Mudanças entre as edições de "A Não Violência é racista"

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;[[Como a Não Violência protege o Estado]]
 
;[[Peter Gelderloos]]
 
  
 
Não pretendo trocar insultos, e só emprego o epíteto "racista" após cuidadosas considerações. No atual contexto, a não violência é uma posição que implica em privilégio. Partindo do fato de que o típico pacifista é, evidentemente, branco e de classe média, está claro que o pacifismo, como ideologia, vem de um contexto de privilegiados. Este ignora que a violência já existe, que a violência é uma parte inevitável e estruturalmente integral das hierarquias sociais existentes; que as pessoas não brancas são as mais afetadas por esta violência. O pacifismo assume que as pessoas brancas que se criam nos bairros abastados, com todas as suas necessidades básicas saciadas, podem aconselhar os oprimidos - muitos deles não brancos - para que sofram esta violência com paciência, esperando que consigam convencer ao ''Grande Pai Branco''<ref>Denominação utilizada por certos grupos indígenas da América do Norte, ora para designar o governo dos brancos, ora para designar seus presidentes. [N. do T.].</ref> sobre as demandas de seu movimento, ou que este movimento consiga se conectar com a lendária ''massa crítica'' da qual sempre falam.
 
 
Os negros dos guetos dos Estados Unidos não podem se defender da brutalidade policial, ou desapropriar os recursos para a sua sobrevivência, ou ainda se liberar da servidão econômica. Eles devem esperar até terem um número suficiente de pessoas negras com maiores privilégios econômicos (os ''escravos da casa'' da análise de Malcom X), e que as pessoas brancas tomem consciência para se unirem aos negros, para que se deem as mãos e cantem canções.
 
 
Depois disso, acreditam que seguramente a mudança chegará. Os povos oprimidos da América Latina devem sofrer pacientemente, como verdadeiros mártires, enquanto ativistas brancos, nos Estados Unidos, “dão testemunhos” de suas vivências no Sul e escrevem para o Congresso<ref>Ver por exemplo, Malcom X, "Twenty Million Black People in a Political, Economic, and Mental Prison", em ''Malcom X: The Last Speeches'', ed. Bruce Perry (Nueva York: Pathfinder, 1989), p. 23-54.</ref>.
 
 
A população do Iraque também não deve se defender. Só quem morrer como civil deve ter sua morte contabilizada e chorada pelos ativistas brancos os quais, quando menos se espera, conseguirão levar adiante uma mobilização de protesto grande o suficiente para deter a guerra.
 
 
Mesmo os povos indígenas devem esperar, só mais um pouquinho (ou seja, outros 500 anos), sob a sombra do genocídio, morrendo lentamente sem suas terras, marginalizados, até... Bom, não são uma prioridade por hora, então talvez precisem organizar uma ou duas manifestações para chamar a atenção e conseguir a simpatia dos poderosos. Ou de repente poderiam fazer uma greve, comprometidos com a não cooperação gandhiana? Mas espere um pouco, a maioria dos indígenas não possui empregos, não coopera, está totalmente excluída do funcionamento do sistema!
 
 
A não violência afirma que os índios americanos poderiam ter lutado contra Colombo, George Washington, e todos os demais carniceiros genocídas através de bloqueios sentados<ref>No original ''Sittings'', forma de protesto não violento em que ativistas se sentam em meio de avenidas e permanecem por lá apanhando e fazendo corpo mole quando eventualmente são levados pela polícia. [N. do T.].</ref>; que Crazy Horse, empregando a resistência violenta, tornou-se parte do ciclo da violência e foi “tão mau quanto” Custer<ref>George Armstrong Custer, conhecido como General Custer, foi um militar agressivo que comandou diversas operações de batalha sangrentas à frente de um regimento da cavalaria da União, durante a Guerra de Secessão. Depois da guerra passou a perseguir nações indígenas, vindo a morrer na batalha de ''Little Big Horn'', um ataque dos Estados Unidos à um confederação de povos indígenas hostis a presença branca no oeste norte-americano. [N. do T.].</ref>.
 
 
A não violência afirma que os africanos e africanas poderiam ter detido o comércio escravocrata com greves de fome e petições, e que os que se amotinaram foram tão maus quanto seus raptores; que o motim é uma forma de violência que leva a mais violência, e, deste jeito, a resistência conduz a mais escravidão. A não violência se recusa a reconhecer que estes esquemas só funcionam para as pessoas brancas privilegiadas, que têm um status assegurado pela violência, como perpetuadores e beneficiários desta violência hierárquica.
 
 
Pacifistas devem saber, imagino que inconscientemente, que a não violência é uma posição absurdamente privilegiada; através dela, fazem menção frequentemente à temática da raça, removendo os ativistas não brancos de seu contexto e empregando-os de maneira seletiva como porta vozes da não violência. Foi desta forma que Gandhi e Martin Luther King Jr. tornam-se representantes de todas as pessoas não brancas. Nelson Mandela também o era, até que pacifistas brancos descobriram que empregou a não violência seletivamente, e que, de fato, esteve envolvido em atividades de libertação de caráter violento, tais como atentados e a preparação de um levante armado<ref>Numa conversa que tive com um pacifista, Mandela foi citado como exemplo de lutador negro, para ser logo abandonado quando mencionei sua adoção à luta armada. [Detalhada em sua autobiografia: Nelson Mandela, ''Long walk to Freedom: The Autobiography of Nelson Mandela'' (Boston: Little Brown, 1995)].</ref>. Mesmo Gandhi e Luther King estiveram de acordo de que era necessário apoiar os movimentos de libertação armada (citando exemplos como a Palestina e o Vietnã, respectivamente) onde ainda não havia uma alternativa não violenta, priorizando claramente os objetivos acima das táticas. Mas a maioria dos pacifistas brancos de hoje apaga esta parte da história e se entrete com a não violência para assegurar seu conforto, mesmo os que se autoproclamam sucessores de Martin Luther King e Gandhi<ref>Jack Gilroy, e-mail, 23 jan. 2006. Este e-mail, em particular, foi o resultado de uma conversa bastante sórdida, em um grupo de discussão de pacifistas brancos. Nela, participantes debatiam a sugestão de organizar uma marcha ao estilo daquelas realizadas na luta histórica por direitos civis, ao longo do coração do Sul negro. Uma pessoa tinha proposto chamá-la “caminhada” em lugar de “marcha”, porque “marcha” constitui numa “linguagem” violenta. Gilroy afirmou, “Certo que estamos portando a bandeira do Dr. King!”. Esta afirmação foi uma resposta a uma crítica feita por um ativista negro, que disse que, ao apoiar este tipo de marcha (que começaria em Birmingham ou outra cidade simbólica), estavam cooptando o legado de King e, provavelmente, ofendendo e alienando os negros (já que a organização era predominantemente branca, minimizava a questão da raça em suas análises, e centrava-se na opressão ocorrida no estrangeiro. Ao mesmo tempo, esquecia o fato de que o movimento pelos direitos civis está ainda trancado em suas residências). O veterano pacifista branco respondeu de um jeito extremamente desdenhoso e mal-educado à esta crítica, até mesmo dirigindo-se ao ativista negro como “guri” e alegando que, se o movimento pacifista era tão branco, era porque as pessoas negras não tinham escutado, não tinham aprendido o que lhes fora ensinado, o que lhes havia sido predicado desde o púlpito... não tinham conseguido se conectar com o nosso movimento para levar justiça a todas as pessoas da América Latina, o que inclui milhões de pessoas não brancas. O e-mail terminava insistindo que a "luta contra a injustiça não tem barreiras raciais".</ref>. Tem-se a impressão de que se Martin Luther King Jr. chegasse disfarçado numa destas vigílias pacifistas, não teria a permissão de falar. Como ele mesmo apontou:
 
 
 
:::Além dos intolerantes e reacionários, [o racismo] parece ser uma doença existente inclusive entre aqueles brancos que gostam de olhar a si mesmos como “iluminados”. Refiro-me especialmente àqueles que aconselham “Esperem!” e aqueles que falam que simpatizam com os nossos objetivos, mas que não concordam com os nossos métodos de ação direta na busca por esses objetivos. Me refiro aos homens que se atrevem a sentir que têm algum direito paternalista de determinar qual é a hora da libertação de outros homens [...] Nos últimos anos, devo dizer, tenho me sentido gravemente decepcionado com estes brancos “moderados”. Com frequência, sinto-me inclinado a pensar que eles constituem um maior impedimento para o progresso negro do que um Conselho de Cidadãos Brancos ou a Ku Kux Klan<ref>Rev. Dr. Martin Luther King Jr., entrevistado por Alex Haley, ''Playboy'', jan. 1965, disponível em <http://www.playboy.com/arts-entertainment/features/mlk/index.html>.</ref>.
 
 
 
A de se ter também em conta que as pessoas brancas privilegiadas é que designaram ativistas como Gandhi e Luther King para ocuparem posições de liderança em escala nacional. Entre os ativistas brancos e, não por casualidade, dentro do domínio da elite branca, a Marcha para Washington da era da luta pelos direitos civis está associada em primeiro lugar, e, principalmente, com o discurso ''I have a dream''<ref>Malcom X, citado em Abu-Jamal, ''We Want Freedom'', p. 41. Para mais informações sobre a crucial análise de Malcom X, veja-se George Breitman, ed., ''Malcom X Speaks'' (Nova York: Grove Press, 1965).</ref>, de Martin Luther King Jr. Sobretudo ausente da consciência branca, mas tão influente quanto (a marcha) entre os negros, foi a perspectiva de Malcom X, articulada no seu discurso crítico sobre a liderança da marcha:
 
 
 
:::Foram as bases políticas que saíram para a rua o que assustou mortalmente o homem branco; assustou mortalmente a estrutura do poder do branco de Washington DC; eu estava lá. Quando eles descobriram que o rolo compressor negro ia derrubar a capital, chamaram a esses líderes negros da nação, que você respeita e nos quais acredita, para dizer-lhes: “Suspenda as ações”, disse Kennedy, e acrescentou: “Olha, vocês estão deixando isto ir longe demais”. E o Velho Tom falou: “Patrão, não posso pará-las, porque não fui eu quem começou”. Estou falando para vocês o que disseram. Eles disseram: “Nem mesmo estou lá, e muito menos as controlo”. Os brancos então disseram: “Estes negros estão fazendo as coisas por conta própria. Estão se adiantando a nós”. E a velha e astuta raposa falou: “Se vocês não estão lá, nós colocaremos vocês lá. Colocaremos-os na direção desse movimento. Promoveremos vocês, lhes daremos boas-vindas [...]
 
 
 
:::Isto é o que eles fizeram na marcha de Washington. Eles se somaram a ela [...] tomaram parte, assumiram-na. E logo que eles assumiram-na ela perdeu seu caráter militante. Deixou de ser um aborrecimento, deixou de ser incendiária, deixou de ser comprometida porque inclusive deixou de ser uma marcha. Tornou-se um piquenique, um circo. Nada mais do que um circo, com palhaços e tudo [...]
 
 
 
:::Não, foi uma traição. Foi uma absorção [...] a levaram a rédeas curtas, falaram para esses negros em que momento eles deveriam golpear a cidade, onde deveriam parar, que símbolos levar, que canções cantar, qual discurso poderiam fazer e qual não poderiam, e então falaram para eles que fossem embora antes do anoitecer<ref>Tani e Sera, ''False Nationalism'', p. 106.</ref>.
 
 
 
O resultado final da marcha foi investir recursos significativos do movimento num momento crítico, em um evento finalmente pacificador. Nas palavras de Bayard Rustin - um dos líderes da marcha - “começam a organizar uma marcha massiva partindo de uma má suposição, e logo se assume que todas as pessoas ali reunidas têm a mentalidade de uma criança de três anos”<ref>Abu-Jamal, ''We Want Freedom'', p. 262.</ref>. Os manifestantes receberam cartazes de protesto pré-fabricados com ''slogans'' aprovados pelo governo, os discursos de muitas lideranças da manifestação, incluindo o do presidente do Comitê Estudantil de Coordenação Não Violenta (''Student Nonviolent Coordinating Committee'', SNCC), John Lewis, foram censurados por fazerem menção à ameaça de luta armada e críticas sobre o projeto do governo de lei dos direitos civis; tal como Malcom X descreveu, no final, toda a multidão foi chamada para ir embora o mais cedo possível.
 
 
Mesmo desfrutando comparativamente de pouca atenção nas histórias oficiais (''mainstream''), Malcom X foi extremamente influente no movimento de libertação negro, e foi reconhecido como tal, não só pelo próprio movimento, mas também pelas forças governamentais encarregadas de destruir este movimento. Num memorando interno, o FBI assinala a necessidade de prevenir a ascensão de um “messias” negro como parte do seu ''Programa de Contrainteligência''. Segundo o FBI, é Malcom X quem “deveria ter sido esse messias; ele é o mártir do movimento hoje em dia”<ref>As alegações sobre a implicação do governo no assassinato de Malcom X são convincentemente apresentadas por George Breitman, Herman Porter e Baxter Smith em ''The Assassination of Malcom X'' (Nova York: Pathfinder Press, 1976).</ref>. O fato de Malcom ter sido escolhido pelo FBI como a maior das ameaças, aumenta a possibilidade de veracidade das hipóteses da implicação do Estado em seu assassinato<ref>Ward Churchill e Jim Vander Wall, ''The COINTELPRO Papers: Documents from the FBI‘s Secret Wars Against Dissent in the United States'' (Cambridge: South End Press, 1990).</ref>; sem dúvida outros ativistas negros não pacifistas foram, em outros casos, alvos do governo, eliminados por meio do assassinato<ref>Pessoalmente, mesmo depois de ter me interessado em História e, com o passar dos anos, estudando nas melhores escolas públicas da nação, e ter conseguido boas qualificações nas aulas de História Americana, terminei o segundo grau sabendo bem pouco sobre Malcom X, além do fato de ele ter sido um extremista muçulmano negro. Por outro lado, ainda no ensino fundamental, aprendi um pouco sobre Martin Luther King Jr. Para ser sincero, como figura nos direitos civis e dos movimentos de libertação negros, Malcom X é tão importante quanto King, se não mais ainda. Nos anos seguintes, minha educação política nos círculos brancos progressistas fracassou na hora de tentar corrigir tanto a invisibilidade de Malcom X, quanto a enganosa biografia de King. Só depois de ler os escritos dos ativistas negros sobre a importância de Malcom X, é que pude fazer a pesquisa necessária.</ref>. Ao mesmo tempo, a Martin Luther King Jr. foram permitidas sua celebridade e influência até que se tornou mais radical, falando de revolução anticapitalista e advogando solidariamente pela luta armada do povo vietnamita.
 
 
De fato, o ativismo branco, em particular aquele interessado em minimizar a importância da militância e da luta armada, apoiou o Estado no assassinato de Malcom X (e de outros revolucionários similares). Fizeram a parte menos “suja” do trabalho, fazendo desaparecer sua memória, apagando-o da história<ref>Darren Park, e-mail, 10 jul. 2004.</ref>. E mesmo com sua desproporcional devoção para com ele (existiram, ao final das contas, muitas pessoas, além de King, no movimento pelos direitos civis), contribuíram de forma similar com o assassinato de Martin Luther King Jr., mesmo que no seu caso tenha sido empregado um método mais orwelliano (assassinar, reformular, e cooptar). Darren Parker, um ativista negro e assessor de grupos de base cujas críticas contribuíram na minha própria compreensão da não violência, escreve:
 
 
 
:::A quantidade de vezes que as pessoas citam Luther King é muito desagradável para a maioria dos negros, porque eles sabem o quanto sua vida foi focada na luta racial [...] E quando se lê de fato Luther King, se pergunta por que as partes onde critica as pessoas brancas - que constitui a maior parte das coisas que disse e escreveu - nunca são citadas<ref>Considera-se a popularidade, por exemplo, da seguinte citação: “O que as pessoas brancas não compreendem, é que os negros que participam das revoltas têm abandonado a América. O fato de que não se faz nada para aliviar a sua urgente situação, confirma a convicção dos negros de que a América é uma sociedade em decadência e sem esperança”, Martin Luther King Jr., "A Testament of Hope", em James Melvin Washington, ed., ''A Testament of Hope: The Essential Writings of Martin Luther King Jr.'' (San Francisco: Harper & Row, 1986), p. 324.</ref>.
 
 
 
Assim, a crítica mais forte de Luther King ao racismo é evitada (pelas pessoas brancas)<ref>Este sentimento, que tem sido expressado por muitas pessoas diferentes, chegou até mim de forma mais direta por Roger White, ''Post Colonial Anarquism'' (Oakland: Jailbreak Press, 2004). White, em primeiro lugar, assinala a frequente tendência entre anarquistas brancos de rejeitar os movimentos nacionais de libertação por não fazerem parte de uma ideologia anarquista concreta. A dinâmica é semelhante a do pacifismo que descrevi, e as duas são resultantes do privilégio branco, tão efetivas quanto qualquer ideologia explicitamente racista. O pacifismo tem sido um bloqueio trancado que permitiu aos radicais brancos controlar ou sabotar os movimentos de libertação, mais não foi o único. O livro de White vale a pena, precisamente, porque os militantes anarquistas brancos encontraram-se refletidos em muitos dos problemas que têm os brancos pacifistas.</ref>, e estereotipificam seus comentários do ativismo não violento, repetindo-os ''ad nauseam'', o que permite aos pacifistas brancos que aproveitem-se de um recurso cultural autorizado para confirmar seu ativismo não violento e evitar que se enfatize o racismo inerente a sua própria posição, associando-se ao lado negro visivelmente não controverso.
 
 
A revisão pacifista da História, que elimina exemplos militantes de luta contra a supremacia branca, não pode ser desvinculada de um racismo que é inerente à posição não violenta. É impossível reivindicar apoio para as pessoas não brancas, e menos ainda solidarizar-se com suas lutas, quando grupos tão significativos como o Partido dos Panteras Negras (''Black Panther Party'', BPP), o Movimento Indígena Americano (''American Indian Movement'', AIM), os Beretas Marrons (''Brown Berets''), ou ''Vietcong'' são ativamente ignorados, privilegiando uma imagem homogênea da luta antirracista, a qual admite apenas elementos que não contradigam sua autocomplacente visão da revolução, favorável principalmente aos ativistas brancos. Reclamar pelo apoio e solidariedade torna-se ainda mais pretensioso quando pacifistas brancos definem as regras das táticas aceitáveis e as impõem ao movimento, negando a importância dos fatores como os contextos raciais e de proveniência de classe, entre outros.
 
 
A questão não é se ativistas brancos, com a intenção de serem antirracistas, devam apoiar acriticamente qualquer grupo de resistência asiático, latino, indígena ou negro que apareça. Mas sim, se existe ou não um certo universalismo eurocêntrico na ideia de que todos somos parte da mesma luta homogênea, se os brancos que vivem no coração do império podem ou não dizer às pessoas não brancas e às pessoas vivendo nas (neo)colônias qual é a melhor maneira de resistir. As pessoas mais afetadas por um determinado sistema de opressão deveriam estar na frente de lutas contra ele<ref>Tani e Sera, ''False Nationalism'', p. 134-137.</ref>, mesmo que o pacifismo siga produzindo continuamente organizações e movimentos de pessoas brancas, que iluminam e lideram o caminho para salvar pessoas não brancas. O imperativo da não violência anula o respeito básico de confiar que as pessoas se libertem. Sempre que pacifistas brancos preocupam-se com uma causa que afeta os não brancos, e as pessoas não brancas afetadas não se sujeitam àquela definição particular de não violência, esses ativistas se colocam na posição de professores e guias, reproduzindo uma dinâmica que é claramente colonial. Esta é, em grande medida, uma evidente função do privilégio branco (uma visão de mundo socialmente construída, ensinada e difundia entre todas as pessoas identificadas pela sociedade como “brancas”). Os militantes ativistas brancos podem incorrer, e incorrem, em erros semelhantes quando sua falta de respeito alia-se com a cor, ditando qual é o mais apropriado método de luta.
 
 
A ''Weather Underground''<ref>O nome da organização ao qual o autor se refere era inicialmente ''Weatherman'', de inspiração num imaginário maoista norte-americano, popular entre a esquerda marxista estadunidense na década de 1960 e 1970. Afirmavam que sua atuação através de atentados tinha como objetivo "trazer a guerra para casa" em solidariedade aos vietnamitas, e a guerra empreendida pelo governo ao Partido dos Panteras Negras. [N. do T.].</ref> e outros grupos brancos militantes dos anos 60 e 70 fizeram um péssimo trabalho de ampliação da solidariedade ao movimento de libertação negro, manifestando seu apoio, porém, retendo todo o material que pudesse lhes ajudar. Em parte, isso se deu porque viam a si mesmos como a vanguarda, e aos grupos negros como competidores ideológicos. Outras organizações brancas, tais como o Movimento de Apoio a Libertação (''Liberation Support Movement''), utilizaram seu auxílio para exercer controle sobre os movimentos anticoloniais de libertação com os quais afirmaram estar atuando em solidariedade<ref>Tani e Sera, ''False Nationalism'', p. 137-161.</ref>, isso se deu de modo muito similar à atuação de uma agência de auxílio do Governo.
 
 
É interessante que, mesmo entre os militantes ativistas brancos, o racismo fomenta a passividade. Um dos problemas da ''Weather Underground'' é que reivindicavam que estavam lutando ao lado das pessoas negras e vietnamitas, mas demonstravam que só era uma postura. Limitaram-se a dirigir uns poucos atentados, inofensivos e simbólicos, e algumas ações que evidentemente não colocavam suas vidas em risco. Hoje, seus veteranos não estão mortos ou presos (exceto três deles, envolvidos num acidente ocorrido durante a confecção de uma bomba, e aqueles que deixaram a ''Weather'' para se juntarem ao Exército de Libertação Negro (''Black Liberation Army'') vivem confortavelmente como acadêmicos e profissionais<ref>Abu-Jamal, ''We Want Freedom'', p. 7. </ref>. Os militantes anarquistas brancos dos Estados Unidos, hoje em dia, apresentam tendências similares. Penso, por exemplo, em boa parte do barulhento desdém que mostram com as atuais lutas de libertação, ao invés de apoiar seus elementos mais antiautoritários, acusam-os de “não serem anarquistas”. O resultado é que estes duros anarquistas (e, ao mesmo tempo, de sofá) não podem encontrar uma resistência verdadeiramente digna de seu apoio, sendo assim aferram-se às posturas militantes e à violência dos seus sofismas ideológicos.
 
 
Um sistema de supremacia branca pune a resistência de pessoas não brancas com mais severidade que a resistência de pessoas brancas. Mesmo ativistas brancos que nos tornaram conscientes das dinâmicas do racismo encontram no privilégio disto resultante uma das seguranças garantidas socialmente à qual é difícil renunciar. Por conseguinte, aqueles que diretamente desafiam a supremacia branca pela militância, parecem ameaçá-los. Mumia Abu-Jamal escreve:
 
 
 
:::Os louvores e aromas da luta negra do final do século XX foram avisados aos veteranos da luta pelos Direitos Civis, cujo epítome foi representado pelo mártir Reverendo Dr. Martin Luther King Jr., elevado pelas elites brancas e negras ao cume da aceitação social. A mensagem do Dr. King de misericórdia cristã e sua doutrina de oferecer a outra face foram tranquilizantes para psique branca. Para os americanos da geração das ''commodities'', Dr. King foi, acima de tudo, um seguro.
 
 
 
:::O Partido dos Panteras Negras foi a antítese do Dr. King.
 
 
 
:::O Partido não era um grupo de Direitos Civis [...] mas praticou o direito à autodefesa [...] O Partido dos Panteras Negras fez os americanos (brancos) sentirem muitas coisas, mas segurança não foi uma delas<ref>E-mail pessoal ao autor, dez. 2003.</ref>.
 
 
 
Os pacifistas brancos (e também os pacifistas negros burgueses) têm medo da total abolição do sistema capitalista branco. Pregam a não violência para as pessoas que estão na base da hierarquia racial e econômica, precisamente porque a não violência é ineficiente, e qualquer revolução iniciada por “essas pessoas”, que pretenda continuar não violenta, será incapaz de eliminar posições privilegiadas dos brancos e dos ricos. Mesmo as vertentes da não violência que procuram abolir o Estado, buscam fazê-lo transformando-o (e convertendo as pessoas em poder); portanto, a não violência requer que ativistas tentem influenciar as estruturas de poder, o que requer que se aproximem delas, o que significaria que as pessoas privilegiadas, que têm maior acesso ao poder, terão o controle do movimento e se erguerão como guardiãs e intermediárias que permitirão que às massas dirijam suas vozes ao poder.
 
 
Em Novembro do ano 2003, ativistas da Vigia à Escola das Américas (''School of the Americas Watch'', SOAW) organizaram um debate sobre a opressão durante sua vigília pacífica anual em frente à base militar de ''Fort Benning'' (sede da ''Escola das Américas'', SOA, uma escola de treinamento militar implicada em numerosas violações dos direitos humanos e golpes militares na América Latina). Os organizadores do debate tiveram dificuldade ao pedir que os participantes brancos de classe média (grupo dominante na vigília não violenta) focassem sua atenção nas dinâmicas opressivas (tais como o racismo, o classismo, o sexismo e a transfobia) presentes na organização, e entre ativistas associados, com os esforços antimilitaristas da SOAW. Ao invés disso, as pessoas no debate, particularmente as mais velhas, brancas, e autoproclamadas pacifistas, continuavam a retornar às formas de opressão praticadas por forças externas - a polícia estadunidense ou os militares que subjugam a população latino-americana. Ficou evidente que a autocrítica (e melhoria) era uma opção não desejada; preferiam concentrar-se na violência que exercem os demais, enfatizando na sua própria vitimização (e, daí, sua suposta superioridade moral em comparação com as forças do poder do Estado). Na ocasião, alguns ativistas veteranos negros que assistiram ao debate conseguiram chamar a atenção para as várias formas de racismo que acontecem dentro e no entorno da organização, o que era um impedimento para que se conseguisse maior apoio entre a população não privilegiada. Talvez tenham exposto a crítica ao racismo mais importante dirigida às práticas pacifistas da organização. Falaram contra os privilégios pacifistas brancos, de um ativismo acomodado e do entretenimento, uma atitude festiva de manifestação, que põe em dúvida suas pretensões de constituir ações “revolucionárias”, ou mesmo de protesto.
 
 
Uma mulher negra ficou particularmente indignada com uma experiência que teve ao pegar um ônibus para a vigília de ''Fort Benning'' com outra ativista branca do SOAW. Durante uma conversa, a ativista branca comentou que não apoiava práticas de não violência. Logo em seguida, a branca lhe disse que ela estava "no ônibus errado" e que aquele protesto não era para ela. Quando relatei esta história e as outras críticas feitas pelos negros durante o debate citado, em uma lista de e-mails de ex-presidiários afiliados da SOAW (após cumprirem de forma totalmente voluntária uma sentença de prisão de um máximo de seis meses, otorgaram a si mesmos o título honorífico de “presos de consciência”), uma ativista branca pela paz me respondeu que ficava surpresa que uma mulher negra pudesse ter uma ideologia oposta à não violência, apesar do legado de Martin Luther King Jr., e do legado do movimento pelos direitos civis<ref>David Cortright, "The Power of Nonviolence", ''The Nation'', 18 fev. 2002, disponível em <http://thenation.com/doc/20020218/cortright> - Este artigo atribui uma citação de uma só palavra a César Chávez, mas centra-se na explicação do significado e na implementação das estratégias não violentas.</ref>.
 
 
Sob o frequente e manipulador uso das pessoas não brancas como as caras visíveis simbólicas e os porta-vozes domesticados do movimento, os pacifistas seguem com seus marcos táticos e ideológicos formulados por teóricos brancos. Ao passo que ativistas revolucionários são pressionados duramente para que citem os teóricos brancos sobre qualquer coisa relevante a dizer em relação aos métodos de luta militante, os expoentes do pacifismo são principalmente brancos (por exemplo: David Dellinger, os Berrigans, George Lakey, Gene Sharp, Dorothy Date e AJ Muste). Um artigo publicado no ''The Nation'', que promove a não violência, usa o nome de Gandhi como bandeira, mas cita primariamente ativistas brancos e universitários por articular uma estratégia mais precisa<ref>Bob Irwin e Gordon Faison, "Why Nonviolence? Introduction to Theory and Strategy", ''Vernal Project'', 1978, disponível em: <http://www.vernalproject.org/OPapers/WhyNV/WhyNonviolence1.html>.</ref>. Outro artigo sobre a não violência, recomendado por um ativista pacifista anti-SOA, dirigido a ativistas não pacifistas que duvidavam da profundidade da estratégia do pacifismo, cita somente as vozes de brancos<ref>Staughton Lynd y Alice Lynd, ''Nonviolence in America: A Documentary History'' (Maryknoll, Nova Iorque: Orbis Books, 1995).</ref>. Num livro muito conhecido entre pacifistas norte-americanos, é dito que a “América tem mais frequentemente sido o professor e não o aluno do ideal da não violência”<ref>Citações de organizadores brancos atuais, em Ward Churchill, ''Pacifism as Pathology'', p. 60-62.</ref>.
 
 
Os pacifistas também fariam bem em examinar a cor da não violência. Quando mencionamos distúrbios, a quem imaginamos? Ativistas brancos cometendo danos à propriedade como uma forma de desobediência civil que pode forçar, mas normalmente não perde, a cobertura protetora da “não violência”. Os não brancos comprometidos na destruição da propriedade politicamente motivada, a menos que estritamente encaixados na rubrica de um protesto organizado por ativistas brancos, são banidos à esfera da violência, não considerados como ativistas e não retratados como conscientes. O racismo do sistema judiciário, o maior e mais violento componente da nossa sociedade, é algo que os ativistas brancos raramente priorizam nos seus argumentos, e tem um importante impacto na psique estadunidense. “Violência” e “criminalidade” são conceitos quase intercambiáveis (consideremos o quão cômodos estão os pacifistas com o uso da terminologia moral do Estado - por exemplo, “justiça” - como se fosse deles próprios), e o propósito principal de ambos conceitos é estabelecer a culpa. Assim como os criminosos que merecem repressão e castigo, as pessoas que usam a violência merecem suas inevitáveis e kármicas violentas consequências; isso é integral para a posição pacifista. Eles podem negar que acreditam que qualquer um mereça ser alvo de violência, mas um argumento comum entre pacifistas é que revolucionários não deveriam empregar a violência porque o Estado, depois, a utilizará para “justificar” repressões violentas. Bom, para quem estas repressões violentas são justificáveis, e por que aqueles que dizem ser contra a violência não estão tentando injustificá-las? Por que ativistas contra a violência buscam mudar a moralidade da sociedade, em como esta vê a opressão ou a guerra, mas aceitam a moralidade da opressão como natural e intocável?
 
 
Esta ideia de consequências repressivas inevitáveis na militância, frequentemente, vai além da hipocrisia que leva a culpar a vítima por completo e aprovar a violência repressiva. Os não brancos, que são cotidianamente oprimidos pela polícia e pela violência estrutural, são aconselhados a não responder com violência porque isto poderia justificar a violência do Estado já mobilizada contra eles. A culpabilização da vítima tem sido um ponto chave do discurso pacifista, inclusive estrategicamente, nos anos 1960 e 1970, quando muitos ativistas brancos ajudaram a justificar certas ações do Estado, neutralizaram ações que poderiam ter se convertido em uma afronta antigoverno, no violento estado de repressão do movimento de libertação negro e outros movimentos de libertação, tais como os assassinatos dos Panteras Negras, Fred Hampton e Mark Clark, por parte da polícia. Longe de apoiar e ajudar os Panteras, os pacifistas brancos acharam mais elegante afirmar terem sido eles que “provocaram a violência” que depois foi “lançada contra eles próprios”<ref>Art Gish, ''Violence/Nonviolence'' (debate, Conferência Anarquista Norte Americana, Atenas, 13 ago. 2004).</ref>.
 
 
Recentemente, no encontro anarquista citado anteriormente, cobrei que o movimento antiguerra estadunidense merecia compartilhar a culpa da morte de três milhões de vietnamitas por serem tão complacentes com o poder do Estado. Um pacifista, anarquista e cristão, respondeu à minha acusação sustentando que a culpa era (eu esperava que ele falasse que era somente dos militares estadunidenses, mas não!) de Hồ Chí Minh e dos líderes vietnamitas, por praticarem a luta armada<ref>Tani e Sera, ''False Nationalism'', p. 101-102.</ref>. (Ou este pacifista considera os vietnamitas pessoas incapazes de conseguir um grande avanço popular em direção à resistência violenta por si próprios, ou os culpa por isso igualmente.) Tem-se a impressão de que se houvesse um maior número de ciganos, judeus, gays e outros, que tivessem resistido violentamente ao Holocausto, os pacifistas achariam conveniente culpá-los pelo genocídio, e também pela ausência de uma oposição exclusivamente pacifista.
 
 
Pregando a não violência, e abandonando nas garras da repressão do Estado todos aqueles que não escutam com obediência, os ativistas brancos que acham estar preocupados com o racismo, estão de fato promulgando uma relação paternalista, desempenhando a função de pacificar o oprimido, tão útil para o poder. Os tão aclamados líderes dos Direitos Civis, incluindo Luther King, tornaram-se um instrumento para a estratégia governamental da "bala e urna"<ref>No original, ''bullet and ballot'', refere-se ao ato de votar movido exclusivamente pelo medo. [N. do T.]</ref>, isolando e destruindo ativistas militantes negros e manipulando o resto para que apoie uma agenda pró-governamental muito debilitada, centrada nas eleições. Na verdade, a Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor (''National Association for the Advancement of Colored People'') e o Conselho Sulista de Liderança Cristã (''Southern Christian Ledership'') foram pagos pelo governo por seus serviços<ref>Belinda Robnett, ''How Long? How Long? African-American Women in the Struggle for Civil Rights'' (Oxford: Oxford University Press, 1997), p. 184-186.</ref>. (E o Comitê Estudantil de Coordenação Não Violenta (''Student Non-violent Coordination Comitee'') dependeu em grande parte das doações dos seus endinheirados benfeitores liberais, os quais perderam quando adotou uma postura militante, fator que contribuiu para seu colapso<ref>Kristian Williams, ''Our Enemies in Blue'' (Brooklyn: Soft Skull Press, 2004), p.87.</ref>.)
 
 
Um século antes, uma das principais atividades do Ku Klux Klan nos anos posteriores à Guerra Civil era desarmar toda a população negra do sul, roubando todas as armas que encontrava com negros recentemente “libertados”, muitas vezes com o auxílio da polícia. Na verdade, e em grande medida, o Klan atuou como uma força paramilitar frente ao Estado em tempos de revolta e, tanto a KKK quanto as forças policiais estadunidenses têm suas raízes nas patrulhas escravagistas ''antebellum'', que regularmente aterrorizavam os negros como forma de controle, no que pode ser descrito como política original do perfil racial<ref>Ibid., p. 266.</ref>. Hoje em dia, o Klan tem sido esquecido, a polícia retém suas armas, e os pacifistas que se definem como os aliados dos negros exortam as pessoas negras a não rearmar-se, jogando no ostracismo aqueles que o fazem.
 
 
Uma geração após o fracasso do movimento pelos direitos civis, a resistência negra deu origem ao hip-hop, que as forças da cultura dominante - como a indústria discográfica, fábricas de roupa e mídias de fins lucrativos - capitalizaram e compraram. Essas forças capitalistas culturais, que têm sido protegidas pelo desarmamento dos negros, e enriquecidas pelo envolvimento com sua escravidão, fazem agora com que as letras seja “suavizadas”. Os artistas de hip-hop vinculados aos maiores selos discográficos abandonaram a glorificação da violência antissistêmica e substituíram-na por um incremento da mais moderna violência contras as mulheres. A aparência da não violência, no caso dos negros, não armando-se ou advogando pela luta contra a policia é, na verdade, o reflexo do triunfo de uma violência prévia.
 
 
A violência massiva do Klan criou uma mudança material que é mantida por uma sistematizada e menos visível violência policial. Ao mesmo tempo, o poder cultural da elites brancas não só se manteve como aumentou frente a todos os tipos de violências econômicas e governamentais utilizados para convencer a cultura negra a fomentar a celebração de algumas das mesmas construções ideológicas que justificaram o sequestro, a escravidão e o linchamento de negros, enquanto a raiva produzida por gerações de abusos canaliza-se em ciclos de violência no interior das comunidades negras, distante de todas aquelas autoridades que a merecem. Na dinâmica do poder descrita neste breve esboço histórico, e em tantas outras histórias de opressão racial, as pessoas que insistem na não violência como método para si e para os oprimidos, se quisessem ter qualquer papel, terminariam fazendo o trabalho da estrutura de poder supremacista branca, quer queiram quer não.
 
 
Robert Williams deu uma alternativa a este legado do desarmamento. Infelizmente, sua história foi deixada de fora da narrativa dominante encontrada nos livros e textos escolares permitidos pelo Estado, e, se os proponentes da não violência têm algo a dizer sobre ele, esse algo também é excluído da narrativa interna do movimento, e da compreensão de sua própria História. No início de 1957, Robert Williams criou o núcleo do NAACP em Monroe, na Califórnia do Norte, para repelir os ataques do Ku Klux Klan e da polícia. Williams inspirou a formação de outros grupos armados de autodefesa, incluindo os Diáconos pela Defesa e Justiça (''Deacons for Defense and Justice''), que chegaram a possuir cinquenta núcleos em todo o sul, protegendo as comunidades negras e aqueles que agiam em favor dos direitos civis<ref>Keith McHenry, e-mail, lista de distribuição internacional de ''Food Not Bombs'', 20 abr. 2006.</ref>. São exatamente estes episódios de empoderamentos que os pacifistas brancos ocultam e ignoram. A não violência nas mãos de pessoas brancas tem sido continuamente uma empresa colonial. As elites brancas instruem os nativos em como dirigir suas economias e governos, enquanto os dissidentes brancos instruem os nativos em como dirigir sua resistência. No dia 20 de abril de 2006, um co-fundador do Comida Não Bombas (''Food not Bombs'', FNB), grupo antiautoritário majoritariamente branco que proporciona comida grátis em espaços públicos em cem países (a maioria na América do Norte, Austrália e Europa), lançou um chamado de apoio para um novo núcleo do FNB na Nigéria. Em março, o co-fundador do Comida Não Bombas, Keith McHenry, e o voluntário local nigeriano Yinka Dada visitaram as pessoas que sofriam à sombra das refinarias de gasolina da Nigéria.
 
 
 
:::Enquanto as condições da região continuam sendo terríveis as bombas não serão uma boa maneira de melhorar essas condições. A crise na Nigéria contribuiu para que os preços da gasolina chegassem ao recorde dos 72 dólares por barril. É incompreensível. As pessoas se sentem frustradas, já o lucro dos seus recursos estão enriquecendo companhias estrangeiras, enquanto seu meio ambiente está contaminado e vivem na pobreza. Comida Não Bombas oferece uma solução não violenta<ref>Frantz Fanon, ''The Wretched of the Earth'' (Nova York: grove Press, 1963), p. 86.</ref>.
 
 
 
A chamada de apoio do Comida Não Bombas condenou as ações da milícia rebelde, Movimento Pela Emancipação do Delta do Niger (''Movement for the Emancipation of the Niger Delta'', MEND), que reclamava autonomia para os ''Ijaw'' do delta do rio Níger e o fim da destrutiva indústria do petróleo (enquanto o FNB "saúda ao anúncio do presidente nigeriano Olusegun Obasanjo de novas vagas de emprego na delta da região” em refinarias de petróleo). O MEND tinha sequestrado vários empregados estrangeiros das companhias petrolíferas (estadunidenses e europeias) para demandar o fim da repressão governamental e da exploração empresarial (os reféns foram postos em liberdade ilesos). Curiosamente, enquanto condenavam o sequestro, o Comida Não Bombas não mencionou o bombardeio dos militares nigerianos autorizado pelo presidente Obasanjo contra vários povoados ''Ijaw'' que acreditavam estar apoiando o MEND. Enquanto não existe nenhuma evidência de que a solução “não violenta” que eles dizem “oferecer” faça algo para libertar os nigerianos da exploração e da opressão que sofrem, se a não violência fosse implementada entre nigerianos isso certamente evitaria a "crise" do governo e abaixaria os preços da gasolina, o que, presumo, faria com que as coisas fossem muito mais pacíficas para a América do Norte.
 
 
Dada a repressão total do sistema supremacista branco, a evidente inutilidade do processo político e os vergonhosos esforços de uma elite dissidente em explorar e controlar a raiva dos oprimidos, não é de se surpreender ou gerar qualquer polêmica o fato de que "o homem colonizado encontre sua liberdade através da violência", empregando as palavras de Frantz Fanon, o médico de Martiníca que escreveu uma das mais importantes obras na luta contra o colonialismo<ref>Frantz Fanon, ''The Wretched of the Earth'' (Nova York: grove Press, 1963), p. 94.</ref>. A maior parte dos brancos goza de suficiente privilégio e permissividade para que confundamos estas generosas e longas cadeias acolchoadas de veludo com a liberdade, de maneira que façamos "campanha" dentro dos confortáveis parâmetros da sociedade democrática (os limites os quais são compostos por forçadas estruturas de violência racial, econômica, sexual e governamental). Alguns de nós erramos ainda mais ao assumir que todas as pessoas enfrentam as mesmas circunstâncias, e esperamos que os não brancos exerçam privilégios dos quais na realidade não gozam. Mas além da necessidade estratégica de atacar o Estado com todos os meios que possamos dispor, não teríamos nos deparado com a diária intimidação, degradação e subordinação policial consideradas efeito empoderador de contra-atacar contundentemente? Frantz Fanon escreve, sobre a psicologia do colonialismo e a violência na procura da libertação: “Ao nível dos indivíduos, a violência (como parte da luta pela libertação) é uma força para a purificação. Liberta os nativos de seu complexo de inferioridade, e de sua passividade e desespero; torna-os destemidos e restaura seu respeito próprio".<ref>Darren Parker, e-mail, 10 jul. 2004.</ref>
 
 
Mas os proponentes da não violência que vêm de áreas privilegiadas, com as comodidades materiais e psicológicas garantidas e protegidas por uma ordem violenta, não crescem com complexos de inferioridade violentamente marcados no seu interior. A arrogância das afirmações dos pacifistas de que podem chegar a ditar quais formas de luta são morais e efetivas para as pessoas que vivem de forma muito diferente, e que encaram circunstâncias muito mais violentas, é espantosa. Os brancos dos subúrbios que omitem às crianças o campo de refugiados de Jenin, ou os campos de extermínio da Colômbia, incidem sobre a resistência de forma similar aos economistas do Banco Mundial que ditam quais são as “boas” práticas agrícolas para os agricultores indianos que têm como herança tradições seculares. E as relações saudáveis das pessoas privilegiadas com o sistema de violência global deveriam levar a questionamentos sérios em relação à sinceridade das pessoas privilegiadas, neste caso, os brancos, que pregam a não violência. Citando de novo Darren Parker, "A aparência, pelo menos, de um espírito não violento é muito mais simples de alcançar quando a pessoa não é receptora direta da injustiça, e pode talvez simplesmente representar uma distância psicológica. Afinal de contas, é muito mais simples 'amar teu inimigo' quando este não é, realmente, teu inimigo".<ref>Churchill e Vander Wall, ''Agents of Repression'', p. 188.</ref>
 
 
Sim, não brancos, pobres, e pessoas do hemisfério sul advogaram pela não violência (mesmo que os pacifistas tenham vindo dos estratos mais privilegiados de suas comunidades), entretanto, apenas através de um senso de superioridade pelo qual ativistas brancos julgam e condenam as pessoas oprimidas que não fazem o mesmo. É verdade que, apesar do privilégio, deveríamos ser capazes de confiar em nossas próprias análises, mas quando estas análises fundamentam-se numa duvidosa superioridade moral e numa conveniente e seletiva interpretação do que constitui "a violência", as oportunidades para a autocrítica ficam muito reduzidas. Quando entendemos que as pessoas privilegiadas obtêm lucros materiais da exploração de pessoas oprimidas, e que isto significa que nos beneficiamos da violência que se emprega para mantê-los por baixo, não podemos, sinceramente, condená-los por rebelar-se violentamente contra a violência estrutural que nos privilegia. (Aqueles que já condenaram a resistência violenta de pessoas que cresceram em circunstâncias mais opressivas do que as próprias deveriam pensar sobre isso na próxima vez que comerem uma banana ou tomarem uma xícara de café.)
 
 
Espero que esteja claro que o governo utiliza das mais violentas formas de repressão contra pessoas não brancas em resistência, que contra pessoas brancas. Quando a comunidade indígena de Oglala e o Movimento Indígena Americano levantaram-se contra a reserva de Pine Ridge, nos anos setenta, para declarar uma pequena independência e organizar-se contra o endêmico assédio do “governo tribal” imposto, o Pentágono, o FBI, os xerifes federais e o Departamento de Assuntos Indígenas (''Bureau of Indians Affairs'') instituíram um completo programa contrainsurgente, que deu lugar a um exercício diário de violência e dúzias de mortes. De acordo com Ward Churchill e Jim Vander Wall, “o princípio de autodefesa armada transformou-se, para os dissidentes, numa necessidade de sobrevivência”<ref>Alguns dos mais dedicados ativistas não violentos nos Estados Unidos sofreram torturas e mortes no transcurso de suas ações de solidariedade à América Latina. Mas isto não é exatamente o mesmo que os ativistas não brancos sofreram dentro dos Estados Unidos, dado que estes ativistas brancos sofreram violência numa situação na qual eles próprios se colocaram, não numa situação que lhes foi imposta, sobre eles e sobre suas famílias e comunidades. É, finalmente, muito mais simples ter complexo de mártir por si mesmo do que pela própria família (o que não significa que todos estes ativistas estivessem motivados por dito complexo, apesar de eu ter participado de certos encontros com alguns que aproveitaram este rasgo para reivindicar que experienciaram uma forma de opressão que equivale a sofrida pelas pessoas não brancas).</ref>
 
 
Os únicos partidários da não violência aos quais escutei refutar inclusive a legitimidade de autodefesa foram sempre os brancos, e mesmo que eles tivessem seus “Oscar Romeros", eles e suas famílias não tiveram pessoalmente que sobreviver sob ameaça constante como resultado do seu ativismo<ref>Churchill, ''Pacifism as Pathology'', p. 60-61.</ref>. Tenho dificuldade para acreditar que sua aversão está relacionada a princípios, ao invés de privilégios e ignorância. E, além da mera autodefesa, o fato de que certos indivíduos precisem enfrentar a possibilidade de ter que contra-atacar para sobreviver ou melhorar suas vidas depende em boa parte da cor da sua pele e de sua posição dentro de múltiplas hierarquias de opressão, nacionais e globais. São estas experiências que o pensamento da não violência ignora, ao considerar violência como um tema meramente ético ou uma livre escolha.
 
 
A alternativa culturalmente sensível dentro do pacifismo é aquela na qual os ativistas permitem, ou até mesmo apoiam, a resistência militante no hemisfério Sul e, em alguns casos, também nos guetos das cidades da Europa e da América do Norte, e apenas advogam pela não violência com pessoas e populações que possuem uma experiência de privilégio similar. Esta formulação apresenta uma nova forma de racismo, sugerindo que o lutar e morrer seja carregado por pessoas não brancas nos Estados mais claramente opressivos do hemisfério sul, enquanto os cidadãos privilegiados dos centros imperiais podem conter-se mediante formas de resistência mais apropriadas ao contexto, como os bloqueios sentados e as reuniões de protesto.
 
 
Uma análise antirracista, por outro lado, exige que as pessoas brancas reconheçam que a violência exercida contra todas aquelas pessoas não brancas que devem defender a si próprias tem origem no "Primeiro Mundo" branco. Assim, a resistência apropriada a um regime que leva adiante guerras contra povos colonizados por todo o globo é trazer a guerra para casa; construir uma cultura antiautoritária, cooperativa e antirracista entre as pessoas brancas; atacar às instituições do Imperialismo; e estender o apoio às pessoas oprimidas em resistência sem debilitar a soberania da sua luta. De qualquer modo, pacifistas não absolutos que assumiram certo relativismo cultural são menos prováveis a apoiar a revolução armada quando a luta fica perto de casa. Os palestinos, por exemplo, podem engajar-se na luta militante porque vivem sob um regime violento, mas se os brutalizados residentes do gueto formassem unidades de guerrilha, isto seria considerado “inapropriado” ou “irresponsável”. Esta é a tendência de “não no quintal de minha casa", alimentada pelo reconhecimento de que uma revolução lá seria algo emocionante, uma revolução aqui privaria os ativistas pacifistas de suas cômodas posições de privilégio. Também está presente o latente medo da revolta racial, o qual é amenizado só quando ficam subordinados a uma ética não violenta. Pessoas negras marchando é fotogênico. Pessoas negras armadas evocam o informe de crime violento no noticiário da noite. Índios americanos falando numa conferência de imprensa são louváveis. Índios americanos prontos e dispostos, capazes de tomar de volta suas terras é um pouco perturbador. Assim, o apoio de pessoas brancas aos revolucionários não brancos limita-se a mártires inertes - os mortos e os aprisionados.
 
 
A contradição no pacifismo ostensivamente revolucionário é a de que a revolução nunca é segura, mas para a grande maioria de seus praticantes e defensores, o pacifismo é sobre estar em segurança, não se ferir, não alienar ninguém, não dar a ninguém pílulas amargas para engolir. Ao fazer a conexão entre pacifismo e autoproteção de ativistas privilegiados, Ward Churchill cita uma ativista pacifista que, durante a era do Vietnã, denunciou as táticas revolucionárias do Partido dos Panteras Negras e do ''Weather Underground'', porque aquelas táticas eram "algo realmente perigoso para todos nós [...] trouxeram um risco verdadeiramente real de provocar o mesmo tipo de repressão violenta [como se vê no assassinato policial de Fred Hampton] sobre todos nós”<ref>David Gilbert, ''No Surrender: Writings from an Anti-Imperialist Political Prisoner'' (Montreal: Abraham Guillen Press, 2004), p. 22-23.</ref>. Ou, para citar David Gilbert, que está cumprindo uma sentença de prisão perpétua por suas ações como membro da ''Weather Underground'' e apoiador do Exército de Libertação Negra: "Os brancos tinham algo a proteger. Foi cômodo estar acima de um movimento por mudança, rodeado de legitimação moral, enquanto pessoas negras sofriam as maiores baixas pela luta"<ref>Alice Woldt, citado em Chris McGann, "Peace Movement Could Find Itself Fighting Over Tactics", ''Seattle Post-Intelligencer'', 21 fev. 2003, disponível em: <http://seattlepiNwsource.com/local/109590_peacemovement21.shtml>.</ref>.
 
 
O desejo pacifista por segurança continua presente hoje. No ano 2003, um ativista não violento tranquilizou um jornal de Seattle sobre o caráter dos protestos planejados. "Não estou falando que não deveríamos apoiar a desobediência civil", disse Woldt, e acrescentou: "isto faz parte do movimento pela paz no qual pessoas da Igreja engajaram-se; nós não estamos aqui para causar danos à propriedade ou nada que gere consequências negativas para ''nós''"<ref>E-mail ao autor, out. 2004. Este mesmo ativista reescreveu de forma paternalista a história da libertação negra, declarando que os Panteras Negras não advogaram em favor da violência. No mesmo e-mail, citou ''O arte da guerra'', de Sun Tzu, para reforçar seus argumentos e melhorar sua sofisticação tática. Enquanto o mesmo Sun tsu teria estado de acordo com suas teorias se tivesse empregado suas ideias dentro de uma discussão, empregá-las num e-mail para demonstrar a eficácia do pacifismo é mais do que questionável.</ref>.
 
 
E numa lista de e-mails para uma campanha ambiental radical em 2004, após solicitar uma discussão aberta sobre as táticas, um estudante de direito e ativista defendeu o fim das referências às táticas não pacifistas, e pediu uma adesão estrita à não violência, no sentido que grupos não pacifistas "sejam aniquilados"<ref>E-mail ao autor, out. 2004.</ref>. Outra ativista (e casualmente uma outra estudante de direito na lista) concordou com ele, e acrescentou: "Acho que ter uma discussão sobre táticas violentas nesta lista é brincar com fogo e está colocando todos em risco”. Também se preocupava porque "dois de nós estarão cara a cara com a ''camera stellata'' do comitê de ética do Bar Association, um dia, num futuro próximo”<ref>David Dellinger, "The Black Rebellions", em ''Revolutionary Nonviolence: Essays by David Dellinger'' (Nueva York: Anchor, 1971), p. 207. No mesmo ensaio, Dallinger admite que há ocasiões nas quais os mesmos que atuam de maneira não violenta devem converter-se em resistentes aliados ou partidários críticos daqueles que recorrem à violência.</ref>.
 
 
Naturalmente, existe uma grande necessidade de cautela no ativismo militante. Quando se discute táticas, especialmente via e-mail, enfrentamos obstáculos no apoio da construção de ações, e é mais provável que sejamos constrangidos ou pressionados, inclusive se a única coisa que fizermos seja discuti-las. De qualquer jeito, neste exemplo, os dois estudantes não falavam que os grupos deveriam discutir unicamente táticas legais ou táticas hipotéticas, mas que os grupos deveriam discutir somente táticas não violentas. Mesmo sob o disfarce de uma discussão dirigida a auxiliar os grupos na criação de bagagem ideológica em comum, em realidade, foi uma forma manipuladora de empregar as ameaças de repressão governamental para evitar que os grupos sequer tomassem em consideração alguma outra filosofia que não fosse a não violenta.
 
 
O pacifismo tem impedido alçamentos revolucionários no seu próprio terreno, aos quais tem que acrescentar uma longa história de traições perpetradas por pacifistas brancos, que condenaram e abandonaram numerosos grupos revolucionários devido ao seu emprego da violência.
 
 
Longe de “colocarem a si próprios em risco” para proteger os membros dos movimentos de libertação, seja qual for sua cor, os pacifistas ignoraram conscientemente o tratamento brutal, o encarceramento e o assassinato infligido aos ''Panteras Negras'', aos ativistas do ''Movimento Indígena Americano'' e a outros. Pior ainda, apoiaram a repressão do Estado e declararam que os revolucionários a mereciam por participarem na resistência militante. (Hoje em dia, afirmam que os últimos fracassos liberacionistas, - com os quais os pacifistas contribuíram -, é uma evidência da ineficiência das suas táticas.) O reverendo pacifista, David Dellinger, admite que "um dos fatores que induz os revolucionários sérios e os habitantes dos guetos a concluir que a não violência é incapaz de se converter num método adequado para suas necessidades é precisamente a tendência dos pacifistas em alinhar-se com o ''status quo'' nos momentos de conflito”<ref>David Dellinger (Nova York: Anchor, 1971), p. 207. No mesmo ensaio, Dallinger admite que há ocasiões nas quais os mesmos que atuam de maneira não violenta devem se converter em aliados resistentes ou partidários críticos daqueles que recorrem à violência.</ref>. David Gilbert conclui que "o fracasso do desenvolvimento dos laços de solidariedade com os negros e com outras lutas de libertação nos Estados Unidos (os nativos americanos, os chicanos ou os porto-riquenhos), é um dos muitos fatores que provocou que nosso movimento fosse excluído em meados dos anos setenta”<ref>Abu-Jamal, ''We Want Freedom'', p. 76.</ref>. Mumia abu-jamal pergunta-se: estiveram os radicais brancos "realmente preparados para embarcar numa revolução que não priorizava os brancos?"<ref>Belinda Robnett assinala que tornando-se mais militantes e adotando ideologia do ''Black Power'', os grupos previamente não violentos como o SNCC, antes financiados por grupos financeiros liberais (presumivelmente compostos por uma maioria branca), perderam seu financiamento. Esta perda da sua principal fonte de financiamento implicou, em parte, no colapso da organização (Robnett, ''How Long? How Long?'', p. 184-186). Robnett, além disso, iguala o abandono da não violência com o machismo. Refletindo seu status acadêmico (como professora de sociologia no sistema da Universidade de Califórnia) ela confunde a linha que separa os provocadores pagos pelo FBI que advogam pelo sexismo dentro do movimento (por exemplo, Ron Karenga), os legítimos ativistas que defendem um aumento da militância, e os autênticos ativistas com aqueles que confundem a militância com o machismo. Ela também menciona que Angela Davis queixa-se por ter sido criticada pelos nacionalistas militantes negros, "por fazer um trabalho de homem" (Robnett, ''How Long? How Long?'', p. 183), mas esquece de mencionar que Davis foi muito influente na hora de defender a luta militante. Robnett também parece esquecer a necessária ruptura com uma situação na qual os grupos com uma agenda tão radical como a da igualdade racial não tiveram uma atitude de apoio interno, e, em lugar disso, contavam com o apoio do governo federal e das doações dos brancos.</ref>.
 
 
Em primeira instância, a não violência parece uma posição ética clara que tem pouco a ver com a raça. Esta visão está baseada na afirmação simplista de que a não violência é, em primeiro lugar, uma opção que escolhemos. Mas, que pessoas neste mundo têm o privilégio de escolher o uso da violência? E quem vive em circunstâncias violentas, a desejará ou não? Geralmente, a não violência é uma prática que resulta do privilégio, que surge das experiências das pessoas brancas, e nem sempre faz sentido para as pessoas que não desfrutam desse privilégio branco ou para as pessoas brancas que tratam de destruir esse sistema de privilégios e opressões.
 
 
Muitos não brancos empregaram também a não violência, que em certas circunstâncias foi a maneira mais efetiva de se manter a salvo da vertente mais violenta da discriminação, enquanto perseguiam reformas limitadas que, em última instância, não mudam a distribuição do poder na sociedade. O uso da não violência pelos não brancos foi um sintoma, geralmente, de um compromisso com a estrutura de poder branca. Reconhecendo que a estrutura de poder branca prefere que os oprimidos sejam não violentos, algumas pessoas escolheram usar táticas não violentas para se protegerem da repressão, do massacre e inclusive do genocídio. Os movimentos das pessoas não brancas que perseguem objetivos revolucionários de modo pacífico tiveram que usar uma forma de não violência que é menos absoluta nos seus termos, e mais polêmica e perigosa que o tipo de violência predominante nos Estados Unidos da atualidade. E, mesmo assim, a prática da não violência é amiúde subvencionada pelos brancos que estão no poder, é usada pelos dissidentes brancos ou os oficiais governamentais para manipular o movimento a favor de sua comodidade, e é habitualmente abandonada por grandes segmentos dos movimentos sociais em favor de táticas mais militantes. O uso da não violência para preservar o privilégio branco, no movimento ou na sociedade em conjunto, é ainda comum hoje em dia.
 
 
Resumindo, afirmo que a não violência está claramente implicada em dinâmicas de raça e poder. A raça é essencial para a nossa experiência de opressão e de resistência. Um importante componente do racismo, desde há muito, foi a afirmação de que os europeus, ou os colonos europeus em outros continentes, sabiam o que era melhor para as pessoas que consideravam "menos civilizadas". As pessoas que lutam contra o racismo devem acabar com essa tradição e reconhecer o imperativo de que cada comunidade é capaz de determinar sua própria forma de resistência, baseando-se nas suas próprias experiências. Este exercício de humildade lança toda prioridade ao pacifismo no esquecimento. Além disso, para aqueles de nós que são brancos, torna-se um dever construir nossa própria cultura militante de resistência, ao invés de assumirmos o papel de professores, que temos historicamente empenhado. Temos muito a aprender com as lutas das pessoas não brancas. Os brancos radicais devem educar o resto das pessoas brancas para que compreendam porque a rebelião violenta dos não brancos é justificada e porque deveríamos, também nós, empregar uma diversidade de táticas para nos libertarmos, lutando em solidariedade com todos aqueles que tenham rejeitado seu lugar como lacaio ou escravo das elites, e acabar assim com os sistemas de opressão e exploração globais.
 
 
 
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Edição das 21h04min de 17 de julho de 2018