A anarquia funciona: Meio ambiente

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Peter Gelderloos
A anarquia funciona
Capítulo 4 - Meio ambiente


Nenhuma filosofia ou movimento de libertação pode ignorar a conexão entre a exploração humana do meio ambiente e a exploração entre humanos; tampouco pode ignorar as ramificações suicidas da sociedade industrial. Uma sociedade livre precisa produzir uma relação respeitosa e sustentável com a sua biorregião, compreendendo que os humanos dependem da saúde do planeta inteiro.


Como evitar que o meio ambiente seja destruído?

Algumas pessoas se opõem ao capitalismo baseadas no ambientalismo, mas pensam que algum tipo de Estado é necessário para evitar um ecocídio. Porém, o Estado é, em si, uma ferramenta para a exploração da natureza. Estados socialistas como a União Soviética e a República Popular da China estão entre os regimes mais ecocidas que se possa imaginar. Que essas duas sociedades nunca tenham escapado das dinâmicas do capitalismo indica uma característica da estrutura do Estado: ele requer relações hierárquicas e exploradoras de controle e comando, e, nesse jogo, nada se iguala ao capitalismo. Contudo, o Estado apresenta a possibilidade de mudar forçosamente o comportamento das pessoas em uma escala massiva, e esse poder é atrativo para alguns ambientalistas. Poucos Estados na história mundial tomaram medidas de proteção ao meio ambiente em seu território quando essa proteção ia de encontro aos seus interesses estratégicos. Um deles é o Japão, que interrompeu e reverteu o desmatamento no arquipélago na Era Meiji.[1] Mas neste caso e em outros casos, as proteções ambientais domésticas levadas a cabo pelo Estado eram combinadas com explorações maiores no estrangeiro. A sociedade japonesa consumia crescentes quantidades de madeira importada, estimulando o desmatamento em outros países e incentivando o desenvolvimento de um exército imperial para assegurar esses recursos vitais. Isso não levou somente à devastação ambiental, mas também à guerra e ao genocídio. De modo semelhante, na Europa Ocidental as proteções ambientais do Estado vieram à custa da exploração colonial, o que também resultou em genocídio.

Em sociedades de menor escala, a existência de uma elite tende a estimular a exploração ambiental. O famoso colapso ambiental na Ilha de Páscoa foi causado em grande parte pela elite, que compeliu a sociedade a erguer estátuas em sua honra. Isso gerou o desmatamento da ilha, já que eram necessárias toras para fazer andaimes e para o transporte das estátuas; além disso, as lavouras cultivadas para alimentar os trabalhadores foram feitas à custa de mais desmatamento. Sem florestas, a fertilidade do solo caiu dramaticamente, e, sem comida, a população humana também diminuiu drasticamente. Mas não só houve fome e diminuição da taxa de natalidade: as elites dos clãs guerrearam umas com as outras, derrubando as estátuas rivais e realizando ataques que acabaram em canibalismo, até a sociedade inteira se extinguir.[2]

Um sociedade descentralizada e comunal com um ethos ecológico compartilhado é a mais bem equipada para evitar a destruição ambiental. Em economias que valorizam a autossuficiência local mais que o comércio e a produção, as comunidades têm de lidar com as consequências ambientais de seus próprios comportamentos econômicos. Elas não podem pagar outras pessoas para recolher seu lixo ou para passar fome enquanto elas desfrutam de abundância.

O controle local dos recursos também desestimula a superpopulação. Estudos mostraram que, quando membros de uma sociedade conseguem ver diretamente que ter muitos filhos diminui os recursos disponíveis para todos, eles mantêm o tamanho de suas famílias dentro de um limite sustentável. Porém, quando essas sociedades localizadas são incorporadas em uma economia globalizada na qual a maior parte dos recursos e resíduos são importados e exportados, e a escassez resulta de flutuações de preço aparentemente arbitrárias – ao invés de ser consequência da diminuição quantidade dos recursos locais –, a população cresce insustentavelmente, mesmo se formas mais efetivas de contracepção estiverem disponíveis.[3] Em Seeing like a State, James Scott explica como os governos inculcam uma “legibilidade” – uma uniformidade que permite a compreensão desde cima, com o objetivo de controlar e rastrear sujeitos. Como resultado, essas sociedades perdem o conhecimento local necessário para compreender problemas e situações.

O capitalismo, o cristianismo e a ciência ocidental partilham uma certa mitologia em relação à natureza, a qual estimula a exploração e o desprezo, e enxerga o mundo natural como morto e mecânico, existindo somente para satisfazer o consumo humano. Essa megalomania disfarçada de Razão ou Verdade Divina revelou-se, além de qualquer dúvida, suicida. Precisa-se, ao contrário desse pensamento, de uma cultura que respeite o mundo natural como sendo uma coisa viva e interconectada, e que entenda o nosso lugar dentro dele. Bruce Stewart, um escritor e ativista Maori, disse em uma entrevista, apontando para uma vinha florida que ele tinha plantado na sua casa:

Essa vinha não tem mais um nome. O nosso nome Maori para ela se perdeu, de modo que vamos ter que encontrar outro. Só uma espécime dessa planta sobrou no mundo, vivendo numa ilha infestada por cabras. A planta podia ser extinta a qualquer momento. Então eu consegui uma semente e a plantei aqui. A vinha cresceu e, apesar de levar normalmente vinte anos para florescer, esta está florescendo depois de sete.
...Se queremos sobreviver, cada um de nós deve tornar-se kaitiaki, que é, para mim, o mais importante conceito da minha cultura Maori. Precisamos nos tornar cuidadores, guardiões, protetores, cultivadores. Nos tempos antigos, cada whanau – ou família – costumava cuidar de um pedaço específico de terra. Uma família podia cuidar de um trecho do rio, desde uma certa pedra até a sua curva seguinte. E eles eram os kaitiaki dos pássaros e dos peixes e das plantas. Sabiam quando era a época de alimentá-los e quando não era. Quando os pássaros precisavam ser protegidos, as pessoas colocavam um rahui neles, o que significa que os pássaros eram temporariamente sagrados. E alguns pássaros eram permanentemente tapu, o que significa que eram protegidos sempre. Essa proteção era tão forte que as pessoas morriam se a quebrassem. Simples assim. Não havia necessidade de policiar. Em sua ânsia de desselvagizar meus ancestrais, os missionários cristãos mataram o conceito de tapu juntamente com muitos outros.[4]

Tikopia, uma ilha no Pacífico habitada por um povo polinésio, traz um bom exemplo de uma sociedade descentralizada e anárquica que lidou com sucesso com problemas ambientais de vida e morte. A ilha tem somente 4,66 km² de área e possui 1200 habitantes. A comunidade existe sustentavelmente há três mil anos. Tikopia é coberta por pomares-hortas que imitam as florestas úmidas naturais. À primeira vista, a maior parte da ilha parece ser coberta pela floresta, embora só tenha sobrado floresta úmida em algumas partes íngremes da ilha. Tikopia é pequena o suficiente para que todos os seus habitantes tornem-se familiares com seu ecossistema inteiro. Ela também é isolada; assim, por um longo tempo, não se pôde importar recursos ou exportar as consequências de seu estilo de vida. Cada um dos quatro clãs tem um chefe, apesar de estes não possuírem poderes coercitivos e desempenharem um papel cerimonial de guardadores da tradição. Tikopia está entre as sociedades menos estratificadas socialmente das ilhas polinésias. Por exemplo, os chefes também têm de trabalhar para produzir sua própria comida. O controle populacional é um valor comum e é considerado imoral ter mais que um certo número de filhos. Em um impressionante exemplo do poder desses valores compartilhados coletivamente e mantidos coletivamente, por volta do ano 1600 os habitantes da ilha tomaram a decisão de interromper a criação de porcos. Eles mataram todos os porcos da ilha, mesmo que a carne suína fosse uma fonte de alimento altamente valorizada, porque sustentar os porcos causava uma pressão muito grande no meio ambiente.[5] Em uma sociedade mais estratificada e hierarquizada, isso poderia ter não sido possível, porque a elite provavelmente forçaria os mais pobres a sofrer as consequências do seu estilo de vida, ao invés de abandonar um produto de luxo muito estimado.[6]

Antes da colonização e da desastrosa chegada dos missionários, os métodos de controle populacional em Tikopia envolviam contracepção natural, aborto e abstinência para os mais jovens – embora este fosse um celibato compassivo que correspondia mais a uma proibição da reprodução que do sexo em si. Os tikopianos também tinham outras formas de controle populacional, como o infanticídio – o que muitas pessoas em outras sociedades considerariam inadmissível – mas Tikopia ainda nos traz um exemplo perfeitamente válido porque, com a efetividade da contracepção moderna e das técnicas abortivas, nenhum outro método é necessário para uma abordagem descentralizada do controle populacional. O aspecto mais importante do exemplo tikopiano é seu ethos: reconhecer viver em uma ilha em que os recursos eram limitados, de modo que aumentar sua população seria equivalente a um suicídio. Outras sociedades de ilhas polinésias ignoravam essa questão e acabaram extinguindo-se. O planeta Terra, neste sentido, também é uma ilha; nessa linha, precisamos desenvolver tanto uma consciência global quanto economias localizadas, de modo que possamos evitar exceder a capacidade do solo e permanecer atentas às outras coisas vivas com as quais compartilhamos esta ilha.

Atualmente, a maior parte do mundo não está organizado em comunidades estruturadas para serem sensíveis aos limites do meio ambiente local, mas é possível recriar essas comunidades. Existe um movimento crescente de comunidades ecologicamente sustentáveis – ou “ecovilas” –, organizadas em linhas horizontais e não hierárquicas, nas quais grupos de pessoas, variando de uma dezena a algumas centenas, reúnem-se para criar sociedades anárquicas de modelos orgânicos e sustentáveis. A construção dessas vilas maximiza a eficiência dos recursos e a sustentabilidade ambiental, além de cultivar a sensibilidade pelo meio ambiente local em nível cultural e espiritual. Essas ecovilas estão na vanguarda do desenvolvimento de tecnologias sustentáveis. Toda comunidade alternativa pode degenerar em um escapismo yuppie e as ecovilas estão vulneráveis a isso, mas uma parte importante desse movimento procura desenvolver e difundir inovações relevantes para o resto do mundo ao invés de fechar-se para ele. Para ajudar a proliferar essas ecovilas e adaptá-las a todas as regiões do planeta, e também facilitar a coordenação entre as ecovilas existentes, quatrocentos delegados de quarenta países encontraram-se em Fundhom, na Escócia, em 1995, e estabeleceram a Global Ecovillage Network [Rede Global de Ecovilas].

Cada ecovila é um pouco diferente das outras, mas alguns exemplos podem dar uma ideia de sua diversidade. The Farm, no Tennessee, sudeste dos Estados Unidos, tem 350 habitantes. Estabelecida em 1971, ela mantém hortas com composto orgânico, aquece a água com o calor do sol, tem um negócio sustentável de shiitake, casas de palha e um centro para treinar pessoas para construir as suas próprias ecovilas. A antiga Bassaisa, no Egito, tem algumas centenas de habitantes e existe há milhares de anos. Os habitantes aperfeiçoaram um modelo de vila ecológica e sustentável a partir de métodos tradicionais. Ela conta agora com um Centro de Futurologia e está desenvolvendo novas tecnologias sustentáveis como uma unidade de produção de gás metano que extrai gases do esterco do gado para evitar o uso de lenha, que é escassa. Os resíduos viram fertilizante para seus campos. Ecotop, perto de Düsseldorf, oeste da Alemanha, é um subúrbio inteiro com centenas de habitantes que moram em vários prédios de quatro andares e algumas casas em separado. A arquitetura promove um senso de comunidade e liberdade, com vários espaços comunais e privados. Entre os prédios, em uma espécie de centro da vila, há uma zona multiuso que serve como pátio, parque e passeio, com abundância de plantas e árvores. Os prédios, que têm uma estética totalmente moderna e urbana, foram construídos com materiais naturais e projetados com aquecimento e resfriamento passivo e tratamento biológico local do esgoto.

Earthhaven, que conta com cerca de sessenta habitantes, foi fundada em 1995 por permacultores na Carolina do Norte, leste dos Estados Unidos. É composta de alguns grupos de casas instaladas nas encostas dos Montes Apalaches. A maior parte da terra é coberta com floresta, mas os habitantes tomaram recentemente a difícil decisão de derrubar parte da floresta para lavouras, de modo a ficar mais perto da autossuficiência alimentar, ao invés de exportar os custos de seu estilo de vida comprando comida de outros lugares. Eles debateram o assunto por um longo tempo, prepararam-se espiritualmente e tentaram limpar a terra de um modo respeitoso. Esse tipo de atitude, que a ideologia capitalista classificaria como sentimental e ineficiente, é exatamente o que pode evitar a destruição do meio ambiente em uma sociedade anarquista.

Também é necessário ímpeto e vontade para agir diretamente e defender o meio ambiente. No istmo de Tehuantepec, em Oaxaca, no sul do México, indígenas anarquistas e antiautoritários mostraram exatamente essas qualidades ao proteger a terra contra uma série de ameaças. Organizações como a União de Comunidades Indígenas da Zona Norte do Istmo (UCIZONI), que congrega uma centena de comunidades em Oaxaca e Veracruz – e depois também o grupo anarquista/magonista CIPO-RFM (Conselho Indígena Popular de Oaxaca “Ricardo Flores Magón”) – lutaram contra a construção de parques eólicos, criadouros de camarões, plantações de eucaliptos e a expropriação de terras pela indústria madeireira, que devastavam o meio ambiente. Eles também reduziram as pressões econômicas para devastar o meio ambiente ao estabelecer cooperativas de milho e café e construir escolas e hospitais. Enquanto isso, também criaram uma rede de estações de rádio comunitárias autônomas pra educar as pessoas sobre as ameaças ao meio ambiente e informar as comunidades próximas sobre novos projetos industriais que destruiriam mais terras. Em 2001, as comunidades indígenas barraram a construção de uma rodovia que fazia parte do Plano Puebla Panamá, um megaprojeto neoliberal que planejava conectar as Américas do Norte e do Sul com uma infraestrutura de transporte planejada para aumentar o fluxo de mercadorias. Durante a rebelião zapatista de 1994, eles interromperam linhas de transporte para frear o movimento das tropas, além de terem bloqueado rodovias e fechado gabinetes do governo para apoiar a rebelião de 2006 em Oaxaca.

Em 1998, o Departamento de Transporte de Minnesota queria retraçar uma rodovia para que passasse através de um parque em Minneapolis ao longo da confluência dos rios Minnesota e Mississipi. O traçado proposto destruiria uma área que tinha árvores antigas, um precioso ecossistema de savana de carvalhos, uma antiga fonte de água, e lugares sagrados para indígenas – um espaço selvagem vital no meio da cidade que também servia de refúgio para a vizinhança próxima. Ativistas indígenas, junto com o Movimento Indígena Americano e a Comunidade Mendota Mdewakanton Dakota reuniram-se para trabalhar em coalizão com as pessoas brancas que habitavam o local, ambientalistas do Earth First! e anarquistas de todo o país para tentar parar a construção. O resultado foi o Estado Livre de Minnehaha, uma zona autônoma que tornou-se a primeira – e de mais longa duração – ocupação contra uma rodovia na história dos EUA. Por um ano e meio, centenas de pessoas ocuparam a terra para evitar que o Departamento de Transporte cortasse as árvores e construísse a rodovia, e milhares apoiaram e visitaram o Estado Livre. A ocupação empoderou incontáveis participantes, reconectou muitos povos Dakota com sua herança, ganhou o apoio de muitos vizinhos, criou uma zona autônoma de mais de ano e uma comunidade auto-organizada, e atrasou significativamente a destruição da área – tempo durante o qual muitas pessoas conseguiram descobrir e desfrutar o espaço de uma maneira íntima e espiritual.

Para acabar com a ocupação, o Estado foi forçado a recorrer a uma variedade de técnicas repressivas, como assédio, vigilância e infiltração no acampamento. Um exército de policiais invadiu e destruiu os acampamentos várias vezes; torturou, feriu e quase matou gente; e promoveu mais de uma centena de prisões. No final, o Estado cortou as árvores e construiu a rodovia, mas os manifestantes conseguiram salvar a Fonte Coldwater, que é um lugar sagrado para os povos indígenas da área e uma parte importante da bacia hidrográfica da região. Os indígenas participantes consideraram uma importante vitória espiritual.

Por toda Minneapolis, pessoas que inicialmente haviam apoiado o projeto destrutivo por seus supostos benefícios para o sistema de transporte foram conquistadas pela resistência para salvar o parque e acabaram se opondo à rodovia. Se a decisão fosse delas, a rodovia não teria sido construída. O Estado Livre criou e nutriu coalizões e laços comunitários que duram até hoje, servindo de modelo para novas gerações de comunidades radicais e inspirando novos esforços similares pelo mundo afora.

Nos arredores de Edimburgo, na Escócia, eco-anarquistas tiveram mais sucesso ao salvar uma floresta. O acampamento Bilston Glen contra a construção de rodovias existe há mais de sete anos [o escrito é de 2010], atraindo a participação de centenas de pessoas e paralisando a construção de um viaduto planejado para atender os interesses das instalações de um empresa de biotecnologia na área. Para permitir que se morasse lá permanentemente com baixo impacto para a floresta e também para dificultar que a polícia os expulsasse, os ativistas construíram casas nas árvores, ocupadas por cerca de um ano. A vila certamente tem baixa tecnologia, mas também é de baixo impacto, e algumas das casas são claramente trabalhos de amor, confortáveis o suficiente para serem consideradas casas permanentes. Os cerca de dez habitantes também estiveram tomando conta da floresta, removendo espécies invasivas e estimulando o crescimento de espécies nativas. As casas nas árvores de Bilston Glen constituem somente uma de uma série de ocupações contra rodovias e ações diretas no Reino Unido que criaram uma força coletiva que faz o Estado pensar duas vezes quando se trata de abrir novas estradas ou expulsar manifestantes. A vila também cruza a linha entre simplesmente fazer oposição à polícia e criar novas relações sociais com o meio ambiente: enquanto defendiam a floresta, dezenas de pessoas fizeram dela sua casa, e centenas de outras notaram pessoalmente a importância de se relacionar com a natureza de um modo respeitoso e de defendê-la da civilização ocidental.

E os problemas ambientais globais, como o aquecimento global?

Anarquistas ainda não tiveram experiência em lidar com problemas globais porque nossos sucessos até agora foram somente locais e temporários. Sem Estados, sociedades anárquicas já cobriram o mundo, mas isso foi muito tempo antes da existência de problemas ambientais globais como aqueles criados pelo capitalismo. Atualmente, membros de muitas sociedades indígenas estão no fronte da resistência global contra a destruição ecológica causada por governos e corporações.

Anarquistas também coordenam uma resistência global. Eles organizam protestos internacionais contra grandes poluidores e seus apoiadores estatais, como as mobilizações durante os encontros do G-8, as quais reuniram centenas de milhares de pessoas de dezenas de países para protestar contra os Estados mais responsáveis pelo aquecimento global e por outros problemas. Em resposta à atividade global de corporações transnacionais, anarquistas de tendência ecológica compartilham informação globalmente. Desse modo, ativistas pelo mundo podem coordenar ações simultâneas contra corporações, visando especificamente uma indústria ou mina poluidora em um continente, lojas em outro continente e uma sede de uma corporação ou uma reunião de acionistas em um outro continente.

Por exemplo, grandes protestos, boicotes e atos de sabotagem contra a Shell foram coordenados entre pessoas na Nigéria, Europa e América do Norte ao longo das décadas de 1980 e 90. Em 1986, autonomistas na Dinamarca realizaram múltiplos bombardeios simultâneos de postos da Shell pelo país porque ela apoiava o governo responsável pelo apartheid na África do Sul. Na Holanda, o grupo antiautoritário clandestino RaRa (Ação Revolucionária Antirracista) realizou uma campanha de bombardeios não letais contra a Shell, desempenhando um papel crucial para forçá-la a sair da África do Sul. Em 1995, quando a Shell quis se livrar de uma antiga plataforma de petróleo no Mar do Norte, ela foi forçada a abandonar seus planos por protestos na Dinamarca e no Reino Unido, por uma ocupação da plataforma feita por ativistas do Greenpeace, por uma explosão e um tiroteio contra postos da Shell em suas cidades da Alemanha e por um boicote que diminuiu suas vendas em 10% naquele país.[7] Ações como essas prefiguram as redes globais descentralizadas que poderiam proteger o meio ambiente em um futuro anarquista. Se tivermos sucesso em abolir o capitalismo e o Estado, teremos acabado com os grandes saqueadores sistêmicos do meio ambiente e também com as barreiras estruturais que atualmente impedem ações populares em defesa da natureza.

Há exemplos históricos de sociedades sem Estado que responderam a problemas ambientais coletivos e de larga escala através de redes descentralizadas. Embora os problemas não fossem globais, as distâncias relativas que eles enfrentavam – com a informação viajando na velocidade de um caminhante – eram talvez maiores que as distâncias que marcam o mundo de hoje, no qual as pessoas podem se comunicar instantaneamente mesmo vivendo em lados opostos do planeta.

Tonga é um arquipélago do Pacífico habitado por povos polinésios. Antes da colonização, havia lá um sistema político centralizado com um líder hereditário – apesar de o sistema ser muito menos centralizado que um Estado e os poderes coercitivos do líder, limitados. Por 3.200 anos, o povo de Tonga conseguiu manter práticas sustentáveis por um arquipélago de 746 km² com dezenas de milhares de habitantes.[8] Não havia tecnologias de comunicação, então a informação viajava lentamente. Tonga é muito grande para que um único agricultor conheça todas as suas ilhas, ou mesmo somente as suas maiores ilhas. O líder conseguia tradicionalmente guiar e assegurar práticas sustentáveis sem recorrer à força porque ele tinha acesso à informação de todo o território, assim como uma federação ou uma assembleia geral teria se os habitantes da ilha se organizassem dessa maneira. Ficava a cargo dos indivíduos que construíram a sociedade implementar práticas particulares e apoiar a ideia de sustentabilidade.

O fato de que uma grande população consiga proteger o meio ambiente de uma maneira difusa ou descentralizada, sem liderança, é amplamente demonstrado pelos já mencionados habitantes das terras altas da Nova Guiné. A agricultura geralmente leva ao desmatamento, já que a terra é limpa para os campos, e o desmatamento pode matar o solo. Muitas sociedades acabam limpando mais terra para compensar a baixa produtividade do solo, agravando o problema. Várias civilizações já ruíram porque destruíram seu solo pelo desmatamento. O perigo da erosão do solo é acentuado em terrenos montanhosos, como as terras altas da Nova Guiné, onde fortes chuvas podem lavar completamente o solo exposto. Uma prática inteligente, que os agricultores na Nova Guiné aperfeiçoaram, é a silvicultura: integrar árvores com outros cultivos, combinando pomares, campo e floresta para proteger o solo e criar ciclos químicos simbióticos entre as várias plantas cultivadas.

O povo dessas terras desenvolveu técnicas especiais contra a erosão para evitar a perda do solo dos vales íngremes das montanhas. Qualquer agricultor podia ter ganho vantagem se fizesse atalhos que eventualmente causariam erosão e privariam as futuras gerações de um solo saudável; mesmo assim, técnicas sustentáveis eram usadas universalmente quando do início da colonização. Técnicas contra a erosão eram disseminadas e reforçadas com o uso exclusivo de meios coletivos e descentralizados. Os habitantes das terras altas não precisavam de especialistas para criar essas tecnologias ambientais e agrícolas, nem de burocratas para assegurar que todos as utilizassem. Pelo contrário, eles confiavam numa cultura que valorizava a experimentação, a liberdade individual, a responsabilidade social, a administração coletiva da terra e a comunicação livre. Inovações efetivas desenvolvidas em uma determinada área espalhava-se rápida e livremente de um vale para outro. Sem telefone, rádio ou internet, e separadas por montanhas íngremes, cada comunidade dos vales era como um país em si mesma. Centenas de linguagens são faladas nas terras altas da Nova Guiné, variando de uma comunidade para outra. Dentro desse mundo em miniatura, nenhuma comunidade podia ter certeza de que as outras não estavam destruindo o seu meio ambiente – e mesmo assim a sua abordagem descentralizada para proteger o meio ambiente funcionava. Por milhares de anos, elas protegeram o seu solo e geraram uma população de milhões de pessoas vivendo em uma densidade populacional tão alta que os primeiros europeus a voarem sobre a região acharam-na parecida com a Holanda.

O manejo da água naquele país de terras baixas nos séculos XII e XIII fornece outro exemplo de soluções de baixo para cima para problemas ambientais. Como grande parte dos Países Baixos localiza-se abaixo do nível do mar e quase toda a região enfrenta o perigo de enchentes, os agricultores tiveram que trabalhar constantemente para manter e melhorar o sistema de manejo da água. As proteções contra enchentes eram uma infraestrutura comum que beneficiava a todos, mesmo que precisassem que todos investissem no bem coletivo para mantê-la: um agricultor individual podia ter ganhos se não se comprometesse com o manejo de água, mas a sociedade inteira perderia se houvesse uma enchente. Este exemplo é especialmente significativo porque a sociedade holandesa não possuía os valores anarquistas comuns em sociedades indígenas. A área foi logo convertida ao cristianismo e doutrinada em seus valores ecocidas e hierárquicos; por centenas de anos ela esteve sob o controle do Estado, embora o império tenha se desmantelado e, durante os séculos XII e XIII, os Países Baixos não tinham efetivamente um Estado. A autoridade central permanecia forte na Holanda e na Zelândia, onde o capitalismo eventualmente surgiria, mas nas regiões mais ao norte, como Friesland, a sociedade era amplamente descentralizada e horizontal.

Naquela época, o contato entre cidades distantes dezenas de quilômetros – alguns dias de viagem – podia ser mais desafiador que a comunicação global nos tempos atuais. Apesar dessa dificuldade, comunidades agrícolas, cidades e vilas conseguiam construir e manter uma infraestrutura extensa e retirar areia do mar para se proteger de enchentes. Conselhos de vizinhos, organizando grupos cooperativos de trabalho ou partilhando compromissos entre comunidades, construíram e mantiveram diques, canais, eclusas e sistemas de drenagem necessários para proteger a sociedade inteira; era “uma abordagem conjunta de baixo para cima, desde as comunidades locais, que encontravam proteção organizando-se desse modo”.[9] A organização horizontal espontânea desempenhou um papel ainda mais importante em área feudais como a Holanda e a Zelândia, e é improvável que as fracas autoridades existentes naquelas regiões pudessem ter conduzido os trabalhos hídricos necessários por si mesmas, dado seu poder limitado. Embora as autoridades sempre levem o crédito pela criatividade das massas, a auto-organização espontânea persiste mesmo à sombra do Estado.

O único modo de salvar o planeta

Quando se trata de proteger o meio ambiente, praticamente qualquer sistema social seria melhor que o que temos atualmente. O capitalismo é o primeiro arranjo social na história humana a colocar em perigo a sobrevivência de nossas espécies e da vida em geral na Terra. O capitalismo incentiva a exploração e a destruição da natureza e cria uma sociedade atomizada que é incapaz de proteger o meio ambiente. Sob o capitalismo, o ecocídio é literalmente um direito. Proteções ambientais são “barreiras ao comércio”; evitar que uma corporação desmate uma área comprada é uma violação da propriedade privada e da livre empresa. Permite-se que companhias produzam milhões de toneladas de plástico – a maior parte para embalagens que são jogadas fora – apesar de elas não terem nenhum plano para descartá-las e nem mesmo ideia do que acontecerá com elas; o plástico não se decompõe, de modo que o lixo plástico está enchendo o oceano e aparecendo dentro dos corpos de criaturas marinhas – e isso pode durar milhões de anos. Para salvar rinocerontes da ameaça de caçadores, serram-se seus chifres, que têm alto valor comercial; mas os caçadores continuam matando-os porque, uma vez que eles estejam extintos, o valor de algumas peças remanescentes de marfim de rinoceronte irá às alturas.

E, apesar de tudo isso, as universidades têm a audácia de doutrinar estudantes a acreditar que uma sociedade comunal seria incapaz de proteger o meio ambiente por causa da chamada tragédia dos comuns. Esse mito é geralmente explicado assim: imagine uma sociedade pastoril que tem o pasto como bem comum. Se cada pastor cria uma quantidade pequena de ovelhas, todos ganham, porque o pasto permanece fértil, mas qualquer um deles pode se beneficiar individualmente se criar mais ovelhas, porque receberá uma parcela maior do produto – desse modo, a propriedade coletiva supostamente leva a diminuição da quantidade de recursos. Os exemplos históricos usados para corroborar essa teoria geralmente são tomados de situações coloniais e pós-coloniais nas quais um povo oprimido, cujas formas tradicionais de organização e administração foram enfraquecidas, aglomera-se em uma terra marginal, com resultados previsíveis. Esse enredo pastoril assume uma situação que é extremamente rara na história humana: um coletivo comprimido e atomizado, indivíduos competitivos que valorizam mais a saúde pessoal que os laços sociais e a saúde ecológica, e sem arranjos sociais ou tradições que possam garantir um uso sustentável e compartilhado.

O capitalismo já causou a maior onda de extinções que atingiu o planeta desde que o impacto de um asteroide exterminou os dinossauros. Para evitar que uma mudança climática global realize um colapso ecológico total, e para evitar que a poluição e a superpopulação exterminem a maior parte dos mamíferos, aves, anfíbios e da vida marinha, temos que abolir o capitalismo, de preferência nas próximas décadas. Extinções causadas por humanos acontecem há, pelo menos, um século. O efeito estufa é amplamente conhecido há cerca de duas décadas. O melhor que a pretensa ingenuidade da livre empresa criou foi o mercado de carbono, uma farsa ridícula. Do mesmo modo, não podemos confiar em nenhum governo do mundo para salvar o planeta. A principal preocupação de um governo é sempre o seu próprio poder, e ele constrói a base de seu poder sobre relações econômicas. A elite governante precisa manter uma posição privilegiada, e esse privilégio depende da exploração de outras pessoas e do meio ambiente.

Sociedades igualitárias localizadas, ligadas por comunicação e consciência globais constituem a melhor chance para salvar o meio ambiente. Economias autossuficientes e autocontidas não deixam quase nenhuma pegada de carbono. Elas não precisam de petróleo para importar bens e exportar resíduos, ou grandes quantidades de eletricidade para abastecer complexos industriais para produzir bens para exportação. Elas precisam produzir a maior parte de sua energia pelo sol, vento, biocombustível e tecnologias similares, e aproveitam mais o que pode ser feito manualmente do que com aparelhos elétricos. Essas sociedades poluem menos porque têm menos incentivos para produzir em massa e não possuem os meios para despejar seus resíduos em outras terras. No lugar de aeroportos movimentados, rodovias congestionadas e longas viagens para trabalhar, podemos imaginar bicicletas, ônibus, trens inter-regionais e barcos. Do mesmo modo, as populações não crescerão demais porque as mulheres serão empoderadas de modo a controlar sua fertilidade e a economia localizada vai tornar clara a limitada disponibilidade de recursos.

Um mundo ecologicamente sustentável teria de ser antiautoritário, de modo que nenhuma sociedade pudesse prejudicar sua vizinhança para expandir sua base de recursos; e teria de ser cooperativo, de modo que as sociedades pudessem reunir-se em autodefesa contra grupos que desenvolvessem tendência imperialista. Mais importante, isso demandaria um ethos ecológico comum, de modo que as pessoas respeitariam o meio ambiente, ao invés de considerá-lo simplesmente matéria-prima para exploração. Podemos começar construindo esse mundo agora, aprendendo de sociedades indígenas ecologicamente sustentáveis, sabotando e expondo quem polui, disseminando um amor pela natureza e uma consciência sobre nossas biorregiões, e estabelecendo projetos que nos permitam satisfazer localmente nossas necessidades por comida, água e energia.

Leitura recomendada

  • Nirmal Sengupta, Managing Common Property: Irrigation in India and The Philippines, New Delhi: Sage, 1991.
  • Winona LaDuke, Recovering the Sacred: The Power of Naming and Claiming, Cambridge: South End Press, 2005.
  • Jan Martin Bang, Ecovillages: A Practical Guide to Sustainable Communities. Edinburgh: Floris Books, 2005.
  • Heather C. Flores, Food Not Lawns: How To Turn Your Yard Into A Garden And Your Neighborhood Into A Community. White River Jct., Vermont: Chelsea Green, 2006.
  • Jared Diamond, Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed, New York, Viking, 2005.
  • Murray Bookchin, The Ecology of Freedom: the Emergence and Dissolution of Hierarchy, Palo Alto, CA: Cheshire Books, 1982.
  • Elli King, ed., Listen: The Story of the People at Taku Wakan Tipi and the Reroute of Highway 55, or, The Minnehaha Free State, Tucson, AZ: Feral Press, 2006.
  • Bill Holmgren and David Mollison, Permaculture One: a Perennial Agriculture for Human Settlements. Sydney: Corgi books, 1978

Notas

  1. N.T.: Período, entre 1868 e 1912, em que o Japão passou de uma sociedade feudal para uma de relações modernas.
  2. Esta teoria sobre o destino da Ilha de Páscoa é convincentemente defendida em Jared Diamond, Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed, New York, Viking, 2005.
  3. Eric Alden Smith, Mark Wishnie, “Conservation and Subsistence in Small-Scale Societies,” Annual Review of Anthropology, Vol. 29, 2000, pp. 493–524. “À medida que a densidade populacional e a centralização crescem, as comunidades podem acabar excedendo o tamanho e a homogeneidade necessárias para sistemas endógenos de administração comunal” (p. 505). Os autores também apontam que a interferência colonial e pós-colonial acabou com muitos sistemas de manejo comunal de recursos. Bonnie Anna Nardi, “Modes of Explanation in Anthropological Population Theory: Biological Determinism vs. Self-Regulation in Studies of Population Growth in Third World Countries,” American Anthropologist, vol. 83, 1981. Nardi aponta que, à medida que a tomada de decisões, a sociedade e a identidade vão de uma escala reduzida a uma escala nacional, o controle de fertilidade perde sua efetividade (p. 40).
  4. Bruce Stewart, citado em Derrick Jensen, A Language Older Than Words, White River Junction, Vermont: Chelsea Green Publishing Company, 2000, p.162.
  5. Jared Diamond, Collapse: how societies choose to fail or succeed, New York: Viking, 2005, pp. 292–293
  6. Por exemplo, os Estados Unidos e a Europa Ocidental, responsáveis pela maior parte dos gases que provocam o efeito estufa, estão atualmente forçando centenas de milhões de pessoas a morrer a cada ano ao invés de restringirem suas culturas do carro e reduzirem suas emissões.
  7. A cifra de 10% e a menção dos dois ataques na Alemanha vem de Nathaniel C. Nash, “Oil Companies Face Boycott Over Sinking of Rig,” The New York Times, 17 de junho de 1995.
  8. Jared Diamond, Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed, New York: Viking, 2005, p. 277.
  9. H. Van Der Linden, “Een Nieuwe Overheidsinstelling: Het Waterschap circa 1100–1400” in D.P. Blok, Algemene Geschiednis der Nederlanden, deel III. Haarlem: Fibula van Dishoeck, 1982, p. 64.


  • Tradução: Púcaro Búlgaro. É permitida a distribuição e a reprodução de trechos ou da integridade deste texto, desde que sem fins comerciais, citando a fonte e esta nota. É vedado qualquer outro uso ou distribuição desta tradução.

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