Mudanças entre as edições de "O Café Castanheira"

De Protopia
Ir para: navegação, pesquisa
(Criou página com '{{capitulo|autor=George Orwell|livro=1984|conteúdo=O Café Castanheira estava quase vazio. Um raio de sol, entrando em oblíqua pela janela, caia amarelo sobre as mesas poeirent...')
 
(Fatal Error #507)
Linha 1: Linha 1:
{{capitulo|autor=George Orwell|livro=1984|conteúdo=O Café Castanheira estava quase vazio. Um raio de sol, entrando em oblíqua pela janela, caia amarelo sobre as mesas poeirentas. Era a solitária hora das quinze. Das teletelas escorria uma música metálica.
 
Winston sentou-se no seu recanto habitual, fitando o copo vazio. De vez em quando contemplava um rosto enorme que o olhava da parede oposta. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda. Sem que o chamasse, o garçom veio e encheu-lhe o copo de gim Vitória, pingando algumas gotas de outra garrafa com um canudinho atravessando a rolha. Era sacarina com essência de cravo, a especialidade do café.
 
Winston escutava a teletela. No momento, dela apenas saia música, mas havia a possibilidade de a qualquer momento divulgar um boletim do Ministério da Paz. As notícias da frente africana eram extremamente inquietadoras. O dia todo sentira-se intermitentemente preocupado com elas. Um exército eurasiano (a Oceania estava em guerra com a Eurásia: sempre estivera em guerra com a Eurásia) progredia para o sul com terrível velocidade. O boletim do meio-dia não mencionara nenhuma área definida, mas era provável que a foz do Congo já fosse um campo de batalha. Brazzaville e Leopoldville estavam em perigo. Não era preciso olhar o mapa para saber o que significava. Não era apenas questão de perder a África Central: pela primeira vez em toda a guerra, o território da Oceania estava ameaçado.
 
Uma violenta emoção, que não era bem medo, mas uma espécie de excitação amorfa, se acendeu dentro dele, e tornou a apagar-se. Deixou de pensar na guerra. Não podia fixar o pensamento em assunto algum por mais de uns momentos. Ergueu o copo e tragou o conteúdo de um gole.
 
Como sempre, produziu-lhe um arrepio e até lhe deu engulhos. A bebida era horrível. Os cravos e a sacarina, em si já bastante repugnantes, não conseguiam disfarçar o cheiro oleoso do álcool; e o pior de tudo era que o bafo de gim, que não o abandonava dia e noite, misturava-se indissoluvelmente, no seu espírito, com o cheiro dos...
 
Nunca lhes dizia o nome, nem mesmo em pensamento, e tanto quanto possível, nunca os visualizava. Eram algo de que ele só em parte se dava conta, mexendo-se perto do seu rosto, com aquele fedor que se prendia às narinas. Um arroto de gim lhe entreabriu os lábios escuros. Engordara mais depois de ser posto em liberdade, e recobrara sua cor antiga - na verdade, tinha mais cor que antes. Suas feições haviam engrossado, a pele do nariz e das faces tornara-se áspera e vermelha, e até a calva tinha um tom rosa escuro. Um garçom, sem que ninguém o chamasse, trouxe um tabuleiro de xadrez e um exemplar do dia do Times, na página do problema de xadrez. Daí, vendo vazio o copo de Winston, trouxe a garrafa de gim e encheu-o. Não havia necessidade de pedir nada. Conheciam seus hábitos. O tabuleiro de xadrez estava sempre à sua espera, sua mesa de canto sempre reservada; mesmo quando o café estava cheio ali se sentava a sós, pois ninguém gostava de ser visto em sua companhia. Nem mesmo se preocupava de contar quanto bebia. A intervalos irregulares apresentavam-lhe um pedacinho de papel sujo, que passava por conta, mas tinha a impressão de que sempre lhe cobravam de menos. Não faria a mínima diferença se fosse o contrário. Agora sempre tinha bastante dinheiro. Tinha até um emprego, uma sinecura, mais bem paga do que fora o seu trabalho anterior.
 
Parara a música da teletela, e uma voz a substituíra. Winston levantou a cabeça para escutar. Não era um boletim da frente, todavia. Apenas um breve comunicado do Ministério da Fartura. Aparentemente, no trimestre anterior, fora superada de noventa e oito por cento a cota de atacadores para sapatos do Décimo Plano Trienal.
 
Examinou o problema de xadrez e arrumou as pedras. Era um final complicado, com dois bispos. "As brancas jogam. Mate em dois lances." Winston ergueu os olhos para o retrato do Grande Irmão. As brancas sempre matam, pensou, numa espécie de nebuloso misticismo. Sempre, sem exceção, é o que acontece. Em nenhum problema de xadrez, desde o começo do mundo, as pretas jamais venceram. Não seria um símbolo do triunfo eterno, invariável, do Bem sobre o Mal? A carantonha fitava-o, cheia de calmo poder. As brancas sempre matam.
 
A voz da teletela fez uma pausa e acrescentou, num tom diferente, muito mais grave:
 
- Avisamos que devem todos aguardar uma comunicação importante às quinze e trinta. Quinze e trinta! Notícias da mais alta importância! Não percam! Quinze e trinta! E a música metálica recomeçou.
 
Winston ofegou. Devia ser o boletim da frente de batalha; o instinto dizia-lhe que vinham más notícias. O dia inteiro, com pequenas fases de excitação, pensara numa esmagadora derrota na África. Parecia-lhe ver o exército eurasiano formigando, cruzando a fronteira inviolada e invadindo a ponta da África como uma coluna de saúvas. Por que não fora possível franqueá-lo de algum modo? A silhueta da costa ocidental da África destacou-se vividamente na sua mente. Apanhou o bispo branco e colocou-o num dos quadros. Ali estava a casa certa. Ao mesmo tempo que enxergava a horda negra disparando para o sul, via outra força, misteriosamente reunida, subitamente plantada na sua retaguarda, cortando-lhe as comunicações por terra e mar. Sentiu que, pensando nela, estava dando existência àquela outra força. Mas era necessário agir rapidamente. Se pudessem assumir o controle da África inteira, se tivessem campos de pouso e bases de submarinos no Cabo, cortariam a Oceania em duas. Poderia significar qualquer coisa: derrota, rendição, redivisão do mundo, destruição do Partido! Ele respirou fundo. Lutava dentro dele uma extraordinária miscelânea de sentimentos - mas não era uma miscelânea, propriamente; mais uma sucessão de camadas de sentimento, e era impossível dizer qual ficava por baixo.
 
Passou o espasmo. Tornou a recolocar o bispo no lugar anterior, mas por um instante não pode dedicar-se ao estudo sério do problema de xadrez. Seus pensamentos tornaram a vaguear. Quase inconsciente, pôs-se a rabiscar com o dedo na poeira da mesa: 2+2=5
 
- Não podem ver dentro de ti - dissera ela. Mas, podiam entrar na pessoa. - O que te acontecer aqui será para sempre - dissera O'Brien. E era verdade. Havia coisas, atos do indivíduo, dos quais era impossível se recuperar. Algo estava morto em seu peito; queimado, cauterizado.
 
Ele a vira; chegara até a falar-lhe. Não havia perigo nisso. Sabia, quase instintivamente, que agora não se interessavam mais pelo que fizesse. Poderiam ter combinado novos encontros, se algum dos dois o tivesse desejado. Na verdade, haviam-se encontrado por acaso. Foi no parque, num dia feio e hostil de março, quando a terra era como ferro, toda a relva parecia morta e não havia flor em parte alguma, exceto alguns crocus que se haviam arriscado a ser despetalados pelo vento. Ele ia andando depressa, as mãos geladas, olhos lacrimejantes, quando a viu a menos de dez metros de distância. Imediatamente percebeu que ela mudara, de modo mal definido. Quase se cruzaram sem um gesto; mas ele voltou-se e seguiu-a, sem grande interesse. Sabia não haver perigo, já ninguém se ocupava dele. Ela não falou. Caminhara obliquamente, pela grama, como se tentasse se desvencilhar dele; depois parecera resignar-se a tê-lo ao lado. Dali a pouco estavam no meio duma touceira de arbustos desfolhados e escalavrados, que não serviam nem como esconderijo nem como abrigo contra o vento. Pararam. Fazia um frio nefando. O vento assobiava por entre os galhos secos, e sacudia os pobres crocus sujos. Ele passou o braço pela cintura da moça.
 
Não havia teletela, mas devia haver microfones escondidos; além disso, podiam ser vistos. Não importava, nada importava. Poderiam deitar no chão e fazer aquilo se quisessem. Sua carne gelou de horror, só de pensá-lo. Ela não reagiu de modo algum ao toque do braço de Winston; nem ao menos tentou se livrar. Ele soube então o que havia mudado nela. Tinha o rosto macilento, e havia uma longa cicatriz, parcialmente oculta pelo cabelo, rasgando a testa e a fonte; mas não era essa a mudança. Sua cintura engrossara e, de modo surpreendente, enrijara também. Ele lembrou-se de um a vez em que, após a explosão de uma bombafoguete, ajudara a puxar um cadáver debaixo dos escombros, e como se assustara não apenas com o peso incrível do corpo como também com a rigidez e a dificuldade de segurá-lo, que davam mais a impressão de pedra do que de carne.
 
O corpo dela dava aquela impressão. Ocorreu-lhe que a textura de sua pele também era muito diferente do que fora.
 
Não tentou beijá-la, nem falaram. Enquanto atravessavam o portão, de volta, ela olhou-o de frente pela primeira vez. Foi apenas um olhar momentâneo, cheio de desprezo e repugnância. Ele indagou de si mesmo se se tratava de uma repugnância oriunda do passado ou se inspirada também pelo seu rosto inchado e a água que o vento persistia em fazer-lhe brotar dos olhos. Tinham sentado em duas cadeiras de ferro, de lado mas não muito juntas. Viu que Júlia estava a pique de falar. Ela esticou alguns centímetros o pé no sapato deselegante e deliberadamente quebrou um graveto. Ele observou que os pés da moça pareciam ter-se alargado.
 
- Eu te traí - disse ela, sem rodeios.
 
- Eu te traí - disse ele também. Júlia lançou-lhe outro olhar de repugnância.
 
- Às vezes, - disse ela - ameaçam a gente com uma coisa... com coisas que não se pode agüentar, não se pode nem pensar. E então a gente diz "Não faças isso comigo, faze com outra pessoa, faze com Fulano e Sicrano." Mais tarde, talvez finjas que se tratava apenas de um estratagema, mandar que o fizessem a outro, e que não era a sério. Mas não é verdade. Na hora que acontece a gente fala sério. Pensa que não há outro jeito de se salvar; e se dispõe a salvar-se daquele modo. A gente quer que a coisa aconteça ao outro. Não se importa que sofra. Só importa a gente. Só nós temos importância.
 
- Só nós temos importância - repetiu ele.
 
- E depois disso, já não se sente o mesmo pela outra pessoa.
 
- Não - concordou ele - já não se sente o mesmo. Não parecia haver nada mais a dizer. O vento colava-lhes à pele os macacões delgados. Quase imediatamente, tornou-se incômodo ficar ali, calados: além disso, estava frio demais para continuarem sem se mexer. Ela disse qualquer coisa a respeito do trem subterrâneo e levantou-se...
 
- Precisamos nos encontrar outra vez - disse ele.
 
- Sim, precisamos nos encontrar. Seguiu-a irresoluto por alguma distância, meio passo atrás. Não tornaram a falar. Ela não procurou se desvencilhar dele, porém andava com passo bastante rápido, de maneira a evitar que a alcançasse. Ele resolvera acompanhá-la até a estação do subterrâneo, mas de repente essa coisa de seguir uma pessoa lhe pareceu insuportável e inútil. Dominou-o o desejo não tanto de se afastar de Júlia como de voltar ao Castanheira, que nunca lhe parecera tão atraente como naquele instante. Teve uma visão saudosa da sua mesinha no canto, com o jornal, o tabuleiro de xadrez e o copo sempre cheio de gim. Sobretudo, não faria frio. No instante seguinte, e não por acaso, ele permitiu que um grupo de pessoas o separasse dela. Fez uma tentativa desanimada de alcançá-la, depois reduziu o passo, voltou-se e saiu na direção oposta. Depois de ter caminhado uns cinqüenta metros, voltou-se e olhou para trás. A rua não estava cheia, mas quase não a podia distinguir. Podia ser qualquer daquelas figuras apressadas. Talvez o corpo engrossado e enrijado não fosse mais reconhecível por trás. "Na hora que acontece a gente fala sério", dissera ela. Ele falara sério. Não apenas o dissera: desejara-o. Desejara que ela e não ele sofresse os...
 
Algo se modificou na música que escorria da teletela. Dominava-a, partida e zombeteira, uma nota amarela. E então - talvez não estivesse acontecendo, talvez fosse apenas uma lembrança tomando forma de som - uma voz cantou: "Sob a frondosa castanheira Eu te vendi e tu me vendeste... Os olhos de Winston ficaram rasos d'água. Um garçom que passava observou o copo vazio e voltou com a garrafa de gim.
 
Ele ergueu o copo e cheirou-o. Quanto mais bebia, mais horrível se tornava a tisana. Mas tornara-se o elemento em que nadava. Era sua vida, sua morte, sua ressurreição. Era o gim que o mergulhava no estupor todas as noites, e o gim que o revigorava todas as manhãs. Ao despertar, rara vez antes das onze, as pálpebras coladas, a boca ardente e as costas moídas, seria impossível abandonar a horizontal se não fossem a garrafa e a xícara no criado-mudo. Passava um par de horas sentado, olhos vazios e vidrados, garrafa à mão, escutando a teletela. Das quinze à hora de fechar estava sempre no Castanheira. Ninguém mais se importava com o que ele fizesse, nenhum apito o acordava, nenhuma teletela o admoestava. Ocasionalmente, duas vezes por semana talvez, ia a um empoeirado e esquecido escritório do Ministério da Verdade e trabalhava um pouco. Fora nomeado para o sub-comitê de um sub-comitê que surgira de um dos inúmeros comitês que tratavam das dificuldades menores aparecidas durante a compilação da Décima Primeira Edição do Dicionário de Novilíngua. Cabia-lhes redigir um chamado Relatório provisório, porém ele nunca descobrira a respeito do que deveriam escrever. Parecia ligar-se à questão da colocação das vírgulas antes ou depois das aspas. Havia outros quatro no comitê, todos pessoas em semelhantes condições. Havia dias em que se reuniam e logo debandavam de novo, admitindo francamente que na verdade nada tinham que fazer. Mas noutras ocasiões, atiravam-se ao trabalho quase com ânsia, fazendo uma fita enorme de minutar seus relatórios pessoais e redigir longos memorandos que nunca terminavam - quando a discussão sobre o que deveriam discutir se tornava extraordinariamente complicada e abstrata, com sutis divergências sobre definições, enormes digressões, brigas e até ameaças de recurso a autoridade superior. E então de repente o entusiasmo se apagava e eles ficavam em torno da mesa, entrefitando-se, com olhos defuntos, como duendes que se desvanecem ao cocoricar do galo.
 
A teletela calou-se um instante. Winston tornou a levantar a cabeça. O boletim! Mas não, apenas mudavam de música. Tinha o mapa da África na retina. O movimento dos exércitos era um diagrama: uma flecha negra avançando para o sul, na vertical, e uma seta branca rasgando para leste, na horizontal, cortando a haste da primeira. Como para se tranqüilizar, contemplou o rosto imperturbável do cartaz. Seria concebível que a segunda flecha nem ao menos existisse?
 
Seu interesse caiu de novo. Bebeu novo gole de gim, apanhou o bispo branco e deu um lance experimental. Cheque. Evidentemente, porém, não era o lance certo porque...
 
Sem que a chamasse, uma lembrança lhe voltou à mente. Viu um quarto iluminado a vela, com uma vasta cama, coberta por uma colcha branca, e ele próprio, com nove ou dez anos, sentado no chão, sacudindo um copo de dados e rindo-se nervosamente. Sua mãe estava sentada à sua frente e também ria.
 
Devia ter sido um mês antes dela desaparecer. Fora um momento de reconciliação, em que esquecera a fome atenazante no ventre, e ressuscitara parcialmente a antiga afeição, Lembrava-se lucidamente do dia, de chuva forte, em que a água escorria pelas vidraças e dentro da casa estava escuro demais para ler. Tornara-se insuportável o tédio das duas crianças presas num quarto escuro e apertado. Winston queixava-se e resmungava, fazia fúteis pedidos de comida, perambulava nervoso pelo quarto tirando tudo do seu lugar e dando pontapés nas paredes até os vizinhos reclamarem, dando murros do outro lado; enquanto isso, a menina gemia intermitentemente. No fim, sua mãe dissera "Fica bonzinho que eu te compro um brinquedo. Um lindo brinquedo... gostarás muito dele." E saíra para a chuva, indo a uma lojinha próxima que ainda abria esporadicamente, e voltara com uma caixa de papelão contendo um jogo de obstáculos. Podia ainda lembrar-se do cheiro da cartolina molhada. Era um jogo paupérrimo. A prancha da corrida de obstáculos estava rachada, e os dados de madeira eram tão toscos que mal caíam de lado. Winston fitara o brinquedo, emburrado, sem interesse. Mas então sua mãe acendera um coto de vela e sentara no chão para jogar. Dali a pouco ele estava entusiasmado, gritando e dando gargalhadas quando as pedras subiam cheias de esperança e caíam nas arapucas, voltando quase ao ponto de partida. Tinham jogado oito partidas, ganhando quatro cada um. A irmãzinha, muito pequena para compreender o jogo, fora instalada entre travesseiros na cama, e ria porque via os outros rindo. Durante a tarde toda tinham sido felizes os três, como na primeira infância.
 
Ele expulsou a cena da memória. Era uma lembrança falsa. De vez em quando era perturbado por essas falsas recordações. Não tinha importância, contanto que soubesse do que se tratava. Algumas coisas tinham acontecido, outras não. Concentrou-se de novo no tabuleiro e tornou a apanhar o bispo branco. Quase no mesmo instante largou-o com ruído sobre o tabuleiro. E estremeceu como se lhe tivessem dado uma alfinetada.
 
Um agudo toque de clarim cortara o ar. Era o boletim! Vitória! O toque de clarim antes do noticiário sempre significava vitória. Uma espécie de arrepio elétrico percorreu o café. Até os garçons pararam prestando atenção.
 
O clarim provocara uma onda de barulho. Já uma voz excitada tagarelava na teletela, mas antes de começar fora quase abafada pelos vivas e hurras na rua. A notícia se propagara como por arte de magia. Podia-se ouvir apenas o suficiente do que saía da teletela, para perceber que tudo acontecera como previra: um vasto exército transportado pelo mar, secretamente concentrado, um golpe repentino na retaguarda do inimigo, a flecha branca cortando a haste da negra. Fragmentos de frases triunfantes se faziam ouvir por entre o berreiro geral: "Vasta manobra estratégica... perfeita coordenação... derrota integral... meio milhão de prisioneiros... completa desmoralização... controle de toda a África ... leva a guerra a uma distância visível do fim... vitória... a maior vitória da história humana... vitória, vitória, vitória! "
 
Sob a mesa, os pés de Winston fizeram movimentos convulsos. Não se movera do lugar, porém mentalmente estava correndo à pressa, misturando-se com a multidão, vivando até ensurdecer. Tornou a olhar o retrato do Grande Irmão.
 
O colosso que dominava o mundo! A rocha contra a qual as hordas da Ásia de balde se haviam arremessado! Pensou que havia apenas dez minutos - sim, dez minutos - havia dúvida em seu coração quanto ao caráter das notícias da frente de batalha: vitória ou derrota. Ah, perecera mais que um exército eurasiano! Muita coisa havia mudado nele, desde aquele primeiro dia no Ministério do Amor, porém a transformação final, salvadora, não se registrara até aquele momento.
 
A voz da teletela estava ainda falando de prisioneiros, presa e matança, mas lá fora a gritaria diminuíra um pouco. Os garçons tinham voltado ao trabalho. Um deles aproximou-se com a garrafa de gim. Winston, imerso num sonho bem aventurado, não reparou quando lhe encheram o copo. Já não corria nem dava vivas. Estava de volta ao Ministério do Amor, tudo perdoado, a alma branca de neve. Estava na tribuna dos réus, confessando tudo, implicando todos. Ia andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol, acompanhado por um guarda armado. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão esperada.
 
Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh mal-entendido cruel e desnecessário! Oh teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gim escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograda a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão.
 
  
FIM
 
|capítulo anterior=A cada estágio da prisão}}
 
 
<layout name="Capítulo de Livro" />
 

Edição das 21h10min de 17 de julho de 2018