Algo Mais sobre o Coletivo Sabotagem

De Protopia
Revisão de 00h56min de 1 de abril de 2011 por Neomedes (discussão | contribs)
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«Esta obra foi formatada, revisada pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome de seu autor.»


Fiz parte durante algum tempo deste grupo de piratas, rebeldes sedentos por liberdade que acreditavam que o conhecimento liberta. Naquele tempo de libertação do conhecimento, meu pseudônimo era Poe, e devo dizer que foi uma das épocas mais divertidas do meu ativismo. Não era propriamente uma brincadeira de gato e rato como dizíamos, mas sim, um grande ataque oculto a diversas instituições capitalistas.

Em agosto de 2003 a biblioteca do Coletivo Sabotagem possuía mais de 15 títulos. Entre estes estavam textos clássicos e contemporâneos. Bakunin, Thoreau, Tragtenberg, Sade, Reich, Nietzsche, Foucault, Orwell, Russel, Singer e Chomsky, entre outros podiam ser livremente baixados e ganhavam versões impressas a baixo custo.

A verdade é que nunca estivemos nem perto de sermos pegos. Hackers corporativos nunca conseguiram derrubar nosso site, advogados das editoras não foram capazes de encontrar ninguém para processar. A única coisa que foram capaz de conseguir foi desativar nosso endereço "sabotagem. cjb. net", através de algum procedimento jurídico xinfrin. O site estava bem seguro hospedado pelos nossos parceiros da nodo50. Não há nada como não ser pego, é excelente para algumas pessoas, permite que se haja com mais vontade e menos medo, e ao mesmo tempo nos leva a buscar novas formas de

Mas nem todos no coletivo reagiram da mesma forma: esta primeira perda colocou algumas pulgas atrás das orelhas, e aquele pequeno policial que existe no interior de cada um, começou a falar cada vez mais alto, num eficiente trabalho de colaboração com as forças exteriores em favor da comunidade (de empresários do setor livreiro). Sendo nós, anarquistas, estamos constantemente dando surras em policiais interiores.

Abandonamos o primeiro site por conta própria para melhorar a estrutura. Ele era tosco, não era suficiente para nosso desejo de substrução. Nosso tesão acumulado de foder com o capetalismo. E a cada livro escaneado, a cada texto libertado, a cada ação, esse desejo só crescia, invadindo outros aspectos das nossas vidas, e esse é um dos maiores motivos ocultos da dissolução do Coletivo Sabotagem.

No nosso segundo site, contamos com o maravilhoso apoio de nossos amigos do RiseUp. Construído pelo bucaneiro Sub, era provavelmente a página do sabotagem que eu mais gostava. O potencial foi multiplicado pela estética da coisa. A publicização de livros, trocas e encontros interessantes, dependiam de grandes momentos de tédio, programação, correção, revisão e tensão.

Simultaneamente conseguimos fazer circular algumas versões impressas com acabamento razoável a preços baixíssimos. Através de pequenas bancas em encontros políticos e acadêmicos diversos nossos livros eram vendidos para garantir mais recursos para novas publicações e ações. Entre os títulos que circularam estavam o Microfísica do Poder de Foucault, e As Veias Abertas da América Latina de Galeano. Conseguimos fazer escoar muitos livros nos Foruns Sociais Mundiais, em um deles chegamos a fazer contato pessoal com Eduardo Galeano para lhe entregar uma cópia pirata de seu livro, coisa que ele adorou.

Após a publicação de uma matéria no clipping da Camara Brasileira do Livro com algumas ameaças, o bucaneiro Sub se jogou no mar bravio da inação, foi engolido pela onda da paranoia, e nunca mais soubemos dele. Antes de desaparecer, tirou a página do ar, acreditava ter feito alguns descuidos, deixado rastros mapeáveis que poderiam levar a repressão a partir no seu encalço.

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Muito tempo de trabalho se passaria até que surgisse o terceiro site - sabotagem.revolt.org. A organização desse site abriu um mundo de possibilidades por permitir que sabotadores de todo o mundo pudessem por conta própria publicar livros digitalizados. Deixamos de ser um coletivo para se tornar uma rede de ativistas, com um coletivo técnico responsável pela manutenção do site.

Foi mais ou menos nessa "Época" que um jornalista do Grupo Globo entrou em contato conosco para uma possível entrevista. E lá vinha ela, a máquina de distorção midiática estava no nosso encalço. Reuniões e decisões. Chegamos a conclusão que não dialogaríamos com um jornalista deste grupo, não cooperaríamos com manipuladores das massas, beneficiados por regimes ditatoriais.

Mas não bastava ficar na negatividade, percebemos que era necessário buscar por algum outro meio de comunicação, de preferência um menos corporativo, para colocarmos a nossa perspectiva. Escolhemos a CartaCapital por falta de outras opções, entramos em contato através de e-mail, e pouco tempo depois uma jornalista desta revista entrou em contato conosco.

Teríamos algum espaço de expressão, mas a matéria também conteria a versão de outras figurinhas do cenário editorial, entre elas, alguém que se orgulhava de "pagar impostos", ou seja, um completo imbecil cujo nome não direi, mas que não por acaso era o Presidente da Câmara Brasileira do Livro. Espumando e bastante chateado com as possibilidades de mudança o homenzinho disparou uma série de ameaças risíveis, que nos deu bastante satisfação.

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Lançada a reportagem Estante Clandestina, a intensão de ferrarem com nós se tornou mais patente. Não era para menos, a possibilidade de servirmos de inspiração para outros grupos de ação direta potencializava tanto a ameaça de uma politização de grupos que já vinham fazendo isso por razões práticas, como também o crescimento mais significativo de movimento de libertação do conhecimento cada vez mais consciente. Com isso tudo a paranoia e a responsabilidade também cresceram.

Não demorou muito para perceber que estávamos voluntariamente nos isolando frente às ameaças reais e imagináveis. Contraditoriamente isso estava ocorrendo em um momento em que o Col. Sabotagem ganhava mais vulto na cena política acrata e alternativa. Cada vez mais pessoas se dispunham a colaborar no novo site, nosso banco de dados crescia com todo tipo de conteúdo escrito.

A notoriedade que buscávamos era completamente instrumental, deveria servir como propaganda pela ação, esperávamos que outras pessoas e grupos inspirados pela iniciativa começassem elas próprias partir para ação. Eramos simpáticos a ideia de que adotassem o nome "Sabotagem" criando eles próprios bibliotecas virtuais e livros a preços acessíveis, espalhando cada vez mais ideias piratas e livros libertados pelo mundo. Apesar de algumas iniciativas inspiradoras como a Editora Barba Ruiva e a Não foi exatamente o que aconteceu. Nos tornamos um bom tema para trabalhos na área acadêmica da comunicação, alguns nos transformaram em ícones e nada mais fizeram além disso.

Uma falha no servidor revolt.org, dos nossos parceiros do RiseUp acabou destruindo o banco de dados, a essa altura o Sabotagem havia se tornado um peso para a nossa vida política e a propaganda pela ação só foi em termos alcançada. Decidimos deixar no ar nosso desaparecimento, e dedicar mais tempo a outras iniciativas. Logo dezenas de teorias sobre o desaparecimento do Col. Sabotagem passaram a circular pela net. E grande parte daqueles que nos idolatravam e nada mais, passaram a se comportar como viúvas do Sabotagem e nada mais.

Enquanto fazemos nossas ações em outros frontes esperamos também pela volta do Coletivo Sabotagem, um outro navio pirata no horizonte, tripulado por corajosos capazes de escapar das coroas do velho mundo, e piratear o que precisa ser pirateado pelo triunfo da libertação do conhecimento. Será que ele virá?

«"A interrupção e a subversão dos fluxos de produção e de circulação de signos emitidos pelo poder são um campo sobre o qual podemos agir diretamente."»



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