que tentaram esta forma de viver e decidiram que era uma merda!? E decidiram voltar a caçar e coletar porque podiam ser livres, podiam se livrar do chefe que estava levando seu trigo extra, e se tornando um líder grande e poderoso com ele… Não tinham mais que participar na nova forma de guerra, onde se mata todo o mundo ou os escraviza, você sabe… E voltar para uma forma mais primitiva de guerra, que era mais sobre se divertir, de uma forma jovem e violenta, sabe?

E contar golpes, por exemplo, como você sabe, os indígenas norte-americanos não conseguiam entender por que as pessoas não se deitavam e saíam da batalha quando eram tocados pela varinha, não estavam jogando de acordo com as regras, sabe… As regras eram: não matar muitas pessoas, as populações eram pequenas. Se capturassem alguém alguma vez, geralmente eram mulheres para repor sua população, sabe… Que é uma forma violenta do conceito de troca de mulheres de Levi-Strauss[19]. A guerra primitiva não era nada parecida com o que veio depois. A guerra primitiva tinha um significado completamente diferente para a sociedade do que o que eu chamo de guerra clássica, que começa, basicamente, com a civilização na Mesopotâmia e no Egito, onde se escraviza o outro povo. E o mantêm escravizado para sempre como um povo de segunda classe. Como escravos[20] ou servos.

Isto é o começo da civilização, este é o mundo que ainda conhecemos e pensamos, a maioria de nós pensa, que sempre existiu. Mas se você estudar antropologia e arqueologia, você sabe que isto não é verdade, que houve de qualquer lugar entre quarenta mil a um milhão de anos, dependendo de como se define “humano”, havia sociedades humanas que não tinham estruturas autoritárias e eram quase invariavelmente baseadas em caça e coleta ou agricultura primitiva. Onde eu discordo de Marshall Sahlins é que eu não tenho tanta crítica com a domesticação, este também é um ponto com Zerzan, por exemplo. Eu amo o trabalho de Zerzan, eu aprendi muito com ele e nós nos consideramos camaradas, mas há pontos com os quais considero que ele é muito extremo…

Quero dizer, se nós realmente quisermos cumprir algo nesta vida, não há muita razão para criticarmos a linguagem do jeito que o John critica, como por exemplo, para criticar o capitalismo, e tentar pensar em alguma forma viável de verdade de alternativa que realmente funcionasse, você sabe… Então, o que eu gosto do trabalho deles, eu extendi… O que eu gosto do trabalho deles sobre o Paleolítico, a velha idade da pedra, de caça e coleta e completa, pode-se dizer, anarquia tribal, presumimos, eu tento carregar até o período Neolítico, e mostrar que o Estado não emerge até o final do Neolítico, certo? Claramente não é a horticultura ou a agricultura primitiva que leva o Estado à aparecer. Porque por dez mil anos temos sociedades baseadas na domesticação onde o Estado não emerge. O Estado emerge, até onde podemos ver, por causa de alguns poucos fatores cruciais que aparecem, metalurgia sendo um muito importante – em outras palavras, tecnologia no sentido moderno. Irrigação, portanto a ideia de um excedente permanente, que se você o controla, você tem poder político. Então estas duas coisas eu vejo como o ponto da virada que permitiu o que eu chamo de primeiro Golpe de Estado, que é a emergência do Estado.

Tenho certeza que havia sido tentado antes, porque como diz Pierre Clastres, sociedades primitivas não são feitas de pessoas boazinhas que se amam a todas o tempo todo, elas sabem do perigo da hierarquia e organizam a sociedade contra ela. Esta é a ideia de Sociedade Contra o Estado, de Clastres, que você deveria ler, se ainda não leu, e também o livro dele que publicamos, Arqueologia da Violência, no qual ele explica sobre a guerra primitiva. Estes são livros muito importantes, e pessoas de menos os leram. Então… Eu só… Eu tenho esta ideia, enquanto Luddita, que nós podemos ter tecnologia se ela for tecnologia apropriada. Onde podemos ter techne, se for techne apropriada. Nós poderíamos ser Ludditas em vez de Primitivistas, ao menos como um passo no caminho de voltar à situação da idade da pedra, o que todas(os) nós, você sabe, estamos perfeitamente dispostas(os) a admitir ser a melhor ideia, para mim.

Mas falhando isto, e desde que temos, no sentido de que agora temos “zilhões” de pessoas que têm que ser alimentadas, temos que fazer algum tipo de paz com a agricultura. O que poderia ser? Permacultura… É uma possibilidade muito forte. Sabemos que existem modelos lá fora que não são nem de perto tão destrutivos quanto a agricultura industrial, desde que a Mesopotamia, o – o que gosto de chamar de – modelo Babilônico de agricultura. E sabemos que… O que os Ludditas estavam dizendo era que se as máquinas – esta é uma frase diretamente de uma carta Luddita, uma das cartas anônimas – maquinaria prejudicial à comunalidade1. A comunalidade, como diríamos hoje em dia, em outras palavras, os Bens Comuns. Maquinaria que fosse prejudicial aos Bens Comuns, esta é a maquinaria que queriam destruir, não toda maquinaria. Eles tinham seus próprios teares manuais com os quais ganhavam a vida. Eles não iam destruí-los. Eram os teares mecânicos que roubavam seus empregos e destruíam sua sociedade, sua comunidade! Era disto que não gostavam. E era isto contra o que estavam se rebelando.

Então eu estou propondo este tipo de modelo horticultural meio que verde-Luddita-anarquista… O que significaria uma forma inteligente de domesticação. Uma na qual não olhássemos – não mais olhássemos à nós mesmas como os lordes da criação mas colaboradores com a natureza, e em certas comunidades tradicionais eu percebi, eu vi em minhas viagens certos modelos que pareciam atraentes a este ponto de vista. Normalmente estão prejudicados, eles têm sido prejudicados por centenas de anos de capitalismo e imperialismo, mas você ainda pode, no interior da Índia ou do Afeganistão, ou deus sabe onde, América do Sul, suponho, mas meu conhecimento é bastante limitado, você ainda pode encontrar comunidades reais, você sabe, que não estão morrendo de fome, até certo ponto, que resolveram o problema da riqueza, e onde – o que os permitiu a fazer isto é na realidade seu fracasso ao juntar-se com a sociedade moderna, e adotar a tecnologia moderna.

Então, o fato de serem pobres de mais para comprar tratores ou televisões, e o fato de que elas ainda estão usando carroças, você sabe, e arados com cavalos, ou o que quer que seja, preservou sua comunidade e me deu enquanto visitante uma verdadeira empolgação de ver um grupo de pessoas sendo tão diferente daquilo com o que estou acostumado, e que elas são todas, você sabe, juntas. Eu ia dizer felizes juntas, mas isto claramente não é verdade, porque a felicidade não é garantida por nenhum sistema social… E nem é a pureza de coração, você sabe, nem a inocência, ou qualquer uma destas coisas e se as e os hippies acreditaram em algumas destas coisas, bem, você sabe, nós estávamos erradas(os). Mas estávamos erradas(os) por uma boa razão, não por uma razão podre, você sabe… Mas agora eu gostaria de uma leitura mais nuanceada do passado…

De qualquer forma foi o que eu as disse em Columbia e elas(es) ficaram muito gratas(os) de ouvir que não tinham de deixar, você sabe, este tipo de permissão para não ser oprimidas(os) pelas(os) acadêmicas(os) neoconservadoras(es), que estão no comando já fazem vinte e cinco anos, no mínimo, dizendo que todas essas ideias são mentiras de hippies, você sabe, e esqueça. A verdadeira – têm sido uma luta desde o início, seres humanos não são bons, elês têm de ser controlados, você sabe… Essas são as mensagens não escritas que essas(es) acadêmicas(os) têm nos passado, e cara, a juventude está farta deles. Estou começando a ter algumas esperanças, que talvez as(os) jovens – a juventude vá sair destes dias cibernéticos nos quais estão, e começar a resistir novamente.

Parte 6

Se dermos uma definição específica à agricultura, então a agricultura é um grande problema. Mas se percebermos que há gradações na techne da agricultura, e que nós poderíamos falar sobre horticultura, por exemplo, a qual penso que a versão moderna seria a permacultura… Charles Fourier, que é um dos meus caras principais, foi um dos primeiros críticos da agricultura. E ele percebeu que a agricultura civilizada era muito destrutiva para a comunidade, e para o bem estar, para todo o mundo exceto à elite. E então ele propôs que revertêssemos, de certa forma, para a horticultura, para que, por exemplo, apenas pequenas quantidades de grãos fossem cultivados, e seriam para mimos especiais, como às tortinhas que ele gostava tanto. Mas não seriam mais itens básicos, porque o tipo de agricultura necessária para produzir esses itens básicos era simplesmente muito contraproducente, em termos de uma existência livre e prazerosamente comunal. Então este é o porquê dele colocar tanta ênfase nas frutas e em horticultura baseada em pomares, que me lembra muito do cara australiano, qual é o nome dele? O profeta da permacultura quando… (Bill Molison.) Certo.

Eu não sei se ele já leu Fourier mas me parece que há alguns paralelos fortes aí. Então, você sabe, em outras palavras, não é que a domesticação das plantas seja tanto o problema, a pesar que de algumas formas é um passo abaixo da coleta, do ponto de vista das liberdades sociais… Mas não é tanto o problema como é a hierarquia que é necessária para fazê-lo em larga escala e reproduzir uma sociedade baseada na escravidão virtual da maioria dos seus habitantes. Esta, ahm… Se a ideia de Fourier era de que se você fizesse isso e tiver este tipo de economia não há como escapar dos horrores da civilização, porque eles vem à você, você sabe, é o mesmo pacote.

Então por exemplo, ahm, eu li alguns anos atrás um artigo de uma mulher cujo nome infelizmente eu esqueci e perdi a referência, mas era um artigo brilhante, da escola de Carl Sauer, como historiador norte-americano de plantas, um escritor brilhante, eu o recomendo muitíssimo, a ideia dela era – muito bem, por exemplo, imaginemos uma tribo da idade da pedra que ainda esteja no estágio caçador-coletor. Então não são nômades puros no sentido de que apenas vagassem sem rumo, seguem uma rota anual, provavelmente, esses grupos sigam uma rota anual. Então quando os frutos do carvalho estão maduros nas florestas, eles estão nas florestas tendo um banquete de frutos do carvalho, você sabe, e quando os peixes estão correndo no rio, o salmão está correndo no rio, eles estão no rio se enchendo de salmão, sabes? Este tipo de vida. Então é como um banquete móvel, com cada área pela qual passam provendo um dos pratos deste banquete que dura o ano todo. Eu penso que esta é uma visão muito bela da vida.

Muito bem, então o que aconteceria se elas(es) juntassem os tipos de plantas que mais gostassem, que são, por sinal, quase sempre coisas que te chapam, em vez de coisas alimentícias, peguemos a maconha, por exemplo, na Ásia Central. O que eles perceberiam quando voltassem cada ano para seus locais de acampamento, perceberiam que o cânhamo parecia estar seguindo-os. Porque enquanto anos atrás não havia cânhamo algum crescendo pelo campo A, e agora há, todo este cânhamo crescendo pelo campo A, bem, a maconha deve nos amar tanto quanto nós amamos a maconha! Ela nos segue, certo? É uma ideia linda. E é um tipo de relação amorosa, que quase certamente foi mais importante para as mulheres do que para os homens, porque elas foram as primeiras coletoras de plantas, os homens enquanto isso estavam tendo, o que eu consideraria – ela não entrou nisto – mas eu consideraria que havia uma relação amorosa entre os homens e os animais, onde já há entre predador e caça, como se sabe, não é uma relação de ódio, é uma relação de amor.

Então a domesticação, para mim, começa com esta grande experiência erótica da natureza, de que não estamos sós na natureza, que os espíritos da natureza nos amam e querem nos fazer bem e querem colaborar conosco de forma que sempre tenhamos bastante bagulho para fumar, sabe? Ou cevada para fazer cerveja. Ou o que quer que seja, no Novo Mundo é tabaco, tabaco é a primeira planta a ser cultivada no Novo Mundo, porque os xamãs precisavam dela. Precisávamos dela para fazer xamanismo, a maioria das pessoas esqueceu completamente disto, se as contasse que o tabaco era a droga xamânica mais difundida e popular do mundo nunca acreditariam em você, mas é verdade. No Novo Mundo, de qualquer forma.

Até onde consigo alcançar, todas as primeiras plantas a serem cultivadas estavam relacionadas ao prazer, não à uma economia ruim. Então é basicamente um grande banquete de amor no começo, e essencialmente eu penso que continua desta forma por todo o Neolítico. Basicamente, o que estás olhando é – o que Kropotkin reconheceria à primeira vista “Ah!”, você sabe, “Este é o vilarejo anarquista camponês, com seu pequeno conselho de vilarejo, com os idosos e as avós, que têm poder consultivo, mas não têm poder legislativo”, era exatamente o ideal camponês sobre qual Kropotkin sonhava. Isto foi realidade, por dez mil anos, até que uns mágicos maléficos e alguns guerreiros desapontados se juntaram e tramaram como escravizar o resto de sua própria tribo. Quero dizer, o que pode ser mais cruel e malvado do que isto? E se olhares para a arqueologia, eu não tenho que – isto não é fantasia, se você voltar e olhar à primeira dinastia do Egito, ou à terceira dinastia de Ur, o que encontras? Sacrifício humano e canibalismo. Esta é a base do Estado, é o sacrifício humano. Não apenas escravizar camponeses, é pior do que isto – comer os camponeses!

Você sabe, no Novo Mundo, na cultura Cahokiana Mississipiana, que era baseada em modelos Centro-Americanos e Sul-Americanos, você sabe, e haviam aterradores[21] no Mississipi, lugares assim. Entre Mississipi e Ohio, no Vale do Mississipi, apenas no – digamos, seu último período de florescimento seria pelo século XII, então um pouco antes da chegada de Colombo. E o que estavam fazendo? Eram uma sociedade altamente estratificada, com reis e nobres de um lado, e escravos de outro, e também tinham uma ideia equivocada da agricultura, não estavam tendo proteína o suficiente, estavam apenas cultivando milho, não estavam cultivando feijão o bastante, aparentemente. Eu acho que mesmo milho e feijões não é suficiente, sabe? E então o que fizeram? Começaram a comer os escravos. E isto… Nós sabemos disto. A evidência arqueológica está lá.

Então a minha interpretação para os montes efígios em Wisconsin, que é sobre o que escrevi aquele ensaio, era de que estas são pessoas que reverteram, que escaparam da escravidão e da opressão, voltaram aos bosques, tornaram-se caçadores-coletores novamente, mas tinham aprendido algo com seus opressores, que era como construir aterros. E em vez de construir aterros para defesa, ou para sacrifício humano ou o que quer que fosse, eles começaram a construir aterros muito menores, com formas artísticas lindas, como forma de mostrar um reformismo religioso ou mesmo revolução que estavam propondo, este conceito “de volta à natureza”, certo? É por isto que os montes são animais, ou pássaros, exceto um que é, aparentemente um monte é um xamã, havia alguns montes em forma humana, resta um, então é uma figura humana com chifres, então presumimos que fosse um xamã. E estes montes são quase que totalmente ignorados pelos arqueologistas americanos, porque são tão difíceis de interpretar por que… Caçadores-coletores, primeiramente, não devem construir coisas. Isto é contra as regras, certo? Não é assim que eles devem agir.

Minha ideia é que estivessem fazendo-os como uma resposta religiosa deliberada para este culto da morte do Sul, ao imediato Sul deles, que, a propósito, havia penetrado com várias colônias, bem em meio a eles. E eles podem até mesmo ter escapado da escravidão, você sabe, no mínimo viram o mal… Que isto era uma merda muito ruim na qual elas(es) não queriam estar envolvidas(os). E se retiraram, reverteram, se preferires, para esta forma social mais antiga, onde a liberdade, a beleza e a arte – e tinham tempo para fazer arte – isto é claro, havia ainda, como você mesmo disse, muitas coisas para comer na América, naqueles dias, não era preciso fazer todo este trabalho duro, contanto que você evitasse este tipo de sociedade hierárquica, massiva, em forma de pirâmide, onde os, você sabe, os dez porcento do topo eram reduzidos ao horrível, você sabe, nível de justificação religiosa para comer seus vizinhos.

Então, este é o cerne do meu artigo, é com isto que estes arqueólogos se excitaram, o viram como uma resposta para esta merda neoconservadora que diz “Oh veja, os Anasazi, eles se comiam. Isto prova que povos primitivos são tão crueis e malvados quanto pessoas modernas, de fato, piores!” que tem sido a ideia neoconservador por bastante tempo, não há motivo – para eles – não há motivo, é apenas glorificação do primitivo, é apenas bobagem hippie. E eles usam estas evidências arqueológicas anômalas para provar seu ponto de forma bastante tendenciosa, ignorando completamente as evidências contrárias, e esta tem sido a ortodoxia na academia no último quarto de século, no mínimo.

Referências

  1. Jean Baudrillard – sociólogo e filósofo francês.
  2. Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community de Robert D. Putnam
  3. The Benevolent and Protective Order of the Elks – Nova York: Página Wikipedia
  4. The Farmer’s Alliance
  5. Infelizmente não foram encontradas informações a respeito do que seria “A Granja” (The Grange)
  6. No original “tenure track”.
  7. A ideia sobre uma Zona Autônoma Temporária é de como um grupo, um Bando, uma coagulação voluntária de pessoas afins não-hierarquizadas podem maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedade atual. Em linhas gerais é uma organização para o desenvolvimento de atividades comuns, sem controle de hierarquias opressivas. Para Hakim Bey, uma TAZ é uma aglutinação de pessoas que se encontra em tamanha complexidade que se pode dizer que toda uma sociedade está dentro da TAZ. Texto na íntegra
  8. No original, “drop out” - abandonar, desistir. Neste contexto, retirar-se da sociedade.
  9. Anabatistas são cristãos sectários do anabatismo, a chamada "ala radical" da Reforma Protestante. Amish é um grupo religioso cristão anabatista baseado nos Estados Unidos e Canadá.
  10. Jesse Lemish, professor emérito de História na Universidade de Nova York
  11. [personal.tcu.edu/gsmith/GraduateCourse/Colonial%20PDF%20Articles/JesseLemisch-JackTar.pdf “Jack Tar In The Streets: Merchant Seaman in the Politics of Revolutionary America”
  12. Utopias Piratas: Mouros, Hereges e Renegados, de Peter Lamborn Wilson. Publicado no Brasil pela editora Conrad.
  13. Historiador marxista norte-americano.
  14. Gone to Croatan: Origins of North American Dropout Culture, livro de Ron Sakolsky e James Koehnline. Ron Sakolsky é professor emérito de Administração Pública na Universidade de Illinois, EUA; James Koehnline é artista de colagens, residente de Seattle, EUA.
  15. Juiz Oliver Wendels Jr. em sua decisão do caso Buck vs. Bell: “Três gerações de imbecis é o suficiente!” ver: https://en.wikipedia.org/wiki/Buck_v._Bell
  16. No original Puritan divine.
  17. Marshall Sahlins, professor emérito da faculdade de antropologia da Universidade de Chicago, EUA.
  18. “O Homem Caçador” (Man The Hunter, no original), simpósio depois transformado em livro organizado por Richard Lee e Irven DeVore
  19. Claude Levi-Strauss, antropólogo estruturalista de grande influência no século XX
  20. No áudio, há um adjetivo não identificado junto da palavra escravos, que soa como faladeen. “faladeen slaves”.
  21. Mound builders no original.



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