Advertência ao leitor

De Protopia
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ADVERTÊNCIA AO LEITOR



   A NATUREZA especial deste livro exige algumas explicações. Os textos de Chuang Tzu aqui reunidos são o resultado de cinco anos de leituras, estudos, notas e meditações. As notas, com o tempo, adquiriram uma forma especial, e tornaram-se como se fossem «imitações» de Chuang Tzu, ou melhor, leituras interpretativas, livres, de trechos característicos que mais me atraíram. Estas «leituras» surgiram em 
virtude de uma comparação das quatro melhores traduções de Chuang Tzu para as línguas ocidentais, duas para o inglês, uma para o francês, e uma para o alemão. Ao ler estas traduções, encontrei entre elas diferenças dignas de nota, e logo verifiquei que todos os tradutores de Chuang Tzu tiveram de fazer um vasto emprego de suas próprias intuições. Suas hipóteses refletem, não apenas o seu grau de cultura chinesa, mas também a sua própria intuição da «via» misteriosa, descrita por um Mestre, que escreveu na Ásia, há quase 2500 anos passados. Como conheço apenas alguns poucos caracteres chineses, evidentemente não posso considerar-me um tradutor. Estas minhas «leituras» não são esboços para uma reprodução fidedigna, mas aventuras em intepretações pessoais e espirituais.De toda a maneira, qualquer interpretação de Chuang Tzu tende a ser muito pessoal. Ainda que, do ponto de vista de erudição, eu não seja nem um simples anão sentado nos ombros destes gigantes, nem mesmo todas as minhas interpretações possam ser qualificadas como «poesia», acredito que uma camada particular de leitores se aproveitará 
da minha visão intuitiva a respeito de um pensador espirituoso, sutil, inconformista, e nem sempre muito acessível. 

    Acredito nisso, não de olhos fechados, mas porque todos os que tiveram oportunidade de observar o material manuscrito gostaram, e muito me incentivaram a fim de reunir tudo em forma de um livro. Assim, embora não acredite que esta obra seja muito criticada, se, por acaso, a alguém ela não agradar, poderá acusar-me, e a meus amigos, principalmente o Dr. John Wu, que é a principal figura de apoio, meu cúmplice, e que me tem auxiliado de muitas maneiras. Nesta iniciativa estamos unidos. E devo 
ainda acrescentar que gostei muito de ter escrito este livro, muito mais do que qualquer outro. De modo que declaro-me aqui um impenitente inveterado. As minhas relações com Chuang Tzu foram muito proveitosas. John Wu tem uma teoria de que, numa «vida primitiva», eu tenha sido um monge chinês. Não posso afirmar isso com certeza e, evidentemente, apresso-me em garantir a todos que não acredito na reencarnação (e nem ele, tampouco). Mas há quase vinte e cinco anos que sou um monge cristão, e, sem dúvida alguma, nos tornamos capacitados a encarar a vida de um ângulo que caracteriza todos os olitários e reclusos de todas as idades e culturas. Podem alguns argumentar que todo monarquismo, cristão ou não-cristão, é, essencialmente, um só. Acredito que o monarquismo cristão tenha adquirido características próprias. 

    Todavia, existe uma visão monástica que é comum à todos aqueles que julgaram preferível discutir o valor de uma vida submetida inteiramente a pressuposições seculares arbitrárias, ditadas por uma convenção social e dedicada à aquisição de prazeres temporais, que se constituem, alvez, numa miragem. Qualquer que seja o valor que se dê à «vida no mundo», existiram, em todas as culturas, homens que, na solidão, descobriram algo do que eles mais anseiam. S. Agostinho, outrora, fez uma afirmação muito forte (que mais tarde retificou), de que, «o que se chama de religião cristã existia já entre os antigos, e nunca deixou de existir, desde os primórdios das raças humanas, até que Cristo se fez Carne» (De Vera Religione, 10). Seria, de fato, um exagero chamarmos Chuang Tzu de «cristão», e não tenho aqui a intenção de perder tempo em especulações quanto aos possíveis rudimentos de teologia que possam ser descobertos em suas afirmações misteriosas sobre o Tao.

    Antes de tudo, este livro não tem a intenção de provar nada, nem de convencer ninguém de coisa alguma de que não deseje ouvir falar. Ou melhor, não se trata de nenhuma nova sutileza apologética (nem de nenhuma obra esuítica de prestidigitação) na qual os coelhos cristãos, de repente, aparecerão de uma cartola tauísta, como em mágica. Eu simplesmente gosto de Chuang Tzu porque ele é o que é, e sinto-me sem nenhuma necessidade de justificar esta admiração, a mim mesmo, ou a qualquer outra pessoa. Ele é grande demais para necessitar de quaisquer explicações de minha parte. Se S. Agostinho pôde ler Plotino, se S. Tomás pôde ler Aristóteles e Averróis (ambos bastante distantes do Cristianismo, bem mais do que jamais o fora Chuang Tzu!), e se Teilhard de Chardin pôde fazer um amplo uso de Marx e de Engels em sua síntese, acho que me podem desculpar estas minhas relações com um recluso chinês, que compartilha do clima e da paz da minha própria solidão, e que é o meu tipo característico de pessoa. Seu temperamento filosófico é, na minha opinião, profundamente original e sadio. Naturalmente, pode ser mal interpretado. Mas, essencialmente, é simples e direto. Procura, como o faz todo o grande pensamento filosófico, ir diretamente ao âmago das coisas. 

    Chuang Tzu não se preocupa com palavras, nem com fórmulas sobre a realidade, mas com a aquisição existencial direta da realidade como tal. Esta aquisição é necessariamente obscura, e não se presta a uma análise abstrata. Ela pode se apresentar numa parábola, numa fábula, numa estória cômica a respeito de uma conversa entre dois filósofos. Nem todas as estórias são, obrigatoriamente, da autoria de Chuang Tzu. Algumas, até, são a seu respeito. O livro de Chuang Tzu é um compêndio, onde alguns capítulos são, quase que certamente, da autoria do próprio Mestre, mas muitos outros, principalmente os últimos, são 
da autoria de seus discípulos. Todo o livro de Chuang Tzu é uma antologia do pensamento, do humor, das intrigas, e da ironia, correntes nos círculos taoístas na melhor época, que foram os séculos 4o e 3º a.C. Mas todos aqueles ensinamentos, a «via» contida nessas anedotas, os poemas, as meditações, são típicos de uma certa mentalidade encontrada em toda parte do mundo, um certo gosto pela simplicidade, pela humildade, pelo despojamento de si, pelo silêncio, e, em geral, uma recusa a levar a sério a agressividade, a ambição, os atropelos, e a importância dada a si mesmo, que devemos demonstrar, a fim de podermos conviver em sociedade. Esta também é a outra «via», que prefere não atingir nenhum setor do mundo, nem mesmo na área de uma realização supostamente espiritual.

    O livro da Bíblia que mais se assemelha aos clássicos taoístas é, evidentemente, o Eclesiastes. Mas, ao mesmo tempo, existe muita coisa nos ensinamentos dos Evangelhos sobre a simplicidade, o espírito de infância e a humildade, que corresponde aos mais profundos anseios do livro de Chuang Tzu e do Tao Teh Ching. John Wu fez esta observação num admirável ensaio sobre S. Teresinha de Lisieux e o Taoísmo, 
a ser publicado em breve, juntamente com o seu estudo sobre Chuang Tzu. Todavia, o Eclesiastes é um livro terreno, enquanto a ética dos Evangelhos é a da revelação feita na terra sobre um Deus Encarnado. A «Pequena Via» de S. Teresinha de Lisieux é uma renúncia explícita a todas aquelas espiritualidades exaltadas e não-encarnadas que dividem o homem contra si mesmo, colocando uma metade no reino angelical, e, a outra, num inferno terreno. Para Chuang Tzu, como para o Evangelho, a perda da vida é a 
própria salvação, e procurar salvá-la por motivos pessoais significa perdê-la. Afirmam alguns que o mundo nada mais é do que ruína e perdição. Existe, também, uma renúncia ao mundo que encontra e salva o homem em sua própria casa, que é o mundo de Deus. De qualquer maneira, a «via» de Chuang Tzu é misteriosa, porque é tão simples que pode existir sem ser uma via de espécie alguma. Mas o que não é uma «fuga».