Algumas palavras sobre o anarquismo

De Protopia
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Gustav Landauer
  • Publicado originalmente em Die Welt am Montag [O mundo na segunda-feira], que tinha uma série chamada “Die Parteien in Selbstzeichnungen” [“Os partidos em suas próprias palavras”]. Este artigo foi reimpresso como “Ein paar Worte über Anarchismus”, em Der Sozialist, no dia 10 de julho de 1897. A data de publicação em Die Welt permanece desconhecida.

Espero ser aceitável começar com uma crítica da tarefa que eu devo realizar. Não pretendo ser muito pedante ou procurar pelo em ovo. Quero formular esta crítica somente em nome do anarquismo. Os Partidos em Suas Próprias Palavras – a opinião de um anarquista não se encaixa realmente sob este título. Não nos pensamos como um partido. E, mesmo que nos pensássemos, um partido pode descrever a si mesmo em suas próprias palavras? É preciso razão para esta tarefa, mas a razão falta aos partidos. Primeiramente, existe uma contradição lógica: o partido é um conceito abstrato e autoritário, não uma realidade psicológica; em segundo lugar, existe uma contradição psicológica: ao partido falta razão, autodeterminação e fisiognomia.

Podem dizer que estou levando o título muito a sério. Tudo o que os editores querem é uma descrição de um certo tipo de crença política por alguém que sustenta essas crenças. Bem, parece que nós anarquistas geralmente nos opomos a tudo, mas não temos crenças políticas – temos crenças contra a política.

Alguns podem dizer que isso nos torna um secto, e não um partido; outros podem acrescentar que somos um bando de lunáticos, já que nossas certezas nem mesmo são uniformes. Tais perspectivas pouco me preocupam. Deixemos os burgueses com o seu senso comum pensar que somos estranhos e bizarros. Aqueles que querem nos entender têm de entender a base em que nos estabelecemos.

Concordo com o ótimo ensaísta estadunidense Ralph Waldo Emerson (quem o conhece na Alemanha?), que disse que todos que querem se tornar homens têm de se tornar dissidentes.

“Oh”, posso ver o leitor pensando, “eis a agenda anarquista: deixar a igreja nacional!”. Sim, queremos deixar a igreja nacional, mas queremos deixar muito mais: o Estado e todas as associações forçadas; as tradições de propriedade privada, de casamento possessivo, de autoridade familiar, de divisões do trabalho com privilégios, de exclusividade nacional e de arrogância. Tudo isso é essencial para o futuro da sociedade humana. Hoje ainda nos sentimos impotentes, fracos e sozinhos. Entretanto, precisamos nos livrar de tudo que desprezamos, nos rebelar contra tudo que nos oprime e nos limita e tomar tudo que precisamos e queremos.

Sinto que o leitor está se tornando impaciente. Ele certamente esperava ler algo mais entusiasmante, dado o enfoque sensacionalista. Ele me quer falando sobre bombas, máquinas infernais e punhais. A maior parte dos leitores quer ler o que eles pensam que já sabem, que os anarquistas jogam bombas, pedir o mesmo dos outros parece ser o conhecimento comum.

É impossível negar que anarquistas foram envolvido em alguns assassinatos nas últimas décadas. Entretanto, em princípio, anarquismo e violência nada têm em comum. A ideia anarquista é uma ideia pacífica, contrária à agressividade e à violência. Isso não significa que sejamos todos ovelhinhas. Mas significa que queremos viver plena e brilhantemente como personalidades inteiras e maduras. Há algo da intensidade do sul, da paixão temperamental dos jovens nos anarquistas. Povos latinos (italianos, espanhóis, franceses do sul) e russos são muito mais inclinados a serem anarquistas que alemães, e entre os alemães, os do sul e os do vale do Reno têm mais fortes inclinações anarquistas que os da Prússia (deixando de fora as cidades grande onde a cultura foi revigorado.

É raro que a contemplação e a razão encontrem-se com a vibração e o ardor num indivíduo. A luz calma e o fogo indomável raramente misturam-se em uma personalidade. A quietude e a razão são representadas por indivíduos como o francês Élisée Reclus, o russo Kropotkin ou o austríaco Ladislaus Gumplowicz; a rebelião e a impetuosidade são demonstradas pela francesa Louise Michel ou pelo alemão do sul Johann Most (geralmente mal compreendido porque pouco conhecido; um escritor da mais alta ordem, um indivíduo renovado e original); Somente as maiores pessoas unem um intelecto brilhante e uma paixão inflamada. Um exemplo parece óbvio, mas quem realmente o conhece na Alemanha além de alguns poucos anarquistas, alguns estudiosos e os revoltosos de [18]48? Estou falando de Mikhail Bakunin.

Entretanto, voltemos aos assassinos: eles não são motivados pelos ideais anarquistas e não têm objetivos anarquistas; na realidade, as suas intenções nada têm a ver com suas ações. Eles também não são Stürmers[1] selvagens; eles são odiadores fechados e frios. As ondas causadas pelos seus desejos quebram na barragem de uma praia: o presente. Nem sua ânsia por felicidade e liberdade, nem suas necessidades mais elementares podem ser satisfeitas. Todas as suas emoções são concentradas e comprimidas. Eles visionam a vida abençoada de anarquia e a realização de seu verdadeiro ser inteiro, enquanto não podem nem ao menos alimentar a si mesmos e a seus filhos. Gradualmente, muitos elementos de suas personalidades morrem: a reflexão, a consideração, a empatia e inclusive o senso de autopreservação. A sua vida começa a ser consumida por somente um sentimento: o desejo pela vingança. Finalmente, chega o momento em que tudo que foi escondido vêm à tona, quando tudo o que tinha sido congelado começa a boiar e chiar ao fogo, quando tudo o que estava solidificado descongela e quando tudo o que tinha sido suprimido explode. Então, o mundo reage afrontado e implementa leis de emergência para proteger-se contra a vida abençoada da anarquia e seus adeptos secretos. Este é o mesmo mundo que nunca considera medidas contra si mesmo, que nunca considera oprimir a opressão. Mas, é claro, ele não faria isso. Se o fizesse, não seria o mundo tout le monde – não somente às segundas, mas todos os dias.

É fácil condenar os assassinos. Entretanto, tento compreendê-los psicologicamente, e, se eu fosse um advogado, eu os defenderia contra as limitações da “justiça” burguesa. Minhas palavras de encerramento seriam: abdiquem da violência autoritária e da proteção do privilégio e do roubo, e não haverá mais foras-da-lei, nem violência rebelde! (Aqueles interessados na psicologia de assassinos anarquistas deveriam ler os discursos de defesa de Ravachol, Vaillant, Henry, Acciarito, Etiévan e muitos outros, e veriam minha opinião confirmada. O julgamento contra Koschemann, contudo, não precisa ser estudado. Koschemann é, em minha opinião, completamente inocente e vítima de uma vergonhosa má condução de justiça.[2])

Do que eu disse até agora, seguem-se duas coisas: primeiro, que o anarquismo não pode ser um movimento de massa em nossos tempos, e sim algo de indivíduos, de pioneiros. Esses pioneiros são capazes de encontrar simpatizantes à distância e muito respeito entre as massas oprimidas. Isto está se tornando cada vez mais óbvio, e também é o caso entre os trabalhadores social-democratas na Alemanha. Muitos deitados – de maneira quieta ou estridente – começaram a saudar a existência de anarquistas, mesmo se ainda pareça impossível ou desnecessário que eles mesmos se tornem anarquistas. Em segundo lugar, que somos resolutamente otimistas apesar de nosso ceticismo primário. Não somos individualistas da velha escola. Acreditamos no bem da humanidade e nas capacidades da humanidade. Queremos uma sociedade anarquista; não uma sociedade de indivíduos heróis e autocratas, mas uma sociedade em que os indivíduos podem viver junto na base da livre associação e do respeito; em outas (poucas) palavras: socialismo.

Eu não falei sobre os anarquistas alemães em particular. Não penso que isso importe muito. Em um artigo tão curto quanto este, é impossível dizer tudo. O que é mais importante é que um anarquista alemão falou sobre anarquismo.

A maior parte dos anarquistas alemães são antigos social-democratas que saíram do partido nos últimos sete anos. A maioria deles pertencia a facções que se opunham à liderança do partido, em particular a dos chamados Jovens ou Independentes[3]. Alguns indivíduos tornaram-se anarquista na Alemanha antes ainda, inspirados pela agitação de Most, Dave, Reve e Reinsdorf e pelo jornal alemão Die Autonomie[4]. Entretanto, foi a publicação de Der Sozialist – o semanário berlinense que é publicado atualmente sete vezes por ano e também é o jornal mais confiscado na Alemanha – que transformou o movimento anarquista de uma sociedade secreta em uma força política reconhecida. Não fosse pelos muitos preconceitos contra anarquista e pelas sentenças draconianas dos tribunais[5], esta força já seria muito mais forte.

Notas

  1. Stürmer: referência aos adeptos do movimento literário progressista Sturm und Drang (“Tempestade e Ímpeto”).
  2. N. T. I.: O trabalhador anarquista de vinte e um anos Paul Koschemann foi acusado de enviar uma carta-bomba para um chefe de polícia de Berlim, mas sempre assegurou que era inocente.
  3. N. T. I. : Parcela radical do Partido Social-Democrata Alemão no início dos anos 1890; Landauer envolveu-se neste grupo.
  4. N. T. I.: Johann Most (1846-1906), Victor Dave (1847-1922), Johann Reve (1844-1896), e August Reinsdorf (1849-85) foram proeminentes anarquistas germanofalantes; Die Autonomie era um jornal anarco-comunista, publicado em alemão, mas baseado em Londres, por Josef Peukert e outros, de 1886 a 1893.
  5. N. T. I.: Havia uma pronunciada perseguição contra anarquistas e contra a imprensa anarquista na Alemanha entre 1893 e 1895 e muitos anarquistas – Landauer entre eles – receberam condenações pesadas.
  • Traduzido do inglês a partir de “Revolution and other writings – A political reader”, de Gustav Landauer. Tradução para o inglês de Gabriel Kuhn. pp. 79-83.


Tradução: Reticente

  • É permitida a distribuição não comercial de parte ou da integralidade deste texto, desde que citado o nome do autor, o nome do tradutor, a origem e esta nota.
  • Conclusão da tradução: 13 de junho de 2016. (Falta revisão.)