A Crítica da Separação

De Protopia
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Guy Debord

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(Transcrição das legendas)

Não sabemos o que dizer. Seqüências de palavras são repetidas, gestos são reconhecidos. Fora de nós. Claro que alguns métodos são controlados, alguns resultados são verificados. Muitas vezes é divertido. Mas muita coisa que queremos não é atingida, ou é apenas parcialmente e não como imaginamos. Que comunicação desejamos, a experimental, ou apenas um simulacro? Que real projeto perdemos?

O espetáculo cinematográfico tem suas regras, seus métodos seguros para produzir produtos satisfatórios. Mas a realidade que deve ser tomada como ponto de partida é o descontentamento. A função do cinema, seja dramático ou documental, é apresentar uma falsa e isolada coerência como substituto de uma comunicação e atividade que estão ausentes. Para desmistificar o cinema documental é necessário dissolver seu «assunto».

Uma regra bem estabelecida é que qualquer declaração em um filme que não seja ilustrada através de imagens deve ser repetida, ou então os espectadores a perderão. Isso pode ser verdade. Mas este mesmo tipo de comunicação errada acontece constantemente nos encontros cotidianos. Algo deve ser especificado, mas não há tempo suficiente, e você não está seguro se foi compreendido. Antes que você diga ou faça o que era necessário a outra pessoa já fez. Pela rua. No além mar. É tarde demais para qualquer retificação. Afinal de contas, o tempo livre, todos os momentos perdidos, permanecem eternamente engasgados nas paisagens dos cartões postais; aquela distância constituída entre cada um e todo mundo. Infância? Não importa aqui, porque? Se nunca saímos dela... Nossa era acumula poder e se imagina racional, mas ninguém reconhece este poder como seu próprio. Em parte alguma houve qualquer introdução à maturidade, às vezes o que acontece é que esta longa inquietude evolui para um sono rotineiro. Porque ninguém cessa de ser mantido sob tutela. A questão não é reconhecer que algumas pessoas vivem mais ou menos pobremente que outras, mas que todos nós vivemos de modos que estão fora de nosso controle. Ao mesmo tempo, é um mundo que nos ensinou como mudar as coisas. Nada fica o mesmo. O mundo a cada dua muda cada vez mais rápido; e eu não tenho nenhuma dúvida de que aqueles que o fazem diariamente para seu malefício pode se aproprias dele para seu próprio benefício.

A única aventura, como já dissemos, é a competição total, que é o centro deste modo de vida, onde podemos testar nossa força mas nunca podemos usá-la. Nenhuma aventura é criada diretamente por nós. As aventuras que nos são apresentadas fazem parte da massa de lendas transmitidas pelo cinema ou por outros meios; fazem parte da fraude espetacular total da história.

Até que o meio ambiente seja dominado coletivamente, não haverá nenhum indivíduo real -- apenas espectros assombrando objetos anarquicamente apresentados a eles por outros. Em situações eventuais conhecemos pessoas separadas movendo-se ao acaso. Suas emoções divergentes se neutralizam mutuamente e reforçam a solidez enfadonha de seu ambiente. Na medida em que não podemos fazer nossa própria história, criar situações livremente, nosso esforço pela unidade dará origem a outras separações. A busca de uma atividade unificada conduz a formação de nossas especializações.

E apenas alguns encontros foram como sinais emanados de uma vida mais intensa, uma vida que realmente não foi encontrada. O que não pode ser esquecido reaparece em sonhos. Ao término deste tipo de sonho, meio adormecido, os eventos ainda são por um breve momento tidos como reais. Então as reações que eles provocam tornam as coisas mais claras, mais distintas, mais razoáveis; como muitas madrugadas recordando o que você bebeu na noite anterior. Então vem a consciência de que é tudo falso, que «foi apenas um sonho», que novas realidades foram ilusórias e que você não pode alcançá-las novamente. Não há nada em que você possa segurar. Estes sonhos são centelhas do passado não resolvido, centelhas que iluminam momentos precisamente vividos em confusão e dúvida. Eles provem uma revelação cega de nossas necessidades não satisfeitas.

Aqui vemos a luz do dia, e as perspectivas de agora já não têm mais nenhum significado.

Os setores de uma cidade são até certo ponto decifráveis, mas o significado particular de cada um deles não representa nada para nós, é como o segredo da vida privada em geral, quando tudo que possuímos são desprezíveis documentos.

As notícias oficiais estão em toda parte, com suas frases vãs que não esperam resposta, e suas explanações arrogantes. E seus silêncios. A pobreza dos meios tende a revelar a escandalosa pobreza do tema abordado. Os eventos que acontecem em nossa existência individual, a maneira como são agora organizados, os eventos que realmente nos interessam e requerem nossa participação, geralmente não recebem mais do que nossa indiferença, como espectadores distantes e entediados. Em contraste, as situações relativas a trabalhos artísticos são frequentemente atraentes, são situações que provocam uma participação ativa. Este é um paradoxo a ser invertido e reposto de pé. Isto precisa ser colocado em prática.

Quanto a este espetáculo idiota do passado, filtrado e fragmentado, cheio de som e fúria, o que importa agora não é transformá-lo ou «adaptá-lo» em outra ordenação espetacular que bancaria o jogo esmerado de uma participação e compreensão ordenada. Não. Uma expressão artística coerente não expressa mais que coerência do passado, nada mais que passividade. É necessário destruir a memória da arte. Arruinar as convenções de sua comunicação. Desmoralizar seus fãs. Que tarefa! Como em uma vaga visão bêbada, a memória e a linguagem do filme desaparecem gradual e simultaneamente. A extrema, miserável subjetividade é revertida em um certo tipo de objetividade: uma documentação das condições da não comunicação.

Por exemplo, eu não sobre ela [uma jovem mulher é filmada]. Falsa face. Falsa relação. Uma pessoa real está desligada do intérprete daquele pessoa. Se considerarmos apenas o intervalo de tempo entre o evento e sua evocação, essa distância aumenta continuamente, essa distância aumenta neste exato momento. São como que expressões residuais cristalizadas, alheias àqueles que as ouvem, abstratas, sem qualquer poder sobre elas. O espetáculo como um todo em nada difere desta era, uma era que certos jovens conhecem por si mesmos. O espetáculo estabelece um vácuo entre a imagem e suas consequências; um vácuo entre visões, gostos, recusas, projetos, coisas que dão um caráter prévio a esta mocidade e ao caminho escolhido para a melhora na vida ordinária.

Não inventamos nada. Nós adaptamos, com algumas variações, na rede de possíveis itinerários. Nos acostumamos a isto, parece.

Ninguém volta de um empreendimento com o mesmo ardor que teve ao partir. Bons companheiros, a aventura está morta.

"A videira da vida está bêbada; nesta boate pretensiosa permanece apenas o refugo"

Quem resistirá? É necessário ir além desta derrota parcial. Claro. E como fazer isto?

Este é um filme que se interrompe e não se acaba. Todas as conclusões continuam sendo esboçadas; tudo tem que ser recalculado. O problema continua sendo analisado -- em condições continuamente mais complicadas. Temos que recorrer a outras medidas. Da mesma maneira que não houve nenhuma razão profunda para recomeçar esta mensagem informe, também não há nenhuma para concluí-la. Apenas comecei a fazê-lo compreender que não pretendo jogar o jogo.


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