Mudanças entre as edições de "Um FAQ Anarquista – Seção A.2.17"

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E claro, não é nenhuma surpresa que aqueles que acreditam em elites "natuais" sempre se colocam no topo da hierarquia. Nós ainda estamos buscando por um "objetivista", por exemplo, que se considere parte de uma grande massa de pessoas comuns (é sempre divertido ouvir pessoas que simplesmente papagaiam as idéias de Ayn Rand repudiando que outros o façam também!) ou quem será o limpador de banheiros no desconhecido "ideal" ou "real" capitalismo. Todos que lêem um texto elitista irão se considerar parte dos "poucos selecionados". É "natural" em uma sociedade elitista, se considerar a elite como natural e você como um potencial membro da elite!
 
E claro, não é nenhuma surpresa que aqueles que acreditam em elites "natuais" sempre se colocam no topo da hierarquia. Nós ainda estamos buscando por um "objetivista", por exemplo, que se considere parte de uma grande massa de pessoas comuns (é sempre divertido ouvir pessoas que simplesmente papagaiam as idéias de Ayn Rand repudiando que outros o façam também!) ou quem será o limpador de banheiros no desconhecido "ideal" ou "real" capitalismo. Todos que lêem um texto elitista irão se considerar parte dos "poucos selecionados". É "natural" em uma sociedade elitista, se considerar a elite como natural e você como um potencial membro da elite!
  
O estudo da história mostra que existe uma ideologia elitista básica que sempre foi essencial para a racionalização de todos os modelos de classes dominantes, desde a sua emergência, no começo da Idade do Bronze ("se o legado de dominação teve um propósito mais amplo que o apoio a interesses hierárquicos e de classe, foi a tentativa de exorcizar a crença na competência pública a partir do próprio discurso social." [Bookchin, '''The Ecology of Freedom''', p.206]). A ideologia simplesmente muda de casca, mas não muda seu conteúdo com o avançar do tempo.
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O estudo da história mostra que existe uma ideologia elitista básica que sempre foi essencial para a racionalização de todos os modelos de classes dominantes, desde a sua emergência, no começo da Idade do Bronze (''"se o legado de dominação teve um propósito mais amplo que o apoio a interesses hierárquicos e de classe, foi a tentativa de exorcizar a crença na competência pública a partir do próprio discurso social."'' [Bookchin, '''The Ecology of Freedom''', p.206]). A ideologia simplesmente muda de casca, mas não muda seu conteúdo com o avançar do tempo.
  
 
Durante a Idade Média, por exemplo, se fantasiou de Cristianismo, sendo adaptada às necessidades da hierarquia da igreja. O mais útil dogma "revelado divinamente"  para a elite clériga foi o "pecado original": a idéia de que seres humanos são basicamente criaturas depravadas e incompetentes que precisam ser guiadas por "direções vindas do além", com os padres convenientemente definidos como os mediadores entre os humanos comuns e "Deus". A ideia de que pessoas comuns são estúpidas  e incapazes de se auto-governar é carregada por essa doutrina, uma relíquia da Idade Média.
 
Durante a Idade Média, por exemplo, se fantasiou de Cristianismo, sendo adaptada às necessidades da hierarquia da igreja. O mais útil dogma "revelado divinamente"  para a elite clériga foi o "pecado original": a idéia de que seres humanos são basicamente criaturas depravadas e incompetentes que precisam ser guiadas por "direções vindas do além", com os padres convenientemente definidos como os mediadores entre os humanos comuns e "Deus". A ideia de que pessoas comuns são estúpidas  e incapazes de se auto-governar é carregada por essa doutrina, uma relíquia da Idade Média.
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::''"Você é o que você faz. Se você faz um trabalho chato, estúpido e monótono, as chances são que você se torne chato, estúpido e monótono. O trabalho é uma explicação muito melhor dessa cretinização rasteira à nossa volta, até mais do que mecanismos moronizantes signifcativos como a televião e a educação. Pessoas que são disciplinadas a vida toda, entregues ao trabalho pela escola, categorizados pela família desde o começo e deixados no lar de idosos no final, estão habituadas a hierarquia e são psicologicamente escravizadas. A aptitude dessas pessoas por autonomia está tão atrofiada que seu medo de liberdade está entre as poucas fobias enraizadas. Seu treino de obediência no trabalho é carregado para dentro das famílias que começaram, assim reproduzindo o sistema em mais de um jeito, na política, cultura e tudo mais. Uma vez que a vitalidade das pessoas está drenada pelo trabalho, elas provavelmente se submeterão à hierarquia e serão especialistas nisso. Elas estão acostumadas."'' ['''The Abolition of Work and other essays, pp.21-2]
 
::''"Você é o que você faz. Se você faz um trabalho chato, estúpido e monótono, as chances são que você se torne chato, estúpido e monótono. O trabalho é uma explicação muito melhor dessa cretinização rasteira à nossa volta, até mais do que mecanismos moronizantes signifcativos como a televião e a educação. Pessoas que são disciplinadas a vida toda, entregues ao trabalho pela escola, categorizados pela família desde o começo e deixados no lar de idosos no final, estão habituadas a hierarquia e são psicologicamente escravizadas. A aptitude dessas pessoas por autonomia está tão atrofiada que seu medo de liberdade está entre as poucas fobias enraizadas. Seu treino de obediência no trabalho é carregado para dentro das famílias que começaram, assim reproduzindo o sistema em mais de um jeito, na política, cultura e tudo mais. Uma vez que a vitalidade das pessoas está drenada pelo trabalho, elas provavelmente se submeterão à hierarquia e serão especialistas nisso. Elas estão acostumadas."'' ['''The Abolition of Work and other essays, pp.21-2]
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Quando elitistas tentam conceber liberdade, eles só conseguem pensar nela '''dada''' para os oprimidos pelas elites gentis (para os Leninistas) ou estúpidas (para os Objetivistas). É previsível, então, que eles falham. Somente a auto-libertação pode produzir uma sociedade livre. Os efeitos esmagadores e distorcidos da autoridade só podem ser superados pela atividade organizada. Os poucos exemplos como a auto-libertação provam que a maioria das pessoas, uma vez consideradas incapazes de ter liberdade por outrem, estão mais que à altura para a tarefa.
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Aqueles que proclamam sua superioridade constantemente, o fazem por medo que sua autoridade e poder sejam destruídos, uma vez que as pessoas se libertem das mão debilitantes da autoridade e percebam que, nas palavras de Max Stirner, "os grandes só são grandes porque estamos de joelhos. Levantemos."
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Como Emma Goldman comenta sobre a igualdade das mulheres, ''"[as] conquistas extraordinárias das mulheres em todas as esferas da vida silenciaram para sempre a conversa fiada da inferioridade das mulheres. Aqueles que ainda se apegam a esse fetiche o fazem porque não há nada que odeiem mais do que ter sua autoridade desafiada. Essa é a característica da autoridade, seja do mestre sobre seus escravos econômicos ou dos homens sobre as mulheres. No entanto, em todo lugar onde as mulheres estão se libertando de suas prisões, elas seguem em frente com livres, largos passos."'' ['''Visions on Fire''', p.256]. Os mesmos comentários se aplicam, por exemplo, ao grande sucesso do experimento da auto-gestão dos trabalhadores durante a Revolução Espanhola.
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Então, é óbvio, que a idéia que pessoas são muito estúpidas para que o anarquismo funcione, também engloba pessoas que argumentam isso. Pegue como exemplo aqueles que usam seus argumentos para advogar em favor do estado democrático ao invés da anarquia. Democracia, como Luigi Galleani notou, significa ''"reconhecer o direito e a competência das pessoas para escolherem suas próprias regras."'' No entanto, ''"qualquer um que têm a competência política de escolher seus próprios direitos, por implicação, também é competente para viver sem eles, especialmente quando as causas das inimizades econômicas são arrancadas."'' ['''The End of Anarchism?''', p.37] Assim, o argumento pela democracia contra o anarquismo mina a si mesmo, pois ''"se você considerar esses valiosos eleitores como inaptos a cuidar de seus interesses por si mesmos, como eles podem saber escolher entre eles o pastor que irá guiá-los? E como eles serão capazes de resolver esse problema de alquimia social, de produzir a eleição de um gênio a partir dos votos de uma grande massa de tolos?"'' [Malatesta,'''Anarchy''', pp.53-4]
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Quanto àqueles que consideram a ditadura como a solução para a estupidez humana, se levanta a questão de por que os ditadores aparentemente são imunes aos defeitos universais dos seres humanos? E, como Malatesta escreveu, ''"quem é melhor? E quem vai reconhecer as qualidades nele?"'' ['''Op. Cit.''', p.53] Se eles emergem da massa estúpida, por que acreditar que eles não irão oprimir os muitos outros em benefício próprio? Ou, nesse quesito, que eles são de qualquer forma mais inteligentes do que a massa? A história de governos ditatoriais e monárquicos sugere uma resposta clara a essas questões. Um argumento similar se aplica para outros sistemas não-democráticos, como aqueles baseados no sufrágio limitado. Por exemplo, o ideal de estado Lockeano (isto é, liberal clássico ou libertário de direita) baseado na lei dos donos da propriedade privada está destinado a ser pouco mais que um regime que oprime a maioria em detrimento de manter o poder e o privilégio dos poucos ricos. Similarmente, a ideia de que uma proximidade da estupidez universal barra uma elite capitalista (a visão objetivista) implica em um sistema de algum modo menos ideal do que o sistema perfeito apresentado na literatura. Isso ocorre porque a maioria das pessoas iria tolerar chefes opressores que as tratam como meios para o fim, ao invés do fim em si. Então como você espera que as pessoas reconheçam e persiguam seus próprios interesses se você as considera fundamentalmente como uma ''"horda descivilizada"''? Você não pode ter as duas coisas e o ''"ideal desconhecido"'' do capitalismo puro seria tão sujo, opressivo e alienante quanto o capitalismo ''"existente"''.
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Desse modo, anarquistas estão firmemente convictos de que argumentos contra a anarquia baseados na falta de habilidade das massas de pessoas são inerentementes contraditórios. Se o povo é muito burro para o anarquismo então eles são muito burros para qualquer sistema que você se importe em mencionar. Por último, anarquistas argumentam que essa perspectiva simplesmente reflete a mentalidade servil produzida por uma sociedade hierárquica ao invés de uma análise genuína da humanidade e da nossa história como espécie. Para citar Rousseau:
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::''"quando vejo multidões de selvagens totalmente nus desprezando a voluptuosidade européia e suportando a fome, o fogo, a espada e a morte para preservar apenas sua independência, sinto que não cabe aos escravos refletir sobre a liberdade."'' [citado por Noam Chomsky, '''Marxism, Anarchism, and Anternative Futures''', p. 780]

Edição atual tal como às 02h36min de 26 de março de 2020

Seção A.2.17 - A maioria das pessoas não é muito burra para que uma sociedade livre funcione?

Nós sentimos muito por ter que incluir essa pergunta no FAQ anarquista, porém sabemos que muitas idelogias políticas assumem explicitamente que pessoas comuns são muito estúpidas para serem capazes de cuidar da própira vida e organizar uma sociedade. Em todos todos os aspectos da agenda política capitalista, tanto na Esquerda quanto na Direita, existem pessoas que fazem esse tipo de aifrmação. Sejam Leninistas, fascistas, Fabianos ou Objetivistas, é previamente assumido que somente algumas pessoas selecionadas são criativas e inteligentes, e essas pessoas devem governar outros. Geralmente, esse elitismo é mascarado por uma bonita e floreada retórica sobre "liberdade", "democracia" e outras banalidades onde essas ideologias se apoiam, para tentar amançar o pensamento crítico das pessoas dizendo o que elas querem ouvir.

E claro, não é nenhuma surpresa que aqueles que acreditam em elites "natuais" sempre se colocam no topo da hierarquia. Nós ainda estamos buscando por um "objetivista", por exemplo, que se considere parte de uma grande massa de pessoas comuns (é sempre divertido ouvir pessoas que simplesmente papagaiam as idéias de Ayn Rand repudiando que outros o façam também!) ou quem será o limpador de banheiros no desconhecido "ideal" ou "real" capitalismo. Todos que lêem um texto elitista irão se considerar parte dos "poucos selecionados". É "natural" em uma sociedade elitista, se considerar a elite como natural e você como um potencial membro da elite!

O estudo da história mostra que existe uma ideologia elitista básica que sempre foi essencial para a racionalização de todos os modelos de classes dominantes, desde a sua emergência, no começo da Idade do Bronze ("se o legado de dominação teve um propósito mais amplo que o apoio a interesses hierárquicos e de classe, foi a tentativa de exorcizar a crença na competência pública a partir do próprio discurso social." [Bookchin, The Ecology of Freedom, p.206]). A ideologia simplesmente muda de casca, mas não muda seu conteúdo com o avançar do tempo.

Durante a Idade Média, por exemplo, se fantasiou de Cristianismo, sendo adaptada às necessidades da hierarquia da igreja. O mais útil dogma "revelado divinamente" para a elite clériga foi o "pecado original": a idéia de que seres humanos são basicamente criaturas depravadas e incompetentes que precisam ser guiadas por "direções vindas do além", com os padres convenientemente definidos como os mediadores entre os humanos comuns e "Deus". A ideia de que pessoas comuns são estúpidas e incapazes de se auto-governar é carregada por essa doutrina, uma relíquia da Idade Média.

Em resposta a todos aqueles que afirmam que a maioria das pessoas é "gado" ou que não conseguem desenvolver nada além de "consciência sindical", tudo o que podemos dizer é que é um absurdo que não sem mantém nem a um olhar superficial à história, principalmente relativo ao movimento dos trabalhadores. O poder de criação daqueles lutando por liberdade é, com frequência, muito impressionante, e se esse poder intelectual e inspiracional não é visto na sociedade "normal", essa é a acusação mais clara dos efeitos insensibilizadores da hierarquia e da conformidade produzida pela autoridade. (Veja também a seção B.1 para mais efeitos dessa hierarquia). Como Bob Black pontuou:

"Você é o que você faz. Se você faz um trabalho chato, estúpido e monótono, as chances são que você se torne chato, estúpido e monótono. O trabalho é uma explicação muito melhor dessa cretinização rasteira à nossa volta, até mais do que mecanismos moronizantes signifcativos como a televião e a educação. Pessoas que são disciplinadas a vida toda, entregues ao trabalho pela escola, categorizados pela família desde o começo e deixados no lar de idosos no final, estão habituadas a hierarquia e são psicologicamente escravizadas. A aptitude dessas pessoas por autonomia está tão atrofiada que seu medo de liberdade está entre as poucas fobias enraizadas. Seu treino de obediência no trabalho é carregado para dentro das famílias que começaram, assim reproduzindo o sistema em mais de um jeito, na política, cultura e tudo mais. Uma vez que a vitalidade das pessoas está drenada pelo trabalho, elas provavelmente se submeterão à hierarquia e serão especialistas nisso. Elas estão acostumadas." [The Abolition of Work and other essays, pp.21-2]

Quando elitistas tentam conceber liberdade, eles só conseguem pensar nela dada para os oprimidos pelas elites gentis (para os Leninistas) ou estúpidas (para os Objetivistas). É previsível, então, que eles falham. Somente a auto-libertação pode produzir uma sociedade livre. Os efeitos esmagadores e distorcidos da autoridade só podem ser superados pela atividade organizada. Os poucos exemplos como a auto-libertação provam que a maioria das pessoas, uma vez consideradas incapazes de ter liberdade por outrem, estão mais que à altura para a tarefa.

Aqueles que proclamam sua superioridade constantemente, o fazem por medo que sua autoridade e poder sejam destruídos, uma vez que as pessoas se libertem das mão debilitantes da autoridade e percebam que, nas palavras de Max Stirner, "os grandes só são grandes porque estamos de joelhos. Levantemos."

Como Emma Goldman comenta sobre a igualdade das mulheres, "[as] conquistas extraordinárias das mulheres em todas as esferas da vida silenciaram para sempre a conversa fiada da inferioridade das mulheres. Aqueles que ainda se apegam a esse fetiche o fazem porque não há nada que odeiem mais do que ter sua autoridade desafiada. Essa é a característica da autoridade, seja do mestre sobre seus escravos econômicos ou dos homens sobre as mulheres. No entanto, em todo lugar onde as mulheres estão se libertando de suas prisões, elas seguem em frente com livres, largos passos." [Visions on Fire, p.256]. Os mesmos comentários se aplicam, por exemplo, ao grande sucesso do experimento da auto-gestão dos trabalhadores durante a Revolução Espanhola.

Então, é óbvio, que a idéia que pessoas são muito estúpidas para que o anarquismo funcione, também engloba pessoas que argumentam isso. Pegue como exemplo aqueles que usam seus argumentos para advogar em favor do estado democrático ao invés da anarquia. Democracia, como Luigi Galleani notou, significa "reconhecer o direito e a competência das pessoas para escolherem suas próprias regras." No entanto, "qualquer um que têm a competência política de escolher seus próprios direitos, por implicação, também é competente para viver sem eles, especialmente quando as causas das inimizades econômicas são arrancadas." [The End of Anarchism?, p.37] Assim, o argumento pela democracia contra o anarquismo mina a si mesmo, pois "se você considerar esses valiosos eleitores como inaptos a cuidar de seus interesses por si mesmos, como eles podem saber escolher entre eles o pastor que irá guiá-los? E como eles serão capazes de resolver esse problema de alquimia social, de produzir a eleição de um gênio a partir dos votos de uma grande massa de tolos?" [Malatesta,Anarchy, pp.53-4]

Quanto àqueles que consideram a ditadura como a solução para a estupidez humana, se levanta a questão de por que os ditadores aparentemente são imunes aos defeitos universais dos seres humanos? E, como Malatesta escreveu, "quem é melhor? E quem vai reconhecer as qualidades nele?" [Op. Cit., p.53] Se eles emergem da massa estúpida, por que acreditar que eles não irão oprimir os muitos outros em benefício próprio? Ou, nesse quesito, que eles são de qualquer forma mais inteligentes do que a massa? A história de governos ditatoriais e monárquicos sugere uma resposta clara a essas questões. Um argumento similar se aplica para outros sistemas não-democráticos, como aqueles baseados no sufrágio limitado. Por exemplo, o ideal de estado Lockeano (isto é, liberal clássico ou libertário de direita) baseado na lei dos donos da propriedade privada está destinado a ser pouco mais que um regime que oprime a maioria em detrimento de manter o poder e o privilégio dos poucos ricos. Similarmente, a ideia de que uma proximidade da estupidez universal barra uma elite capitalista (a visão objetivista) implica em um sistema de algum modo menos ideal do que o sistema perfeito apresentado na literatura. Isso ocorre porque a maioria das pessoas iria tolerar chefes opressores que as tratam como meios para o fim, ao invés do fim em si. Então como você espera que as pessoas reconheçam e persiguam seus próprios interesses se você as considera fundamentalmente como uma "horda descivilizada"? Você não pode ter as duas coisas e o "ideal desconhecido" do capitalismo puro seria tão sujo, opressivo e alienante quanto o capitalismo "existente".

Desse modo, anarquistas estão firmemente convictos de que argumentos contra a anarquia baseados na falta de habilidade das massas de pessoas são inerentementes contraditórios. Se o povo é muito burro para o anarquismo então eles são muito burros para qualquer sistema que você se importe em mencionar. Por último, anarquistas argumentam que essa perspectiva simplesmente reflete a mentalidade servil produzida por uma sociedade hierárquica ao invés de uma análise genuína da humanidade e da nossa história como espécie. Para citar Rousseau:

"quando vejo multidões de selvagens totalmente nus desprezando a voluptuosidade européia e suportando a fome, o fogo, a espada e a morte para preservar apenas sua independência, sinto que não cabe aos escravos refletir sobre a liberdade." [citado por Noam Chomsky, Marxism, Anarchism, and Anternative Futures, p. 780]