Auto estupro

De Protopia
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Autoprostituição e autoestupro do homem

O homem se adapta ao papel de caçador apresentado pela sociedade machista como inato. De novo está preso à armadilha cuja isca é achar que isso lhe beneficia.

Vejamos as coisas pelo lado interno do esteriótipo do caçador. Existe uma rejeição implícita no processo de sedução caça-caçador, sofrida constantemente pelo caçador. No jogo de papéis entre “homem-caçador” e “mulher-presa”, cabe à mulher dizer não e ao homem insistir em sua investida.

Nós, homens, só vamos nos aperceber desse sentimento de rejeição quando mais tarde conseguimos estabelecer relações com mulheres que nos querem abertamente, nos procuram, nos seduzem, nos envolvem e nos acolhem, porque nos amam, nos desejam e nos aceitam como somos, trazendo uma nova referência para nossos sentimentos. Somente depois de uma experiência assim, o homem passa a entrar em contato com a rejeição que sente quando se envolve num jogo caça-caçador, percebendo que as coisas podem ser diferentes, conseguindo finalmente se desvencilhar desse papel e passando a ser muito mais exigente na escolha de suas parceiras.

Há dois extremos importantes a serem abordados dentro do universo de absurdos promovidos pela ideologia caça-caçador: a prostituição e o estupro da mulher.

Segundo provérbio popular, “a prostituição (da mulher) é a mais antiga das profissões”. Deve ser tão velha como o próprio machismo! Vamos novamente buscar a ótica interna do homem que paga para que uma mulher se relacione sexualmente com ele. Como pode haver entrega emocional nessa situação? Que caminhos levam um homem a esse ponto?

Sem dúvida são caminhos repletos de frustrações e rejeições que desembocam na necessidade de um homem comprar a relação com uma mulher. Ela não se relaciona com ele porque o ama, o respeita e o quer pelo que ele é, mas o faz por dinheiro!

Será que esse homem não desejaria algo de melhor para si? Não percebe que merece, pode e tem direito a uma relação menos comercial e mais humana? Não percebe que está prostituindo seus sentimentos, seu corpo, seu próprio ser?

Infelizmente essas questões emocionais que orbitam a alma do homem que contrata uma prostituta, são negadas por ele mesmo, transformadas em suposta vantagem. Uma opção considerada viável para o caçador que não conseguiu nenhuma caça: comprá-la! Essa é quase a mais extrema falta de valorização de si mesmo a que um homem pode chegar. Digo quase porque ainda pior do que a prostituição, mais humilhante e degradante, é o estupro de uma mulher.

Os milhares de casos de estupro ou de violência sexual caseira contra a mulher, ocorridos diariamente nas sociedades modernas, podem ilustrar de forma dramática a realidade imposta pelo jogo caça-caçador quando levado às últimas consequências.

Se colocarmos como situação necessária para entrega emocional, a percepção de que a outra pessoa nos quer assim como nós a queremos, poderemos perceber que o estupro é também uma imensa violência emocional para o homem. O homem nega totalmente sua sensibilidade e sua condição humana. Agride a si mesmo, negando estupidamente a possibilidade de fazer amor com quem realmente o desejasse. Experimenta o gosto amargo da mais profunda rejeição ao seu ser. Gera ódio e asco num ato que poderia gerar amor e vida. Mentalmente doente, emocionalmente doente, distante, muito distante da possibilidade de ser um humano. O homem que estupra uma mulher, estupra a si mesmo e, como tenho repetido nesses escritos, infelizmente ainda é capaz de achar que leva alguma vantagem nisso.

Do outro lado desta moeda, os homens literalmente andam fugindo das mulheres que buscam uma relação mais profunda e de maior entrega. As mulheres, no quadro de maior liberdade de expressão que se criou com o feminismo, também estão indo à caça! Mas isso não anda promovendo encontros pois é mais do mesmo modelo caça-caçador. Como em outras áreas, as possibilidades de maior inserção social das mulheres dentro da sociedade machista aconteceu pela conquista de mesmas possibilidades que os homens dentro dos esquemas vigentes e não pela sua transformação. A inclusão das mulheres no mercado de trabalho também se deu pela adaptação da mulher às instituições e padrões machistas e não pelo contrário. O caminho de menor atrito foi o enaltecimento das características (socialmente definidas como) masculinas das mulheres, inclusive porque o próprio movimento feminista iniciara esse enaltecimento. Dentro desse contexto podemos chamar a atenção para o fato das mulheres passarem a aparecer nas estatísticas sobre estresse e infarto e o fato da prostituição do homem ser hoje tão normal quanto a da mulher.

O estupro voluntário do homem! Chamo a isso as muitas vezes em que os homens fazem sexo sem estar realmente com vontade, por obrigação. Afinal não é papel de homem criado nas sociedades machistas recusar-se a fazer sexo com uma mulher. A praxe é que a mulher se negue vez em quando para o homem que a assedia. Daí a famosa “dor de cabeça” das mulheres. Enquanto isso cresce a porcentagem de homens com impotência e ejaculação precoce. Ou seja, nosso lado que não quer fazer sexo naquele momento, naquele dia ou naquela fase de nossas vidas (o que é muito natural) não é sequer admitido na consciência, por isso é somatizado. E cresce a venda de Viagra.

Impotência é um fenômeno orgânico que representa algo que não atingimos usando somente raciocínio lógico. A ereção masculina é um fenômeno de raro interesse científico porque em diferentes fases envolve os sistemas autônomos simpático e parassimpático. Não podemos e não devemos fazer leituras restritas ou buscar definições específicas do que seja ou o que significa exatamente uma fase de impotência, mas é clara e simples a visão de que é uma forma de fazer com que a relação sexual não aconteça.

Nas leituras corporais é preciso inverter a lógica racional, ou seja, não há nada de errado com o corpo. Pelo contrário, o Corpo é o mestre que nos guia para um entendimento mais amplo das muitas questões pessoais e sociais envolvidas. Nós podemos racionalmente querer seguir adiante sem enxergar as questões que o Corpo pede para serem vistas com cuidado, as situações que nos obrigamos a suportar, em nome de manter o papel do homem em nossas sociedades machistas.

Outra “disfunção” que pode ser considerada epidêmica entre os homens criados em culturas machistas é a chamada “ejaculação precoce”. Ela também é uma forma de fazer que a relação não aconteça, ou melhor, que acabe logo. O que esses fenômenos expressos pelo Corpo tentam dizer aos homens? Qual a referência que os homens buscam para estabelecer suas posturas e comportamentos sexuais, ou melhor, qual a referência que a ideologia capitalista dominante lhes apresenta?

Já reparou qual o papel clássico dos homens nos filmes pornográficos? A postura clássica do homem “comedor”: a parte superior do corpo parada distante da mulher e a parte de baixo vai-e-vem freneticamente. O rosto, pescoço, ombros, braços, peito, não fazem parte da relação, não se envolvem com a mulher, não são beijados, acariciados, cheirados, não entram em contato com a pele da mulher. O coração está fora da relação! O pênis do homem é o que mais interessa na relação pornográfica, tanto que nos filmes pornográficos ele é muito mais filmado do o rosto dos homens. O que faz a diferença entre um filme pornográfico e outro é a forma como as mulheres que nele aparecem fazem sexo, é o jeito da mulher transar que distingue um filme pornô de outro, as mulheres é que são as estrelas, são as que aparecem na capa, tem seu nome estampado, ficam famosas, etc. Os homens são representados por diferentes pênis com os quais as mulheres aparecem. Os homens de filme pornô controlam tanto seu orgasmo que o clichê é que eles segurem seu orgasmo para poder ejacular no rosto da mulher. Faz parte do contrato que o ator pornô tem que apresentar uma ejaculação. Essa exigência, se faz necessária porque é a única prova que houve orgasmo. Ufa! não é só fingimento. Se houve orgasmo deve ter havido prazer, não foi tudo falso. O conceito de potência orgástica acaba com essa ilusão pois revela que nesses casos há ejaculação, mas não há orgasmo, ou melhor, há orgasmo de baixíssima potência. Toda energia acumulada no ato e não descarregada no orgasmo, serve como fonte das neuroses e será descarregada no cotidiano através daquilo que Lacan chamou de “gozo podre”. Esse gozo estranho (geralmente rimos nervoso quando falamos dele, quando conseguimos localizá-lo) é um afeto, uma afetação excessiva. Pode ser raiva, discussão, quebradeira, gritos… Pode ser tristeza, choro, pena de si mesmo. O gozo podre tem muitas formas. Cada pessoa desenvolve sua forma única e peculiar de gozar indiretamente aquilo que não consegue gozar de forma dir