A metafísica do progresso

De Protopia
Ir para: navegação, pesquisa
Serge Latouche

O progresso é uma divindade ou um ídolo, objeto de uma religião com seu dogma, sua doutrina, seu culto, seus sacrifícios e suas vítimas, seus apóstolos e seus hinos. Citemos "A religião do progresso" de Edgar Morin, publicado na edição de Le Monde de 23 de agosto de 1997: "Todos entoam os cantos nauseabundos em honra do Deus progresso, o filho primogênito do Trabalho". Ou o "Direito à preguiça" de Paul Lafargue: "A teoria do progresso foi recebida como um dogma numa época em que a burguesia era a classe conquistadora"; ou ainda "As ilusões do progresso" de Georges Sorel (escrito em 1908). Para a teologia protestante, o progresso é a consequência terrestre da redenção. A propriedade está na origem da divisão do trabalho e do progresso. Ora, se o trabalho é a fonte da propriedade, ele é eminentemente moral. Regeitar a crença na melhoria possível e real das coisas do mundo é uma forma de impiedade e de descrença. O progresso é um item de fé. Citemos as célebres palavras de Pasteur: "a humanidade irá aos templos do futuro e do bem-estar, os laboratórios, para aprender a ler nas obras da natureza, obras de progresso e harmonia universal".

O progresso é bom porque é útil e, de uma certa forma, é útil porque é bom! Fontenelle não hesita em dizer: "Assim, existe e existirá o Progresso. Esse ideia não é mais que uma ilusão, uma "ideia falsa", uma ilusão sempre útil, sustentada para acelerar a atividade humana". Ora, "é necessário que em todas as coisas os homens proponham a si mesmos um ponto de perfeição além de seu alcance. Eles nunca se colocariam a caminho se não acreditassem chegar onde chegam efetivamente: é necessário que eles tenham diante de seus olhos um termo imaginário que os anime... a coragem iria embora se não estivéssemos sustentados por ideias falsas". Certamente que os adoradores do progesso se traem. Eles reconhecem que a realidade mesma do progresso está ligada à desejabilidade de sua ideia. Sua valorização não é um julgamento independente de sua existência.

Kant resume sua filosofia: "Me aventurarei, por consequência, a sustentar que a raça humana avança continuamente na civilização e na cultura como seu objetivo natural, assim como ela realiza continuamente o progresso rumo ao melhor em relação com o fim moral de sua existência". Proudhon precisou forçar as coisas para identificar progresso com a emancipação da humanidade: "Tudo o que visa a que se progrida é um progresso.. O melhor, escreve, não é outra coisa senão a marcha regular do ser. Tudo o que é progressivo é bom, tudo o que é retrógrado é mau". Por outro lado, seguindo a fórmula de Philippe Simonnot, a respeito dos danos do progresso sobre os planos médico e nuclear: "O progresso é endossado pelo progresso". Tem-se aí o mercanismo totalitário em seu estado puro, a impossibilidade de sair do espelho encantado criado pelas alucinações da mente. Os progressos ulteriores do Progresso trarão as soluções dos problemas criados por ele no estado anterior.

O núcleo duro que sustenta o esquema fundamental do Progresso, o da continuidade ilimitada benéfica, parece então bem identificável com a máquina técnica. A ancoragem definitiva do progresso no imaginário ocidental - e posteriormente universal - não se constitui senão do triunfo do evolucionismo. A verdadeira mudança das mentalidades não consolidará senão com a emergência das ideias evolucionistas. Uma sociedade que acredita firmemente que o homem é o resultado de uma longa cadeia de seres que partem de um primeiro borbulhar de uma vida informe para uma organização cada vez mais complexa coloca na natureza biológica mesma uma base sólida para a crença no progresso.

A técnica referencia inelutavelmente o progresso técnico, assim como a economia referencia o crescimento e o desenvolvimento, que não são nada mais que o progresso da economia. Os três pilares da modernidade são o progresso, a técnica e a economia. Se o progresso está na base da economia, a economia por sua vez é necessária para estabelecer o progresso. Sem um sistema de preços, é impossível dar sentido a alguma coisa como um PIB per capita, e sem progressão de PIB, como se convencer de uma melhoria da sorte da humanidade? A crença no progresso se autorrealiza. Se não estamos convencidos de que a acumulação do saber, o aperfeiçoamento das técnicas, o desenvolvimento das forças produtivas, ou o crescimento da matriz da natureza são boas coisas, se age para que os conhecimentos sejam transmitidos e amontoados, para que seus efeitos possam ser comparados e aumentados. Nas escalas e nos gráficos, o crescimento indefinido se torna possível e pertinente. Isso supõe necessariamente a convicção de que a "marcha para frente" é uma melhoria, que se trata, portanto, de uma coisa boa.

......

Os povos felizes ignoram o Progresso. Elas ignoram a racionalidade, o tempo medido e os matemáticos, e, portanto, a economia e o cálculo econômico. Técnica e economia se inserem no social. Suas representações testemunham isso. Estas são muito frequentemente viradas ao passado, sendo assim antievolucionistas: o homem descende dos deuses e não dos símios... A construção imaginária do progresso como do desenvolvimento é nessas condições quase impossível. Em muitas civilizações - possivelmente em todas - antes do contato com o Ocidente, o conceito de desenvolvimento se fazia totalmente ausente. Essas sociedades tradicionais não consideram que sua reprodução dependa de uma acumulação contínua de saberes e de bens supostos a trazer um futuro melhor que o passado. Os valores sobre os quais repousam o desenvolvimento, e, mais particularmente, o progresso, não correspondem em nada a aspirações universais profundas. Esses valores estão ligados à história do Ocidente, não têm nenhum sentido para as outras sociedades.

Fora dos mitos que fundam a pretensão à matriz racional da natureza e a crença no progresso, a ideia do desenvolvimento é totalmente desprovida de sentido, e as práticas que são ligadas a ela são rigorosamente impossíveis porque impensáveis e proibidas. Os povos tradicionais - da África, da América do Sul ou da Ásia - são felizes porque ignoram "essa ideia nova na Europa", a felicidade, que se segue do progresso.


Sexta-feira, 10 de junho de 2005 por Serge Latouche


  • Traduzido por Púcaro Búlgaro. Permitido distribuição desde que citado o nome do autor, o nome do tradutor, a fonte e esta nota.