A anarquia funciona: Revolução

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A anarquia funciona
Capítulo 6 - Revolução
Peter Gelderloos


Para pôr um fim em todas as hierarquias coercitivas e abrir espaço para organizar uma sociedade libertada e horizontal, as pessoas precisam superar os poderes repressivos do Estado, abolir todas as instituições do capitalismo, do patriarcado e da supremacia branca, e criar comunidades que organizam a si mesmas sem novas autoridades.

Como pessoas organizadas horizontalmente poderiam superar o Estado?

Se anarquistas acreditam na ação voluntária e na organização descentralizada, como poderiam ter força suficiente para derrubar um governo sem um exército profissional? Na realidade, fortes movimentos anarquistas e antiautoritários derrotaram exércitos e governos em várias revoluções. Isso geralmente ocorre em períodos de crise econômica, quando faltam recursos vitais ao Estado, ou de crise política, quando o Estado perde a sua ilusão de legitimidade.

A Revolução Soviética de 1917 não iniciou como o terror autoritário que ela se tornou depois que Lenin e Trótski a tomaram. Era uma rebelião multiforme contra o czar e contra o capitalismo. Ela incluía atores tão diversos quanto revolucionários socialistas, republicanos, sindicalistas, anarquistas e bolcheviques. Os próprios sovietes eram conselhos espontâneos desvinculados de partidos que organizavam-se em linhas antiautoritárias. Os bolcheviques tomaram o controle e eventualmente suprimiram a revolução ao realizar um jogo político que envolvia a cooptação ou a sabotagem dos sovietes, o controle do exército, a manipulação ou a traição de aliados e a negociação com os poderes imperialistas. Os bolcheviques habilmente estabeleceram-se como o novo governo e os seus aliados cometeram o erro de acreditar em sua retórica revolucionária.

Uma das primeiras ações do governo bolchevique foi assinar um tratado de paz com os impérios Alemão e Austríaco que traía o povo. Para sair da Primeira Guerra Mundial e liberar o exército para agir no próprio país, os leninistas cederam aos imperialistas um tesouro cheio de dinheiro e recursos estratégicos, e entregaram-lhes a Ucrânia – sem consultar os ucranianos. Camponeses no sul da Ucrânia levantaram-se em revolta e foi lá que o anarquismo teve mais força durante a Revolução Soviética. Os rebeldes chamavam-se de Exército Insurgente Revolucionário e eram descritos como makhnovistas – por causa de Nestor Makhno, seu mais influente estrategista militar e um habilidoso organizador anarquista. Makhno foi libertado da prisão depois da revolução, em fevereiro de 1917, e voltou a sua cidade natal para organizar uma milícia anarquista para lutar contra as forças da ocupação alemã e austríaca.

À medida que o exército insurrecionário anarquista cresceu, ele desenvolveu uma estrutura mais formal para permitir a coordenação estratégica entre os diversos frontes, mas permaneceu uma milícia voluntária baseada no apoio dos camponeses. As questões relevantes de políticas e estratégias eram decididas em reuniões gerais de camponeses e trabalhadores. Mais ajudados do que atrapalhados pela sua estrutura flexível e participativa e pelo forte apoio dos camponeses, o exército libertou uma área de cerca de 480 por 800 quilômetros, habitada por 7 milhões de pessoas, com centro na cidade de Gulyai-Polye (ou Huliaipole). Cidades ao redor dessa zona anarquista – Alexandrovsk e Ekaterinoslav (hoje chamadas de Zaporizhya e Dnipropetrovsk, respectivamente), assim como Melitopol, Mariupol e Berdyansk – foram libertadas do controle do Estado, ainda que mudassem de mãos várias vezes durante a guerra. A auto-organização nas linhas anarquistas tinha um desenvolvimento mais consistente nas áreas rurais nesses anos tumultuosos. Em Gulyai-Polye, anarquistas instalaram três escolas secundárias e deram dinheiro expropriado dos bancos para orfanatos. Em toda a área, a alfabetização aumentou entre os camponeses.

Além de lutar contra alemães e austríacos, anarquistas também combateram as forças nacionalistas que tentaram subjugar o novo país independente criado sob o governo ucraniano. Eles seguraram o Exército Branco russo no sul – o exército aristocrático e pró-capitalista financiado e armado por franceses e americanos, na maioria –, enquanto os seus supostos aliados, os bolcheviques, negavam-lhes munição e armamento e começaram a expurgar anarquistas para barrar a expansão do anarquismo que emanava do território makhnovista. O Exército Branco acabou passando pelo fronte do sul, que sofria com a fome, e reconquistou Gulyai-Polye. Makhno retirou-se para o oeste, atraindo grande parte do Exército Branco, que tinha derrotado o Exército Vermelho e avançava em direção a Moscou. Na batalha de Peregovnka, no leste ucraniano, os anarquistas derrotaram o Exército Branco que os perseguia. Ainda que tivessem menos armamento e estivessem em menor número, eles passavam o dia executando com eficiência uma série de brilhantes manobras desenvolvidas por Makhno, que não tinha educação militar ou conhecimentos da área. O exército voluntário anarquista voltou para Gulyai-Polye, libertando a área rural e algumas cidades maiores do domínio dos Brancos. Essa reversão repentina cortou os suprimentos dos exércitos que quase chegavam a Moscou, forçando-os à retirada e salvando a Revolução Russa.


  • Tradução até aqui: Púcaro Búlgaro. É permitida a distribuição e a reprodução de trechos ou da integridade deste texto, desde que sem fins comerciais, citando a fonte e esta nota. É vedado qualquer outro uso ou distribuição desta tradução.


Por mais um ano, uma sociedade anarquista floresceu outra vez nos arredores de Gulyai-Polye, apesar dos esforços de Lenin e Trotsky para reprimir aos anarquistas da mesma forma que haviam reprimido toda a Rússia e o resto da Ucrânia. Quando uma nova incursão Branca sob o comando do general Wrangel ameaçou a revolução, os makhnovistas novamente concordaram em unir-se aos comunistas contra os imperialistas, apesar da traição anterior. O contingente anarquista aceita uma missão suicida de expulsar o inimigo de suas posições armadas no istmo Perekop de Crimeia; obtiveram êxito nisto e capturaram a estratégica cidade de Simferopol, voltando a desempenhar um importante papel na derrota dos Brancos. Depois da vitória, os bolcheviques cercaram e massacraram a maioria do contingente anarquista, ocuparam Gulyai-Polye e executaram a muitos influentes organizadores e combatentes anarquistas. Makhno e alguns outros escaparam e confundiram o massivo Exército Vermelho com uma eficaz campanha de guerra de guerrilhas durante muitos meses, inclusive provocando várias deserções importantes, no entanto, ao final, os sobreviventes decidiram fugir para o oeste. Alguns camponeses da Ucrânia mantiveram seus valores anarquistas, e levantaram a bandeira anarquista como parte da resistência camponesa contra os nazistas e os estalinistas durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo hoje em dia a bandeira vermelha e negra é um símbolo da independência da Ucrânia, ainda que poucos conheçam suas origens.

Os makhnovistas do sul da Ucrânia mantiveram seu caráter anarquista em condições extremamente difíceis: guerras constantes, a traição e repressão dos supostos aliados, as pressões de morte que sofriam por defender-se com violência organizada. Nestas circunstâncias, seguiram lutando pela liberdade, mesmo quando não era por interesses militares. Uma e outra vez intercederam para evitar matanças contra comunidades judias, enquanto os nacionalistas ucranianos e os bolcheviques espalhavam as chamas do antissemitismo para proporcionar um bode expiatório para os problemas que eles mesmos agravaram. Makhno matou pessoalmente um chefe militar vizinho e potencial aliado quando soube que ele havia ordenado pogrons [matanças], mesmo num momento em que ele precisava desesperadamente de aliados[1].

Durante outubro e novembro [1919], Makhno ocupou Ekaterinoslav e Aleksandrovsk durante várias semanas, ao que obteve sua primeira oportunidade de aplicar os conceitos do anarquismo à vida da cidade. O primeiro ato de Makhno ao entrar em uma grande cidade (depois de abrir as prisões) era dissipar qualquer impressão de que ele viria introduzir uma nova forma de governo político. Publicaram anúncios informando às pessoas que estavam livres para organizar suas vidas segundo sua conveniência, que o Exército Insurgente “não lhes ditaria nem ordenaria que fizessem nada”. Foram proclamadas a liberdade de expressão, imprensa e reunião, e em Ekaterinoslav meia dúzia de periódicos que representavam uma ampla gama de opiniões políticas surgiram da noite para o dia. Ainda que promovesse a liberdade de expressão, ao mesmo tempo Makhno não tolerava nenhuma organização política que buscasse impor sua autoridade sobre o povo. Portanto, dissolveu os “Comitês Revolucionários” bolcheviques (revkomy) em Ekaterinoslav e Aleksandrovsk, instando seus membros a “fazer um pouco de comércio honesto”[2].

Os makhnovistas responsáveis pela defesa da região deixaram a organização socioeconômica para os povos e cidades; esta prática de não intervir sobre a vida das pessoas foi acompanhada por uma ênfase interna na democracia direta. Oficiais foram eleitos de cada subgrupo de combatentes, e podiam ser revogados por esse mesmo grupo. Eles não eram reverenciados, não recebiam privilégios materiais, e não podiam dirigir na traseira para evitar os riscos de combate.

Diferentemente, os oficiais do Exército Vermelho eram designados desde cima e recebiam os privilégios e salários mais altos na escala do exército czarista. Na verdade, os bolcheviques haviam tomado essencialmente a estrutura e o pessoal do Exército Czarista depois da Revolução de Outubro. Conservaram a maior parte dos oficiais, mas o reformaram em um “exército popular” mediante a adição de funcionários políticos responsáveis pela identificação de “contrarrevolucionários” a serem eliminados. Também adotaram a prática imperialista de manter soldados em lugares remotos do continente e longe de seus lares, em áreas onde não falavam o idioma, ao que seria mais provável obedecer às ordens de reprimir os moradores locais e menos provável de desertar.

Sem dúvida o Exército Insurgente Revolucionário impôs uma disciplina estrita, eliminando os suspeitos de espionagem e aqueles que abusavam dos camponeses para benefício pessoal, como vigaristas e estupradores. Os insurgentes devem ter mantido muitos dos mesmos direitos sobre a população civil como qualquer outro exército. Entre suas muitas oportunidades para abusar daquele poder, alguns deles provavelmente o fizeram. Contudo, sua relação com os camponeses foi única entre as grandes potências militares. Os makhnovistas não poderiam ter sobrevivido sem o apoio popular, e durante sua longa guerra de guerrilhas contra o Exército Vermelho muitos camponeses lhes forneceram cavalos, comida, alojamento, ajuda médica, e coleta de informações. Na verdade, os próprios camponeses proviam a maioria dos combatentes anarquistas.

Também é debatido o quão democrática eram as organizações makhnovistas. Alguns historiadores dizem que Makhno exercia um controle substancial sobre os “sovietes livres” - os conselhos sem partido onde os trabalhadores e os camponeses tomavam suas decisões e organizavam seus assuntos. Mesmo os historiadores simpatizantes relatam anedotas de Makhno intimidando os delegados que ele viu como contrarrevolucionários nas reuniões. Mas há que pesar estas ocasiões contra as muitas em que Makhno rechaçou posições de poder, ou o fato de que ele deixou o Soviete Revolucionário Militar, a assembleia que decidia a política militar das milícias camponesas, como uma tentativa de salvar o movimento da repressão bolchevique[3].

Uma das críticas que os bolcheviques faziam aos makhnovistas era que seu Soviete Revolucionário Militar, a coisa mais próxima de uma organização ditatorial que eles teriam montado, não exercia nenhum poder real – na realidade era só um grupo assessor – enquanto que os grupos individuais de trabalhadores e as comunidades camponesas conservavam sua autonomia. Mais caridosa é a descrição do historiador soviético Kubanin: “o órgão supremo do exército insurgente era seu Soviete Revolucionário Militar, eleito em uma assembleia geral de todos os insurgentes. Nem o comando geral do exército nem mesmo Makhno moviam realmente o movimento, senão que simplesmente refletiam as aspirações das massas, atuando como seus agentes ideológicos e técnicos.” Outro historiador soviético, Yefimov, disse: “Nunca nenhuma decisão foi tomada de forma individual. Todas as questões militares foram objeto de debate comum”[4].

Amplamente superados em número e armamento, as milícias anarquistas de voluntários derrotaram com êxito os exércitos alemão, austríaco, o nacionalista ucraniano, e os Russos Brancos. Foi preciso um exército profissional abastecido pelas grandes potências industriais do mundo e a simultânea traição de seus aliados para poder detê-los. Se soubessem o que sabemos hoje – que os revolucionários autoritários podem ser tão tirânicos como os governos capitalistas –, e os anarquistas russos em Moscou e São Petersburgo houvessem obtido êxito em evitar que os bolcheviques sequestrassem a Revolução Russa, as coisas teriam sido diferentes.

Ainda mais impressionante que o exemplo dado pelos makhnovistas é a vitória obtida por várias nações indígenas em 1868 [nos EUA]. Em uma guerra de dois anos, milhares de guerreiros das nações Lakota e Cheyenne derrotaram aos militares dos EUA e destruíram várias fortalezas do exército durante o que chegou a ser conhecido como a Guerra de Nuvem Vermelha. Em 1866, os Lakota se reuniram com o governo dos EUA em Fort Laramie, porque este último queria permissão para construir um caminho militar através do país chamado Rio Powder para facilitar a chegada de colonos brancos que procuravam ouro. O exército dos EUA já havia derrotado aos Arapaho na sua tentativa de abrir a área para os colonos brancos, mas havia sido incapaz de derrotar os Lakota. Durante as negociações, tornou-se evidente que o governo dos EUA já havia iniciado o processo de construção de fortes militares ao longo deste caminho, sem nem sequer ter garantido a permissão para o mesmo. O chefe de guerra Oglala Lakota Nuvem Vermelha se comprometeu a resistir a qualquer tentativa branca de ocupar a área. Contudo, no verão de 1866, os militares dos EUA começaram a enviar mais tropas à região e a construir novas fortalezas. Os guerreiros Lakota, Cheyenne e Arapaho, seguindo a direção de Nuvem Vermelha, começaram uma campanha de resistência de guerrilha, fechando efetivamente a estrada Bozeman e cercando as tropas alojadas nos fortes. O exército ordenou uma agressiva campanha de inverno, e a 21 de dezembro, quando o trem de madeira foi atacado novamente, um exército de aproximadamente cem soldados dos EUA decidiu persegui-los. Perceberam-se mordendo a isca em uma armadilha na qual participou inclusive o guerreiro Oglala Cavalo Louco. Todo o batalhão foi derrotado e assassinado por uma força de entre 1.000 a 3.000 guerreiros que esperavam para a emboscada. O oficial no comando dos soldados brancos foi apunhalado até a morte em um combate homem a homem. Os Lakota só deixaram vivo um rapaz com uma corneta, que lutou somente com sua corneta coberto por uma pele de búfalo, como um símbolo de honra – com esses atos os guerreiros indígenas demostraram a possibilidade de uma forma de guerra muito mais respeitosa, em contraste com os colonos e soldados brancos, que frequentemente extraíam os fetos das mulheres grávidas e utilizavam as genitálias amputadas de suas vítimas desarmadas como bolsas para o tabaco.

No verão de 1867, as tropas dos EUA armadas com novos rifles de repetição lutaram contra os Lakota em duas batalhas, mas não alcançaram êxito nas ofensivas. Ao final, eles pediram para negociar a paz, ao qual Nuvem Vermelha contestou que só a concederia se os fortes militares fossem abandonados. O governo dos EUA esteve de acordo, e nas conversações de paz reconheceram os direitos dos Lakota às Black Hills e ao país do Rio Powder, uma enorme área que atualmente ocupa os estados de Dakota do Norte, Dakota do Sul, e Montana.

Durante a guerra, os Lakota e Cheyenne organizaram-se sem coerção ou disciplina militar. Mas, contrariamente às dicotomias típicas, sua relativa falta de hierarquia não foi um obstáculo à sua capacidade de organização. Pelo contrário, mantiveram-se unidos durante uma guerra brutal baseando-se em uma disciplina coletiva e automotivada, assim como em diferentes formas de organização. No exército Ocidental, a unidade mais importante é a polícia militar ou o oficial que caminha atrás das tropas, com a pistola carregada, pronto para disparar em quem se volte e fuja. Os Lakota e Cheyenne não tinham a necessidade de impor disciplina desde cima. Eles estavam lutando para defender suas terras e forma de vida, em grupos unidos por laços de parentesco e afinidade.

Alguns grupos de combate se estruturaram com uma cadeia de comando, enquanto outros operavam de forma mais coletiva, mas todos eles se reuniam voluntariamente ao redor dos indivíduos com maiores capacidades organizativas, poder espiritual e experiência de combate. Estes chefes de guerra não controlavam aqueles que os seguiam por mais que os inspirassem. Quando o moral estava baixo ou uma disputa parecia desesperada, os grupos guerreiros frequentemente iam para suas casas, sendo sempre livres para fazê-lo. Se um chefe declarava a guerra, ele tinha que ir, mas ninguém mais tinha que fazê-lo. Um líder que não podia convencer ninguém de segui-lo à guerra estava participando de um projeto vergonhoso e à beira do suicídio. Ao contrário, os políticos e generais na sociedade Ocidental podem começar guerras impopulares, e eles nunca são os que sofrem as consequências.

As sociedades guerreiras exerceram um importante papel na organização indígena para a guerra, mas as sociedades de mulheres foram vitais também. Elas desempenharam um papel similar ao do Contramestre nos exércitos Ocidentais, fornecendo os alimentos e materiais, com a diferença de que se o Contramestre é somente uma peça obedecendo ordens, as mulheres Lakota e Cheyenne negavam-se a cooperar se não estavam de acordo com as razões de uma guerra. Considerando que uma das contribuições mais importantes de Napoleão à guerra europeia foi a ideia de que “um exército marcha sobre seu estômago”, torna-se evidente que as mulheres Lakota e Cheyenne exerciam mais poder nos assuntos de suas nações do que o que as histórias escritas por homens brancos nos levam a crer. Além disso, as mulheres que assim o decidiam podiam lutar junto aos homens.

Apesar de estarem incrivelmente superados em número pelos militares dos EUA e colonos paramilitares brancos, os nativos americanos venceram. Depois da Guerra de Nuvem Vermelha, os Lakota e Cheyenne desfrutaram de quase uma década de autonomia e paz. Ao contrário dos discursos pacifistas sobre a resistência militante, os vencedores não passaram a oprimir aos outros ou criaram um incontrolável ciclo de violência só porque haviam lutado violentamente para expulsar os invasores brancos. Eles ganharam para eles mesmos vários anos de liberdade e paz.

Em 1876, os militares dos EUA novamente invadiram o território Lakota para tentar obrigá-los a viver nas reservas, que haviam se transformado em campos de concentração como parte da campanha de genocídio contra as populações indígenas. Vários milhares de soldados participaram, começando com várias derrotas, das quais a mais notável foi a batalha de Greasy Grass Creek, também conhecida como a Batalha de Little Bighorn. Em torno de 1.000 guerreiros Lakota e Cheyenne, defendendo-se de um ataque, dizimaram a unidade de cavalaria sob o comando de George A. Custer e mataram várias centenas de soldados. O próprio Custer previamente havia invadido as terras Lakota para difundir rumores sobre ouro e provocar uma nova onda de colonos brancos, os quais foram uma importante força impulsora para o genocídio. Os colonos, além de serem uma força paramilitar armada responsável por uma grande parte dos abusos e assassinatos, serviam de pretexto suficiente para trazer o exército. A lógica era que os pobres e humildes fazendeiros, ao invadir outro país, deviam ser defendidos dos “índios saqueadores”.

O governo dos EUA em última instância venceu a guerra contra os Lakota, ao atacar suas vilas, invadindo seus territórios de caça, e instaurando uma forte repressão contra o povo que vive nas reservas. Um dos últimos a render-se foi o guerreiro Oglala Cavalo Louco, que havia sido um dos líderes mais eficazes na luta contra os militares dos EUA. Depois que seu grupo concordou em entrar na reserva, Cavalo Louco foi detido e assassinado.

Sua última derrota não indica uma debilidade na organização horizontal dos Lakota e Cheyenne. Mas sim o fato de que a população branca estadunidense que tentava exterminá-los superava em número a estes grupos indígenas em uma proporção de mil para um. Além de ter a capacidade de difundir o vício às drogas e enfermidades em sua própria casa enquanto destruíam suas fontes de alimento.

A resistência Lakota nunca terminou, e ainda pode ganhar finalmente a guerra. Em dezembro de 2007, um grupo de Lakotas fizeram valer novamente sua independência, informando ao Departamento de Estado dos EUA que estavam retirando-se de todos os tratados que já haviam sido quebrados pelo governo dos colonos, e separando-se, como uma medida necessária face às “condições do apartheid colonial”[5].

Algumas das lutas mais intransigentes contra o Estado são indigenistas. As atuais lutas indigenistas criaram algumas das únicas áreas na América do Norte que gozam de autonomia física e cultural, e que tem sido autodefendidas com sucesso nos seguidos enfrentamentos com o Estado. Estas lutas geralmente não se identificam como anarquistas, e talvez por esta razão os anarquistas tenham, inclusive, muito mais a aprender com elas. Mas se a aprendizagem não é outra relação mercantil, um simples ato de aquisição, então deve vir acompanhada de relações horizontais de reciprocidade, quer dizer, de solidariedade.

A nação Mohawk lutou longamente contra a colonização e em 1990 obteve uma grande vitória contra as forças do Estado dos colonos. No território Kanehsatake, próximo a Montreal, os brancos na cidade de Oka queriam ampliar um campo de golfe à custa de um bosque onde se encontrava um cemitério Mohawk, o que desatou os protestos. Na primavera de 1990, os Mohawks estabeleceram ali um acampamento e bloquearam a estrada. Em 11 de julho de 1990, a polícia de Quebec atacou o acampamento com gases lacrimogêneos e armas automáticas, mas os defensores Mohawk estavam armados e entrincheirados. Um policial foi assassinado a tiros e o resto fugiu. Os automóveis da polícia que foram deixados para trás pelo pânico foram utilizados para construir novas barricadas. Enquanto isso, os guerreiros Mohawk de Kahnawake bloquearam a ponte Mercier, interrompendo o tráfego das proximidades de Montreal. A polícia iniciou um cerco às comunidades Mohawk, mas mais guerreiros vieram, contrabandeando mantimentos. Os que resistiam organizaram comida, assistência médica e serviços de comunicação, e os bloqueios persistiram. Multidões brancas formadas em cidades aldeãs se amotinaram, exigindo a violência policial para abrir a ponte e restaurar o tráfego. Mais tarde, em agosto, estas multidões atacaram um grupo de Mohawks, enquanto a polícia se preparava.

Em 20 de agosto, os bloqueios se mantinham fortes e o exército canadense tomou da polícia o cerco. No total 4.500 soldados foram mobilizados, apoiados por tanques, veículos blindados, helicópteros de combate, aviões, artilharia e navios de guerra. Em 18 de setembro, os soldados canadenses atacaram Tekakwitha Island, disparando gás lacrimogêneo e balas. Os Mohawks responderam e os soldados tiveram que ser evacuados por helicóptero. Em todo Canadá os indígenas protestaram em solidariedade aos Mohawk, ocuparam edifícios, bloquearam vias férreas e estradas, e realizaram atos de sabotagem. Desconhecidos queimaram pontes ferroviárias em British Colombia e Alberta, e derrubaram cinco torres de energia em Ontario. Em 26 de setembro, o resto dos Mohawk sitiados declararam a vitória e se foram depois de queimar suas armas. O campo de golfe não foi construído, e a maioria dos detidos foi absolvida das acusações de porte de armas e distúrbios. “Oka serviu para revitalizar o espírito guerreiro dos povos indígenas e nossa vontade para resistir”[6].

No final dos anos 1990, o Banco Mundial ameaçou não renovar um dos principais empréstimos de que o governo boliviano dependia, se eles não estivessem de acordo em privatizar todos os serviços de água na cidade de Cochabamba. O governo cedeu e firmou um contrato com um consórcio liderado pelas corporações da Inglaterra, Itália, Espanha, EUA e Bolívia. O consórcio de águas, na falta de conhecimento a respeito das condições locais, de imediato elevou as taxas até o ponto que muitas famílias tiveram que pagar uma quinta parte de seus orçamentos mensais só pela água. Além disso, aplicaram uma política de cortar o serviço de água dos lares que não pagavam. Em janeiro de 2000, grandes protestos explodiram contra a privatização da água. Camponeses, principalmente indígenas, reuniram-se na cidade, junto com trabalhadores aposentados, empregados têxtil, vendedores ambulantes, jovens sem lar, estudantes, e anarquistas. Os manifestantes tomaram a praça central e levantaram barricadas nas principais estradas. Organizou-se uma greve geral que paralisou a cidade durante quatro dias. Em 4 de fevereiro, uma grande marcha de protesto foi agredida por soldados da polícia. Duas centenas de manifestantes foram detidas, enquanto que setenta manifestantes e cinquenta e um policiais foram feridos.

Em abril, as pessoas se apoderaram da praça central de Cochabamba outra vez, e quando o governo começou a prender os organizadores, os protestos se estenderam às cidades de La Paz, Oruro e Potosí, assim como em muitos povoados rurais. As principais estradas em todo o país foram bloqueadas. Em 8 de abril, o presidente boliviano declarou estado de sítio por 90 dias: proibiu reuniões de mais de 4 pessoas, restringiu a atividade política, permitiu detenções arbitrárias, estabeleceu toques de recolher, e colocou as estações de rádio sob o controle de militares. A polícia ocasionalmente se unia aos manifestantes para exigir aumentos salariais, inclusive participaram de alguns distúrbios. Mas uma vez que o governo aumentou seus salários, voltaram a trabalhar e continuaram espancando e detendo seus antigos camaradas. Em todo o país, lutou-se contra a polícia e os militares com pedras e coquetéis molotovs, sofrendo muitas lesões e múltiplas mortes. Em 9 de abril, soldados que tentavam eliminar uma barricada encontraram resistência e dispararam matando dois manifestantes e ferindo vários outros. Os vizinhos atacaram os soldados, se apoderaram de suas armas e abriram fogo. Mais tarde, invadiram um hospital e capturaram e lincharam um capitão do exército que estava ferido.

Enquanto os protestos violentos só mostravam sinais de crescimento, e com frequência devido aos repetidos assassinatos e à repressão violenta da polícia e dos militares, o Estado cancelou seu contrato com o consórcio de águas e em 11 de abril anulou a lei que autorizava a privatização da água em Cochabamba. A gestão da infraestrutura para a água foi entregue a um grupo comunitário de coordenação que havia surgido a partir das manifestações. Alguns dos envolvidos na luta posteriormente viajaram para Washington (nos EUA) para unir-se aos manifestantes antiglobalização, demostrando sua intenção de fechar a reunião anual do Banco Mundial[7].

As queixas dos manifestantes se estenderam para além da privatização da água na cidade. A resistência havia se generalizado em um rebelião social que incluía o rechaço socialista ao neoliberalismo, o rechaço anarquista do capitalismo, o rechaço dos agricultores a suas dívidas, as demandas dos pobres para baixar os preços dos combustíveis, o fim das propriedades multinacionais sobre o gás boliviano, e as demandas indígenas pela soberania. Do mesmo modo, a resistência feroz nos anos posteriores derrotou a elite política da Bolívia em várias ocasiões. Agricultores e anarquistas armados com dinamite ocuparam os bancos para ganhar o perdão de suas dívidas. Sob a intensa pressão popular, o governo nacionalizou a extração de gás e um poderoso sindicato de camponeses e indígenas derrotou o programa de erradicação da coca apoiado pelos Estados Unidos. Os cultivadores de coca inclusive levaram seu líder, Evo Morales, a ser eleito presidente, dando à Bolívia seu primeiro chefe de Estado indígena. Por causa disto, a Bolívia enfrenta atualmente uma crise política que o governo pode ser incapaz de resolver; assim como a elite tradicional, localizada nas áreas orientais brancas do país, se negam a submeter-se às políticas progressistas do governo de Morales, nas zonas rurais as comunidades indígenas utilizaram meios mais diretos para conservar sua autonomia. Continuaram com o bloqueio de estradas e sabotando as tentativas de controle governamental de seus povoados através de atos cotidianos de resistência. Em não menos de uma dúzia de ocasiões em que um prefeito em particular ou um funcionário do governo mostrou-se especialmente intrusivo ou abusivo, acabou linchado pelos moradores locais.


+++++++++++ REVISÃO veio até aqui ++++++++++++++++


A resistência descentralizada pode derrotar o governo em um enfrentamento armado – podendo também derrubar governos. Em 1997 a corrupção do governo e um colapso econômico provocaram uma insurreição massiva na Albânia. Em questão de meses as pessoas se armaram e obrigaram ao governo e a polícia secreta a fugir do país. Eles não estabeleceram um novo governo nem se uniram sob um partido político. Melhor, se colocaram fora do Estado para criar regiões autônomas onde poderiam organizar suas próprias vidas. A rebelião se espalhou de forma espontânea, sem direção central ou mesmo coordenação. As pessoas em todo o país identificaram o Estado como seu opressor e o atacaram. As prisões foram abertas, e os batalhões da polícia e os edifícios do governo queimados até virar cinzas. As pessoas trataram de cumprir com suas necessidades a nível local dentro das redes sociais preexistentes. Por desgraça, precisavam de um movimento conscientemente anarquista ou antiautoritário. Rechaçando as soluções políticas intuitivamente, mas não explicitamente, faltava uma análise que permitisse identificar a todos os partidos políticos como inimigos por sua própria natureza. Em consequência, o partido da oposição socialista conseguiu instalar-se no poder, apesar disto implicar uma ocupação de milhares de Tropas da União Europeia para pacificar a Albânia por completo.

Mesmo nos países mais ricos do mundo os anarquistas e outros rebeldes podem derrotar o Estado em uma área limitada, criando uma zona autônoma em que possam prosperar novas relações sociais. Em 1980-81 o partido conservador alemão perdeu o poder em Berlin depois de tentar esmagar pela força o movimento okupa. Os ocupantes ilegais ocuparam edifícios abandonados como uma luta contra o aburguesamento e a decadência urbana, ou, simplesmente proporcionaram a si mesmos uma moradia livre. Muitos okupas, conhecidos como Autonomen, se identificaram como um movimento anticapitalista, antiautoritário que viu estas okupas como bolhas de liberdade nas quais se criavam os inícios de uma nova sociedade. Em Berlin, a luta mais violenta ocorreu no bairro de Kreuzberg. Em algumas áreas a maioria dos residentes eram Autonomen, desertores escolares e imigrantes, sendo em muitos aspectos uma zona autônoma. Utilizando todo o poder da polícia a cidade tentou desalojar as okupas e esmagar o movimento, mas os Autonomen se defenderam. Defenderam seus bairros com barricadas, pedras e coquetéis molotovs superando a polícia no confronto de rua. Contra-atacaram causando estragos nos distritos financeiros e comerciais da cidade. O partido governante renunciou durante a desgraça e os socialistas tomaram o poder; estes últimos empregaram uma estratégia de legalização na tentativa de minar a autonomia do movimento, já que não conseguiram desalojá-los à força. Enquanto isso, os Autonomen em Kreuzberg tomaram medidas para proteger o bairro dos vendedores de drogas com a campanha “os punhos contra as agulhas”. Também lutaram contra o aburguesamento, destruindo restaurantes e bares burgueses.

Em Hamburgo, em 1986 e 1987, a polícia foi detida pelas barricadas dos Autonomen quando tentavam desalojar as okupas de Hafenstrasse. Depois de perder várias batalhas nas principais ruas e sofrer contra-ataques, como um ataque incendiário coordenado contra treze lojas de departamento causando danos de 10 milhões de dólares, o prefeito legalizou as ocupações, que seguem em pé e seguem sendo centros de cultura e resistência política até o momento de escrever este livro.

Em Copenhague, Dinamarca, o movimento juvenil autônomo continuou o ataque em 1986. Enquanto se desenrolavam ações militantes de okupas e sabotagens às estações da Shell Oil e outros objetivos da luta anti-imperialista, várias centenas de pessoas desviaram sua marcha de protesto para surpreender e ocupar Ryesgade, uma rua no bairro de Osterbro. Levantaram barricadas e obtiveram o apoio do bairro e trouxeram mantimentos aos vizinhos idosos bloqueados pelas barricadas. Durante nove dias os Autonomen tomaram as ruas, derrotando a polícia em várias batalhas importantes. As estações de rádio livres em toda Dinamarca ajudaram a mobilizar apoio, incluindo alimentos e mantimentos. Finalmente o governo anunciou que traria os militares para limpar as barricadas. Os jovens nas barricadas anunciaram uma conferencia de imprensa, mas quando chegou a manhã marcada, haviam desaparecido.

Dois negociadores da cidade se perguntavam:

Aonde foram as BZers [brigadas de ocupação]? Quando se foram? Que lições aprenderam com o ajuntamento? Parecia que a ação podia começar novamente, em qualquer lugar, a qualquer momento. Ainda maior. Com os mesmos participantes[8].

Em 2002 a polícia de Barcelona tentou desalojar o Can Masdeu, um grande centro social ocupado em uma colina nos arredores da cidade. Can Masdeu estava conectado com o movimento de okupa, o movimento ecologista, e a tradição local de resistência. O entorno da colina estava coberta de jardins, muitos deles utilizados pelos antigos vizinhos que relembram a ditadura e a luta contra ela, e entendem que esta luta ainda continua em nossos dias apesar da aparência de uma democracia. Consequentemente o centro recebeu o apoio de muitos cantos da sociedade. Quando a polícia chegou, os vizinhos levantaram barricadas e fecharam a passagem, e por esses dias onze pessoas penduradas por arreios no exterior da construção, penduradas na encosta, acima do chão. Os partidários entravam e desafiavam a polícia, enquanto que outros tomavam medidas em toda a cidade, bloqueando o tráfego e atacando bancos, escritórios imobiliários, um McDonalds, e outras lojas. A polícia tentou matar de fome aos que se penduravam do edifício e utilizaram táticas psicológicas contra eles, mas finalmente fracassaram. A resistência derrotou a intenção de desalojo e a zona autônoma sobrevive até nossos dias, com jardins comunitários ativos e um centro social.

Em 6 de dezembro de 2008 a polícia grega disparou para matar o anarquista Alexis Grigoropoulos de quinze anos de idade no centro de Exarchia, a fortaleza autônoma anarquista no centro de Atenas. Em questão de minutos grupos anarquistas de afinidade se comunicaram por internet e telefone celular iniciando ações em todo o país. Estes grupos de afinidade, centenas deles, que haviam desenvolvido relações de confiança e segurança, e a capacidade de realizar ações ofensivas em anos anteriores, se organizaram e realizaram numerosos ataques em pequena escala ao Estado e à capital. Estes ataques incluíam simples grafites, expropriações populares nos supermercados, ataques com molotovs contra a polícia, suas patrulhas e delegacias e ataques com bombas contra veículos e escritórios dos partidos políticos, instituições e empresas que haviam levado à reação contra os movimentos sociais, os imigrantes, os trabalhadores, os presos e outros. A continuidade das ações criadas em um contexto de forte resistência poderia chegar ao primeiro plano quando a sociedade grega estivesse pronta.

O ódio pelo assassinato de Alexis alcançou um ponto de encontro para os anarquistas, quem começaram a atacar a polícia por todo o país, enquanto que a polícia em muitas cidades nem sequer sabiam o que estava acontecendo. A força do ataque rompeu a ilusão da paz social, e nos dias posteriores centenas de milhares de pessoas saíram às ruas para expressar a raiva que também abrigavam contra o sistema. Imigrantes, estudantes, secundaristas, trabalhadores, idosos, os revolucionários da geração anterior – toda a sociedade grega saiu para participar em uma diversidade de ações. Eles lutaram contra a polícia e venceram, ganhando o poder para transformar suas cidades. Lojas de luxo e edifícios do governo foram atacados e reduzidos às cinzas. Escolas, estações de rádio, teatros e outros edifícios foram ocupados. Sua dor se converteu em celebração quando as pessoas atearam fogo e comemoraram com festa nas ruas a queima do velho mundo. A polícia respondeu com a força, ferindo e prendendo a centenas de pessoas e enchendo o ar com gases lacrimogêneos. O povo se defendeu com mais incêndios, queimando tudo o que odiava e produzindo densas nuvens de fumaça negra que neutralizavam o gás lacrimogêneo.

Nos dias que as pessoas começaram a ir pra casa, talvez para voltar à normalidade, os anarquistas mantiveram os distúrbios em marcha, de modo que não restasse dúvida que as ruas pertencem ao povo e que um novo mundo estava ao seu alcance. Em meio a todos os grafites que apareceram nas paredes estava a promessa: “Somos uma imagem do futuro”. Os distúrbios duraram duas semanas consecutivas. A polícia perdeu qualquer vestígio de controle, e havia ficado sem gás lacrimogêneo. No final as pessoas voltaram para casa por puro cansaço físico, mas não se detiveram. Os ataques continuaram e grande parte da sociedade grega começou a participar em ações criativas. A sociedade grega havia se transformado. Todos os símbolos do capitalismo e do governo demonstraram provocar o desprezo das massas. O Estado perdeu sua legitimidade e os meios de comunicação se limitaram a repetir a clara mentira: os manifestantes não sabem o que querem. O movimento anarquista ganhou o respeito de todo o país e inspirou a nova geração. Os distúrbios diminuíram, mas as ações continuaram. Ao escrever estas linhas, as pessoas por toda a Grécia continuam ocupando edifícios, iniciando centros sociais, protestando, atacando, avaliando suas estratégias, e realizando massivas assembleias para determinar a direção de sua luta.

Os Estados democráticos ainda embaraçados pela opção de chamar o exército quando suas forças policiais não podem manter a ordem, e em ocasiões o fazem inclusive nos países mais progressistas. No entanto, esta opção também abre perigosas possibilidades. Os dissidentes também podem tomar as armas; se a luta continua ganhando popularidade, mais e mais gente passa a ver o governo como uma força de ocupação, em um caso extremo, os militares podem amotinar-se e a luta se difunde. Na Grécia, os soldados estavam circulando panfletos prometendo que se lhes chamassem para esmagar a revolta, entregariam suas armas ao povo e abririam fogo contra as polícias. A intervenção militar é uma etapa inevitável de qualquer luta para derrubar o Estado, mas se os movimentos sociais podem demonstrar o valor e a capacidade organizativa para derrotar a polícia, eles podem ser capazes de derrotar aos militares ou ganhá-los para o seu lado. Graças à retórica dos governos democráticos, os soldados de hoje estão muito menos preparados psicologicamente para reprimir levantamentos locais tão brutalmente como o fariam com um país estrangeiro.

Devido à natureza de integração globalizada do sistema, os Estados e outras instituições de poder se reforçam mutuamente, e portanto são mais fortes até certo ponto. Mas para além deste ponto, todos eles são mais débeis e vulneráveis a um colapso em escala global como nunca antes na história. A crise política na China poderia destruir a economia dos EUA, e derrubar também outras fichas do dominó. Todavia ainda não chegamos ao ponto em que podemos derrubar a estrutura de poder mundial, mas é significativo que em competências específicas o Estado seja frequentemente incapaz de nos derrotar, e as bolhas de autonomia coexistem com o sistema que pretende ser universal e sem alternativas. Os governos são derrubados a cada ano. O sistema ainda não foi abolido porque os vencedores destas lutas sempre têm sido cooptados e reincorporados no capitalismo global. Mas se os movimentos antiautoritários tomarem explicitamente a iniciativa na resistência popular, este será um sinal de esperança para o futuro.

Como saberemos que os revolucionários não se converterão nas novas autoridades?

Não é inevitável que os revolucionários se convertam nos novos ditadores, sobretudo se seu objetivo principal é a abolição de toda autoridade coercitiva. As revoluções através de todo o século XX criaram novos sistemas totalitários, mas todas elas foram dirigidas ou sequestradas por partidos políticos, nenhum dos quais denunciava o autoritarismo, pelo contrário, um grande número deles prometeram criar uma “ditadura do proletariado” ou governo nacionalista.

Os partidos políticos, afinal, são instituições inerentemente autoritárias. Mesmo no caso improvável de que legitimamente venham de grupos desempoderados e construam estruturas internas democráticas, ainda devem negociar com as autoridades existentes para ganhar influência, e seu último objetivo é ganhar o controle sobre uma estrutura de poder centralizado. Para que os partidos políticos obtenham o poder através do processo parlamentar, devem deixar de lado todos os princípios igualitários e metas revolucionárias que possam ter tido e cooperar com os acordos preexistentes de poder, como são as necessidades dos capitalistas, as guerras imperialistas, e assim sucessivamente. Este triste processo foi demonstrado pelos partidos social-democratas de todo o mundo, desde Labour no Reino Unido, com o Partido Comunista na Itália, e mais recentemente pelo Partido Verde na Alemanha ou o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Por outro lado, quando os partidos políticos, como os bolcheviques, os Khmer Rouge, e os comunistas cubanos tratam de impor a mudança através da adoção do controle em um golpe de Estado ou guerra civil, seu autoritarismo é ainda mais imediatamente visível.

Contudo, os revolucionários expressamente antiautoritários tem uma história de destruição do poder em vez de toma-lo. Nenhum de seus levantamentos foram perfeitos, mas tem dado uma esperança para o futuro e lições sobre como se poderia alcançar uma revolução anarquista. Enquanto que o autoritarismo é sempre um perigo, não é um resultado inevitável da luta.

Em 2001, depois de anos de discriminação e brutalidade, os Amazigh (berbere), habitantes de Cabilia, uma região da Argélia, se levantaram contra o predominante governo árabe. O estopim da sublevação aconteceu a 18 de abril, quando a polícia militar matou um jovem local e depois submeteu a vários estudantes a detenções arbitrárias, ainda que o movimento resultante tenha demonstrado claramente ser muito mais amplo que apenas uma reação contra a brutalidade policial. A partir de 21 de abril, as pessoas entraram em confronto com a polícia militar, queimaram delegacias, edifícios governamentais, e escritórios de partidos políticos de oposição. Ao perceber que os escritórios de serviços sociais governamentais não foram poupados, os intelectuais e jornalistas nacionais assim como os esquerdistas na França paternalista advertiram que os equivocados amotinados estavam destruindo sua própria vizinhança – omitindo o fato, por hipocrisia ou ignorância, de que os serviços sociais nas regiões pobres tem a mesma função que a polícia, sendo que realizam a parte mais suave do trabalho.

Os distúrbios generalizados na insurreição e as pessoas de Cabilia logo alcançaram uma de suas principais demandas – a eliminação da polícia militar na região. Muitos postos da polícia que não foram totalmente queimados foram sitiados, suas linhas de abastecimento foram cortadas, ao que a polícia militar teve que sair para atacar somente para abastecer. Nos primeiros meses a polícia matou mais de uma centena de pessoas e feriu a milhares, mas os insurgentes não deram um passo atrás. Devido a ferocidade da resistência mais que a generosidade do governo, Cabilia ainda estava fora dos limites da polícia militar no início de 2006.

O movimento prontamente foi organizando a região liberada seguindo linhas tradicionais e antiautoritárias. As comunidades ressuscitaram a tradição Amazigh de Aarch (ou aaruch no plural), uma assembleia popular para auto-organização. Cabilia se beneficiou de uma cultura antiautoritária enraizada. Durante a colonização francesa, a região era o berço de frequentes levantamentos e da resistência cotidiana à administração do governo.

Em 1948, por exemplo, uma assembleia popular proibiu formalmente a comunicação com o governo sobre assuntos da comunidade: “Quem passar informação a qualquer autoridade, seja sobre a moralidade de outro cidadão, seja sobre as cifras fiscais, será multado em dez mil francos. É o tipo mais grave de multa que existe. O prefeito e a guarda rural não estão excluídos” [...] E quando os movimentos atuais começaram a organizar comitês de bairros e vilas, um delegado (da Aarch de Ait Djennad) declarou, para demonstrar que ao menos a recordação desta tradição não se havia perdido: “Antes, quando o tajmat resolvia os conflitos entre pessoas, eles castigavam ao ladrão ou o vigarista, não era necessário ir ao tribunal. De fato, era vergonhoso”.9

A partir de 20 de abril os delegados de 43 cidades na subprefeitura de Beni Duala, em Cabilia, estavam coordenando a convocatória para uma greve geral, assim como as pessoas em muitos povoados e bairros organizavam assembleias e coordenações. Em 10 de maio os delegados, a partir das diferentes assembleias e coordenações ao longo de Beni Duala, se reuniram para formular as demandas e organizar o movimento. A imprensa, demostrando o papel que atuaria durante a insurreição, publicou um anúncio falso dizendo que a reunião havia sido cancelada, mas ainda assim reuniu em conjunto um grande número de delegados, sobretudo os de wilaya, ou distrito de Tizi Uzu. Eles expulsaram um prefeito que tentou participar nas reuniões. “Aqui nós não precisamos de prefeito ou de qualquer outro representante do Estado”, disse um delegado. Os delegados das aaruch mantiveram reuniões e criaram uma coordenação interwilaya. Em 11 de junho se reuniram em El Kseur:

Nós, representantes das wilayas de Sétis, Bordj-Bu-Arreridj, Buira, Bumerdes, Bejaia, Tizi Uzu, Argel, assim como o Comitê das Universidades de Argel, reunidos hoje, segunda-feira, 11 de junho de 2001, na Casa da Juventude “Mouloud Feraoun” em El Kseur (Bejaia), adotamos a seguinte lista de demandas:

Que o Estado seja responsabilizado urgentemente por todas as vítimas feridas e pelas famílias dos mártires da repressão durante estes eventos.

O julgamento por um tribunal civil dos autores, instigadores e cúmplices destes crimes e sua expulsão das forças de segurança e dos cargos públicos.

O status de mártir para dignificar a cada vítima morta durante estes eventos, e a proteção de todas as testemunhas.

A retirada imediata das brigadas da polícia militar e os reforços da URS.

A anulação dos processos judiciais contra todos os manifestantes, assim como a libertação daqueles que já tem sido condenados durante estes eventos.

O abandono imediato dos expedientes punitivos, a intimidação, e as provocações contra a população.

A dissolução das comissões de investigação iniciadas pelo poder.

A satisfação das reclamações dos Amazigh, em todas as suas dimensões (de identidade, civilização, idioma e cultura), sem referendo e sem condições, e a declaração do Tamazight como a língua nacional e oficial.

Por um Estado que garanta todos os direitos socioeconômicos e de todas as liberdades democráticas.

Contra as políticas de subdesenvolvimento, a pauperização e miserabilização do povo argelino.

A colocação de todas as funções executivas do Estado, incluídas as forças de segurança, sob a autoridade efetiva de órgãos democraticamente eleitos.

Por um urgente planejamento socioeconômico para toda Cabilia.

Contra a Tamheqranit [aproximadamente, a arbitrariedade do poder] e todas as formas de injustiça e exclusão.

Pela reconsideração, caso a caso, das avaliações regionais para todos os estudantes reprovados.

Pela entrega de auxílio desemprego para todos os que recebem menos de 50% do salário mínimo.

Exigimos com urgência uma resposta oficial e pública a estas demandas.

ULAC Smah ULAC (A luta continua)10

Em 14 de junho centenas de milhares marcharam em Argel para representar estas demandas, mas foram dispersados e sequestrados preventivamente pela ação policial. Embora o movimento tenha sido sempre mais forte em Cabilia, nunca esteve limitado a fronteiras nacionais/culturais, e recebeu apoio em todo o país, porém os partidos políticos de oposição trataram de estragar o movimento reduzindo as demandas a simples medidas contra a brutalidade policial e o reconhecimento oficial da língua berbere. Mas a derrota da marcha em Argel demonstrou a debilidade do movimento fora de Cabilia. Um morador de Argel disse, em relação à dificuldade da resistência na capital em contraste com as regiões berberes: “Eles têm sorte. Em Cabilia, nunca estão sozinhos. Todos eles têm sua cultura, suas estruturas. Nós vivemos em meio a informantes e pôsteres do Rambo”.

Em julho e agosto o movimento se propôs a tarefa de refletir estrategicamente sobre sua estrutura: adotaram um sistema de coordenação entre as aaruch, dairas e as comunas de wilaya, e a eleição de delegados dentro dos povoados e bairros, estes delegados formaram uma coordenação municipal que gozava de plena autonomia para agir. A coordenação de toda wilaya se compõe de dois delegados de cada uma das coordenações municipais. Em um caso típico em Bejaia a coordenação expulsou os sindicalistas e esquerdistas que haviam se infiltrado, e lançou uma greve geral por sua própria iniciativa. Na conclusão deste processo de reflexão, o movimento identificou como uma de suas principais debilidades a relativa falta de participação das mulheres dentro das coordenações (embora as mulheres terem desempenhado um papel importante na insurreição e em outras partes do movimento). Os delegados resolveram incentivar uma maior participação das mulheres.

Ao longo deste processo alguns delegados dialogaram secretamente com o governo, enquanto a imprensa se empenhava em difamar o movimento e sugerir que suas demandas mais cívicas poderiam ser aceitas pelo governo, ignorando suas demandas mais radicais. Em 20 de agosto o movimento demonstrou seu poder dentro de Cabilia com uma grande marcha de protesto seguida por uma rodada de reuniões interwilaya. A elite do país esperava que estas reuniões demonstrasse a “maturidade” do movimento e resultasse em diálogo, mas as coordenações continuaram rechaçando as negociações secretas e reafirmaram os acordos de El Kseur. Os comentaristas assinalaram que se o movimento continuasse rechaçando o diálogo enquanto empurram suas demandas e defendem exitosamente sua autonomia, eles se fariam impossíveis de governar e poderiam provocar o colapso do poder do Estado, ao menos em Cabilia.

Em 10 de outubro de 2002, depois de ter sobrevivido a mais de um ano à violência e a pressão por participar na política, o movimento pôs em marcha um boicote às eleições. Para a grande frustração dos partidos políticos, as eleições foram bloqueadas em Cabilia e no resto da Argélia a participação foi notavelmente baixa.

Desde o início os partidos políticos se viram ameaçados pela auto-organização da revolta, e tentaram com todas as suas forças levar o movimento para dentro do sistema político. Porém, não foi tão fácil. A princípio o movimento adotou um código de honra em que todos os delegados da coordenação tiveram que jurar. O código dizia:

Os delegados do movimento prometem:

Respeitar os termos enunciados no capítulo de Princípios Orientadores das coordenações das aaruch, dairas e comunas.

Honrar o sangue dos mártires continuando a luta até a realização de seus objetivos e não usar sua memória para lucrar com fins partidaristas.

Respeitar o espírito decididamente pacífico do movimento.

Não tomar nenhuma ação encaminhada para estabelecer conexões diretas ou indiretas com o poder.

Não usar o movimento com fins partidaristas para puxar votos em eleições ou com intenções de tomar o poder.

Renunciar ao movimento publicamente antes de buscar qualquer objetivo eleitoral.

Não aceitar nenhum cargo político (nomeação por decreto) nas instituições de poder.

Mostrar civismo e respeito aos demais. Dar ao movimento uma dimensão nacional.

Não iludir a estrutura adequada em matéria de comunicação.

Prestar efetiva solidariedade a qualquer pessoa que tenha sofrido alguma lesão devido a atividade como delegado do movimento.

Nota: qualquer delegado que viole o Código de Honra será denunciado publicamente.11

E de fato, os delegados que romperam sua promessa foram condenados ao ostracismo e mesmo atacados. A pressão pela incorporação continuava. Os Comitês e Conselhos anônimos começaram a emitir comunicados de imprensa denunciando a “espiral de violência” dos jovens e os “pobres cálculos políticos daqueles que seguem parasitando o debate público” e silenciando aos “bons cidadãos”. Mais tarde este conselho em particular esclareceu que estes bons cidadãos eram “todas as personagens científicas e políticas do município capazes de dar sentido e consistência ao movimento.”12

Nos anos seguintes, o enfraquecimento do caráter antiautoritário do movimento mostrou-se um grande obstáculo para as insurreições libertárias que conseguiram uma bolha de autonomia: não é um autoritarismo inevitável que lhes arrasta, senão a constante pressão internacional sobre o movimento para institucionalizá-lo. Em Cabilia, grande parte dessa pressão veio das ONGs europeias e organismos internacionais que diziam trabalhar pela paz. Exigiram que as coordenações Aaruch adotassem táticas pacíficas, que abandonassem seu boicote político, e apresentassem candidatos às eleições. Desde então o movimento ficou dividido. Muitos delegados e anciãos Aarch autonomeados dirigentes entraram na arena política, onde seus principais objetivos são reformar a Constituição da Argélia para instaurar reformas democráticas e encerrar a ditadura atual. Enquanto isso, o Movimento para a Autonomia de Cabilia (MAK), segue insistindo em que o poder deve ser descentralizado e a região deve conquistar independência.

Cabilia não recebeu apoio importante nem solidariedade de movimentos antiautoritários ao redor do mundo, o qual poderia ter ajudado a diminuir a pressão pela institucionalização. Parte disto se deve ao isolamento e ao eurocentrismo de muitos destes movimentos. Ao mesmo tempo, o movimento limitou seu alcance às fronteiras estatais e carecia de uma ideologia revolucionária explícita. Por si só a preocupação pelo civismo e a ênfase na autonomia encontrada na cultura Amazigh são claramente antiautoritárias, mas em uma disputa contra o Estado isto dá lugar a um sem número de ambiguidades. As demandas do movimento, caso alcançadas em sua totalidade, teria tornado o governo impraticável e, portanto eles seriam revolucionários, porém não se reclama explicitamente a destruição do “poder”, e assim deixa muito espaço para o Estado reinserir-se no movimento. Apesar do Código de Honra proibir exaustivamente a colaboração com os partidos políticos, a ideologia cívica do movimento tornou este tipo de colaboração inevitável ao exigir um bom governo, que, é claro, é impossível. Uma palavra-chave para autoengano e traição. Uma ideologia ou uma análise revolucionária assim como antiautoritária poderia ter impedido a incorporação e facilitado a solidariedade com movimentos em outros países. Ao mesmo tempo os movimentos em outros países poderiam ter se posicionado para solidarizar, o que teria contribuído para o desenvolvimento de uma compreensão mais ampla da luta. Por exemplo, devido uma série de razões históricas e culturais é provável que a insurreição na Argélia nunca identifique a si mesma como “anarquista”, porém, foi um dos exemplos mais inspiradores da anarquia que surgiu nesses anos. A maioria daqueles que se autoidentificam como anarquistas não perceberam isto e estiveram impedidos de iniciar relações de solidariedade devido um preconceito cultural contra as lutas que não adotem a estética e a herança cultural comum predominante entre os revolucionários europeus/americanos.

Os experimentos históricos de coletivização e o comunismo anarquista que tiveram lugar na Espanha em 1936 e 1937 só puderam acontecer porque os anarquistas se prepararam para derrotar aos militares em uma insurreição armada, e quando os fascistas deram seu golpe de Estado eles foram capazes de derrota-los militarmente ao longo de grande parte do país. A fim de proteger o novo mundo que estavam construindo, se organizaram para conter aos fascistas melhor equipados com a guerra de trincheiras, declarando: “Não passarão!”

Embora eles tivessem muito com o que se manter ocupados na frente interna – estabeleceram escolas, coletivizaram a terra e as fábricas, reorganizaram a vida social –, os anarquistas criaram e treinaram milícias de voluntários para lutar na linha de frente. No início da guerra, a Coluna Durruti fez os fascistas recuarem na frente de Aragon, e em novembro exerceram um importante papel ao derrotar a ofensiva fascista em Madrid. Houve muitas críticas às milícias de voluntários, a maioria dos jornalistas burgueses e estalinistas que queriam substituir as milícias por um exército profissional totalmente sob seu controle. George Orwell, que lutou em uma milícia trotskista, esclareceu as coisas:

Todo mundo, desde o general até o soldado, recebiam o mesmo pagamento, comiam a mesma comida, usavam a mesma roupa, e misturavam-se em termos de completa igualdade. Se se quisesse dar uma tapinha nas costas do general ao comando da divisão e pedir-lhe um cigarro, podia fazê-lo, e ninguém acharia aquilo curioso. Teoricamente, cada milícia era uma democracia e não uma hierarquia... Tentou-se produzir dentro da milícia uma espécie de modelo de trabalho temporário de uma sociedade sem classes. É claro que não era uma igualdade perfeita, mas havia ali um enfoque mais próximo do que eu nunca havia visto ou além do que podia conceber meu pensamento em tempos de guerra...

... Depois virou moda criticar as milícias, e então sugeriam que as falhas que se deviam à falta de capacitação e de armamento eram consequência do sistema igualitário. Na realidade, o projeto militar recém-levantado era uma multidão indisciplinada não porque os funcionários tratavam por “camarada” aos soldados rasos, senão porque as tropas majoritárias eram sempre uma multidão indisciplinada... os jornalistas que zombavam do sistema da milícia raramente lembravam que as milícias tinham que manter a linha, enquanto que o Exército Popular treinava na parte traseira. E isto é um elogio à força da disciplina “revolucionária” que as milícias se mantiveram em campo para tudo. Até próximo de junho de 1937 não havia nada para mantê-las ali exceto a lealdade de classe... Um Exército de conscritos nas mesmas circunstâncias – sem esta “polícia de combate” – teria desaparecido... No início o caos aparente, a falta geral de treinamento, o fato de que frequentemente tinha-se que argumentar durante cinco minutos antes que conseguisse que obedecessem uma ordem, me espantou e enfureceu. Tinha minhas ideias do exército britânico, e certamente as milícias espanholas eram muito diferentes deles. Mas considerando as circunstâncias eram os melhores soldados que alguém poderia esperar.13

Orwell revelou que as milícias estavam sendo deliberadamente privadas do armamento que precisavam para a vitória por um aparato político determinado a desmancha-los. Contudo, em outubro de 1936, as milícias anarquistas e socialistas fizeram os fascistas recuar novamente em frente a Aragon, e mantiveram a linha pelos oito meses seguintes, até que foram substituídos forçosamente pelo exército do governo. O conflito foi longo e sangrento, cheio de perigos, oportunidades sem precedentes, e difíceis decisões. Ao longo dele os anarquistas tiveram que demonstrar a viabilidade de seu ideal de uma verdadeira revolução antiautoritária. Eles experimentaram uma série de sucessos e fracassos que, considerados em conjunto, mostram o que é possível e os perigos que os revolucionários devem evitar para resistir ser as novas autoridades.

Atrás das linhas, os anarquistas e socialistas aproveitaram a oportunidade para pôr seus ideais em prática. No campo espanhol, os camponeses expropriaram a terra e aboliram as relações capitalistas. Não havia nenhuma política uniforme de governo e logo os camponeses estabeleceram o anarco-comunismo; eles empregaram uma variedade de métodos para derrubar seus senhores e criar uma nova sociedade. Em alguns lugares, os camponeses assassinaram clérigos e proprietários de terra, ainda que frequentemente isto ocorresse em represália direta contra os que haviam colaborado com os fascistas ou com o regime anterior ao dar-lhes nomes dos radicais para que fossem presos e executados. Em vários levantamentos na Espanha entre 1932 e 1934, os revolucionários haviam mostrado uma baixa predisposição a assassinar seus inimigos políticos. Por exemplo, quando os camponeses do povoado andaluz de Casas Viejas desfraldaram a bandeira vermelha e negra, a violência só foi dirigida contra os títulos de propriedade, que foram queimados. Nem os chefes políticos nem os proprietários foram atacados, eram simplesmente informados que já não tinham o poder ou a propriedade. O fato de que estes camponeses pacíficos foram massacrados posteriormente pelos militares, nas mãos dos chefes e proprietários de terras, pode ajudar a explicar suas condutas mais agressivas realizadas em 1936. E a Igreja na Espanha foi, em grande medida, uma instituição pró-fascista. Os sacerdotes foram durante muito tempo os provedores de abusivas formas de educação e os defensores do patriotismo, patriarcado e direitos divinos dos proprietários de terra. Quando Franco deu seu golpe de Estado, muitos dos sacerdotes atuaram como paramilitares fascistas.

Existiu um longo debate nos círculos anarquistas sobre se a luta contra o capitalismo como sistema necessitava do ataque específico a indivíduos no poder, para além das situações de autodefesa. O fato de que aqueles no poder, quando mostraram misericórdia, viraram-se e deram aos pelotões de fuzilamento os nomes dos rebeldes para puni-los e desencorajar futuras rebeliões, ressaltou o argumento de que as elites não estão somente exercendo inocentemente um papel dentro de um sistema impessoal, senão que se envolveram especificamente na guerra contra os oprimidos. Portanto, os homicídios perpetrados pelos anarquistas e camponeses espanhóis não eram sinais de um autoritarismo inerente à luta revolucionária, mas antes uma estratégia intencional dentro de um perigoso conflito. O comportamento contemporâneo dos estalinistas, que estabeleceu uma força de polícia secreta para torturar e executar aos seus antigos camaradas, demonstra quão baixo pode cair as pessoas quando acreditam estar lutando por uma causa justa, mas o exemplo de contraste oferecido pelos anarquistas e outros socialistas demonstra que tal comportamento não é inevitável.

Uma demonstração da ausência de autoritarismo entre os anarquistas se pode verificar no fato de que os mesmos camponeses que se libertaram violentamente não obrigaram aos camponeses individualistas a coletivizar suas terras junto com o resto da comunidade. Na maioria dos povoados vizinhos às áreas anarquistas, as propriedades individuais e coletivas existiam ao mesmo tempo. No pior dos casos, onde um camponês anticoletivo tivesse no meio das terras de camponeses que gostariam de uni-las, a maioria lhe perguntava ao camponês individualista se trocaria sua terra por outras terras em outro lugar para que os demais camponeses pudessem somar seus esforços para formar um coletivo. Em um exemplo documentado, a coletivização dos camponeses ofereceu terras de melhor qualidade a cada proprietário de terra com o fim de garantir uma resolução consensual.

Nas cidades e dentro das estruturas da CNT, o sindicato de trabalhadores anarquistas com mais de um milhão de membros, a situação era mais complicada. Depois que os grupos de defesa elaborados pela CNT e a FAI (Federação Anarquista Ibérica) derrotaram a sublevação fascista na Catalunha e confiscaram as armas do arsenal, a CNT espontaneamente organizou os conselhos de fábrica, as assembleias de bairro, e outras organizações capazes de coordenar a vida econômica, e mais, o fizeram de forma não-partidarista, em colaboração com outros trabalhadores de todas as tendências políticas. Apesar dos anarquistas serem a força mais poderosa na Catalunha, demonstraram muito pouco desejo de reprimir outros grupos – em diferença marcante com o Partido Comunista, os trotskista, e o nacionalismo catalão. O problema veio dos delegados da CNT. O sindicato havia falhado em estruturar-se a si mesmo de uma forma que impedisse a institucionalização. Os delgados aos Comitês regionais e Nacionais podiam agir de má fé em relação ao acordo, não havia costume de evitar que a mesma pessoa mantivesse constantemente essas posições nestes comitês superiores, e as negociações ou decisões tomadas pelos comitês mais altos nem sempre tinham que ser ratificadas por todos os membros. Por outro lado, coerentemente desde o princípio, os militantes anarquistas rechaçaram as posições na Confederação, enquanto os intelectuais se concentraram nas teorias abstratas e o planejamento econômico movia os comitês centrais. Portanto, no momento da revolução em julho de 1936, a CNT tinha uma liderança estabelecida, e esta liderança foi isolada do movimento atual. Anarquistas como Stuart Christie e os veteranos do grupo Juventudes Libertárias que chegaram a participar na luta de guerrilhas contra os fascistas durante as décadas seguintes argumentam que estas dinâmicas de fato separavam a liderança da CNT das bases, e os aproximava dos políticos profissionais. Assim, na Catalunha, quando foram convidados para participar em uma frente popular antifascista juntamente com os partidos autoritários socialistas e republicanos, foram obrigados. Para eles, se tratava de um gesto de pluralismo e solidariedade, assim como um meio de autodefesa contra a ameaça colocada pelo fascismo. Seu distanciamento da base lhes impediu dar-se conta de que o poder já não estava nos edifícios do governo, senão que já estava nas ruas e onde os trabalhadores tomavam as fábricas de forma espontânea. Ignorando isto, eles na realidade impediram a revolução social, desencorajaram as massas armadas de perseguir a plena realização do comunismo anarquista por receio de incomodar seus novos aliados.14 Em todo caso, os anarquistas nesse período enfrentaram decisões muito difíceis. Os representantes ficaram presos entre o fascismo que avançava e os aliados traidores, enquanto que nas ruas havia que se escolher entre aceitar as duvidosas decisões de uma liderança autodesignada ou dividir o movimento sendo demasiado crítico.

Mas apesar do repentino poder adquirido pela CNT – que era a força política organizada dominante na Catalunha e uma força importante em outras províncias – tanto na liderança como na base, atuando de forma cooperativa em vez da forma sedenta de poder. Por exemplo, nos comitês antifascistas propostos pelo governo catalão, eles se permitiram pôr-se em nível igualitário com o relativamente fraco sindicato de trabalhadores socialistas e o partido nacionalista catalão. Uma das principais razões que a direção da CNT deu para colaborar com os partidos autoritários foi a de que a supressão do Governo na Catalunha seria equivalente à imposição de uma ditadura anarquista. Mas esta suposição de que conseguir desfazer-se do governo (ou mais precisamente, permitir que um movimento popular espontâneo o faça), significava substituí-lo pela CNT mostrou quão cegos estavam a respeito de sua própria importância. Eles falharam em dar-se conta de que a classe trabalhadora foi desenvolvendo novas formas de organização, tais como conselhos de fábrica, que podiam florescer melhor transcendendo às instituições preexistentes – seja a CNT ou o governo – em vez de ser absorvidos por elas. A direção da CNT “não se deu conta do quão poderoso era o movimento popular e que seu papel como porta-vozes sindicais era agora hostil ao curso da revolução”.15 Em vez de pintar um quadro otimista da história, devemos reconhecer que estes exemplos demonstram que navegar pela tensão entre a eficácia e o autoritarismo não é fácil, mas é possível.


De que forma as comunidades decidem organizar-se elas mesmas em um primeiro momento?

Todas as pessoas são capazes de auto-organizar a si próprias – tenham elas ou não experiência no trabalho político. É claro, tomar o controle de nossas vidas pode não ser fácil a princípio, mas é iminentemente possível. Na maioria dos casos, as pessoas tomam a solução óbvia, de forma espontânea realizam grandes reuniões abertas com seus vizinhos, companheiros de trabalho ou de barricada para averiguar o que há que se fazer. Em outros casos, a sociedade se organiza através das organizações revolucionárias preexistentes. A rebelião popular em 2001, na Argentina, mostrou as pessoas tomando o controle sobre suas vidas a um nível sem precedentes. Formaram assembleias em bairros, ocuparam as fábricas e as terras abandonadas, criaram redes de troca, bloquearam estradas para obrigar o governo a conceder um alívio aos desempregados, tomaram as ruas contra a letal repressão policial, e obrigaram a quatro presidentes e vários vice-presidentes e ministros da área econômica a renunciar em rápida sucessão. Além do mais, não nomearam líderes, e a maioria das assembleias de bairro rechaçaram os partidos políticos e sindicatos que tentavam cooptar estas instituições espontâneas. Dentro das assembleias, nas ocupações de fábricas e outras organizações, se praticava o consenso e se promovia a organização horizontal. Nas palavras de um ativista envolvido no estabelecimento de outras estruturas sociais em seu bairro, onde o desemprego alcançou 80%: “Estamos construindo poder, não tomando-o.”16

As pessoas formaram mais de 200 assembleias de bairro só em Buenos Aires, que envolveram a milhares de pessoas; de acordo com uma pesquisa, um a cada três moradores da capital havia assistido a uma assembleia. As pessoas começaram a reunir-se em suas vizinhanças, frequentemente em torno de uma refeição comum, ou panelada popular. Rapidamente ocupavam um espaço para servir como centro social – em muitos casos, um banco abandonado. Logo a assembleia de bairro realizava reuniões semanais “sobre assuntos da comunidade, mas também sobre temas como a dívida externa, a guerra e o livre comércio”, assim como “de que forma podiam trabalhar juntos e como viam o futuro.” Muitos centros sociais eventualmente ofereciam:

um espaço de informação e as vezes computadores, livros, e várias oficinas como yoga, defesa pessoal, idiomas e habilidades básicas. Muitos também têm hortas comunitárias, clubes de crianças para depois da escola, e turmas para a educação de adultos, eventos sociais e culturais, cozinham coletivamente a comida, e se mobilizam politicamente para eles mesmos e em apoio aos piqueteiros e às fábricas ocupadas.17

As assembleias criaram grupos de trabalho, tais como os de saúde e comitês de meios de comunicação alternativos, que se reuniam adicionalmente envolvendo as pessoas mais interessadas nesses projetos. Segundo a visita de jornalistas independentes:

Algumas assembleias têm pelo menos 200 pessoas participando, as demais bem menores. Uma das assembleias a qual assistimos tinha umas 40 pessoas presentes, que incluíam desde duas mães sentadas amamentando, um advogado de terno, um hippie magro com roupas folgadas, um taxista de idade avançada, um mensageiro de bicicleta e dreadlocks, até uma estudante de enfermagem. Era uma mostra de toda a sociedade argentina posta de pé em um círculo em uma esquina da rua, sob a luz alaranjada de uma luz de sódio, passando um megafone e discutindo como recuperar o controle de suas vidas. De vez em quando um carro passava buzinando em sinal de apoio, e tudo isto acontecia entre as 20h e meia-noite de um dia de semana!18

Logo as assembleias de bairro estavam se coordenando à nível da cidade. Uma vez por semana as assembleias enviavam porta-vozes à plenária interbairros, que reunia a milhares de pessoas de toda a cidade para propor projetos conjuntos e planos de protesto. Na plenária as decisões se tomavam com uma maioria de votos, mas a estrutura não era coercitiva pois as decisões não eram obrigatórias – elas só se realizavam se as pessoas tinham o entusiasmo em fazer. Consequentemente se um grande número de pessoas na interbairro votava em favor de abster-se em uma proposta concreta, a proposta era reelaborada, ao que poderia receber mais apoio.

A estrutura da assembleia se expandiu rapidamente a níveis provinciais e nacionais. Dentro de um prazo de dois meses desde o começo da sublevação, a “Assembleia Nacional de Assembleias” estava propondo que o governo fosse substituído pelas assembleias. Isso não ocorreu, mas ao final o Governo da Argentina se viu obrigado a fazer concessões popular – anunciou que pagariam sua dívida internacional, uma ocorrência sem precedentes. O Fundo Monetário Internacional estava tão assustado com a rebelião popular e pelo apoio do movimento antiglobalização em todo o mundo, e tão envergonhado pelo colapso de seu símbolo infantil, que teve que aceitar esta surpreendente derrota. O movimento na Argentina exerceu um papel fundamental no cumprimento de um dos principais objetivos dos movimentos antiglobalização, que foi a derrota do FMI e do Banco Mundial. Enquanto escrevo isto, estas instituições estão desacreditadas e em bancarrota. Enquanto isso, a economia argentina se estabilizou e a maior parte da indignação popular esmoreceu. No entanto, algumas das assembleias que conseguiram um importante nicho no levantamento continuam operando sete anos depois. Da próxima vez que o conflito vier à superfície estas assembleias se manterão na memória coletiva como as sementes de uma sociedade futura.

A cidade de Gwangju (ou Kwangju), na Coreia do Sul, libertou-se durante seis dias em maio de 1980, depois de protestos estudantis e dos trabalhadores contra a ditadura militar, os que se intensificaram em resposta à declaração da lei marcial. Os manifestantes incendiaram a estação de televisão estatal e se apoderaram de armas, rapidamente organizaram um “exército de cidadãos” que obrigou a saída da polícia e dos militares. Tal como em outras rebeliões urbanas, inclusive as de Paris em 1848 e 1968, em Budapeste em 1919, e em Beijing em 1989, os estudantes e os trabalhadores de Gwangju formaram rapidamente assembleias abertas para organizar a vida na cidade e comunicar-se com o mundo exterior. Os participantes no levantamento falaram de um complexo sistema de organização desenvolvido de forma espontânea em um curto período de tempo – e sem os líderes dos principais grupos estudantis e organizações de protesto, que já haviam sido presos. Seu sistema incluía um Exército Cidadão, um Centro de Operações, um Comitê Cidadão-Estudantil, um Comitê de Planejamento, e departamentos locais de defesa, investigação, informação, serviços públicos, enterro dos mortos, e outros serviços.19Foi necessária uma invasão em grande escala por parte das unidades especiais militares da Coreia com o apoio dos EUA para esmagar a rebelião e evitar que se estendesse. Várias centenas de pessoas morreram na operação. Inclusive seus inimigos descreveram a resistência armada como “feroz e bem organizada”. A combinação de organização espontânea, assembleias abertas, e comitês com um enfoque organizacional específico deixou uma profunda impressão, que mostra a rapidez com que a sociedade pode mudar uma vez que rompe com o hábito de obedecer ao governo.

Na Revolução húngara de 1956, o poder do Estado foi derrubado depois que as massas de manifestantes estudantis se armaram, grande parte do país ficou nas mãos das pessoas, que teve que organizar a economia e formar milícias rapidamente para repelir a invasão soviética. Inicialmente, cada cidade se organizou de forma espontânea, mas as formas de organização que surgiram foram muito similares, talvez por ter-se desenvolvido sob a mesma cultura e contexto político. Os anarquistas húngaros foram influentes no novo Conselho Revolucionário que federaram para coordenar a defesa, e tomaram parte nos conselhos de trabalhadores que ocuparam as fábricas e as minas. Em Budapeste os velhos políticos formaram um novo governo e trataram de aproveitar estes conselhos autônomos em uma democracia multipartidária, mas a influência do governo não se estendia para além da capital nos dias que antecederam a segunda invasão soviética que obteve êxito em esmagar o levantamento. Hungria não teve um grande movimento anarquista naquele momento, mas a popularidade dos diversos conselhos mostra quão contagiosas são as ideias anarquistas uma vez que as pessoas decidem organizar-se. E sua capacidade de manter o país funcionando e derrotar a primeira invasão do Exército Vermelho mostra a eficácia destas formas de organização. Não havia necessidade de colocar um modelo institucional complexo para que as pessoas deixem para trás seu governo autoritário. Tudo o que precisavam era a determinação de reunir-se em seções públicas para decidir seus futuros, e a confiança em si mesmos de que podiam fazê-lo funcionar, mesmo que no início não tivessem clareza sobre como fazer.


Como funcionarão as reparações de opressões passadas?

Se o governo e o capitalismo desaparecessem durante a noite, as pessoas ainda estariam divididas. Os legados da opressão geralmente determinam onde vivemos, nosso acesso à terra, à água, um meio ambiente limpo, e a infraestrutura necessária; e o nível de violência e trauma em nossas comunidades. As pessoas são amplamente reconhecidas em diferentes graus de privilégios social de acordo com a cor da pele, sexo, nacionalidade, classe econômica, e outros fatores. Uma vez que os explorados da terra se levantem até apoderar-se das riquezas de nossa sociedade, o que exatamente herdariam? Terra saudável, água limpa, e hospitais, ou solos esgotados, depósitos de lixo, e tubulações de chumbo? Em grande medida, depende da cor da pele e da nacionalidade.

Uma parte essencial da revolução anarquista é a solidariedade global. Solidariedade é o polo oposto da caridade. Essa não depende de uma desigualdade entre o doador e o receptor. Como todas as coisas boas da vida, a solidariedade se compartilha, destrói as categorias de doador e receptor e não ignora nem valoriza as desigualdades dinâmicas de poder que possam existir entre os dois. Não pode haver verdadeira solidariedade entre um revolucionário em Illinois e um revolucionário em Mato Grosso se eles ignoram que a casa de um se constrói com madeira roubada das terras do outro, arruinando o solo e deixando sua comunidade com menos possibilidades para o futuro.

A anarquia há de ser totalmente incompatível com o colonialismo, seja um colonialismo que continua até a atualidade com novas formas ou um legado histórico que tratamos de ignorar. Portanto, revolução anarquista também deve basear-se nas lutas contra o colonialismo. Isto inclui as pessoas no Sul Global, que estão tentando reverter o neoliberalismo, nações indígenas que lutam por recuperar suas terras, e comunidades negras que seguem lutando para sobreviver às sequelas da escravidão. Aqueles que têm sido privilegiados pelo colonialismo – os brancos e todos os que vivem na Europa ou em um Estado de colonizadores europeus (os EUA, Canadá, Austrália) – devem apoiar estas outras lutas política, cultural e materialmente. Devido as rebeliões antiautoritárias terem conseguido um alcance limitado até agora (e as reparações significativas teriam que ser em escala mundial devido a globalização da opressão), não há exemplos que demonstrem plenamente como se veriam estas reparações. No entanto, alguns pequenos exemplos mostram que a vontade de fazer as reparações existe, e que os princípios anarquistas da ajuda mútua e ação direta podem conseguir reparações com maior eficácia que os governos democráticos – que se negam a reconhecer a magnitude dos crimes do passado e com suas vergonhosas meias medidas. O mesmo ocorre com os governos revolucionários, que geralmente herdam e encobrem a opressão dentro dos Estados que tomam – como demonstra a frieza com que os governos da URSS e China tomaram seus lugares nas cabeças de impérios raciais pretendendo ser anti-imperialistas.

No estado de Chiapas, no sul do México, os Zapatistas se levantaram em 1994 e ganharam a autonomia de dezenas de comunidades indígenas. Nomeada em honra ao camponês revolucionário mexicano Zapata e adotando um mescla de ideias indígenas, marxistas e anarquistas, os zapatistas formaram um exército guiados pelos populares “encontros”, ou reuniões para lutar contra o capitalismo neoliberal e as contínuas formas de exploração e genocídio infligidas pelo Estado mexicano. Para levantar estas comunidades para sair das seguintes gerações de pobreza do colonialismo, e para ajudar a contrariar os efeitos dos bloqueios militares e a perseguição, os zapatistas pediram apoio. Milhares de voluntários e pessoas com experiência técnica vieram de todo o mundo para ajudar às comunidades zapatistas a criar sua infraestrutura, e outros milhares continuaram apoiando aos zapatistas através do envio de doações em dinheiro, equipamentos ou compra de bens comerciais20 produzidos no território autônomo. Esta ajuda foi dada em espírito de solidariedade; ainda mais importante, realizou-se nos próprios termos zapatistas. Isto contrasta com o modelo da caridade cristã, onde os objetivos do doador privilegiado são impostos aos receptores pobres, de quem se espera que fiquem agradecidos.

Os camponeses na Espanha haviam sido oprimidos ao longo de séculos de feudalismo. A revolução parcial em 1936 lhes permitiu recuperar o privilégio e a riqueza que os opressores haviam roubado de seu trabalho. Se reuniram em assembleias camponesas nos povoados libertados para decidir como redistribuir os territórios confiscados dos grandes proprietários de terra, ao que os que haviam trabalhado como servos virtuais finalmente poderiam ter acesso à terra. Diferentemente da farsa das Comissões de Reconciliação dispostas na África do Sul, Guatemala e outros países que protegem aos opressores das reais consequências e, sobretudo, preservam a distribuição desigual do poder e o privilégio que é o resultado direto de opressões passadas, estas assembleias empoderaram aos camponeses espanhóis para decidir por si mesmos a forma de recuperar sua dignidade e igualdade. Além de redistribuir a terra, também tomaram as igrejas pró-fascistas e vilas de luxo para serem utilizadas como centros comunitários, armazéns, escolas, e clínicas. Em cinco anos de reforma agrária instituída pelo Estado, o governo republicano da Espanha redistribuiu 876.327 hectares de terra; em somente umas poucas semanas de revolução, os camponeses tomaram para eles mesmos 5.692.202 hectares de terra.21 Esta cifra é ainda mais significativa se se considera que a esta redistribuição se opuseram republicanos e socialistas, e que só se deu nas partes do país não controladas pelos fascistas.


Como desenvolver um ethos comum, antiautoritário e ecológico?

Eventualmente uma sociedade anarquista funciona melhor se se desenvolve uma cultura que valoriza a cooperação, a autonomia, e os comportamentos ambientalmente sustentáveis. A estruturação de uma sociedade pode fomentar ou obstaculizar esse espírito, tal como nossa sociedade atual recompensa a competição, as condutas opressivas e contaminantes e desencoraja as antiautoritárias. Em uma sociedade não-coercitiva, as estruturas sociais não podem obrigar as pessoas a viver de acordo com os valores anarquistas: as pessoas tem que querer assim, e pessoalmente identificar-se com esses valores. Felizmente, o ato da rebelião contra a cultura capitalista autoritária pode por si mesma popularizar os valores antiautoritários. O antropólogo e anarquista David Graeber escreve sobre os Tsimihety em Madagascar, que se rebelaram e se retiraram da dinastia Maroansetra. Mesmo um século depois desta rebelião, o Tsimihety “está marcado pelas práticas e a organização social resolutamente igualitárias”, a tal ponto que define a sua própria identidade.22 O novo nome da tribo escolhido por eles mesmos, Tsimihety, significa “os que não cortam o pelo”, em referência ao costume dos submetidos pelos Maroansetra de cortar-se o cabelo como um sinal de submissão.

Durante a Guerra Civil espanhola em 1936, foram realizadas uma série de transformações culturais. No campo a juventude politicamente ativa desempenhou um importante papel desafiando costumes conservadores e induzindo suas vilas a adotar uma cultura anarco-comunista. A posição das mulheres em particular começou a mudar rapidamente. As mulheres organizaram o grupo anarco-feminista Mujeres Libres, para ajudar alcançar as metas da revolução e assegurar-se que as mulheres gozariam de um lugar na vanguarda da luta. As mulheres lutaram na frente, literalmente, unindo-se às milícias anarquistas para manter a linha contra os fascistas. Mujeres Libres organizava cursos de armas de fogo, escolas, programas de cuidados com crianças e grupos sociais só de mulheres para ajudar a estas a adquirir as habilidades necessárias para participar na luta como iguais. Os membros de Mujeres Libres discutiram com seus companheiros masculinos, empenhadas na importância da libertação da mulher como uma parte necessária de qualquer luta revolucionária. Não era uma preocupação menor a ser tratada depois da derrota do fascismo.

Nas cidades de Catalunha as restrições sociais sobre as mulheres diminuíram consideravelmente. Pela primeira vez na Espanha as mulheres podiam caminhar sozinhas pela rua sem um acompanhante – para não mencionar que muitas delas caminhavam pelas ruas vestidas com uniformes da milícia e portando armas. Mulheres anarquistas como Lucía Sánchez Saornil escreveram sobre como o empoderamento foi pra elas uma transformação na cultura que as havia oprimido. Os observadores masculinos desde George Orwell a Franz Borkenau comentaram sobre a mudança nas condições das mulheres na Espanha.

No levantamento impulsionado pelo colapso econômico da Argentina em 2001, a participação nas assembleias populares ajudou as pessoas apolíticas a construir uma cultura antiautoritária. O movimento piqueteiro, outra forma de resistência popular, exerceu uma grande influência na vida e na cultura de muitos dos desempregados. Os piqueteiros eram pessoas desempregadas que com seus rostos mascarados estabeleciam piquetes, fechando as estradas para cortar o comércio e ganhar influência para demandas como comida para os supermercados ou auxílios por desemprego. Além destas atividades os piqueteiros também auto-organizaram uma economia anticapitalista, incluindo escolas, grupos de meios de comunicação, lojas que distribuíam roupas, padarias, clínicas e grupos para consertar as casas das pessoas e construir estruturas tais como as redes de esgoto. Muitos dos grupos piqueteiros estavam afiliados com o Movimento de Trabalhadores Desempregados (MTD). Seu movimento já havia se desenvolvido muito antes da massiva retirada de fundos pela classe média em dezembro de 2001, e em muitos aspectos estavam na vanguarda da luta na Argentina.

Dois voluntários da Indymedia que viajaram dos EUA e da Grã Bretanha para a Argentina para documentar a rebelião para os países de língua inglesa passaram um tempo com um grupo no bairro Admirante Brown ao sul de Buenos Aires.23 Os membros deste grupo em particular, similar a muitos dos piqueteiros no MTD, só recentemente haviam sido motivados ao ativismo, por causa do desemprego. Mas suas motivações não eram puramente materiais. Por exemplo, eles frequentemente realizaram eventos culturais e educativos. Ambos ativistas de Indymedia relataram uma oficina realizada em uma padaria do MTD em que os membros do coletivo discutiram as diferenças entre uma padaria capitalista e outra anticapitalista. “Nós produzimos para nossos vizinhos... e para ensinar a fazer coisas novas, para aprender a produzir por nós mesmos”, explicou uma mulher de uns cinquenta anos. Um jovem com uma camiseta do Iron Maiden complementou: “Nós produzimos para que todos possam viver melhor”.24 O mesmo grupo operava um Roupeiro (uma loja de roupas), e muitos outros projetos assim foram dirigidos por voluntários e dependiam de doações, apesar de que todos na área eram pobres. Apesar destes desafios, abriam duas vezes ao mês para dar roupas gratuitamente às pessoas que não podiam pagá-las. O resto do tempo os voluntários reformavam a roupa velha que era descartada. Na ausência dos motivos que impulsionam o sistema capitalista, as pessoas claramente se sentiam orgulhosas de seu trabalho, mostrando aos visitantes como restauravam a roupa apesar da escassez de materiais. O ideal comum entre os piqueteiros inclui um firme compromisso com formas não-hierárquicas de organização e participação de todos os membros, jovens e velhos, em seus debates e atividades. As mulheres eram frequentemente as primeiras a irem aos piquetes e chegaram a ter um considerável poder dentro do movimento piqueteiro. Dentro destes organismos autônomos muitas mulheres ganharam, pela primeira vez em suas vidas, a oportunidade de participar nas decisões em grande escala ou assumir outros papéis dominados por homens. Na padaria em particular, na realização da oficina descrita anteriormente, uma jovem mulher estava responsável pela segurança, outro papel tradicionalmente masculino.

Ao longo da rebelião de 2006 em Oaxaca, assim como antes e depois, a cultura indígena foi uma fonte de resistência. Por mais que eles exemplificaram comportamentos de cooperação antiautoritários e ecologicamente sustentáveis antes do colonialismo, os povos indígenas na resistência de Oaxaca chegaram a valorizar e enfatizar as partes de sua cultura que contrastam com o sistema que valoriza a propriedade em detrimento da vida, incentiva a competição e a dominação, e explora o meio ambiente até a extinção. Sua capacidade para praticar uma cultura antiautoritária e ecológica trabalhando conjuntamente em um espírito de solidariedade e nutrindo-se da pequena quantidade de terra da que dispunham potencializou a resistência e, portanto, suas possibilidades de sobrevivência. Assim a resistência ao capitalismo e ao Estado é por vezes um meio de proteger as culturas indígenas e um cadinho que forja um forte ethos antiautoritário. Muitas das pessoas que participaram da rebelião não eram indígenas, mas foram influenciadas e inspiradas pela cultura indígena. Portanto, o ato de rebelar-se, por si só, permitiu às pessoas eleger valores sociais e formar sua própria identidade.

Antes da rebelião, o empobrecido estado de Oaxaca vendeu sua cultura indígena como uma mercadoria para atrair turistas e criar um negócio. A Guelaguetza, uma importante reunião de culturas indígenas, havia se convertido em uma atração turística patrocinada pelo Estado. Porém, durante a rebelião em 2006, o estado e o turismo foram escanteados, e em julho os movimentos sociais organizaram a Guelaguetza do Povo, não para vendê-la aos turistas, senão para eles mesmos desfrutarem. Após bloquear exitosamente o evento comercial armado para os turistas, centenas de estudantes da cidade de Oaxaca e pessoas dos povoados em todo o estado começaram a organizar seu próprio evento. Confeccionaram trajes e praticaram danças e canções das sete regiões de Oaxaca. Ao final, a Guelaguetza Popular foi um grande sucesso. Todo mundo assistiu de forma gratuita e o lugar estava cheio. Havia mais danças tradicionais como nunca se havia produzido nas Guelaguetza comerciais. Enquanto o evento anteriormente havia sido produzido por dinheiro – a maioria do qual era monopolizado pelos patrocinadores e o governo –, se converteu em um dia para confraternizar, tal como havia sido tradicionalmente. No coração de um movimento anticapitalista, majoritariamente indígena, foi uma festa, uma celebração dos valores que mantêm o movimento unido, e um renascimento das culturas indígenas que estavam sendo aniquiladas ou reduzidas a um exotismo comercial.

Enquanto a Guelaguetza foi reclamada como parte da cultura indígena em apoio a uma rebelião anticapitalista e a sociedade libertadora que tratavam de criar, outra festa tradicional modificou-se para servir o movimento. Em 2006, o Día de los Muertos, uma festividade mexicana que sincretiza a espiritualidade indígena com influências católicas, coincidiu com um violento ataque governamental contra o movimento. Justo antes do 1º de novembro, as forças policiais e paramilitares mataram uma dúzia de pessoas, ao que os mortos estavam ainda frescos nas mentes de todos. Grafiteiros que haviam desempenhado um papel importante no movimento em Oaxaca cobriram as paredes com mensagens muito antes das pessoas ocuparem as emissoras de rádio para dar-se a eles mesmos uma voz. Quando o Día de los Muertos e a forte repressão do governo coincidiram em novembro, estes artistas tomaram a frente adaptando a festa para homenagear aos mortos e honrar a luta. Cobriram as ruas com os tradicionais tapetes – coloridos murais de areia, gesso e flores –, mas desta vez os tapetes continham mensagens de resistência e esperança, ou retratavam os nomes e rostos de todas as pessoas que morreram. As pessoas também fizeram esculturas de esqueletos e altares para cada pessoa assassinada pela polícia e os paramilitares. Um dos artistas grafiteiros, Yescka, o descreveu assim:

Neste ano no Día de los Muertos, as festas tradicionais assumiram novos significados. A presença intimidativa das tropas da Polícia Federal encheu o ar – um ambiente de tristeza e caos pairava sobre a cidade. No entanto, temos conseguido superar nossos medos e nossas perdas. As pessoas queriam seguir com a tradição, não só por seus antepassados, mas também por todos os que morreram no movimento nos últimos meses.

Ainda que soe um pouco contraditório, o Día de los Muertos é quando há mais vida em Oaxaca. Há carnavais, e as pessoas se vestem com diferentes trajes, tais como demônios ou esqueletos cheios de penas coloridas. Desfilam pelas ruas dançando ou criando obras de teatro de acontecimentos cômicos cotidianos, este ano com um tom político-social.

Não deixamos que as forças da Polícia Federal e sua guarda detivessem nossa celebração ou nossa dor. A via turística inteira no centro da cidade, Macedonio Alcalá, estava cheia de vida. A música de protesto soava e a gente dançava e via a criação de nossos famosos murais de areia, chamados tapetes. Os dedicamos a todos os mortos no movimento. Qualquer um que quisesse podia juntar-se para contribuir com os mosaicos. A mescla de cores expressa nossos sentimentos misturados de repressão e liberdade, alegria e tristeza; de ódio e amor. As obras de arte e os cantos que impregnam as ruas criam um cenário inesquecível, que em última instância, transforma nossa tristeza em gozo.25

Enquanto os festivais tradicionais e obras de arte desempenham um papel no desenvolvimento de uma cultura libertadora, a luta mesma, em concreto as barricadas, constroem um ponto de encontro onde a alienação se acaba e os vizinhos constroem novas relações. Uma mulher descreveu sua experiência:

Encontrarás todo tipo de pessoas nas barricadas. Muita gente nos diz que se conheceram nas barricadas. Apesar de serem vizinhos, não se conheciam antes. “Nunca falei com meu vizinho antes porque não pensei que o agradasse, mas agora que estamos na barricada juntos, é um companheiro.”

Assim as barricadas eram não só uma barreira para o tráfego, senão que se converteram em espaços onde os vizinhos podiam conversar e as comunidades podiam conhecer-se. As barricadas se converteram em uma via na qual as comunidades se empoderavam.26

Ao longo da Europa, dezenas de vilas autônomas tem construído uma vida fora do capitalismo. Sobretudo na Itália, França e Espanha, estes povoados existem fora do controle estatal regular e com pouca influência da lógica de mercado. Às vezes compram terras baratas, frequentemente ocupam vilas abandonadas, estas novas comunidades autônomas criam a infraestrutura para uma vida libertária e comunitária, e a cultura que a acompanha. Estas novas culturas substituem a família nuclear por uma família muito mais ampla, inclusiva e flexível, unida pela afinidade e o amor em vez do consensual laço sanguíneo e o amor à propriedade. Elas destroem a divisão do trabalho por sexo, a segregação dos debilitados pela idade e a hierarquia, e criam valores e relações comuns e ecológicas.

Pode-se encontrar uma rede particularmente notável de aldeias autônomas nas montanhas ao redor de Itoiz, em Navarra, parte do País Basco. As mais antigas delas, Lakabe, tem sido ocupada há vinte e oito anos até este escrito, e é o lar de umas trinta pessoas. Projeto do amor, Lakabe desafia e transforma a estética tradicional de pobreza das zonas rurais. Os pisos e corredores são charmosos mosaicos de pedra e telha, e a casa mais nova que encontra-se ali poderia passar por um refúgio de luxo de um milionário, com a exceção de que foi construída por pessoas que vivem ali, e planejada em harmonia com o meio ambiente para receber luz solar e proteger-se do frio. Nas casas de Lakabe, na padaria comunal ou no refeitório comunitário, em um dia normal se realizam deliciosas festas nas que todo o povo se reúne para comer.

Aritzkuren, outro dos povoados aos arredores de Itoiz, traz certa estética que representa outra ideia da história. Há treze anos uma porção de pessoas ocupou o povoado, que havia sido abandonado há mais de cinquenta anos antes. Desde então, se tem construído todas as suas habitações dentro das ruínas da antiga aldeia. A metade de Aritzkuren está ainda em ruínas, decompondo-se lentamente no bosque em uma colina à uma hora da estrada pavimentada mais próxima. As ruínas são uma recordação da origem e fundação das partes vivas da aldeia, e que servem como espaços de armazenamento para os materiais de construção que serão utilizados para renovar o resto dela. O novo sentido da história que vive em meio a estas pedras empilhadas não é nem linear nem amnésico, senão orgânico – na que o passado é a casca do presente e o adubo do futuro. Também é pós-capitalista, sugerindo uma volta à terra e cria uma nova sociedade nas ruínas da antiga.

Uli, outro dos povoados abandonados e reocupados, se dissolveu depois de mais de uma década de existência autônoma, mas a taxa de êxito de todos os povoados juntos é estimulante, com cinco de seis ainda muito fortes. O “fracasso” de Uli demonstra outra das vantagens da organização anarquista: um coletivo pode dissolver-se em vez de permanecer preso para sempre em um erro, ou suprimindo as necessidades individuais para perpetuar uma coletividade artificial. Estes povoados em suas encarnações anteriores, um século antes, se dissolveram somente pela catástrofe econômica da industrialização capitalista. Do contrário, seus membros rapidamente teriam se mantido unidos por um sistema de parentesco rigidamente conservador imposto pela igreja.

Em Aritzkuren como em outros povoados autônomos em todo o mundo, a vida é trabalhosa e relaxada. Os moradores devem construir toda sua infraestrutura por si mesmos e criam a maioria das coisas que precisam com suas próprias mãos, assim que há muito trabalho por fazer. As pessoas se levantam pela manhã e trabalham em seus próprios projetos, ou senão se reúnem para um esforço coletivo decidido em uma reunião anterior. Continuando com um grande almoço que uma pessoa prepara para todo mundo de forma rotativa, as pessoas tem toda a tarde para descansar, ler, ir à cidade, trabalhar no jardim, ou consertar um edifício. Alguns dias absolutamente ninguém trabalha, se uma pessoa decide deixar passar um dia, não há recriminações, porque há reuniões nas que as responsabilidades se distribuem uniformemente. Neste contexto, que se caracteriza por uma estreita relação com a natureza, a liberdade individual inviolável se mistura com uma vida social coletiva, turvando-se de trabalho e prazer, o povoado de Aritzkuren não só criou um novo estilo de vida, senão uma ética compatível com a vida em uma sociedade anarquista. A escola que está sendo construída em Aritzkuren é um poderoso símbolo disto. Certo número de crianças vivem em Aritzkuren e em outras vilas. Seu meio ambiente já oferece uma grande quantidade de oportunidades de aprendizagem, mas há muitos desejos de criar um ambiente educativo formal e de empregar a oportunidade de métodos alternativos de ensino em um projeto que pode ser acessível às crianças de toda a região. Como indica a escola, os povoados autônomos rompem o estereotipo da comuna hippie como uma tentativa de evasão e de criar uma utopia em um microcosmo em vez de mudar o mundo existente. Apesar de seu isolamento físico, estes povoados estão muito envolvidos com o mundo exterior e com os movimentos sociais que lutam por muda-lo. Os moradores compartilham suas experiências na criação de coletivos sustentáveis com outros anarquistas e com coletivos autônomos em todo o país. Muitas pessoas se dividem a cada ano entre o povoado e a cidade, equilibrando uma existência mais utópica com a participação nas lutas em curso. Os povoados também servem como refúgio para os ativistas que se permitem um descanso da vida da cidade. Muitos dos povoados realizam projetos que os mantêm envolvidos nas lutas sociais; por exemplo, um povoado autônomo na Itália, oferece um ambiente tranquilo para um grupo que traduz textos radicais. Do mesmo modo, os povoados ao redor de Itoiz, por vinte anos tem sido uma parte importante da resistência contra o funcionamento da represa hidroelétrica dali.

Durante uns dez anos, a partir da ocupação de Rala, próximo de Aritzkuren, os povoados autônomos ao redor de Itoiz criaram uma rede, trocando ferramentas, materiais, experiências, alimentos, sementes e outros recursos. Eles se reúnem periodicamente para discutir a ajuda mútua e os projetos comuns; os moradores de um povoado vão até o outro para comer, conversar ou oferecer uma dúzia mais de mudas de framboesas. Também participam nas reuniões anuais que reúnem as comunidades autônomas de toda a Espanha para discutir o processo de construção de coletivos sustentáveis. Nestas, cada grupo apresenta um problema que tem sido incapaz de resolver, como o rodízio de responsabilidades ou pôr em prática as decisões por consenso. Logo cada um deles se oferece como mediador enquanto que outro coletivo discute seu problema – preferencialmente um problema que o grupo mediador tem experiência em resolver.

Os povoados de Itoiz são notáveis, mas não são os únicos. Ao leste, no Pirineo Aragonés, as montanhas de La Solana contêm quase vinte povoados abandonados. Ao escrever estas linhas, sete destes povoados tem sido reocupados. A rede entre eles se encontra ainda em uma etapa informal, e muitos dos povoados estão habitados somente por algumas pessoas em uma etapa temporária, no processo de renovação dos mesmos; mas muitas dessas pessoas estão mudando para ali a cada ano e em pouco tempo poderá ser uma constelação de ocupações rurais mais ampla que Itoiz. Muitos destes povoados mantêm fortes conexões com o movimento okupa em Barcelona, existindo um convite aberto às pessoas para visita-los, ajuda-los, ou mesmo mudar-se para lá. Sob certas circunstâncias uma comunidade também pode obter a autonomia que precisa para construir uma nova forma de vida através da compra de terras, em vez de ocupa-la, porém, apesar de ser mais seguro, este método cria pressões adicionais para produzir e ganhar dinheiro para sobreviver, ainda que estas pressões não sejam fatais. Longo Maï é uma rede de cooperativas e povoados autônomos que começou em Basileia, Suiça, em 1972. O nome no idioma provençal significa “o tempo que possa durar”, e até agora tem cumprido com seu epônimo. As primeiras cooperativas de Longo Maï foram as granjas Le Pigeonnier, Grange Neuve, e San Hipólito, localizadas próximas à aldeia Limans em Provença. Aqui vivem 80 adultos e muitas crianças em 300 hectares de terra, onde se pratica a agricultura, a jardinagem, e o pastoreio. Mantém 400 ovinos, aves de curral, coelhos, abelhas e cavalos de tiro, está funcionando uma garagem, uma oficina de metal, uma oficina de carpintaria, e um estúdio de têxteis. A estação de rádio alternativa Radio Zinzine tem transmitido da cooperativa durante 25 anos, completados em 2007. Centenas de jovens passaram pela cooperativa, ajudando e aprendendo novas habilidades, e frequentemente ganhando seu primeiro contato com a vida comunitária ou a agricultura não-industrial e o artesanato.

Desde 1976, Longo Maï tem feito funcionar uma cooperativa com um moinho para fiar em Chantemerle, nos Alpes franceses. Usando tintas naturais e a lã de 10.000 ovelhas, em sua maioria locais, eles produzem suéteres, camisas, lençóis, e tela para a venda direta. A cooperativa estabeleceu o sindicato ATELIER, uma rede de pecuaristas e do trabalho da lã. A fábrica produz sua própria eletricidade com energia hidráulica em pequena escala.

Também na França, próximo de Arles, a cooperativa Mas de Granier se encontra localizada em 20 hectares de terreno. Eles cultivam campos de feno e oliveiras, nos anos bons produzem azeite de oliva suficiente tanto para manter-se como também para outras cooperativas de Longo Maï. São dedicados três hectares às verduras orgânicas, entregue semanalmente aos subscritores da comunidade em geral. Algumas das verduras são enlatadas na própria fábrica da cooperativa para conservá-las. Eles também cultivam grãos para o pão, as massas e a alimentação dos animais.

Na região de Transkarpaty na Ucrânia, Zeleniy Hai, um pequeno grupo Longo Maï se pôs em marcha depois da queda da União Soviética. Criaram uma escola de idiomas, uma oficina de carpintaria, um rancho de gado, e uma fábrica de produtos lácteos. Também tem um grupo de música tradicional. A rede Longo Maï usou seus recursos para ajudar a formar uma cooperativa na Costa Rica, em 1978, que entregou terra a 400 camponeses sem terra que fugiam da guerra civil na Nicarágua, o que lhes permitiu criar uma nova comunidade e provê-la por si mesmos. Também há cooperativas Longo Maï na Alemanha, Áustria e Suíça, produzindo vinhos, construindo edifícios com materiais locais e ecológicos, fazendo funcionar escolas e muito mais. Na cidade de Basileia eles mantêm um edifício de oficinas que serve como ponto de coordenação, centro de informação, e um centro de visitantes.

A convocatória para a rede de cooperação, redigida em Basileia em 1972, diz em um trecho:

O que você espera de nós? Que nós, para não sermos excluídos, nos submetamos à injustiça e as loucas compulsões deste mundo, sem esperanças ou expectativas? Nos negamos a continuar esta batalha impossível de ganhar.

Nos negamos a jogar um jogo que já está perdido, um jogo cujo único resultado é nossa criminalização. Esta sociedade industrial, sem dúvida, cava sua própria tumba, e não queremos participar.

Preferimos buscar uma forma de construir nossas próprias vidas, para criar nossos próprios espaços, algo para o que não há lugar dentro deste cínico mundo capitalista. Podemos encontrar espaço suficiente nas áreas deprimidas econômica e socialmente, de onde os jovens fogem em cifras crescentes, e só ficam os que não têm outra opção.27

Como a agricultura capitalista é cada vez mais incapaz de alimentar o mundo à raiz das catástrofes relacionadas com o clima e a contaminação, parece quase inevitável que um grande número de pessoas deva voltar à terra para criar formas sustentáveis e localizadas de agricultura. Ao mesmo tempo, os habitantes das cidades precisam se conscientizar de onde vem sua água e comida, e uma forma de fazer isto é visitando e ajudando nos povoados.


Uma revolução que são muitas revoluções

Muitas pessoas pensam que as revoluções sempre seguem um curso trágico da esperança à traição. O resultado final das revoluções na Rússia, China, Argélia, Cuba, Vietnã e outros países foi a criação de novos regimes autoritários, alguns piores que seus predecessores, os demais apenas diferentes. Contudo, as grandes revoluções do século XX foram realizadas por autoritários com intenção de criar novos governos, não de aboli-los. Agora está óbvio, se não esteve antes, que os governos sempre manterão ordens sociais opressivas.

A história está cheia de evidências de que as pessoas podem derrubar seus opressores sem substituí-los. Para isso precisam da referência de uma cultura igualitária, ou explicitamente objetivos, estruturas e meios antiautoritários, e um espírito igualitário. Um movimento revolucionário deve rechaçar todos os governos e reformas possíveis, a fim de não serem recuperados, como muitos dos rebeldes em Cabilia e Albânia. Deve-se organizar flexivelmente e de forma horizontal, o que garante que o poder não será permanentemente delegado aos líderes, ou ancorados a uma organização formal, como aconteceu com a CNT na Espanha. Por último, deve-se considerar que todas as insurreições envolvem diversas estratégias e participantes. Esta multidão se beneficiará a partir da comunicação e coordenação, mas não deve ser homogeneizada ou controlada de um ponto central. Esta normalização e centralização não são nem desejável nem necessária; as lutas descentralizadas, como as empreendidas pelos Lakota ou as okupas de Berlin e Hamburgo demonstraram ser capazes de derrotar as lentas forças do Estado.

Um novo ethos pode surgir no processo de resistência, já que encontramos causa comum com os estrangeiros e descobrimos nossas próprias forças. Também pode ser nutrido pelos ambientes que construímos para nós mesmos. Um verdadeiro ethos libertador não é simplesmente um novo conjunto de valores, senão um novo enfoque para a relação entre o indivíduo e sua cultura, requer que as pessoas deixem de ser receptores passivos da cultura para se tornar participantes na sua criação e reinterpretação. Neste sentido, a luta revolucionária contra a hierarquia nunca termina, senão que continua de uma geração à seguinte. Para obter êxito a revolução deve dar-se em muitas frentes ao mesmo tempo. Não deve trabalhar para abolir o capitalismo deixando o Estado ou o patriarcado intocáveis. Uma revolução exitosa deve estar composta por muitas revoluções, realizadas por diferentes pessoas com diferentes estratégias, respeitando a autonomia de cada um e construindo solidariedade. Isto não acontecerá da noite para o dia, senão no curso de uma série de conflitos que se acumulam sobre outros. As revoluções sem êxito não são fracassos a menos que as pessoas percam a esperança. Em seu livro sobre a rebelião popular na Argentina, dois ativistas do Reino Unido concluem com as palavras de um piqueteiro de Solano:

Não penso que dezembro de 2001 tenha sido uma oportunidade perdida para a revolução, ou que tenha sido uma revolução fracassada. Foi e é parte do atual processo revolucionário daqui. Aprendemos muitas lições sobre a organização e força coletiva, e as barreiras da autogestão. Abriu os olhos de muita gente sobre o que podemos fazer juntos, e que tomando o controle de nossas vidas e atuando de maneira coletiva, seja como parte de um piquete, em uma padaria comunal ou em um clube para crianças depois da escola, melhora espetacularmente a qualidade de nossas vidas. Se a luta se mantém autônoma e com a gente, o levantamento seguinte terá uma base sólida sobre a qual construir...28


Leituras Recomendadas

Dee Brown, Bury My Heart at Wounded Knee, New York: Holt, Rinehart & Winston, 1970.

David Dixon, Never Come to Peace Again: Pontiac’s Uprising and the Fate of the British Empire in North America. Norman: University of Oklahoma Press, 2005.

Diana Denham and C.A.S.A. Collective (eds.), Teaching Rebellion: Stories from the Grassroots Mobilization in Oaxaca, Oakland: PM Press, 2008.

Alexandre Skirda, Néstor Majnó, Anarchy’s Cossack: The Struggle for Free Soviets in the Ukraine 1917–1921, London: AK Press, 2005.

Alfredo Bonanno, From Riot to Insurrection: analysis for an anarchist perspective against post industrial capitalism. London: Elephant Editions, 1988.

John Jordan and Jennifer Whitney, Que Se Vayan Todos: Argentina’s Popular Rebellion, Montreal: Kersplebedeb, 2003.

Jaime Semprun, Apologie pour l’Insurrection Algérienne, Paris: Editions de L’Encyclopédie des Nuisances, 2001.29

George Orwell, Homage to Catalonia, London: Martin Secker & Warburg Ltd., 1938. George Katsiaficas, The Subversion of Politics: European Autonomous Social Movements and the Decolonization of Everyday Life. Oakland: AK Press, 2006.

A.G. Grauwacke, Autonome in Bewegung, Berlin: Assoziation A, 2008.

Leanne Simpson, ed. Lighting the Eighth Fire: The Liberation, Resurgence, and Protection of Indigenous Nations, Winnipeg: Arbeiter Ring, 2008.

A.G. Schwarz, Tasos Sagris, and Void Network, eds. We Are an Image from the Future: The Greek Revolts of December 2008. Oakland: AK Press, 2010.

Notas

  1. Algumas fontes da cultura hegemônica ainda acreditam que os makhnovistas estavam por trás das matanças antissemitas na Ucrânia. Em Nestor Makhno, Anarchy’s Cossack, Alexandre Skirda remonta esta afirmação às raízes da luta propagandística contra Makhno, enquanto cita fontes contemporâneas hostis que logo reconheceram que os makhnovistas eram as únicas unidades militares que não realizavam as matanças. Ele também faz referência a esta propaganda desprezada pelos makhnovistas mostrando a luta contra o antissemitismo como uma ferramenta da aristocracia, contra as milícias judias que lutaram entre os makhnovistas, e contra as matanças realizadas pessoalmente por Makhno.
  2. Paul Avrich, The Russian Anarchists, Oakland: AK Press, 2005, p. 218.
  3. Makhno tinha a esperança de que Lenin e Trotsky estivessem mais motivados por uma vingança pessoal contra ele do que de por um desejo absoluto por esmagar aos sovietes livres, e que suspenderiam a repressão se ele se fosse.
  4. Alexandre Skirda, Nestor Makhno, Anarchy’s Cossack: The Struggle for Free Soviets in the Ukraine 1917-1921, London: AK Press, 2005, p. 314.
  5. Amy Goodman, “Lakota Indians Declare Sovereignty from US Government”, Democracy Now!, 26 de dezembro de 2007.
  6. De um panfleto anônimo ilustrado, “The Oka Crisis”.
  7. Óscar Oliveira, Cochabamba! Water War in Bolivia, Cambridge: South End Press, 2004.
  8. George Katsiaficas, The Subversion of Politics: European Autonomous Social Movements and the Decolonization of Everyday Life. Oakland: AK Press, 2006, p. 123.

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