A Insuficiência do Materialismo Econômico

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A INSUFICIÊNCIA DO MATERIALISMO ECONÔMICO

Rudolf Rocker

Quanto mais profundamente se examinam as influências políticas na História, mas se chega a conclusão que a “vontade de poder” tem sido, até aqui, um dos alicerces mais vigorosos no desenvolvimento das sociedades humanas. A concepção que pretende ver em todo o acontecimento político e social somente um resultado de condições econômicas dadas, das quais dependa, exclusivamente, o seu esclarecimento, não resiste a uma consideração mais demorada. O fato de influírem condições econômicas e formas especiais de produção na história do desenvolvimento das sociedades humanas não é novidade para ninguém que seriamente porfie por chegar ao fundo dos problemas sociais. Tal fato era já há muito conhecido, antes de que Marx se abalasse a explicá-lo a seu modo. Uma geração inteira de renomado socialistas franceses, entre os quais Saint Simon, Considérant, Louis Blanc, Proudhon e muitos outros, já haviam assinalado em seus escritos essa conprovação e é bem sabido que Marx chegou ao socialismo exatamente pelo estudo desses escritos. No mais, está o reconhecimento do significado das condições econômicas na conformação da sociedade na própria essência do socialismo.

Não é a afirmação dessa doutrina histórico-filosófica o que chama mais atenção no Marxismo, mas a forma inflexível com que expressa esse conhecimento e a modalidade de pensamento com que cimenta Marx a sua concepção. Sente-se ali claramente a influência de Hegel, de quem Marx foi discípulo. Só o filosofo do absoluto, o descobridor das “necessidades e missões históricas” que poderia incutir-lhe tal segurança de juízo e levá-lo a crença de que havia chego ao conhecimento das “leis da física social”, segundo as quais todo o acontecimento social há de ser considerado reflexo das necessidades naturais. De fato, chegaram os seguidores de Marx a comparar o Materialismo Econômico às descobertas de Copérnico e Kepler e não foi nenhum outro senão o próprio Engels o afirmante de que, à luz dessa nova explicação da História, o socialismo havia se transformado em ciência.

O erro fundamental dessa concepção reside em equiparar as causas dos acontecimentos sociais às causas dos fenômenos físicos. A ciência ocupa-se exclusivamente dos acontecimentos que se desenvolvem dentro do grande quadro a que chamamos natureza; por isso mesmo, ligados a tempo e espaço acessíveis aos cálculos do intelecto humano, pois a natureza é o mundo das relações internas e das necessidades mecânicas, no qual cada acontecimento se desenvolve de acordo com as leis de causa e efeito. Nesse mundo não há nenhuma necessidade; qualquer arbitrariedade nele é inconcebível. Nesse terreno conta a ciência somente com fatos restritos: um só fato que não se deixe enquadrar na teoria pode derrubar pela base o edifício mental mais engenhoso. No mundo das especulações metafísicas e das ações práticas pode ter validez a máxima: “a exceção confirma a regra”; para a ciência jamais. Se bem possuam as formas envolvidas pela natureza diversidade infinita, está cada uma delas submetidas a leis imutáveis. Cada movimento no todo obedece as normas estritas e inflexíveis; como também a natureza física, não se sobrepõem ao livre-arbítrio de nossa humana vontade: são parte de nós mesmos, sem o que nossa existência seria inconcebível. Nascemos, alimentamo-nos, expulsamos as substâncias inassimiladas, movemo-nos, reproduzimo-nos e morremos sem que desse curso regular possamos alterar coisa alguma. Operam aqui necessidades independentes de nossa vontade. O homem pode pôr as forças da natureza a seu serviço; pode, até certo ponto, conduzir seus efeitos por até determinado caminho, mas não pode suprimi-los. Tampouco somos capazes de excluir os acontecimentos que condicionam nossa vida física. Podemos afirmar suas manifestações externas e amiúde adaptá-las à nossa vontade, mas aos próprios fatos não podemos extirpar de nossa vida. Não somos obrigados a comer o alimento tal qual o encontramos na natureza, nem a estirar-nos a descansar no primeiro lugar apropriado, mas podemos fazer menos que comer e dormir, se não quisermos que nossa vida tenha um fim prematuro. Neste mundo de necessidades de iniludíveis, não há lugar para voluntarismo humano.

Foi justamente essa regularidade férrea na oscilação permanente dos fenômenos do mundo e do universo que trouxe a muitas cabeças engenhosas a ideia de que também os acontecimentos da vida social humana estão submetidas às mesmas necessidades incoercíveis do processo natural, em vista do que são igualmente calculáveis e explicáveis por métodos científicos. A maior parte das concepções históricas estriba-se nesta concepção errônea; que dó pode aninhar-se nos cérebros dos homens por haverem estes equiparados às leis que regem à existência física aquela determinação humana que se encontra na base de todo o acontecimento social; em outras palavras: por terem confundido as necessidades mecânicas de processos naturais com propósitos e intenções dos homens, os quais só podem ser tomados simplesmente como manifestações de sua vida psíquica.

Não negamos que também na história existam relações internas que, como na natureza, se deixem deduzir de leis de causa e efeito; entretanto, nos acontecimentos sociais, é isso produto de meras causalidades de determinismo humano, enquanto na natureza o é sempre de necessidades físicas. Os últimos se desenvolvem em nosso assentimento; os primeiros não são mais que representações de nossa vontade. Noções religiosas, conceitos éticos, hábitos, costumes, tradições, concepções jurídicas, condições da propriedade, formas de produção etc., não são suposições necessárias em nosso ser físico, mas tão somente resultados de nossas finalidades preconcebidas. Toda a finalidade é todavia questão de fé, que escapa aos cálculos científicos. No reino dos fenômenos físicos existe somente a probabilidade: pode ser que seja, mas também pode ser que não seja.

Todo o fato que irrompe de nosso ser físico e sobre ele influi se processa à revelia de nossa vontade. Cada fato social todavia surde por obra de propósitos humanos e de humanas finalidades. Se por um lado se arrola dentro dos limites de nossa vontade, por outro não se submete ao conceito do naturalmente necessário.

Quando uma índia Flathead comprime o crânio do filho recém-nascido entre duas tábuas para que assim adquira a forma necessária, não se pressupõe nenhuma necessidade, mas um costume que tem raízes lançadas nas humanas crenças. Se os homens adotam a poligamia, a monogamia ou o celibato como condição de vida, é isso questão de finalidade humana, quem nada tem em comum com necessidades físicas. Toda concepção jurídica é questão de crença, e, como tal, não está condicionada por nenhuma necessidade física. O fato de ser o homem maometano, judeu, cristão ou idólatra do Satanás, não observa a minima relação com necessidades físicas. Pode ele igualmente em qualquer condição econômica submeter-se a qualquer sistema político sem que, de nenhum modo, sejam alteradas as leis a que está submetida a sua existência física. Uma súbita falha da lei de gravitação universal seria incalculável em suas consequências; uma paralisação repentina em nossas funções biológicas equivale à morte. Mas a existência física dos homens não sofreria o mínimo abalo com o desconhecimento das leis de Hamurabi, dos ensinamentos pitagóricos ou da concepção materialista da História. Não se emite com isso nenhum juízo de valor, mas somente se testemunha um fato.

Todo o resultado de finalidades humanas é para a existência social dos homens de inegável importância, mas é preciso que afinal se deixem de considerar os fenômenos sociais como manifestações forçosas de acontecimentos naturalmente necessários, pois semelhante concepção só pode conduzir aos piores sofismas e contribuir para extraviar incuravelmente nossa compreensão dos problemas históricos.

É sem dúvida a tarefa de pesquisador da história determinar relações internas entre fenômenos históricos e deles esclarecer causas e efeitos, mas não vá ele esquecer-se de que tais relações são de natureza bem diversa daqueles que se verificam nos acontecimentos físicos, pelo que devem merecer apreciação bem diferente. Pode um astrônomo predizer um eclipse solar ou o aparecimento de um cometa com segundos de exatidão. Foi desse modo que se pode determinar a exatidão do planeta Netuno antes que o mesmo houvesse sido visto por olho humano. Mas tal previsão somente é possível quando se tratam de fenômenos físicos, para cálculo de motivos e finalidades humanas não se encontra medida exata, pois não são essas acessíveis a nenhum cálculo. É impossível prever ou supor o destino de povos, raças, nações ou qualquer outro agrupamento sociais, nem mesmo do que já passou nós não temos um esclarecimento definitivo. A História é somente o grande domínio dos propósitos humanos, por isso toda a concepção de história é questão de crença, que só pode estribar-se no melhor dos casos em conjeturas, mas que nunca possui por si mesma segurança inabalável.

A assertiva que se arroga a capacidade de determinar o destino dos edifícios sociais através de supostas leis de “física social” não tem maior significação que os juramentos daquelas mulheres sábias, pretendentes deduzir das linhas das mãos ou da borra do café a previsão dos destinos humanos. Certamente, é possível apresentar um horoscopo para povos e nações; convenhamos, entretanto, que as profecias da astrologia política e social não tem maior valor que as predições daqueles que pretendem deduzir daqueles os destinos humanos das constelações estelares.

É inegável que possa uma concepção histórica também encerrar pensamentos que contribuam para esclarecimentos de fatos históricos; opomo-nos somente a assertiva de que a marcha da história esteja sujeita a leis idênticas às que governam os fenômenos físicos e mecânicos da natureza. Essa falsa afirmação, de modo algum fundamentada, oculta ademais outro perigo: logo que se acostuma um a misturar no mesmo gral causas de fenômenos naturais com causas de acontecimentos sociais, inclina-se por aí afora a buscar sempre uma causa fundamental que encarne de certo modo a lei de gravitação social, lei esta que fundamente todo o acontecimento histórico. Quando chega a um tal ponto, aí, então, começa a passar por alto tanto mais facilmente todas as outras causas da estruturação social e as interdependências que delas brotam.

Toda a concepção que visa a melhora das condições sociais de vida entre os homens é fundamentalmente a representação de um desejo, e, por sim mesmo, não possui mais que a probabilidade. Onde se trata disso, entretanto, tem seus limites a ciência, pois toda a probabilidade descansa unicamente sobre suposições, que não se deixam nem calcular, nem pesar, nem medir. É certo que se pode recorrer para a fundamentação de uma concepção do mundo e da vida, como por exemplo o socialismo, também a resultados de investigações científicas, mas não por isso há de verter-se tal concepção em ciência, pois a materialização de seus objetivos não está ligadas a processos forçosamente comprovados, com os fenômenos da natureza física. Não há nenhuma lei na História que mostre o curso de toda a atuação social dos homens. Onde quer que se haja esboçado o esforço de provar semelhante lei, logo se fez sentir a completa insuficiência do ensaio.

O homem só se acha incondicionalmente submetido às leis de sua existência física. Não pode ele mudar sua constituição, nem suprimir as condições fundamentais de sua existência biológica ou transformá-las de acordo com sua vontade. Lhe é impossível evitar seu próprio aparecimento sobre a terra, como também o é impedir o fim de sua trajetória terrestre. Tampouco está nos limites de sua vontade desviar do curso o planeta a que está ligado seu círculo de vida: quer queira, quer não, tem de aceitar todas as consequências desse movimento da terra no universo, sem que possa mudá-lo no mais mínimo. Resultado de sua vontade e de sua ação, entretanto, não está a forma de sua vida social ligada a rigidez dessas necessidades. Suas condições sociais de vida, pode ele atribuí-las a predestinações de uma vontade divina ou a consequências de leis imutáveis alheias à sua vontade: nesse caso a crença paralisará sua vontade e leva-lo-á a adaptar-se às condições dadas. Todavia pode ele também convencer-se de que todo o existir social possui somente um valor relativo, mutável por mão humana e por espírito humano. Neste caso procurará ele substituir as condições sociais sob as quais vive, por outras, dar uma nova conformação à sua vida social.

Pode o homem conhecer as leis cósmicas tão cabalmente quanto queira, mas mudá-las, isso nunca, pois não são obras sua. Toda forma de vida social é entretanto obra sua; toda a instituição social que lhe haja legado o passado por obra de seus longínquos avós, é obra humana podendo ser assim transformada pela vontade e pela ação humanas, ou então servir a novas finalidades. Só esse conhecimento é verdadeiramente revolucionário e só ele está no espírito dos tempos que chegam. Quem crê na inevitabilidade de todo o acontecimento histórico, sacrifica o futuro ao passado: interpreta os acontecimentos da vida social, mas não os muda. Nesse ponto é aliás todo e qualquer fatalismo igual, seja ele de natureza religiosa, política ou econômica. A todo aquele que deixe cair em seus laços, rouba ele o mais precioso bem da vida: o impulso à ação segundo necessidades próprias. Especialmente perigoso é isso quando o fatalismo se apresenta em vestes de ciência, que hoje tão amiúde substituem o falar do teólogo. Por isso repetimos: os casos que fundamentam os fatos da vida social nada tem em comum com as leis que regem os fenômenos físicos e mecânicos, pois são, as primeiras, tão somente resultados de finalidade humana, cuja a apuração não é cabível exclusivamente sob a luz da ciência. Desconhecer isso, é funesto auto engano, de que não pode brotar mais que uma concepção disforme da realidade.

Aplica-se isso a toda a concepção da história que de um só fato deduz rigidamente tudo o que se passa na sociedade, e especialmente ao Materialismo Histórico, que reporta cada fato na história a vigentes condições econômicas, segundo as quais tudo pretende esclarecer.

Nenhum homem de senso deixaria de reconhecer hoje em dia a impossibilidade de julgar imparcialmente períodos da história sem levar em conta circunstâncias econômicas. É todavia de todo ponto unilateral querer avaliar a História inteira exclusivamente como resultados de condições econômicas, sob cujo influxo tomem forma e cor todos os demais sucessos da vida.

Há na História milhares de fatos que não se deixam explicar unicamente por bases puramente econômicas. Pode-se finalmente enquadrar num determinado esquema, mas o que daí resulta, via de regra, é muito pouca coisa. É raro o fato histórico para cuja realização não hajam igualmente contribuído causas de ordem econômica, mas nunca foram forças econômicas que serviram de móvel a todas as outras. Acontecimentos sociais realizam-se por obra de uma série de diversas causas, que na maioria se entrecruzam tão intimamente que impossível é afinal delimitá-las entre si. Tratam-se de correlações de várias causas que bem claramente se deixam identificar, mas que não são acessíveis por métodos científicos.

Há sucessos na História que para milhões de seres humanos tiveram a mais ampla significação, mas que nem por isso se deixam esclarecer cientificamente. Quem sustentaria, por exemplo, haverem sido as guerras de conquista de Alexandre da Macedônia motivadas pelas condições econômicas daquele tempo? Já o fato de haver caído em pedaços logo após a sua morte o colossal império erguido à custa do sangue de centenas de milhares de indivíduos, prova que as conquistas políticas e militares do dominador macedônio de modo algum estavam “historicamente condicionadas”. Tampouco a isso predispunham os tipos de produção daquele tempo. Nas loucas empresas guerreiras de Alexandre ocupava a voluptuosidade de poder, papel amplamente mais significativo que condições econômicas de produção. O impulso ao governo do mundo havia tomado no ambicioso déspota características propriamente doentias. Sua furiosa sede de poder era o motor de sua política inteira, o leitmotiv de todas as suas empresas guerreiras, que afogou grande parte do mundo então conhecido em sangue e fogo. Foi também sua sede de poder que lhe fez parecer vantajoso o cesaropapismo dos déspotas orientais, e lhe levou à crença na própria semelhança divina.

A vontade de poder, que surge sempre de pequenas minorias na sociedade, é em geral uma das forças motrizes mais significativas da história, a cujo alcance muito pouco valor tem sido atribuído até agora, se bem que haja sido amiúde um determinante decisivo na formação inteira da vida econômica e social.

A História das Cruzadas foi sem dúvida influenciada por fortes motivos econômicos. Para que muito João Ninguém se colocasse ao lado da cruz, deve haver sido a miragem dos ricos países do oriente estímulo mais forte do que a convicção religiosa. Mas os motivos econômicos exclusivamente não haveriam sido capazes de pôr em movimento, durante séculos, a milhões de homens, sempre que soasse o “Deus o quer!”, se bem que não tivessem eles a mínima ideia das espantosas dificuldades a que está ligada a aventureira empresa. Quão fortemente se fazia valer a crença sobre os homens daquele tempo o demonstra a chamada Cruzada Infantil (1212), que foi posta em marcha quando o malogro das anteriores ondas armadas se havia tornado evidente, e quando os devotos havia anunciado a mensagem segundo a qual o Santo Sepulcro só poderia ser libertado por menores de idade, em quem Deus queria testemunhar um milagre. Não foram certamente razões econômicas que induziram milhares de pais enviar ao encontro da morte certa seus filhos queridos.

Mas também o Papado, que a principio somente à contra gosto havia exortado o mundo cristão à primeira Cruzada, foi a isso movido muito mais por motivos políticos de domínio que por pressões econômicas. Na sua luta pela supremacia da Igreja evidenciava sobejamente a seus dirigentes, a vantagem que adviria da demorada ocupação de soberanos temporais em empresas do oriente, pois se por um lado estes se mostravam incômodos em casa, naquelas paragens não constituíam obstáculos à realização de seus planos. Certamente reconheceram logo outros, como por exemplo, os venezianos, as grandes vantagens econômicas que lhes poderiam ministrar as Cruzadas, delas utilizaram-se aliás para estender seu domínios às costas dalmácias, às ilhas Jônicas e a Creta, mas deduzir disso que as Cruzadas estavam incondicionalmente ligadas às formas de produção daquele tempo seria manifesta loucura.

Quando a Igreja pôs-se em armas para a guerra de aniquilamento contra os albigenses, que custou milhares de vidas e transformou a terra mais livre e espiritualmente desenvolvida da Europa num deserto, arruinando-lhe o comércio e deixando atrás uma paupérrima população dizimada, não estava a sua guerra à heresia condicionada por qualquer necessidade econômica. O que ela queria era a unidade de crença, necessária à cimentação de seus planos políticos de domínio. Igualmente o Reino Francês, que a ajudou nessa luta, foi a isso conduzido principalmente por considerações político-imperialistas. A coroa só teve vantagem para suas aspirações centralizadoras, com a sangrenta disputa entre os herdeiros dos condes de Languedoc, através da qual lhes veio a cair inteiro nas mãos o meio-dia do país. Foram assim notoriamente motivos políticos de domínio de parte da Igreja e do Reino, que fizeram com que o arrolamento econômico de uma das mais ricas terras da Europa fosse brutalmente estancado e os velhos focos de uma brilhante cultura transformados em um deserto campo de ruínas.

As grandes guerras de conquista, e especialmente a invasão dos árabes na Espanha, que desencadeou uma guerra de sete séculos, não se deixam igualmente explicar pelo estudo acurado das condições de produção daquele tempo. Pelo contrário, debalde seria querer provar que o desenvolvimento econômico houvesse sido o principal motor daquela época extraordinária. Era justamente o contrário que ali se punha em relevo. Após a conquista de Granada, último baluarte da meia lua em declínio, formou-se na Espanha um novo poder político religioso sob o cujo nocivo influxo retrocedeu por séculos todo o desenvolvimento econômico da terra, que foi abalado tão radicalmente, que as consequências ainda hoje se fazem notar através de toda a península ibérica. Nem as enormes torrentes de ouro que jorraram sobre a Espanha do México e o Império Incaico após a descoberta da América, puderam opor um dique a decadência econômica, a qual, aliás, só fizeram agravar.

Pelo casamento de Fernando de Castela com Isabel de Aragão foram lançados os fundamentos da monarquia cristão na Espanha, cuja a mão direita era o grande Inquisidor. A infindável guerra contra o reino mourisco, levada a cabo sob o estandarte da Igreja, transformou pela raiz a conformação espiritual e psicológica do cristanolado espanhola e engendrou aquele cruel fanatismo religioso que durante séculos envolveu a Espanha em trevas. Somente a esse preço pode desenvolver-se aquele temível despotismo político clerical que, após afogar em sangue as últimas liberdades das cidades espanholas, reinou como um pesadelo durante três séculos sobre o desventurado país. Uma vez dali varridos mouros e judeus, foram conduzidos à tumba os últimos restos da cultura árabe. Províncias inteiras que antes pareciam jardins florescentes, transformaram-se em pântanos estéreis, destruídas que haviam sido as redes de irrigação edificadas pelos mouros e abandonadas as estradas. A indústria, esta então, que pertencia às primeiras da Europa, desapareceu quase por completamente e voltando à métodos de produção já a muito abandonados.

Segundo dados de Fernando Garrido, havia em princípio do século dezesseis em Servilha 16.000 teares de seda, que empregavam 30.000 trabalhadores. Pelo fim do dezessete, mal havia ainda 300 teares em funcionamento.

“não é conhecido o número de teares existente em Toledo em fins do século XVI, mas eram ali elaboradas 453.000 libras de seda, com os quais se dava emprega a 38.484 pessoas. Ao cerrar o século XVII tais ofícios haviam completamente desaparecido. Em Segóvia, nos fins do século XVI, haviam 6.000 teares de fazenda, que se apreciava então como o melhor da Europa, pois bem: a princípios do século XVIII havia descido a indústria a tal ponto que era mister fazer vir artífices do estrangeiro para ensinar os sergovianos como estampar e tecer. As causas dessa decadência foram a expulsão dos mouros, a descoberta e a colonização da América e o fanatismo religioso, que esvaziava as oficínas fazendo crescer as cifras de padres e freiras. Quando em Servilha os teares haviam decrescido para 300, haviam conventos aumentando para 62, ocupando então o ofício religioso 14.000 pessoas.”1

E Zancada relata ainda daquele período:

“Em 1655 desapareceram da Espanha dezessete corporações e, juntamente com eles, manufaturas de ferro, aço, cobre, zinco, chumbo, enxofre, alumínio e outras.”2

Também a conquista da América pelos espanhóis, que despovoou a península Ibérica e conduziu milhões de homens ao novo mundo, não se deixa elucidar somente pela “sede de ouro”, por viva que fosse em muitos a avidez. Leia-se a famosa história da Conquista e logo concluir-se-á com Prescott, que menos parece ela uma narração de ocorrências reais que um dos incontáveis romances de cavalaria andante, precisamente na Espanha tão amados e apreciados.

Não foram motivos exclusivamente econômicos que seduziram à senda do famoso Eldorado, através do grande deserto de água, ondas sempre novas de gente atrevida. O fato de grandes impérios, quais o México e o Império Incaico, que constavam milhões de almas uma cultura altamente desenvolvida, haverem podido ser dominados por um punhado de ousados aventureiros, só se deixa elucidar mesmo se tivermos mais em vista o próprio material humano atirado aquela empresa, a que haviam amadurecido setecentos anos de guerras sucessiva e perigo permanente. Só uma época em que a representação da paz pareciam aos homens fábulas de tempos a muito escoados, e na qual uma luta centenária e cruentíssima era parte do ritmo normal de vida, poderia haver desenvolvido de tal forma o fanatismo de crença que tão bem singularizava aos espanhóis de então. Disso desprende-se também aquele raro impulso permanente à ação e que merce um exagerado conceito de honra, carecente aliás de qualquer fundamento sério, dava a qualquer momento disposição a sacrificar a própria vida. Não é nenhum acaso que o D. Quixote haja tomado forma precisamente na Espanha. Talvez vá demasiado longe a teoria que pretende substituir toda e qualquer sociologia por noções psicológicas; é entretanto inegável o influxo da conformação psicológica do homem sobre a formação de ambiente social.

Poder-se-iam citar ainda centenas de outros exemplos dos quais se deduz claramente a impossibilidade de se acusar na economia o centro de gravitação de toda a conjuntura social, se bem que a ela não se negue relevante papel no desenvolvimento da história; tais exemplos, se por um lado não são passiveis de omissão, pelo outro não devem encarecer. Há épocas em que o influxo do meio econômico sobre o andamento do existir social manifesta-se surpreendentemente claro; mas também há outras em que aspirações políticas e religiosas de domínio intervem mais notoriamente sobre a marcha normal da economia, obstruindo-a ou forçando-a por outros derroteiros, com ostensiva arbitrariedade. Acontecimentos históricos como a Reforma, a Guerra dos Trinta Anos as Grandes Revoluções na Europa e muitas outras não só podem em geral abarcar unicamente sob o ponto de vista econômico, mesmo que bem possam admitir como motoras em sua realização raízes de natureza econômica.

Mais impensado ainda é enquadrar nas mais diversas camadas sociais os representantes típicos de um nível econômico definido. Tal concepção não só estreita o campo de vista geral do investigador, mas também faz da história uma caricatura que há sempre de conduzir a novos sofismas. O homem não é somente veículo de manifestos interesses econômicos. A Burguesia, por exemplo, onde quer que haja atingido significação política agarrou-se, em muitos casos, a aspirações que não somente se opunham em toda a linha seus interesses econômicos, mas que também estavam amiúde em aberta contradição com estes. Sua luta contra a Igreja, seus esforços pelo advento de uma paz duradoura entre os povos, suas concepções liberais e democráticas sobre a essência do governo, que levaram seus representantes ao mais agudo conflito com as tradições da graça de Deus, e muitos outros sucessos pelos quais outrora se entusiasmou, são prova disso.

E não vá ninguém replicar que a burguesia, sob o frequente influxo de suas condições econômicas, haja logo esquecido ou cruelmente traído os ideais de sua juventude. Basta comparar o período Sturm und Drang do movimento socialista na Europa como a prosaica política realista dos partidos operários de nossos dias para se chegar à conclusão de que os supostos representantes do proletariado não têm nenhuma razão de censurar na burguesia suas mutações internas. Quase nenhum desses partidos fez um ensaio para, após a primeira grande guerra, transformar segundo o espírito do socialismo a sociedade capitalista, que vivia então a mais aterradora crise de sua história. Nunca dantes houveram amadurecido tanto as condições econômicas para uma transformação da sociedade capitalista. A economia capitalista virara-se de pernas para o ar. A crise, dantes fenômeno periódico e cíclico no mundo capitalista, tornara-se então condição normal da vida social. Crise da industria, crisa da agricultura, crise do comércio, crise das finanças! Tudo se unia para pôr de relevo a insuficiência do regime capitalista. Faltava todavia o espírito, a inspiração socialista que perseverasse por efetuar uma transformação básica na vida social e que não contentasse com miseráveis remendos que afinal só viessem prolongar a crise, mas nunca sanar-lhe os efeitos. Nunca dantes se fizera tão claro, que condições sociais por si mesmas nada podem realizar, se dentro da própria conformação psicológica e espiritual dos homens não houver um impulso que dê asas ao seu anelo e lhes reúna as forças dispersas para a obra comum.

Porem os partidos socialistas e os sindicatos de trabalhadores por eles inspirados não somente falharam quando se tratou de efetuar uma transformação na sociedade, mas também logo se demonstraram indignos da herança da democracia burguesa ao abordarem ubíqua e indiferentemente direitos e liberdades já há muito conquistados, com o que fomentaram, bem que contra a sua vontade, o progresso da fascismo na Europa.

Na Itália, um dos mais renomados representantes do partido socialista italiano fez-se executor do golpe de estado fascista, e uma série inteira dos mais conhecidos chefes obreiros, com d'Aragona à frente, passaram de bandeiras despregadas para o lado de Mussolini.

Na Espanha, o partido socialista foi o único que fez paz com a ditadura de primo de Rivera, como mais tarde veio demonstrar-se o mais empedernido defensor dos interesses capitalistas, oferecendo voluntariamente seus serviços a toda nova restrição de direitos políticos.

Na Inglaterra, foi dado assistir o singular espetáculo de ambos os mais conhecidos e considerados chefes laboristas passarem repentinamente ao campo nacionalista, infligindo com tal atitude com o partido a que haviam pertencido durante decênios esmagadoras derrota eleitoral. Nessa oportunidade lançou-lhes Philip Snowden a admoestação de que “havia tomado em conta mais os interesses de classe que o bem da pátria”, afirmação que embora não correspondesse à verdade lhe era bem característica.

Na Alemanha, a Social-Democracia, juntamente com os sindicatos, apoiou com todas as suas forças a grande industria capitalista nos seus sábios ensaios de racionalização da economia, os quais foram consequências catastróficas para o operariado alemão, havendo, dado, assim, a essa classe supra reacionária, ensejo de refazer-se dos abalos acarretados pela guerra perdida. Até mesmo um suposto “partido revolucionário dos trabalhadores”, como o Partido Comunista da Alemanha fez próprias as senhas nacionalistas da nova reação, abrindo as velas ao vento do fascismo ameaçante através da mais desprezível negação de todos os princípios socialistas.

Poder-se-iam ajuntar a esses exemplos uma quantidade de outros, para mostrar que os representantes da grande maioria dos partidos socialistas organizados mal têm direito de acusar a burguesia por sua leviandade política ou por sua traição a antigos ideais. Os representantes do liberalismo e da democracia burguesa pelo menos demonstraram, ainda em suas conversões, pelo menos esforço por conservar as aparências, enquanto muito supostos defensores dos interesses proletários abandonaram não raramente seus antigos ideais com a mais desavergonhada naturalidade para acudir em auxilio do inimigo.

Toda uma série de políticos dirigentes da economia, sem haverem sido guiados por quaisquer considerações socialistas, já expressou sua convicção de que o sistema capitalista já deu o que tinha que dar, e que no lugar de uma desenfreada economia de lucro deve aparecer uma economia de necessidades norteada por princípios novos, cuja alternativa é o fim do velho mundo. Torna-se, entretanto, cada vez mais evidente que o Socialismo, como movimento, de modo algum preenche o lugar. A maior parte de seus representantes não passou de reformas superficiais e desperdiça seu tempo em lutas de facção tão fratricidas quanto perigosas, que por sua aberta intolerância recordam o comportamento nos quadros espiritualmente petrificados das Igrejas. Não é de admirar que hajam finalmente milhares de indivíduos duvidado do socialismo e ingressado nas ratoeiras do terceiro Reich.

Poder-se-ia objetar aqui que a própria necessidade da vida, também sem a colaboração dos socialistas, trabalha no sentido de uma mudança das atuais condições econômicas, pois uma crise sem saída não é, à larga, suportável. Não negamos isso. Tememos, todavia, que através da atitude do movimento obreiro socialista de nossos dias se venha verificar uma mudança econômica na qual os produtores não tenham absolutamente nada de opinar. Pô-lo-iam diante de fatos consumados, criados por outros para eles, de forma que, também no sucessivo, houvessem eles de conformar-se ao papel de coolies que sempre lhe foi concedido. Se não enganam todos os sinais, marchamos a passos de gigante para uma época de capitalismo de Estado que para os trabalhadores tomará a forma de um novo sistema de dependência, no qual o homem será valorizado somente como instrumento de produção, nele se extirpando por completo toda a liberdade pessoal.

Podem as condições econômicas, dentro de certas circunstâncias, tomar formas tão agudas que a mudança das condições sociais se transforme em necessidade vital. Releva perguntar que caminho tomará essa mudança. Será ela um escape para a liberdade ou apenas outra forma de escravidão, que garanta aos homens, é certo, uma miséria existente, mas que, por outro lado, lhe tire toda a liberdade de ação? Mas isso e somente isso importa. A conformação social do império Incaico assegurava a cada um de seus súditos o necessário, mas o país estava submetido a um despotismo ilimitado, que cruelmente castigava toda a resistência às suas ordens e resumia o indivíduo a instrumento sem vontade nas mãos do poder estatal.

Também o socialismo de estado poderia vir a ser uma saída para a presente crise, mas nunca, seguramente, um meio de libertação social. Pelo contrário, aliás, faria afundar aos homens num pantanal de vassalagem dentro do qual se tornaria irrisória toda a dignidade humana. Em toda a prisão, em toda caserna, há uma certa igualdade de condições sociais: cada um tem a mesma moradia, o mesmo rancho, a mesma vestimenta, presta o mesmo serviço ou executa a mesma quantidade de trabalho. Quem sustentaria, entretanto, serem em tais condições um fim digno de esforços?

Existe uma diferença entre serem os membros de uma sociedade donos dos próprio destino e cuidarem dos próprios interesses, no direito inalienável de participar da administração dos bens da comunidade, e não o serem eles mais que órgãos executivos de uma vontade sobre a qual não têm influencia alguma. Todo o soldado tem direito à mesma ração, mas não lhe cabe manifestar julgamentos próprios. Deve ele cegamente submeter-se às ordens de seus superiores, e, quando necessário, suprimir a voz da própria consciência, pois não passa de parte da máquina que outros põem em movimento.

Nenhuma tirania é mais insuportável que a de uma poderosa burocracia que se interponha em todas as atividades dos homens, nelas imprimindo seu selo. Quanto mais ilimitado se estende o poder do Estado na vida da sociedade, mais lhe paralisa as funções criadoras e a força da vontade pessoal. O capitalismo de Estado, todavia, esse perigoso polo oposto do socialismo, condiciona a entrega de todas as atividades sociais da vida ao Estado; é o triunfo da máquina sobre o espírito, a racionalização do pensamento e da ação e do sentimento nos quadros rígidos da autoridade e, por fim, a derrocada de toda a verdadeira cultura espiritual. O haver-se compreendido tão pouco até agora o alcance total dessa ameaçadora evolução, ou se haver conformado à crença no condicionamento inevitável do estado das relações econômicas merece ser justamente considerado como o sinal mais funesto de nossa época.

A perigosa mania de ver em todo o acontecimento social corolário inevitável da correlação da produção capitalista não conduziu a outra coisa, até agora, que o aninhamento na cabeça dos homens da ideia segundo a qual todo o fato social surge de determinadas necessidades e economicamente não transformável. Essa concepção fatalista só podia trazê-los à paralisação de sua força de resistência e à adaptação à condições vigentes, por piores que fossem.

Todo mundo sabe que as condições econômicas tem influência sobre a transformação de relações sociais muito mais importante é, todavia, a forma pela qual os homens reagem, pelo pensamento e pelas ações, a essa influência e que passos decidem tomar para dar caminho a uma transformação social tida como necessária. Precisamente o pensamento e a ação dos homens não recebem sua tonalidade consoante motivos puramente econômicos. Quem quereria sustentar, por exemplo, que o puritanismo, o qual influenciou poderosamente a evolução inteira dos povos anglo-saxões até os nossos dias, seja corolário forçoso da ordem econômica capitalista concebida em suas origens? E quem queria arrolar provas de que a primeira grande Guerra Mundial haja brotado, em todas as circunstâncias, do sistema de produção capitalista, e que por causa disso era inevitável?

Não cabe dúvida que nessa, como em todas as demais guerras, tiveram os interesses econômicos importante papel; não haveriam podido elas, entretanto, sozinhos, fazer desencadear a nefasta catástrofe. Pela mera exposição de aspirações econômicas concretas mal poderiam pôr em movimento as grandes massas. Assim, foi preciso convencê-las de que a causa pela qual haveriam de matar e morrer era “justa” e “certa”. Dessa forma, lutou-se, de um lado, “contra o despotismo russo”, “pela libertação da Polônia” e naturalmente, pelo “imperativo patriótico”, para cujo aniquilamento “os aliados se haviam conjurado”; e pelo outro lado bateu-se um pelo triunfo da democracia” e pelo “esmagamento do militarismo prussiano”, para que “essa guerra fosse a última”.

Poder-se-ia objetar que atrás de todas essas bolhas de sabão, com as quais se entreviram os povos durante quatro anos, estavam apesar de tudo, os interesses das classes possuidoras. Mas isso, em absoluto, não importa. O que há de decisivo é que sem esse apelo aos sentimentos éticos dos homens, aos seus sentimentos de justiça, não seria absolutamente possível uma guerra. A senha “Deus castigue a Inglaterra!” e o mote de “Guerra aos hunos!” causaram na primeira Guerra Mundial, maiores milagres que as simples exigências econômicas dos proprietários. As circunstâncias de que se seja necessário suscitar nos homens um certo estado de ânimo para levá-los à guerra, e a outras circunstâncias de que tal estado de ânimo só pode surgir pela intervenção de fatores psicológicos e morais, são prova disso.

Não nos foi dado experimentar que precisamente aqueles que manifestavam dia apôs dia e ano apôs ano ante as classes laboriosas que toda as guerras, na era do capitalismo, brotavam de causas puramente econômicas, lançaram pela borda, ao instalar a primeira guerra mundial, sua teoria histórico-filosófica, e puseram os interesses nacionais acima dos interesses de classe?e isso, aquela mesma gente que até ali vivia esgrimar com paixão marxista a frese do Manifesto Comunista: “A história de toda sociedade, até agora, não é mais que a história da luta de classes”.

Lenine e outros atribuíram a falência da maioria dos partidos socialistas, ao estalar a primeira grande guerra, ao medo de seus chefes ante à responsabilidade, neles havendo admoestado, com amargas palavras, a falta de coragem moral. Admitindo-se que uma boa parte de verdade dá fundamento a essa afirmação, ainda que, também nesse caso, revele-se cautelar-se contra generalizações, o que se prova com isso?

Se o medo da responsabilidade e a falta de coragem moral levaram realmente os mais socialistas a se manifestarem pelos interesses nacionalistas das respectivas pátrias, o que temos aí é mais uma prova da exatidão de nosso ponto de vista. Coragem e covardia não são determinados por formas vigentes de produção; eles tem suas raízes nos sentimentos psíquicos dos homens. Mas se qualidades puramente psíquicas puderam ter influência de tal modo arrebatadora sobre os chefes de um movimento de milhões, que os mesmos, antes sequer que o galo cantasse três vezes, renunciassem aos seus antigos ideais para se aliarem com os piores inimigos do movimento obreiro socialista, a fim de marchar contra o chamado inimigo hereditário, isso somente prova que as ações dos homens de modo algum se deixam explicar pelas condições econômicas, estando com relação a estas, não raro, na mais flagrante contradição. Cada época na história dá-nos mil e um testemunhos disso.

Mas também é manifesto erro conceber a guerra como resultado forçoso de interesses econômicos contrários. O capitalismo seria também perfeitamente concebível se os chamados “capitães da indústria mundial” se pusessem de bom acordo no tocante ao uso dos mercados e das fontes de matérias-primas, da mesma forma que os representantes dos diversos interesses econômicos se costumam unir sem procurar ajustar suas opiniões pela espada. Já existe hoje toda uma série de organismos internacionais de produção, nos quais os capitalistas das determinadas indústrias se reúnem, afim de estipular para cada país uma cota de seus produtos e, desse modo, regular a produção total de seu ramo econômico segundo acordos mútuos e princípios estabelecidos. Através de semelhante regulamentação, não perde o capitalismo nada de sua própria essência, seus privilégios permanecem ilesos; seu domínio sobre os exércitos de assalariados são inclusive fortalecidos sob tais ajustes.

Considerando puramente o lado econômico, não era assim a Guerra Mundial de todo ponto inevitável. O capitalismo encontraria saída também sem ela. Pode-se mesmo admitir que, se os dirigentes da ordem capitalista lhe houvessem previsto os resultados ela jamais haveria estalado.

Mas na guerra passada não foram somente motores de ordem econômica, todavia também considerações políticas de poder que tiveram papel relevante e afinal contribuíram para o desencadeamento da catástrofe. Após a derrocada de Portugal e Espanha coube a hegemonia europeia aos países baixos, à França e à Inglaterra, que logo se defrontaram como rivais. A Holanda perdeu rapidamente sua posição de guia havendo sua influência sobre a política europeia decaído progressivamente após a paz de Breda. Todavia a França perdeu grande parte de sua supremacia após a guerra dos sete anos, e não mais pode levantar-se, tanto menos quanto suas dificuldades financeiras se aguçaram cada vez mais e levaram o povo aquela opressão ímpar na história, da qual resultou a grande revolução. Napoleão envidou posteriormente espantosos esforços afim de recuperar para a França seu lugar perdido na Europa, ficando frustrados seus gigantescos esforços. A Inglaterra continuou sendo o inimigo mais irreconciliável de Napoleão e este muito bem reconheceu que seus planos de domínio mundial jamais se poderiam concretizar enquanto aquela “nação dos mercadores”, como ele desprezivelmente denominava a Inglaterra, não fosse submetida. Napoleão perdeu o jogo após haver a Inglaterra posto contra ele a Europa inteira, havendo desde então confirmado sucessivamente sua supremacia na Europa e no Mundo.

Contudo não é o Império Britânico um domínio comprimido como outros impérios anteriores a ele; suas possessões estão espalhadas por todas as cinco partes da Terra e a segurança dessas depende da posição de força que o Império Britânico defende na Europa. Cada ameaça a essa posição constitui ameaça às colônias, no ponto em que vem a talho sua possessão pela metrópole. Enquanto não vierem à luz as poderosas conformações das modernas grandes potências, com seus gigantescos exércitos e frotas, com sua burocracia, suas empresas capitalistas, suas indústrias altamente desenvolvidas, seus ajustes de comércio exterior, sua exportação e sua crescente necessidade de expansão permaneceu a posição de domínio de Império Britânico ilesa. Porém quanto mais forte se ia tornando o grande Estado capitalista do continente mais se foi sentido a Inglaterra ameaçada na sua posição de domínio. Cada tentativa de grande potência europeia no sentido de conquistar novos mercados e fontes de matéria-prima ou concertar ajustes comerciais com nações não europeias nos seus esforços de granjear para si o maior espaço possível para seus esforços de expansão devia, mais cedo ou mais tarde, acarretar algures um choque com esferas britânicas de interesse e ter como resultado a oposição oculta ou ostensiva da Inglaterra.

Por esses motivos devia a política exterior inglesa impedir antes de tudo que qualquer grande potência levantasse a cabeça na Europa, e, onde isso não se pudesse evitar, empregar toda sua sagacidade para jogar uma potência contra a outra. Assim, só pode ser a derrocada de Napoleão III ante os exércitos prussianos e a diplomacia de Bismarck bem vinda à Inglaterra, pois dessa forma foi a França enfraquecida por vários decênios. Mas a rápida e inesperada ascensão da Alemanha como estado industrial moderno, o soerguimento sistemáticos de suas forças militares, os inícios de sua política colonial e sobretudo a construção de sua frota e seus crescentes esforços de expansão, que fizeram cada vez mais incômodas para os ingleses na chamada “macha para Oeste”, havia levantado diante o império um perigo tal, que não podia deixar indiferentes aos seus representantes.

Que a diplomacia inglesa houvesse lançado mão indistintamente de todos os meios que pudessem fazer face a tal perigo não constitui nenhuma prova de que seus dirigentes fossem mais ladinos ou inescrupulosos que os diplomatas de outras nações. A monótona chapa de “pérfida Albion” é tão absurda quanto os reclamos em favor de uma “beligerância civilizada”. Se a diplomacia inglesa soube sobrepor-se à alemã e mostrou-se mais habilidosa que esta em seus malabarismos foi somente porque seus representantes dispunham de experiência muito mais fértil e, para sua sorte, os mais dos estadistas responsáveis da Alemanha desde Bismarck não passavam de lacaios sem vontade do poder imperial, dentre os quais nenhum teve coragem de se opor às perigosas andanças de um psicopata irresponsável e sua venal camarilha.

A raiz do mal não está implantado nem sequer em determinadas pessoas, mas na própria política de domínio, sem importar por quem seja movida ou que fins imediatos siga. A política de domínio é somente imaginável ante o emprego de todos os meios, por censuráveis que esses possam ser para as consciências individuais, e na medida que esses prometem compensação, correspondam à razão do Estado, e sejam propícias aos fins desta.

Maquiavel, que teve o valor de codificar sistematicamente os métodos de aspiração política do poder, fez-se já bem claro e conciso em seus Discorsi que: “quando está em jogo o bem da pátria não se deve recuar diante do certo e do errado, da piedade ou da crueldade, do louvor ou da censura. Não se deve retroceder diante de nada e sempre usar dos meios que salvem a vida da nação e conservem sua independência.”

Cada crime à serviço do Estado é para o homem de poder consumado um serviço meritório, desde que dê resultados. Pois o Estado está além do bem e do mal; ele é a providência divina cuja as decisões estão por sua profundidade tão acima da compreensão do súdito ordinário quanto para o crente está o destino que lhe é reservado pelo poder divino. Qual, segundo os teóricos eruditos das escrituras, deus, na sua incompreensível sabedoria, lança frequentemente mão dos meios mais cruéis e temíveis afim de amadurar aos seus desígnios, segundo os teóricos da teologia política não têm para o Estado nenhuma vigência os fundamentos da moral humana ordinária, quando releva aos seus dirigentes seguir determinados fins e pôr em jogo friamente a vida de milhões de indivíduos.

Quem como diplomata se deixa cair na armadilha alheia não tem por onde se queixar da perfídia e da falta de consciência do adversário, pois também surgiu por sua parte os mesmos fins e somente perdeu o jogo porque seu adversário soube desempenhar melhor o papel de providência. Quem crê não poder ir adiante sem a força organizada que se incorpora no Estado deve estar preparado para carregar sobre si todos os resultados dessa crença e para sacrificar o Moloch aquilo que de mais valioso possui: a própria personalidade.

Foram notoriamente as contradições políticas de domínio da mais fatal evolução dos grandes Estados capitalistas as que mais contribuíram para o rebentar da Guerra Mundial. Depois que os povos e especialmente as massas laboriosas dos diversos países demonstraram não ter, nem compreensão da seriedade da situação, nem valor moral para fazer oposição decidida às heranças subterrâneas dos diplomatas, militaristas e caçadores de lucros não houve mais força no mundo que pudesse opor um dique à catástrofe. Durante decênios permaneceu cada grande potência como enorme caserna diante das outras, armada até os dentes, até que um pavio fez rebentar o barril de pólvora. Não foi por que tudo tivesse de acontecer como aconteceu que o mundo deixou-se escorregar de olhos abertos pelo abismo abaixo, mas porque as grandes massas de cada país não tinha a menor ideia do perigoso jogo que lhe ia pelas costas. Deve-se a sua incompreensível descura, e acima de tudo à sua crença na superioridade infalível de seus governantes e chamados chefes espirituais, o haverem-na conduzido ao matadouro durante quatro anos como um rebanho sem vontade.

Mas tampouco a tênue camada das altas finanças e da grande industria, cujos dirigentes tão incontestavelmente contribuíram para o desencadeamento daquele dilúvio de sangue, foi dirigida suas ações exclusivamente por perspectivas de ganhos materiais. A ideia que fazem da cada capitalista, de ser ele exclusivamente órgão de lucro pode muito bem corresponder às conveniências da propaganda, mas é demasiado restrita e não corresponde à realidade.

Também no alto capitalismo moderno representam os interesses políticos de domínio papel mais relevante que pura aspirações econômicas, por difícil que seja separar um dos fatores do outro. Seus dirigentes travaram conhecimento com a volúpia do poder e saciam-na hoje com a mesma paixão que os grandes conquistadores dos tempos passados, quer se encontrem ao lado do inimigo e contra o próprio governo, como Hugo Stinnes e sua grei durante a crise monetária alemã, quer intervenha como fator de peso na política do país.

O desejo doentio de fazer genuflectir milhões de homens diante de uma vontade determinada de carrear impérios inteiros por caminhos dos alvitre de pequenas minorias alçou-se entre certos representantes típicos do capitalismo moderno com maior preponderância que puras motivações econômicas e perspectivas de vantagens materiais. Não é somente no desejo de amontoar bens cada vez mais consideráveis que residem hoje as demandas da alta oligarquia capitalista. Cada qual de seus dirigentes sabe do poder enorme que a possessão de grandes riquezas põe em suas mãos e nas da casta a que pertence. Tal reconhecimento encerra volúpia estonteante e dá lugar aquela típica mentalidade de mando, cujas consequências são por vezes mais nocivas que o próprio fato do monopolismo. É essa conformação psíquica do alta finança que condena toda oposição, e não tolera a seu lado nenhuma igualdade de direitos.

Nas grandes lutas entre capital e trabalho representa amiúde esse brutal espírito de mando papel mais decisivo que os próprios interesses econômicos imediatos. O pequeno empreiteiro dos velhos tempos tinha ainda certa relação com as massas laboriosas do povo, e podia arrolar ainda em maior ou menor grau certa compreensão de sua situação. A moderna aristocracia do dinheiro tem hoje em dia para as camadas inferiores da população relações nunca mais estreitas que aquelas reservadas entre o barão feudal do século dezoito e seus escravos econômicos. Ele conhece as massas somente como objeto coletivo de exploração em favor de seus interesses econômicos e políticos de domínio, e não tem, em geral, nenhuma compreensão das suas duras condições de vida. Daí sua impiedosa brutalidade, seu avassalamento depreciativo dos seres humanos e sua fria indiferença ao sofrimento de suas vítimas.

Sua posição social não opõe nenhuma barreiras ao apetite de poder do grande capitalista moderno. Pode ele intervir com egoísmo inescrupuloso e intrometer-se na vida de seus semelhantes e representar diante deles o papel de providência. Somente quando se levar em consideração esse impulso passional à influência política de domínio sobre o próprio povo e sobre nações estrangeiras haverá lugar para uma compreensão correta da própria psique do representante típico do alto capitalismo de nossos dias. É justamente esse aspecto que o faz tão perigoso para a formação social do futuro.

Não foi em vão que o capitalismo monopolista emprestou apoio à reação nazi-fascista. Esta ajudá-lo-ia esmagar qualquer resistência organizada do povo trabalhador afim de querer um reinado de servidão industrial no qual o homem que produz se conformasse o papel de automato da economia, sem qualquer influência sobre a formação de seu ambiente político e social. Esse cesarismo não conhece frenteiras; sobrepõem-se a todas as considerações das conquistas do passado que houveram de ser compradas a sangue humano e está preparado para reprimir brutalmente qualquer direito ou liberdade que possa perturbar suas esferas, afim de submeter toda a atividade social nas formas rígidas de sua vontade de poder. Que ele tenha aberto a conta sem o hóspede não foi deveras culpa sua.

E esse perigo de um atolamento total da vida econômica é tanto maior quando lança cabeças de ponte para uma completa escravização capitalista-estatal do povo, que através da cega mania da estatização, patrimônio hoje de vastas camadas do movimento socialista, é patrocinada em toda a linha. O exemplo da Rússia deu-nos nesse ponto visão panorâmica, a qual não pode ninguém que tenha alguma visão compreender. Bem disse, com bastante propriedade Proudhon: “O pior que poderia ocorrer ao socialismo seria uma aliança com o absolutismo político, o que só poderia conduzir à maior escravidão de todos os tempos”.

É esse o perigo que hoje em dia nos ameaça mais de perto, e de cuja a consumação ou não depende diretamente o futuro imediato da humanidade.

A Insuficiência do Materialismo Econômico em PDF


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