Sociedades matriarcais e liberdade sexual, machismo e repressão sexual – Evolução e involução humana

De Protopia
Revisão de 02h43min de 13 de abril de 2011 por Neomedes (discussão | contribs)
(dif) ← Edição anterior | Revisão atual (dif) | Versão posterior → (dif)
Ir para: navegação, pesquisa
Fábio Veronesi


O machismo é uma práxis das sociedades patriarcais. Há muito tempo as sociedades patriarcais se perpetuam. É preciso lembrar que nem sempre foi assim.

Diversos trabalhos de pesquisa científica, como o clássico A origem da família, da propriedade privada e do estado de Friedrich Engels ou o contemporâneo Um é o outro de Elisabeth Badinter, apontam que durante muito tempo na história das civilizações humanas as sociedades foram de base matriarcal.

No início do século passado, o antropólogo Bronislaw Malinowski apresentou à comunidade científica européia a famosa obra A vida sexual dos selvagens – um profundo trabalho de pesquisa sobre os hábitos e costumes da sociedade dos nativos moradores das Ilhas Trobriand, no Atlântico Norte – uma das últimas sociedades que permaneceram imunes ao processo histórico de patriarcalização das antigas culturas matriarcais.

Segundo esse autor, o que mais chamava a atenção na sociedade dos trobriandeses era o fato de não haver repressão à sexualidade natural das crianças e dos jovens, no processo que chamamos de educação, aculturamento ou adaptação ao meio social.

Cabe notar que isso não significa que os adultos não se casassem ou mesmo que tivessem dificuldades em estabelecer relações de fidelidade monogâmica. Pelo contrário, o adultério era crime sério entre os trobriandeses. Porém, nenhum adulto restringia o interesse entre jovens e sua livre relação sexual até que esses decidissem se casar com alguém.

Também é interessante notar que essa liberdade sexual não significa que na sociedade trobriandesa ocorressem orgias públicas nas aldeias e todos fizessem sexo com todos, a todo momento, em todos os lugares. Existiam rituais que estabeleciam os momentos e lugares para que os casais pudessem viver livremente sua sexualidade. Eram parecidos com os chamados piqueniques da cultura ocidental, com a diferença de que não se levava a comida da aldeia. Enquanto os casais estivessem na mata, só podiam comer o que a natureza oferecia.

A sociedade trobriandesa é de base matriarcal. As famílias trobriandesas se estabelecem a partir da figura da mulher que é a dona da casa na qual moram seus filhos e seus parentes – pai, mãe e irmãos. A mulher é quem gerencia a criação e educação dos filhos. Para auxiliá-la conta com duas importantes figuras: o tio e o pai – seu irmão e seu marido. Ao tio cabe ajudá-la na educação, ensinar seus filhos a respeitar sua família. Ao pai cabe ajudá-la na criação das crianças.

Esse auxílio do marido é uma troca, uma forma de pagamento, com que o homem casado retribui os favores sexuais que sua mulher lhe faz. É preciso entender perfeitamente essa retribuição que o homem trobriandes dá à mulher com que se relaciona sexualmente. Esse é um costume de valorização da mulher, que não deve ser confundido com a prostituição que ocorre nas sociedades patriarcais, nas quais algumas mulheres cobram pelos seus “serviços sexuais”. Nenhuma mulher trobriandesa se relaciona sexualmente por obrigação ou visando lucro. Esse hábito acontece desde cedo na vida dos trobriandeses. O menino presenteia a menina por quem se interessa com flores e objetos da natureza. Com mais idade, fabrica brincos e colares para ela ou lhe dá castanhas. O jovem solteiro aprende que precisa saber bem presentear as moças com quem se relaciona sexualmente para não correr o risco de ficar sem mulheres por ter fama de mesquinho entre elas. O namorado presenteia constantemente sua namorada para conquistá-la. Já o noivo dá presentes de maior valor e com menor frequência. Finalmente, o marido é aquele que pode cuidar dos filhos em retribuição ao que a mulher lhe dá.

A educação das crianças fica a cargo do tio – irmão da mãe. A figura do tio nas famílias funciona como uma espécie de conselheiro da matriarca. Nesse ponto cria-se uma sociedade totalmente distinta quanto à resolução do que chamamos de “Complexo de Édipo”.

O Complexo de Édipo é pilar na construção do entendimento sobre a psicologia humana. Ele trata da castração inerente ao humano associada ao Tabu do Incesto. Apesar do Incesto e do Édipo estarem intrinsecamente ligados, cabe perceber que o Incesto trata de uma relação a dois e o Édipo de uma relação a três. Outra forma de dizer isso é: o Incesto trata de uma relação linear e o Édipo de uma relação triangular.

Os trobriandeses criam um quadro tão diverso em relação às sociedades patriarcais que não mais poderíamos chamar a resolução da castração do Incesto de “Complexo de Édipo”. Há dois pontos de destaque nessa diferenciação: primeiro, a figura do tio estabelece uma relação quadrangular e, segundo, o filho tem muitas outras pessoas para direcionar sua libido, além da mãe. Isso funda outro ramo de possibilidade para estruturação psíquica dos seres humanos.

Aprofundando um pouco a análise desse segundo ponto (e distinguindo sexualidade de genitalidade) – se pararmos para reparar na criação de nossas sociedades patriarcais, perceberemos que os filhos são confinados e obrigados a se relacionar quase exclusivamente com a mãe no que se refere a sua sexualidade. É com a mãe que se esfregam, acariciam, beijam, abraçam, dormem juntos, sentam no colo, agarram nas pernas, etc., etc., etc. Essa relação libidinal que se estabelece entre mãe e filho por necessidade biológica, ou seja, pela geração e pelo seio, tende a se perpetuar em nossas sociedades patriarcais principalmente porque a criança é podada na expressão de sua sexualidade com outras pessoas que não sejam a mãe.

Estabelecida e perpetuada tal dependência afetiva em relação à mãe, a figura do pai surge como a daquele que nos “rouba” o bem mais precioso. Acresce ao quadro o fato da mãe querer estar com o pai longe do filho. Ela vai voluntariamente, faz cara de que está gostando de nos abandonar, vai fazer algo que a atrai mais do que nos dar atenção. Todas essas mazelas presentes nas relações triangulares (ou seria “traingulares”?) entre filhos, mães e pais das sociedades patriarcias, simplesmente não existiam na sociedade matriarcal trobriandesa. Então não há sentido em se falar em “Complexo de Édipo” numa análise psicológica das sociedades matriarcais. Apesar de existir o Tabu do Incesto, a resolução dos conflitos por ele ocasionado é completamente outra. Na estrutura familiar das sociedades patriarcais o filho necessariamente disputa com o pai, pois está restrito à mãe como sua principal fonte de troca afetiva. Nas sociedade matriarcais o filho direciona a libido para diversas pessoas além da mãe.

Na análise do segundo ponto cabe perceber que, na sociedade trobriandesa, na casa onde mora o filho, o pai é visita. Para criança, a principal figura masculina responsável por sua educação é o tio, irmão de sua mãe, que também está restrito pelo Tabu do Incesto na relação com ela. Isso os torna iguais nesse ponto central do conflito entre cultura e desejo sexual. No chamado conflito edipiano, a diferença entre pai e filho sobre conter seus desejos sexuais pela mulher com quem convivem cotidianamente é inversa. Na sociedade trobriandesa o pai não tem poder de decisão sobre a educação de seus filhos, como tem os pais de nossas sociedades patriarcais. A palavra do tio, irmão da mãe, vale tanto quanto ou mais que a do pai.

Buscando pesquisar algo desse ramo diverso de estruturação para psique humana que surge a partir da perspectiva de organização social e processo de educação trobriandês, o que se precisa ressaltar, sobre o que relatou Malinowski daquela que foi provavelmente a última sociedade matriarcal, é que a falta de repressão sobre a sexualidade espontânea das crianças resulta numa sociedade onde não existem taras sexuais, pedofilia, estupros e também não existem instituições como hospícios, prisões, orfanatos, asilos ou manicômios, simplesmente porque não são necessárias. É preciso que esse quadro seja comparado à realidade de nossas sociedades patriarcais onde tudo isso é epidêmico.

Infelizmente a sociedade dos trobriandeses, conforme a conheceu Malinowski no fim do séc. XIX, já não existe mais. O contato com as sociedades patriarcais transformou em prostituição o que antes era uma forma de valorizar a mulher em meio a uma sociedade sem repressão sexual.

Esse fato revela o fim de um longo processo de modificação e sobreposição das sociedades matriarcais pelas patriarcais imposta pela violência dos homens, que vem ocorrendo há séculos. Um exemplo clássico disso foi a caça às bruxas na Idade Média.

Hoje esse poder se impõe de forma “mais democrática” através do dinheiro, mas tudo indica que essa festa promovida pelo poder de consumo sempre crescente logo vai acabar.

O eixo central da idéia que buscamos estabelecer é que nesse processo de patriarcalização das sociedades matriarcais entramos na contramão daquilo que nos humanizou. Para estabelecer essa idéia, façamos um mergulho antropológico:

Em busca de respostas às questões centrais da Filosofia (O que é a Humanidade? Quem é o Ser Humano? Quem sou Eu?), há um ponto fundamental em que todos se debruçam – o momento na história de nossa evolução, ainda hoje chamado de “elo perdido”, em que primatas de grande porte se “humanizaram”.

Os fósseis comprovam que diversos tipos de humanóides habitaram a Terra. É incrível lembrarmos que até 40 mil anos, humanos e neandhertais conviviam onde hoje é Europa. Duas formas humanóides ocupando mesmos espaços. Até pouco tempo acreditava-se que nós – humanos – é que havíamos acabado com os neandhertais. Descobriu-se recentemente que a provável causa do fim dos neandhertais não foi a guerra com humanos, mas sim a escassez de proteína, a falta de caça ocasionada pela era glacial. O homo sapiens sobreviveu por ser menor que os neandhertais e, dessa forma, precisar de menos comida. Outra coisa interessante recentemente descoberta sobre os neandhertais é que eles usavam adereços e maquiagem.

Retornando ao foco da questão: como grandes primatas símios como chimpanzés e gorilas transformaram-se em primatas “humanóides” como nós? Lembrando-se que mutações genéticas promovem mudanças culturais e mudanças culturais provocam mutações genéticas, há que se evocar dois pensadores à luz dos quais é interessante analisar essa questão: Freud e Maturana.

Em primeiro lugar, deve-se observar que a cultura que determina a base organizacional até hoje presente nas sociedades dos grandes primatas é centrada na luta dos machos para garantir as necessidades de sobrevivência e procriação, ou seja, os machos lutam (até a morte se preciso) para conquistar um território de onde retiram seu alimento e para garantir para si um certo número de fêmeas. Reproduzem-se, então, os mais fortes. Essa forma de organização é também a base das sociedades de muitos outros mamíferos – lobos, ursos, leões, alces, etc. Este que chamamos de “macho-chefe” é também designado em algumas literaturas como “macho alfa”.

No caso dos grandes primatas como os gorilas, o macho que se estabelece como grande vencedor admite a permanência de outros machos em seu território. É fato que quando o “macho-chefe” dorme, os outros machos aproveitam para ficar com as fêmeas. Mas, é fato também que esses machos têm de se submeter sexualmente ao macho-chefe sempre que ele quiser. Na presença dele os outros abaixam a cabeça em sinal de submissão. Como bem diz o velho ditado popular “quem abaixa muito a cabeça acaba levantando a bunda”. Ao mesmo tempo esse grande gorila protege a todos do bando contra qualquer ataque de outros animais.

De Freud vamos pegar a idéia apresentada em sua obra Totem e Tabu, que apresenta o seguinte quadro: Em certos bandos de primatas os machos se uniram e mataram o macho-chefe. Provavelmente foram várias tentativas de revolução social surgidas a partir desse ponto, mas que retroagiram logo após a morte do Chefe, porque os machos acabavam lutando entre si para tomar o seu lugar. Assim se estabelecia um novo Chefe e a sociedade se reorganizava nos mesmos moldes de antes. A idéia de Freud é que numa dessas experiências os machos conseguiram se manter unidos após a morte do Chefe, permanecer em paz, não matar uns aos outros. Essa nova ordem se estabeleceu a partir de dois alicerces. Para que ninguém pudesse substituir o Chefe, ergueram um Totem em sua homenagem. Ele permaneceu vivo em seus corações. Isso combina com o fato do macho-chefe representar realmente o Grande Pai deles, o mais forte, o que tinha o privilégio de fecundação das fêmeas do bando, aquele que protegia o bando do ataque de outros bandos e, de fato, o pai de grande parte dos machos do bando. Em respeito a memória do Grande Pai, instituíram uma nova regra social: ninguém mais poderia se relacionar sexualmente com as mulheres que foram Dele. É essa a origem do Tabu do Incesto porque as mulheres do grande Pai eram as mães e as irmãs deles. Segundo Freud, o Tabu do Incesto é universal nas civilizações humanas, por ser fundante, inerente a elas. Antropologicamente a afirmação de Freud procede. Não há notícia, nem hoje e nem em toda história da humanidade, de sociedade humana que não tivesse O Tabu do Incesto em sua cultura.

De Maturana pegamos a idéia que ele apresenta em sua obra Ontologia do Amor, ou seja, que certos bandos de primatas estabeleceram sociedades com maior solidariedade e menor competição entre os machos. Os bandos passaram a ter menor número de integrantes, começaram a habitar cavernas e não mais a mata aberta, passaram a dormir juntos, viver próximos, criar os filhotes coletivamente. Segundo Maturana, esse foi o ambiente social que permitiu o grande salto para humanização – o desenvolvimento da capacidade de “linguajar”. Para Maturana, ser humano é ser linguajante. É a linguagem que nos diferencia de outros animais. Foi a linguagem que nos permitiu transmitir e acumular conhecimento. O impulso para linguajar veio com a oportunidade de comunicar-se sem medo, a vontade de passar algo de si e de entender algo do outro, do maior interesse de um pelo outro, da aproximação, da maior solidariedade que possibilitou um ambiente social capaz de impulsionar esses primatas a linguajar com seus/suas companheiras/os. A revolução social que nos levou ao hábito de linguajar foi uma revolução que se deu por amor.

A partir desse quadro, acrescentamos a perspectiva de que a revolução social que impulsionou a escala humana foi uma revolução feminista. Nesse caso, uma informação pertinente é o fato facilmente perceptível do quanto cresceu em tamanho a fêmea humana proporcionalmente às outras grandes primatas que, no caso dos gorilas por exemplo, continua a ter a metade ou menos do tamanho do macho. Acrescenta-se a informação trabalhada no início deste texto – antes do quadro atual onde a imensa maioria das sociedades tem base patriarcal, houve um grande período na história das civilizações humanas onde as sociedades eram de base matriarcal. Com esses elementos fazemos um quadro que me parece claro: as fêmeas foram decisivas nesse salto que levou as sociedades a um conviver mais solidário. Nesse contexto há uma outra informação interessante: sabe-se que a genitália da mulher foi se projetando à frente ao longo da evolução humana. A genitália das macacas é bem mais próxima do ânus do que a da mulher. Esse fato aponta para a revolução promovida pelos primatas que se habituaram a fazer sexo de frente, olhando-se nos olhos.

Foi sem dúvida uma revolução sexual e amorosa que nos levou ao ambiente social propício ao desenvolvimento do linguajar. Machos e fêmeas amando livremente sem ter que se submeter às imposições de um macho “alfa”. Fêmeas mais livres, menos reprimidas, podendo optar pelo macho de sua preferência e não obrigadas a ficar com aquele que venceu a luta. Machos e fêmeas mais livres para escolher sua parceria, estabelecendo relações monogâmicas não pela luta e posse, mas por opção. Mais casais se formando livre e espontaneamente num meio social que os admite e reconhece como casal. Machos se olhando como iguais, mais tranquilos porque cada qual pode ter sua parceira. Maior respeito e harmonia deram chance a outras qualidades humanas, além da força. Os filhos passaram a ser criados coletivamente. A disposição, o desejo e a necessidade de se comunicar com o outro encontraram ambiente propício para o desenvolvimento do linguajar. Esse foi o berço do desenvolvimento humano e das primeiras sociedades matriarcais. Enquanto aumentava a solidariedade, aumentava a humanização daquele primata ancestral que há muito tempo atrás vivia em bandos onde machos lutavam com machos para garantir para si território e fêmeas.

Em algum ponto dessa história iniciou-se uma contrarrevolução patriarcalista. Há algumas linhas de raciocínio que acreditam que esse ponto se deu com a quebra da ilusão de que os filhos eram gerados espontaneamente nas mulheres (o que lhes dava o status de divinas, possuidoras da vida) e a percepção de que eram os homens que as fecundavam. Sejam quais forem os fatores que determinaram esse retrocesso, ele se deu quando as sociedades patriarcais se estabeleceram e começaram a subjugar na base da força as sociedades matriarcais. Os clãs deixaram de ser a célula social, dando lugar ao modelo de família patriarcal que existe até hoje: pai, mãe e filhos. Os filhos deixaram de ser criados coletivamente, passaram a ser entendidos como propriedade dos pais. O macho voltou a ser o dono das terras e das fêmeas. Implantou-se uma moral repressora da livre sexualidade, principalmente das mulheres. As Deusas foram substituídas por um Deus. As mulheres voltaram a ser obrigadas a se manter castas e servir somente a um homem. E, finalmente, as crianças passaram a ser sistemática e cotidianamente reprimidas em suas expressões sexuais espontâneas, até que aprendessem a fazer isso sozinhas.

Voltando ao eixo central desta explanação: a partir disso interrompemos nosso processo de humanização! Os machos voltaram a matar uns aos outros por território e fêmeas. “Guerra” foi o nome dado a isso. Significa conquistar territórios, matar homens e estuprar mulheres – a “antihumanidade”, o caminho inverso daquele que nos tornou humanos, um retrocesso no processo de evolução das qualidades humanas responsável por um período de séculos de estagnação, onde temos tido somente mais do mesmo.

O humano regido pela ideologia machista desenvolve cada vez mais ciência e tecnologia, principalmente voltada para objetivos militares e outras formas de competição como a disputa pelo mercado consumidor. Mas isso decorre de uma crescente especialização, ou seja, cada vez mais de cada vez menos.

Acredito que se retomássemos o caminho de maior solidariedade e liberdade sexual que um dia nos impulsionou à humanização que temos, retomaríamos essa evolução e toda tecnologia da qual se orgulham tanto as atuais sociedades machistas seria superada pelo desenvolvimento de capacidades humanas como a telepatia por exemplo, que já está latente, mas que não tem encontrado ambiente social propício para despertá-la. Comparando com o que aconteceu com a linguagem. Percebe-se que os macacos e muitos outros animais tem a capacidade latente de linguajar. Com isso quero dizer: estão a um passo de linguajar, emitem sons diversos, são dotados de língua e cordas vocais. O ser humano, em sua filogenia – a história da espécie, também foi por séculos um símio com capacidade latente de linguajar (estado em que chimpanzés e gorilas permanecem até hoje). Um ambiente social propício capacitou o humano a linguajar. E, milênios depois, nós – os humanos de hoje – não conseguimos muito além disso. Desenvolvemos, porém, a capacidade latente de telepatizar. Um novo ambiente propício criará a possibilidade de um novo salto nas capacidades humanas. A partir dele, a telepatia será possível a qualquer humano. É claro que essa capacidade depende de que um outro humano a ensine, passe aos poucos a arte de fazê-la acontecer. Exatamente como se dá com a linguagem. O ser humano não se torna humano sozinho. Se torna humano ao conviver com outro que o ensine a linguajar e o insira no universo do conhecimento humano. Assim se dará com a telepatia. Ela já acontece, só que de forma inconsciente, imatura. Pode ser constatada de diversas formas. Uma delas está bem representada naquilo que Moreno chama de “tele”, presente na teoria e técnica do Psicodrama. A telepatia será a ponte pela qual acessaremos o desenvolvimento da plena e consciente capacidade de emitir intenção à distância. Capacidade também já latente, que se manifesta em fenômenos como a cura pela imposição de mãos ou o popular “olho gordo”, referente à transmissão da inveja.

Por isso tudo, para mim, a revolução feminista ou a luta contra o machismo e sua inerente repressão sexual significa a retomada da evolução humana nos trilhos do amor, da solidariedade e da liberdade de expressão.

A pesquisa de Malinowski é fundamental porque nos mostra a possibilidade social de respeitar o Tabu do Incesto sem reprimir a sexualidade das crianças com todas as outras pessoas. O respeito ao Tabu do Incesto é a desculpa, o trampolim das sociedades patriarcais para a repressão sexual que exercem sobre seus filhos na relação deles com todas as pessoas e não só com mãe, pai e irmãos.

Dentro da sociedades patriarcais as agressões sexuais cometidas pelos adultos justificam a repressão à livre expressão sexual das crianças, porque elas realmente precisam se proteger, se afastar de possíveis tarados. Acontece que as taras são o resíduo deixado pela repressão sexual das crianças. Estabelece-se assim um círculo vicioso. Dentro dele, as possibilidades de mudança dos costumes sexuais permanece restrita e justificada pela realidade que a repressão sexual impõe. A quebra desse círculo vicioso acontece com uma mudança que ocorra a toda uma população, como na União Soviética no período pós-revolução de 1917, onde aconteceu algo que foi descrito como a “morte da família patriarcal”. Essa situação durou cerca de uma década, antes que a contrarrevolução stalinista reimplantasse a moral machista. Não foi tempo suficiente para que uma geração inteira

modificasse seus comportamentos sexuais e criasse um ambiente social onde as crianças pudessem ser criadas livres em sua espontaneidade sexual.

É preciso uma geração criada de forma diferente para criar outra e outra e mais uma. A partir da terceira geração assim criada, o ser humano provavelmente estará fazendo uso de suas novas capacidades como a telepatia.

A luta contra o machismo está intrinsecamente relacionada à luta contra a repressão sexual porque o machismo se define a partir de uma moral repressora da sexualidade espontânea. No machismo arcaico, rudimentar, passado, pré-feminista, encontramos a mulher obrigada a permanecer virgem até o casamento e depois casada por imposição com um homem a quem deveria ser fiel. A possibilidade de encontrar plenitude e satisfação afetiva sexual, dentro das restritas opções que tal quadro impunha, eram mínimas. Questão de loteria: casar sem ter tido a possibilidade de conhecer outras pessoas, sem experiência sexual, com alguém que não se escolheu e obrigada a permanecer nesse lugar, sem possibilidade de segunda chance.

A tensão entre moralismo repressor da livre sexualidade e a expressão da mulher é bem expressa na questão das roupas. A mini-saia, o decote, a roupa colante, que valoriza o corpo. A mulher se veste como quem diz aos homens: corpo existe, desejo existe. Os homens se vestem quase sempre como robos. Principalmente o homem capitalista neoliberal, o “homem de negócios”. As roupas dos homens geralmente os tornam mais retos, quadrados, escondem suas curvas. O papel clássico do homem dentro do regime de criação machista é o de repressor da sexualidade das mulheres.

Tudo isso mudou muito com a revolução feminista do século passado – uma revolução sexual, assim como a ancestral revolução de costumes que nos humanizou. A continuidade dessa revolução no início deste século representa a luta pela retomada do processo de humanização, rumo a uma sociedade onde seja possível resgatar a plena capacidade de amar do ser humano. Falar hoje em revolução sexual significa falar em revolução amorosa, para o amor, pró-amor, no sentido de promover criação, educação e ambiente social que facilite e incentive as trocas amorosas em todos as esferas relacionais


Textos

A | B | C | D | E | F | G | H | I | J | K | L | M | N | O | P | Q | R | S | T | U | V | W | X | Y | Z