A anarquia funciona: Introdução

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A anarquia funciona
Introdução
Peter Gelderloos


Chega de falar dos velhos tempos, é hora de algo especial.
Quero que você se mexa e faça funcionar...
Thom Yorke

Dedicado às pessoas extraordinárias da RuinAmalia, La Revoltosa, e do centro social Kyiv, por fazerem a anarquia funcionar.

Embora este livro tenha iniciado como um projeto individual, no fim das contas, um grande número de pessoas, a maioria das quais prefere permanecer anônima, ajudou a torná-lo possível, através de revisão, checagem de fatos, recomendação de fontes, edição, e por aí vai. Para reconhecer apenas uma pequena parte desta ajuda, o autor gostaria de agradecer John, Jose, Vila Kula, aaaa!, L, J e G por proporcionarem acesso a computadores ao longo de um ano de mudanças, despejos, panes, vírus, e assim por diante. Obrigado a Jessie Dodson e Katie Clark por ajudarem com a pesquisa de um outro projeto, que eu acabei usando para este livro. Obrigado, ainda, a C e a E, por emprestarem suas senhas para o acesso livre aos bancos de dados de artigos acadêmicos disponíveis para estudantes universitários, mas não para o resto de nós.

* * * * *

Há histórias escondidas em toda a nossa volta,
crescendo em aldeias abandonadas nas montanhas
ou em terrenos baldios na cidade,
fossilizando-se sob nossos pés, nos resquícios
de sociedades diferentes de tudo que já vimos,
sussurrando-nos que as coisas poderiam ser diferentes.
Mas o político que você sabe que está te mentindo,
o gerente que te contrata e te demite,
o proprietário que te despeja,
o presidente do banco que é dono da sua casa,
o professor que dá nota ao seus trabalhos,
o policial que ronda a tua rua,
o repórter que te informa,
o médico que te medica,
o marido que te bate,
a mãe que te espanca,
o soldado que mata por você,
e o assistente social que acomoda seu passado e seu futuro numa pasta em um arquivo
todos perguntam
"O QUE VOCÊ FARIA SEM NÓS?
Isso seria anarquia."

* * * * *

E a filha que foge de casa,
a motorista de ônibus no piquete,
a veterana de guerra que deixou para trás sua medalha, mas se agarra a seu fuzil,
o garoto salvo do suicídio pela força da amizade,
a empregada que precisa se curvar a quem nem consegue cozinhar para si mesmo,
a imigrante marchando pelo deserto para encontrar sua família do outro lado,
a jovem indo para a cadeia porque incendiou o shopping que construíam sobre seus sonhos de infância,
o vizinho que limpa as seringas do terreno baldio, na esperança de que alguém o transforme em um jardim,
o mochileiro na estrada,
o jovem que largou a faculdade, desistiu da carreira e do plano de saúde, e às vezes até da comida, para que pudesse escrever poesia revolucionária para o mundo,
talvez já possamos sentir isto:
nossos patrões e carrascos têm medo do que eles poderiam fazer sem nós,
e a sua ameaça é uma promessa —
as melhores partes de nossas vidas já são anarquia.

Introdução[editar]

A anarquia nunca funcionaria[editar]

O anarquismo é o mais ousado dos movimentos sociais revolucionários que emergiram da luta contra o capitalismo — ele busca um mundo livre de todas as formas de dominação e exploração. Mas, na sua essência, há uma proposição simples e convincente: as pessoas sabem como viver suas próprias vidas e se organizar melhor do que qualquer especialista poderia saber. Outros afirmam cinicamente que as pessoas não sabem bem o que lhes interessa, que elas precisam de um governo para protegê-las, que a ascensão de algum partido político poderia assegurar, de alguma forma, os interesses de todos os membros da sociedade. Anarquistas contra-argumentam que a tomada de decisões não deveria ser centralizada nas mãos de qualquer governo, mas que, em vez disso, o poder deveria ser descentralizado: em outras palavras, cada pessoa deveria ser o centro da sociedade, e todas deveriam ser livres para criar as redes e associações de que precisam para suprir as necessidades que têm em comum com outras pessoas.

A educação que recebemos nas escolas do Estado nos ensina a duvidar de nossa habilidade de nos organizarmos. Isto leva muita gente a concluir que a anarquia é impraticável e utópica: ela nunca funcionaria. Pelo contrário, a prática anarquista já tem um longo histórico, e, com frequência, tem funcionado muito bem. Os livros de história oficiais contam uma história seletiva, encobrindo o fato de que todos os componentes de uma sociedade anarquista já existiram em diversos períodos, e de que inúmeras sociedades sem Estado prosperaram por milênios.

Como seria uma sociedade anarquista em comparação com sociedades capitalistas e estatistas? É claro que sociedades hierárquicas funcionam bem de acordo com certos critérios. Elas tendem a ser extremamente eficazes em conquistar sociedades vizinhas e assegurar enormes fortunas para seus governantes. Por outro lado, à medida que se intensificam as mudanças climáticas, a escassez de água e de alimentos, a instabilidade do mercado e outras crises globais, os modelos hierárquicos não estão se mostrando especialmente sustentáveis. As histórias deste livro mostram que uma sociedade anarquista pode obter muito mais sucesso em possibilitar que todas as pessoas dentro dela satisfaçam seus desejos e necessidades.

As muitas histórias, do passado e do presente, que demonstram como a anarquia funciona foram suprimidas e distorcidas, devido às conclusões revolucionárias que poderíamos tirar delas. Podemos viver em uma sociedade sem chefes, mestres, políticos ou burocratas; uma sociedade sem juízes, sem polícia, e sem criminosos, sem ricos ou pobres; uma sociedade livre de sexismo, homofobia e transfobia; uma sociedade em que as feridas de séculos de escravidão, colonialismo e genocídio finalmente tenham chance de cicatrizar. As únicas coisas que nos impedem são as prisões, o condicionamento e os salários recebidos dos poderosos, além da nossa própria falta de fé em nós mesmxs.

Obviamente, anarquistas não precisam ser excessivamente práticos. Se algum dia conquistarmos a liberdade de viver nossas próprias vidas, provavelmente descobriremos abordagens completamente novas de organização que aprimorem aquelas formas testadas e provadas pelo tempo. Então, deixe que essas histórias sejam um ponto de partida, e um desafio.

O que é anarquismo exatamente?[editar]

Muitos livros já foram escritos para responder essa pergunta, e milhões de pessoas dedicaram suas vidas para criar, expandir, definir e lutar pela anarquia. Há inúmeros caminhos para o anarquismo e inúmeros pontos de partida: trabalhadoras e trabalhadores na Europa do século XIX lutando contra o capitalismo e acreditando em sua força em vez de nas ideologias dos partidos políticos autoritários; povos indígenas lutando contra a colonização e recuperando suas culturas horizontais tradicionais; colegiais despertando para a profundidade de sua alienação e infelicidade; místicos da China de mil anos atrás ou da Europa de quinhentos anos atrás, taoístas ou anabatistas, lutando contra o governo e a religião organizada; mulheres se rebelando contra o autoritarismo e o sexismo da esquerda. Não há Comitê Central distribuindo carteirinhas de filiação, e nenhuma doutrina padrão. Anarquia significa coisas diferentes para pessoas diferentes. No entanto, há alguns princípios básicos sobre os quais a maioria das pessoas anarquistas concordam.

Autonomia e Horizontalidade: Todas as pessoas merecem a liberdade de se definir e se organizar em seus próprios termos. Estruturas de tomada de decisão devem ser horizontais, em vez de verticais, para que ninguém domine ninguém; elas devem promover o poder para agir livremente, em vez do poder sobre outras pessoas. O anarquismo se opõe a todas as hierarquias coercivas, incluindo o capitalismo, o Estado, a supremacia branca e o patriarcado.

Apoio Mútuo: Pessoas devem ajudar umas às outras de forma voluntária; laços de solidariedade e de generosidade geram um vínculo social mais forte do que o medo inspirado por leis, fronteiras, prisões e exércitos. Apoio mútuo não é nem uma forma de caridade, nem uma troca de soma zero; quem doa e quem recebe são iguais e intercambiáveis. Já que nenhuma dessas pessoas tem poder sobre a outra, elas aumentam seu poder coletivo ao criarem oportunidades de trabalhar em conjunto.

Associação Voluntária: Pessoas devem ser livres para cooperar com quem elas quiserem, da maneira que julgarem adequada; da mesma forma, elas devem ser livres para recusar qualquer relação ou arranjo que julguem não estar de acordo com seus interesses. Todo mundo deve ser capaz de se mover livremente, tanto física quanto socialmente. Anarquistas são contra fronteiras de todos os tipos e categorizações involuntárias por nacionalidade, gênero ou raça.

Ação Direta: É mais empoderador e efetivo atingir objetivos de forma direta do que depender de autoridades ou representantes. Pessoas livres não pedem as mudanças que querem ver no mundo; elas criam essas mudanças.

Revolução: Não há como abolir os sistemas de repressão enraizados atualmente por meio de reformas. Quem detém o poder em um sistema hierárquico são aqueles que instituem as reformas, e eles geralmente o fazem de formas que preservam ou até amplificam seu poder. Sistemas como o capitalismo e a supremacia branca são formas de guerra travadas pelas elites; uma revolução anarquista significa lutar para derrubar essas elites, a fim de criar uma sociedade livre.

Autolibertação: "A libertação dos trabalhadores e trabalhadoras é dever dos próprios trabalhadores e trabalhadoras", como diz o velho lema. Isso também se aplica a outros grupos: as pessoas devem estar à frente de sua própria libertação. A liberdade não pode ser concedida; ela deve ser conquistada.

Uma nota sobre inspiração[editar]

Pluralismo e liberdade não são compatíveis com ideologias ortodoxas. Os exemplos históricos de anarquia não precisam ser explicitamente anarquistas. A maioria das sociedades e organizações que tiveram êxito vivendo livres de governo não se chamaram de "anarquistas"; esse termo se originou na Europa no século XIX, e o anarquismo como um movimento social autoconsciente não é nem de perto tão universal quanto o desejo por liberdade.

É presunçoso atribuir o rótulo de "anarquista" a pessoas que não o escolheram; em vez disso, podemos usar uma série de outros termos para descrever exemplos de anarquia na prática. "Anarquia" é uma situação social livre de governo e de hierarquias coercivas sustentada por relações horizontais auto-organizadas; "anarquistas" são pessoas que se identificam com o movimento social ou a filosofia do anarquismo. Antiautoritárias são as pessoas que expressamente querem viver em uma sociedade sem hierarquias coercivas, mas que, até onde vai nosso conhecimento, não se identificam como anarquistas — seja porque o termo não estava disponível a elas, seja porque não veem o movimento especificamente anarquista como relevante para seu mundo. Afinal, o movimento anarquista, como tal, surgiu na Europa e herdou uma visão de mundo em conformidade com esse contexto; enquanto isso, há muitas outras lutas contra a autoridade que surgem de visões de mundo distintas e não precisam chamar a si mesmas de "anarquistas". Uma sociedade que existe sem Estado, mas não se identifica como anarquista, é "sem Estado"; se essa sociedade não é sem Estado por acaso, mas trabalha conscientemente para impedir a emergência de hierarquias e se identifica com características igualitárias, pode-se descrevê-la como "anárquica".[1]

Os exemplos deste livro foram selecionados de uma vasta gama de períodos e lugares — cerca de noventa no total. Trinta deles são explicitamente anarquistas; os restantes são todos sem Estado, autônomos ou conscientemente antiautoritários. Mais da metade dos exemplos são da sociedade ocidental atual, um terço é proveniente de sociedades sem Estado que fornecem uma perspectiva da amplitude de possibilidades humanas fora da civilização ocidental, e os poucos restantes são exemplos históricos clássicos. Alguns destes, tal como a Guerra Civil Espanhola, são citados diversas vezes, porque são bem documentados e oferecem uma riqueza de informações. O número de exemplos incluídos torna impossível explorar cada um deles com o detalhamento merecido. Idealmente, quem lê se inspirará a investigar essas questões por si, extraindo mais lições práticas dos esforços de quem veio antes.

Ficará evidente ao longo deste livro que a anarquia existe em confronto com o Estado e o capitalismo. Muitos dos exemplos oferecidos aqui foram, no fim das contas, esmagados pela polícia ou por exércitos conquistadores, e é, em grande medida, por causa dessa repressão sistemática de alternativas que não houve mais exemplos de anarquia em funcionamento. Esta história sangrenta sugere que, para ser completa e exitosa, uma revolução anarquista teria de ser global. O capitalismo é um sistema global, expandindo-se e colonizando, de forma constante, toda sociedade autônoma que encontra. No longo prazo, nenhuma comunidade ou país pode permanecer anarquista enquanto o resto do mundo é capitalista. Uma revolução anticapitalista deve destruir o capitalismo de forma completa, ou então será destruída. Isso não significa que o anarquismo deve ser um único sistema global. Muitas formas diferentes de sociedade anarquista poderiam coexistir, e estas, por sua vez, poderiam coexistir com sociedades que não fossem anarquistas, desde que estas não fossem hostilmente autoritárias ou opressivas. As páginas seguintes apresentarão a grande diversidade de formas que anarquia e autonomia podem tomar.

Os exemplos deste livro mostram a anarquia funcionando por um período de tempo, ou obtendo sucesso de alguma forma específica. Até que o capitalismo seja abolido, todos esses exemplos serão necessariamente parciais. Esses exemplos são pedagógicos em suas fraquezas e em seus pontos fortes. Além de oferecerem um retrato de pessoas criando comunidades e satisfazendo suas necessidades sem chefes, eles levantam a questão de o que deu errado e como poderíamos fazer melhor na próxima vez.

Para isso, eis alguns temas recorrentes sobre os quais pode ser bom refletir ao longo da leitura deste livro:

Isolamento: Muitos projetos anarquistas funcionam muito bem, mas têm impacto apenas sobre as vidas de um pequeno número de pessoas. O que provoca este isolamento? O que tende a contribuir para ele, e o que pode corrigi-lo?

Alianças: Em uma série de exemplos, anarquistas e outras pessoas antiautoritárias foram traídas por supostas alianças, que sabotaram a possibilidade de libertação para ganharem poder para si mesmas. Por que anarquistas escolheram essas alianças, e o que podemos aprender sobre quais os tipos de aliança a se fazer hoje?

Repressão: Comunidades autônomas e atividades revolucionárias foram e têm sido abruptamente interrompidas pela repressão policial ou por invasão militar repetidamente. Pessoas são intimidadas, presas, torturadas ou mortas, e as sobreviventes precisam se esconder ou sair da luta; comunidades que antes ofereciam suporte recuam para proteger a si mesmas. Que ações, estratégias e formas de organização mais bem equipam as pessoas para sobreviver à repressão? Como podem as pessoas de fora oferecer uma solidariedade efetiva?

Colaboração: Alguns movimentos sociais ou projetos radicais optam por participar ou se acomodar a aspectos do sistema atual, a fim de superar o isolamento, tornar-se acessíveis a um número maior de pessoas ou para evitar a repressão. Quais são as vantagens e armadilhas dessa abordagem? Há maneiras de superar o isolamento ou evitar a repressão sem isso?

Ganho temporário: Muitos dos exemplos deste livro não existem mais. Obviamente, anarquistas não estão tentando criar instituições permanentes que ganhem vida própria; organizações específicas devem deixar de existir quando não são mais úteis. Considerando isso, como podemos aproveitar ao máximo as bolhas de autonomia enquanto elas duram, e como elas podem continuar nos ensinando depois de terem deixado de existir? Como uma série de espaços e eventos temporários pode ser conectada de forma a criar uma continuidade de luta e de comunhão?

O complicado tema da representação[editar]

No maior número de casos possível, buscamos opiniões diretas de pessoas com experiência pessoal nas lutas e comunidades descritas neste livro. Com alguns dos exemplos, isso foi impossível devido aos abismos intransponíveis de distância e do tempo. Nestes casos, tivemos de confiar exclusivamente em exposições escritas, geralmente feitas por observadores externos. Mas a representação não é, de forma alguma, um processo neutro, e observadores externos projetam seus próprios valores e experiências sobre aquilo que estão observando. Obviamente, representação é uma atividade inevitável no discurso humano, e, além disso, observadores externos podem contribuir com novas e úteis perspectivas.

Entretanto, nosso mundo não é tão simples. Enquanto a civilização europeia se espalhava e dominava o resto do planeta, os observadores que ela enviava eram geralmente os agrimensores, missionários, escritores e cientistas da ordem dominante. Em uma escala mundial, essa civilização é a única com o direito de interpretar a si mesma e a todas as outras culturas. Os sistemas ocidentais de pensamento foram forçosamente espalhados por todo o mundo. Sociedades colonizadas foram divididas e exploradas como trabalho escravo, fonte de recursos econômicos e capital ideológico. Povos não ocidentais foram representados para o Ocidente de formas que confirmassem a visão de mundo e o senso de superioridade ocidentais, e que justificassem o projeto imperial em curso como necessário para o bem dos povos que eram civilizados à força.

Como anarquistas tentando abolir a estrutura de poder responsável pelo colonialismo e muitas outras injustiças, queremos abordar essas outras culturas de forma honesta, a fim de aprender com elas, mas, se não formos cuidadosos, podemos facilmente cair no padrão eurocêntrico costumeiro de manipular e explorar essas outras culturas para nosso próprio capital ideológico. Em casos em que não pudemos encontrar nenhuma pessoa da comunidade em questão para avaliar e criticar nossas próprias interpretações, tentamos situar o narrador dentro da narração, para subverter sua objetividade e invisibilidade, para confrontar deliberadamente a validade de suas próprias informações, e para propor representações que sejam flexíveis e modestas. Não sabemos exatamente como realizar esse malabarismo, mas nossa esperança é de aprender enquanto tentamos.

Alguns povos indígenas que consideramos camaradas na luta contra a autoridade acham que as pessoas brancas não têm o direito de representar as culturas indígenas, e esta posição é especialmente justificada dado que, ao longo de quinhentos anos, as representações euro/americanas de povos indígenas têm sido interesseiras, exploratórias e ligadas a processos de genocídio e colonização em curso. Por outro lado, parte de nosso objetivo ao publicar este livro tem sido o de contestar o eurocentrismo histórico do movimento anarquista e encorajar nossa abertura para outras culturas. Não poderíamos fazer isto apresentando apenas histórias de ausência de Estado vindas de nossa própria cultura. O autor e a maioria das pessoas trabalhando na edição deste livro são brancas e não é surpresa que o que escrevemos reflete nossas experiências. Na verdade, a questão central que este livro procura abordar, se a anarquia poderia funcionar, parece, ela mesma, ser eurocêntrica. Somente um povo que obliterou a memória de seu próprio passado sem Estado poderia se perguntar se precisa do Estado. Reconhecemos que nem todo mundo compartilha deste ponto cego histórico e que o que publicamos aqui pode não ser útil para pessoas de outros contextos. Todavia, esperamos que, ao contar histórias das culturas e lutas de outras sociedades, possamos ajudar a corrigir o eurocentrismo endêmico a algumas de nossas comunidades e a nos tornarmos melhores aliados e aliadas, e melhores ouvintes, sempre que pessoas de outras culturas escolherem nos contar suas próprias histórias.

Uma pessoa que leu este texto nos apontou que a reciprocidade é um valor fundamental de visões de mundo indígenas. A questão que essa pessoa nos colocou foi: se anarquistas que são majoritariamente euro/americanos vão tirar lições de comunidades, culturas e nações indígenas, ou outras, o que ofereceremos em troca? Espero que, onde for possível, ofereçamos solidariedade — ampliando a luta e apoiando outras pessoas que lutam contra a autoridade sem se chamarem de anarquistas. Afinal, se somos inspirados por algumas outras sociedades, não deveríamos fazer mais para reconhecer e apoiar suas lutas em curso?

O livro de Linda Tuhiwai Smith Decolonizing Methodologies: Research and Indigenous Peoples (Londres: Zed Books, 1999) oferece uma perspectiva importante sobre alguns destes temas.

Leituras Recomendadas[editar]

Errico Malatesta, No Café: Diálogos sobre o Anarquismo. Curitiba: L-Dopa Publicações, 2010.

The Dark Star Collective, Quiet Rumours: An Anarcha-Feminist Reader. Oakland: AK Press, 2002.

CrimethInc., Dias de Guerra, Noites de Amor. Porto Alegre: Editora Deriva. 2010.

Daniel Guerin, Anarchism: From Theory to Practice. New York: Monthly Review, 1996.

bell hooks, Ain’t I a Woman? Black women and feminism. Boston: South End Press, 1981.

Mitchell Verter and Chaz Bufe, eds. Dreams of Freedom: A Ricardo Flores Magon Reader. Oakland: AK Press, 2005.

Derrick Jensen, A Culture of Make Believe. White River Junction, Vermont: Chelsea Green, 2004.

Vine Deloria, Jr. Custer Died for Your Sins: an Indian Manifesto. New York: Macmillan, 1969.

Ward Churchill, From a Native Son: Selected Essays on Indigenism 1985–1995, Cambridge: South End Press, 1999; ou sua entrevista sobre indigenismo e anarquismo na revista Upping the Anti.

Notas

  1. Sam Mbah e I. E. Igariway escrevem que, antes do contato colonial, quase todas as sociedades africanas tradicionais eram "anarquias", e eles constroem um forte argumento para esta conclusão. O mesmo poderia ser dito de outros continentes. Contudo, como os autores não vêm de nenhuma dessas sociedades, e já que a cultura ocidental tradicionalmente acredita ter o direito de representar outras sociedades considerando seus próprios interesses, é melhor evitar essas caracterizações gerais, mantendo, enquanto isso, o esforço de aprender com esses exemplos.

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