Mudanças entre as edições de "A Não Violência é estadista"

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;[[Como a Não Violência protege o Estado]]
 
;[[Peter Gelderloos]]
 
  
Podemos dizer, resumindo, que a não violência garante o monopólio da violência ao Estado. Os Estados (as burocracias centralizadas, que protegem o capitalismo, preservam a supremacia branca, a ordem patriarcal, e implementam a expansão capitalista) sobrevivem ao assumir o papel de provedor único e legítimo da força violenta em seus territórios. Qualquer luta contra a repressão precisa de um conflito com o Estado. Os pacifistas fazem o trabalho do Estado ao pacificar a oposição<ref>No dia 9 de fevereiro de 2006, um membro de um grupo não violento do SOA ''Watch'' (que atrai o apoio de uma variada gama de grupos que vai deste os progressistas até os anarquistas), sugeriu em uma lista de e-mails que, dado que a polícia se ocupava de uma manifestação anual na frente da ''Fort Beginning'', na Georgia, de uma maneira mais agressiva nos últimos anos, o grupo deveria transferir a mobilização a outro espaço que estivesse mais afastado da base militar, para que a campanha pudesse evitar confrontos. Escreveu: “onde aparecer polarização, é hora, na minha opinião, de que a campanha pela paz reavalie suas táticas. As relações estão no centro da prática pacifista. 'Nós e Eles' pode conduzir, em última instância, à guerra. 'Todos nós' tem mais possibilidades de alcançar soluções negociáveis (não violentas) e pode conduzir, a largo prazo, a uma cultura de paz.”</ref>. Os Estados, por sua parte, desanimam a militância contida dentro da oposição e incitam a passividade.
 
 
Alguns pacifistas negam esta mútua relação de dependência ao afirmar que o governo adoraria que eles abandonassem sua disciplina não violenta  e se entregassem à violência, ou que o governo, inclusive, encoraja a violência entre dissidentes e que muitos ativistas que incitam a militância são, de fato, provocadores governamentais<ref>Num exemplo recente, os ''flyers'' que circularam em centenas de protestos contra a Convenção Nacional Republicana de 2004 reivindicavam que qualquer pessoa que advogue pela violência será, provavelmente, um agente da polícia.</ref>. Assim, argumentam que são os ativistas militantes que verdadeiramente atuam como fantoches do Estado. Apesar de que, em alguns casos, o governo dos Estados Unidos usou infiltrados para incitar os grupos de resistência a acumular armas ou planejar ações violentas (por exemplo, nos casos do atentado de Molly Maguires e Jonathan Jackson, durante a greve do judiciário<ref>Churchil e Vander Wall, ''Agents of repression'', p. 94-99, p. 64-77. No caso de Jonathan Jackson, parece que foi a polícia e o FBI quem instigou toda a trama, numa tentativa de assassinar o principal militante dos Panteras na Califórnia. Eles incitaram o grupo a fazer pessoas de reféns na corte de justiça Marin Couty, mas somente porque estavam preparados com uma equipe grande, com franco-atiradores prontos para neutralizar os militantes. Ainda assim, mesmo ao não “morder a isca” (esta  frase se utiliza como se todos os que advogassem pela militância fossem provocadores – perigosos e potencialmente violentos -, acusação que foi dirigida a uns quantos) não conseguiremos nos manter a salvo. O informante do FBI, William O’Neal, encorajou os Panteras de Ilinóis, entre os quais tinha se infiltrado, a ser parte de tramas tão bizarras como obter gás nervoso ou um aeroplano para fazer um atentado contra a prefeitura. Quando eles se negaram, o FBI deu um passo à frente e assassinou, de qualquer forma, o líder dos Panteras: Fred Hampton.</ref>), deve-se estabelecer uma distinção crítica. O  governo encoraja a violência quando tem certeza de que tal poderá ser contida e não escapará de suas mãos. No fim, induzir um grupo de militantes de resistência a atuar prematuramente ou a cair numa armadilha elimina o potencial para a violência de tal grupo, ao garantir facilmente uma condenação à prisão perpétua, ou permitir às autoridades esquivar os processos judiciais e acabar mais rapidamente com os radicais. De maneira geral, e em quase todos os outros casos, as autoridades pacificam a população e dissuadem rebeliões violentas.
 
 
Existe uma razão clara para isso. Contrariamente às insensatas reivindicações dos pacifistas de que, de alguma maneira, empoderam a si mesmos ao excluir a maior parte de suas opções táticas, governos de toda parte reconhecem que o ativismo revolucionário não constrangido supõe uma das maiores ameaças de mudar a distribuição de poder na sociedade. Apesar do Estado sempre ter se reservado o direito de reprimir quem deseja, os governos modernos “democráticos” tratam os movimentos sociais não violentos com objetivos revolucionários como ameaças potenciais, mais do que como ameaças reais. Espiam estes movimentos para estarem atentos a seu desenvolvimento, e usam a estratégia do “pau e a cenoura”<ref>Em referência à imagem de uma cenoura presa na ponta de um pau e amarrada em frente a um burro, o que o induz a andar para a frente, sem nunca alcançar a suposta recompensa, mas, com isso, evitando a necessidade de ser punido com golpes para caminhar. [N. do T.].</ref>, para conduzir esta massa de movimentos a utilizar canais de luta totalmente pacíficos, legais e ineficientes. Os grupos não violentos poderiam estar sujeitos a receber uma surra, mas eles não são alvos a serem eliminados (exceto por governos retrógrados ou enfrentando um período de emergência que ameace sua estabilidade).
 
 
Por outro lado, o Estado trata os grupos militantes (aqueles mesmos grupos que os pacifistas consideram ineficientes) como ameaças reais e tenta neutralizá-los com uma contrainsurgência altamente desenvolvida e operações de guerra interna. Centenas de sindicalistas, anarquistas, comunistas e agricultores militantes foram assassinados durante as lutas anticapitalistas do final do século XIX e do início do século XX. Durante as últimas gerações de lutas de libertação, paramilitares apoiados pelo FBI assassinaram sessenta ativistas e partidários do Movimento Indígena Americano (AIM) na reserva Pine Ridge, e o FBI, a polícia local e agentes pagos assassinaram dezenas de membros do Partido Panteras Negras, da República Nova África e do Exército de Libertação Negra, assim como de outros grupos<ref>Dois bons livros sobre a repressão do COINTELPRO são Churchill e Vander Wall, ''Agents of Repression'', e Abu-Jamal, ''We Want Freedom''. Sobre um tipo de repressão similar no exterior, leia-se William Blum, ''Killing Hope: US Military and CIA Interventions since World War II'' (Monroe, Maine: Common Courage Press, 1995).</ref>.
 
 
Vastos recursos foram mobilizados para se infiltrar e destruir organizações revolucionárias militantes durante a era COINTELPRO<ref>Programa de Contra Inteligência, acrônimo da denominação em inglês ''Counter Intelligence Program''. Constituído por uma enorme série de operações ilegais e clandestinas conduzidas pelo FBI (''Federal Bureau of Investigations'') - a Polícia Federal Americana -, entre os anos de 1956 até após 1971, que tinham por objetivo desestabilizar grupos de protestos, de esquerda, ativistas e dissidentes políticos dentro dos Estados Unidos. [N. do T.].</ref>. Todo indício de organização militante por parte de indígenas, porto-riquenhos e outros incluídos no âmbito territorial dos Estados Unidos incorrem em repressões violentas. Ainda antes do 11 de setembro, o FBI nomeou os sabotadores e incendiários membros do Frente de Libertação da Terra (''Earth Liberation Front'', ELF) e do Frente de Libertação Animal (''Animal Liberation Front'', ALF) como as maiores ameaças terroristas internas, apesar destes dois terem matado exatamente zero pessoas.  Até mesmo após os atentados do ''World Trade Center'' e do Pentágono, o ELF e o ALF continuaram uma prioridade para a repressão estatal, como se viu nas detenções de mais de uma dúzia de supostos membros da ELF/ALF; no acordo de muitos destes prisioneiros de se converter em bodes expiatórios depois que um deles morreu num suicídio suspeito e que todos eles foram ameaçados com sentenças de prisão perpétua; e no encarceramento de vários membros de um grupo de direitos animais por causa de um agressivo boicote a uma empresa de vivissecção, que o governo qualificou como uma “iniciativa de terrorismo animal”<ref>A repressão contra o ELF, denominado ''Green Scare'' [susto verde], e o encarceramento dos ativistas do Pare a Crueldade com o Animal em Huntingdon(''Stop Huntingdon Animal Cruelty'', SHAC) se encontra extensamente apresentado em meios de comunicação radicais e ecologistas. Veja-se, por exemplo, Brian Evans, "Two ELF Members Plead Guilty to 2001 Arson", ''Asheville: Global Report'', n. 404, 12 out. 2006, disponível em: <http://www.agrnews.org/?section=archives&article_id=1296>; e ''The SHAC 7'', disponível em <http://www. shac7.com/case.htm>.</ref>! Na  mesma época em que a esquerda ficou impressionada porque a polícia e os militares estiveram espiando grupos pacifistas, muito menos atenção se deu à repressão contínua contra o movimento de liberação porto-riquenho, incluindo o assassinato do líder Machetero Filiberto Ojeda Rios, pelo FBI<ref>No dia 3 de maio de 2006, a busca dos arquivos de dois sítios web de meios independentes esquerdistas e não militantes (''Common Dreams'' e AlterNet) revelaram a disparidade mencionada. Busquei dois nomes, “Thomas Merton Center” e “Filiberto Ojeda Ríos”. A primeira busca, relativa ao Centro Thomas Merton por Paz e Justiça (''Thomas Merton Center for Peace and Justice'') – um dos alvos de uma relativamente intrusiva campanha através da qual o FBI vigiava grupos pacifistas, tal como revelavam as pesquisas da ACLU desde 2006 – o nome era mencionado em 23 artigos no ''Common Dreams'' e em 5 no AlterNet. Na busca referente a Filiberto Ojeda Ríos – um dos primeiros líderes dos Macheteros, um grupo dentro do movimento independentista porto-riquenho, assassinado pelo FBI em 23 de setembro de 2005 –, é mencionado em um artigo do ''Common Dreams'' e nenhum do AlterNet. Apesar de que pouca gente nos Estados Unidos mostrou alguma preocupação, dezenas de milhares de porto-riquenhos se manifestaram em San Juan para protestar pela sua morte. Estes sítios web continham menos artigos sobre a onda de violentas investidas do FBI contra os ativistas independentistas porto-riquenhos, ocorridas em fevereiro de 2006, do que os dedicados à revelação, publicada mais ou menos na mesma época, de que o FBI do Texas estava espiando o grupo predominantemente branco Comida não Bombas (''Food Not Bombs'') como uma parte de suas atividades antiterroristas. Em relação à cobertura da espionagem dos ativistas pacifistas brancos, leia-se ''Punish for Pacifism'', ''Democracy Now'', ''Pacifica Radio'', 15 mar. 2006. Em referência à cobertura do assassinato e das subsequentes investidas em Porto Rico, leia-se ''September 30th, February 28yh Newsbriefs'' (2006), disponível em: <www.signalfire.org>. AmNewsbriefs (2005) e ambos eventos foram cobertos por ''Indymedia Puerto Rico'' (por exemplo, CMI-PR, "Fuerza Bruta Imperialista Allana Hogar de Compañera, Militantes Boricuas Dan lo Suyo", ''Indymedia Puerto Rico'', 10 fev. 2006, disponível em <http://pr.indymedia.org/news/2006/02/13197.php>).</ref>.
 
 
Mas não precisamos elaborar deduções das opiniões e prioridades do aparato de segurança estatal a partir das ações de seus agentes. Podemos, simplesmente, nos guiar pelas suas palavras. Os documentos COINTELPRO do FBI foram revelados ao público somente porque, em 1971, alguns ativistas entraram num escritório do FBI na Pensilvânia e roubaram estes documentos, demonstrando claramente que um dos maiores objetivos da organização era manter os revolucionários em potencial na passividade. Numa lista de cinco objetivos em relação a grupos nacionalistas e de libertação dos negros, nos anos 60, o FBI incluiu a seguinte reflexão:
 
 
 
:::Impedir a violência por parte dos grupos nacionalistas negros. Isto é de suma importância, e é, claro, uma das metas da nossa atividade de pesquisa; deveria ser também uma meta do Programa de Contrainteligência [na gíria original do governo, este termo se refere a uma operação específica, das quais haviam centenas, e não ao modelo global de programa]. Através da contraespionagem deve ser possível apontar corretamente quem são os agitadores potenciais e neutralizá-los antes que exerçam sua violência potencial<ref> Abu-Jamal, ''We Want Freedom'', p. 262-263.</ref>.
 
 
 
Ao identificar “neutralizações” bem sucedidas em outros documentos, o FBI usa este termo para se referir a ativistas que foram assassinados, presos, inculpados, desacreditados ou pressionados até que deixaram de ser politicamente ativos. O memorando também aponta para a importância de prever o risco da aparição do “messias” negro.  Depois de observar orgulhosamente que Malcom X poderia ter encarnado esse papel, mas que em vez disso foi o mártir do movimento, o memorando nomeia três líderes negros que poderiam encarnar este messias em potencial. Um dos três “poderia ter sido um verdadeiro candidato para esta posição se tivesse abandonado sua suposta ‘obediência’ às ‘doutrinas brancas liberais’(a não violência)” [os parênteses aparecem no original]. O relatório também explica a necessidade de desacreditar a militância negra aos olhos da “comunidade Negra responsável” e da “comunidade branca”. Isto mostra como o Estado pode contar com o reflexo pacifista de condenar a violência, e como os pacifistas fazem, efetivamente, o trabalho sujo do Estado, porque não utilizam sua influência cultural para tornar “respeitável” a resistência militante contra a tirania. No lugar disso, os pacifistas alegam que a militância aliena as pessoas, e não fazem nada para tentar contrapor este fenômeno.
 
 
Outro memorando do FBI, desta vez dedicado ao ativista do Movimento Indígena Americano, John Trudell, mostra que a política policial do Estado também entendeu que os pacifistas são uma espécie de dissidência inerte que não representa ainda uma ameaça à ordem estabelecida: “Trudell tem a capacidade de se encontrar com um grupo pacifista e, num período curto de tempo, conseguir que exclamem ‘adiante!’. Portanto, é um agitador extremamente efetivo”<ref>Churchill e Vander Wall, ''Agents of Repression'',p. 364.</ref>.
 
 
O governo demonstra de forma consistente o fato pouco surpreendente de que prefere enfrentar uma oposição pacífica. Recentemente, um memorando do FBI enviado às autoridades locais competentes no país, que posteriormente vazou na imprensa, pôs em manifesto quem o governo identifica como extremistas e sobre quem prioriza sua neutralização:
 
 
 
:::No dia 25 de outubro, estão programadas marchas massivas e comícios contra a ocupação do Iraque em Washington DC e em São Francisco, Califórnia [...] Existe a possibilidade de que elementos da comunidade ativista tentem empreender ações violentas, destrutivas ou prejudiciais [...]
 
 
 
:::As táticas tradicionais das manifestações, nas quais os manifestantes concentram sua atenção, são marchas, cartazes e formas de resistência “passiva” tais como sentadas [a ênfase é minha]. Os elementos extremistas podem empreender táticas mais agressivas que incluiriam vandalismo, assédio físico contra delegados governamentais, impedimento da passagem, formação de cadeias e escudos humanos, artefatos explosivos lançados contra unidades policiais montadas e o uso de armas (por exemplo, projéteis e bombas caseiras)<ref>"Federal Bureau of Investigation", ''FBI Intellingence Bulletin'', n. 89 (15 out. 2003). Pode-se consultar on line em: <http://www.signalfire.org/resources/FBImemo.pdf>.</ref>.
 
 
 
O grosso do memorando se centra nesses “elementos extremistas”, claramente identificados como ativistas que aplicam uma diversidade de táticas, em oposição aos ativistas pacifistas, que não são identificados como uma ameaça importante. De acordo com o memorando, os extremistas mostram os seguintes rasgos que os identificam:
 
 
 
:::Os extremistas podem estar preparados para se defender das forças oficiais da lei no transcurso da manifestação. As máscaras (máscaras de gás, óculos submarinhos, panos, máscaras com filtro e óculos de sol) podem servir para minimizar os efeitos do gás lacrimogêneo e do gás de pimenta, e também para ocultar identidades. Os extremistas também podem usar escudos (tampas de contêiner, lâminas de plexiglás, rodas de caminhão etc.) e equipamentos de proteção corporal (várias camadas de roupas, toucas e capacetes, acessórios esportivos, colete salva-vidas etc.) para se proteger durante a manifestação. Os ativistas também podem usar técnicas de intimidação como filmar e rodear os policiais para impedir prisões de outros manifestantes.
 
 
 
:::Depois das manifestações, os ativistas normalmente são relutantes em cooperar com as forças oficiais da lei. São raras as vezes que carregam algum tipo de identificação e geralmente se negam a facilitar qualquer informação sobre si mesmos e o resto dos manifestantes [...]
 
 
 
:::As forças oficiais da lei deveriam estar atentas aos possíveis indicadores de protestos ativistas e transmitir à Força Tarefa Conjunta de Terrorismo [''Joint Terrorism Task Force''] do FBI mais próxima qualquer ação que seja potencialmente ilegal<ref>Ibid.</ref>.
 
 
 
Não é triste que o indicador mais certeiro de que uma pessoa é “extremista” seja sua boa vontade de se defender dos ataques da polícia? E qual é a responsabilidade que têm os pacifistas criando esta situação? Em qualquer caso, ao negar e, inclusive, denunciar ativistas que usam uma diversidade de táticas, os pacifistas tornam estes extremistas mais vulneráveis à repressão que os agentes policiais claramente querem usar contra eles.
 
 
E como se não fosse suficiente para desarticular a militância e para condicionar os dissidentes a praticar a não violência através da violenta repressão dos indisciplinados, o governo também injeta pacifismo nos movimentos rebeldes de maneira mais direta. Dois anos depois de invadir o Iraque, o exército dos Estados Unidos foi pego interferindo uma vez mais nos meios de comunicação iraquianos (a interferência prévia incluiu o bombardeio hostil dos meios de comunicação não alinhados, a retransmissão de histórias falsas e a criação de uma linguagem árabe de organização da mídia completamente nova, como a ''al-Hurriyah'', que foi conduzida pelo Departamento de Defesa como parte de suas operações de manipulação psicológica). Desta vez, o Pentágono pagou para introduzir artigos nos jornais iraquianos apelando para a unidade (contra a insurgência) e a não violência<ref>Greg White, “US Military Panting Stories in Iraqi Newspapers”, ''Asheville Global Report'', n. 360 (7 dez. 2005), disponível em: <http://argnews.org/?section=archives&cat_id=10&article_ id=194>.</ref>. Os artigos foram escritos como se os autores fossem iraquianos, numa tentativa de frear a resistência militante e manipular os iraquianos para aderir a formas diplomáticas de oposição que poderiam ser mais facilmente cooptadas e controladas.
 
 
O uso seletivo do pacifismo no Iraque por parte do Pentágono pode servir como uma parábola das amplas origens da não violência. Ou seja, esta provém do Estado. Toda população conquistada é educada na não violência através de suas relações com uma estrutura de poder que ostenta um monopólio do direito ao uso da violência. É a aceitação, através do desempoderamento, da crença estatal de que as massas devem ser despojadas de suas habilidades naturais para a ação direta - incluindo a propensão à autodefesa e ao uso da força -, ou, se não, irão descender ao caos, numa espiral de violência, oprimindo-se e atacando-se uns aos outros. Esta é a segurança do governo, e a liberdade escravizada. Somente uma pessoa treinada para aceitar ser regulada por uma estrutura violenta de poder pode realmente questionar os direitos de alguém e sua necessidade de se defender de uma maneira contundente da opressão. O pacifismo também é uma forma de impotência aprendida, e, através dele, aqueles que dissentem sustentam a bondade do Estado encarnando a ideia de que não devem usurpar poderes pertencentes exclusivamente a ele (tal como a autodefesa). Desta forma, um pacifista se comporta como um cão domesticado a golpes pelo seu amo: ao invés de morder quem o ataca, esconde o rabo demonstrando-se desarmado, e aguenta as batidas com a esperança de que parem.
 
 
Mais diretamente, Franz Fanon descreveu as origens e as funções da não violência no processo de descolonização ao escrever:
 
 
 
:::A burguesia colonialista introduz esta nova ideia que é, falando com propriedade, uma criação da situação colonial: a não violência. Na sua forma mais simples, a não violência transmite à elite econômica e intelectual do país colonizado que a burguesia tem seus mesmos interesses [...]
 
 
 
:::A não violência é uma tentativa de resolver o problema colonial num tabuleiro, antes que alguma ação lamentável seja realizada [...] antes que seja derramado sangue. Mas, se as massas, sem esperar que coloquem cadeiras em volta da mesa de acordos, escutam suas próprias vozes e se deixam levar pelo ultraje, colocando fogo em prédios, a elite e os partidos nacionalistas burgueses se verão em apuros e exclamarão: “isto é muito sério! Não sabemos como acabará, devemos encontrar uma solução, algum tipo de compromisso”<ref>Fanon, ''The Wretched of the Earth'', p. 61-62.</ref>.
 
 
 
Este alívio produzido pela violência estatal, combinado com o impacto das “atrocidades” da rebelião mais contundente, leva os pacifistas a confiar sua proteção à violência do Estado. Por exemplo, os organizadores pacifistas eximem a polícia dos “códigos de não violência” que são habituais nos protestos hoje em dia; não tentam desarmar a polícia que protege os manifestantes pacíficos dos contramanifestantes bravos e pró-guerra. Na prática, a moral pacifista manifesta que é mais aceitável para os radicais confiar na violência do governo para se proteger do que defender a si mesmos.
 
 
É bastante óbvio o porquê de as autoridades quererem que os radicais sigam vulneráveis. Mas por que os pacifistas querem isso? Não é que os partidários da não violência não tenham tido a oportunidade de aprender o que acontece com os radicais quando ficam indefesos. Podemos tomar o exemplo do protesto de 1979 contra a supremacia branca em Greensboro, na Carolina do Norte. Um grupo diverso de trabalhadores negros e brancos, organizadores sindicais e comunistas, aceitando a premissa de que ir desarmados e permitir o monopólio da violência por parte das forças policiais garantiria melhor a paz, estiveram de acordo em não levar armas para sua proteção. O resultado foi um acontecimento conhecido como o Massacre de Greensboro. A polícia e o FBI colaboraram com o Ku Klux Klan e o Partido Nazi local para atacar os manifestantes, que confiaram sua proteção à polícia. Enquanto a polícia estava convenientemente ausente, os supremacistas brancos atacaram a marcha e atiraram em treze pessoas, matando cinco delas. Quando a polícia voltou à cena, bateu e prendeu vários manifestantes e deixou que os racistas escapassem<ref>William Cran, “88 Seconds in Greensboro”, ''Frontline'', PBS, 24 jan. 1983.</ref>.
 
 
No caos de qualquer situação revolucionária, os paramilitares de direita, como o Ku Klux Klan, estão mais que contentes ao eliminar radicais. A Legião Americana declarou recentemente a “guerra” ao movimento antiguerra<ref>“American Legion declares War on Peace Movement”, ''Democracy Now'', ''Pacifica Radio'', 25 ago. 2005. Na convenção nacional da Legião Americana de 2005, as organizações fortes – conformadas por três milhões de pessoas – votaram a favor de usar todo meio necessário para terminar com os “protestos públicos” e garantir o “respaldo unitário” da população estadunidense à Guerra do Terror.</ref>. Aquela história de linchamento de anarquistas sindicais sugere que meios usam quando sua amada bandeira está ameaçada<ref>Durante e depois da Primeira Guerra Mundial, a Legião Americana foi uma importante força paramilitar na hora de ajudar o governo a reprimir os ativistas antibelicistas e os sindicalistas, particularmente os Wobblies (IWW, Trabalhadores Industriais do Mundo). Em 1919, em Centralia, Washington, castraram e lincharam Wesley Everest, da IWW.</ref>.
 
 
O debate entre o pacifismo e o uso de uma diversidade de táticas (incluída a autodefesa e o contra-ataque) pode ser resolvido se, em algum momento, o movimento antiautoritário atual chegar ao ponto de representar uma ameaça, quando os agentes policiais entregarem sua lista negra e os paramilitares de direita lincharem a todos “traidores” nos quais eles conseguissem botar suas mãos. Esta situação já se deu no passado, com maior ressonância nos anos 1920, e, em menor grau, em resposta ao movimento pelos direitos civis. Esperemos apenas que, se nosso movimento chegar a representar uma ameaça, não sejamos constrangidos por uma ideologia que nos torna tão perigosamente vulneráveis.
 
 
Apesar desta história de repressão, os partidários da não violência frequentemente dependem da violência do Estado, não apenas para protegê-los, mas também para conseguir seus objetivos. Se esta dependência não conduz sempre ao desastre absoluto, como o Massacre de Greensboro, certamente não será graças à posição não violenta. Os pacifistas sustentam que se abster da violência ajudou a não segregar escolas e universidades por todo o Sul, mas, no final, foram as unidades armadas da Guarda Nacional que permitiram que os primeiros estudantes negros entrassem na escola, e os protegeram das tentativas de expulsão pela força e de coisas piores. Se pacifistas não conseguem defender seus próprios ganhos, o que farão quando não tiverem a violência organizada da Guarda Nacional? (Incidentalmente, pacifistas lembrariam da dessegregação como um fracasso para a não violência se famílias negras precisassem chamar os Diáconos para a Defesa (''Deacons for Defense''), ao invés da Guarda Nacional, para proteger suas crianças ao entrarem nas escolas brancas?) Dessegregação institucional foi considerada favorável à estrutura de poder supremacista branca porque difundiu uma crise, aumentou as possibilidades para cooptar lideranças negras, e simplificou a economia, tudo sem negar a hierarquia racial tão fundamental para a sociedade estadunidense. Assim, a Guarda Nacional foi chamada para ajudar a dessegregar as universidades. Não é tão difícil imaginar um conjunto de objetivos revolucionários que a Guarda Nacional nunca seria chamada para proteger.
 
 
Enquanto pacifistas que protestam contra o militarismo estadunidense nunca terão a polícia ou a Guarda Nacional para simplesmente cumprir a lei - desarmando armas proibidas pelos tratados internacionais ou fechando escolas militares que treinam soldados para técnicas de torturas - o governo ainda se beneficia ao permitir essas demonstrações fúteis. Permitir os protestos não violentos melhora a imagem do Estado. Gostem ou não, a dissidência não violenta cumpre o papel de uma oposição leal numa representação que dramatiza a dissenção e cria a ilusão de que o governo democrático não é elitista ou autoritário. Os pacifistas mostram o Estado como benévolo porque lhe dão a oportunidade de tolerar uma crítica que na realidade não ameaça seu funcionamento continuado. Um protesto colorido, consciente e passivo frente a uma base militar só melhora a imagem do RP do exército; é que só um exército justo e humanitário toleraria que fossem feitos protestos na frente de sua porta principal! Um protesto desse tipo é como colocar uma flor no cano de uma pistola. Não impede que a pistola possa disparar.
 
 
O que a maioria dos pacifistas parece não compreender é que a liberdade de expressão não nos empodera, e que não é uma liberdade igualitária. A liberdade de expressão é uma privilégio<ref>Glenn Trush, “Protest a ‘Privilege’, Mayor Bloomberg Says”, ''NY Newsday'', 17 ago. 2004, disponível em: <www.unitedforpeace.org/article.php?id=2557>. Ao comentar os protestos contra a RNC, em Nova Iorque, o prefeito Bloomberg referiu-se à liberdade de expressão como um privilégio que poderia ser eliminado se abusava-se dele. Existem outros numerosos incidentes de oficiais assim de francos, e uma completa história de episódios de rejeito do governo à liberdade de expressão e outros direitos civis e humanos quando interferem no tranquilo funcionamento da autoridade.</ref> que pode ser (e de fato é) bandeira do governo quando este serve aos seus interesses. O Estado tem o incontestável poder de quitar nossos “direitos”, e a História nos mostra o exercício regular deste poder<ref>Isto inclui restrições legislativas da “liberdade de expressão” desde as ''Alien ans Sections Acts'' do século XVIII até a ''Espionage Act'' da Primeira Guerra Mundial; poderes institucionais como a habilidade dos governantes ou do presidente para declarar a lei marcial, ou os poderes de emergência da FEMA ou outras agências, e as atividades discricionárias como a vigilância, a neutralização de atividades do FBI sob o COINTELPRO ou a USA Pratriot Act.</ref>. Inclusive no nosso cotidiano, podemos tentar falar o que queremos para os nossos chefes, juízes ou oficiais da polícia, e, a menos que sejamos escravos complacentes, uma língua livre e honesta nos conduzirá a funestas consequências. Em situações de emergência social, as limitações da “liberdade de expressão” tornam-se ainda mais pronunciadas. Consideremos, por exemplo, os ativistas encarcerados por pronunciar-se contra as quintas na Primeira Guerra Mundial e as pessoas que foram presas em 2004 por protestar durante os eventos nos quais Bush interviria. A liberdade de expressão só é livre quando não constitui uma ameaça e não tem a possibilidade de desafiar o sistema. Onde gozei de uma maior liberdade de expressão foi no ''Security Housing Unit'' (confinamento em solitária de máxima segurança), na prissão federal. Podia gritar tudo o que quisesse, inclusive insultar os guardas, e, a não ser que achasse um jeito muito criativo de provocá-los intencionalmente, deixavam-me tranquilo. Não importava: os muros eram de pedra sólida e minhas palavras só ar quente.
 
 
A cooperação com a dissidência pacifista humaniza os políticos responsáveis por ações monstruosas. No protesto massivo contra a Convenção Nacional Republicana (RNC), na cidade de Nova Iorque em 2004, o prefeito nova-iorquino, Bloomberg, distribuiu broches especiais para os ativistas não violentos que haviam proclamado que seriam pacíficos<ref>Jennifer Steinhauer, “Just Keep It Peaceful, Protesters; New York Is Offering Discounts”, ''New York Times'', 18 ago. 2004, disponível em: <http://www.nytimes.com/2004/08/18/nyregion/18buttons.html?ex=1250481600&en=fab5ec7c870bb73a&ei=5090&partner=rssuserland>.</ref>. Bloomerg obteve grande popularidade por mostrar-se “tão” indulgente e estar na moda, inclusive quando sua administração reprimiu contundentemente a dissidência durante a semana dos protestos. Os pacifistas obtiveram um benefício acrescentado: qualquer um que levasse o broche receberia descontos em dezenas de shows da Broadway, hotéis, museus e restaurantes (enfatizando como o desfile passivo da não violência é transformado em um estímulo para a economia e no bastião do ''status quo''). Como o prefeito Bloomberg assinalou: “Não é divertido protestar com o estômago vazio”.
 
 
Os protestos anti-RNC em Nova York foram pouco mais que isso: divertimento. Divertimento para os universitários, os representantes democráticos e os ativistas do Partido Verde que passeavam com ingeniosos cartazes progressistas e mostravam-se “compreensivos” e da mesma opinião que o prefeito. Despendeu-se uma enorme quantidade de energia com semanas de antecipação (de parte da esquerda  institucional e da polícia) para alienar e excluir do protesto o maior número possível de ativistas militantes. Alguém com muitos recursos distribuiu milhares de panfletos, na semana anterior à convenção, os quais reproduziam a absurda sentença de que a violência (ou seja, um distúrbio) só contribuiria para melhorar a imagem de Bush (quando, na realidade, embora um distúrbio não ajudasse realmente os Democratas, teria maculado a imagem de Bush de “líder carismático”). O panfleto também advertia que qualquer pessoa que advogasse pelas táticas de confrontação seria considerada um agente da polícia. A marcha terminou e as pessoas dispersaram-se até o lugar mais isolado e menos conflituoso possível, numa cidade cheia de prédios do Estado e do Capital: o ''Grand Lawn'' do Central Park (apropriadamente, outros manifestantes dirigiram-se em massa ao "Campo de ovelhas"<ref>No original, ''Sheep Meadow'', bar nova-iorquino com o qual o autor faz um jogo de palavras. [N. do T.].</ref>). Dançaram e celebraram a noite, repetindo agradáveis mantras do estilo “somos lindos”.
 
 
Entrada a semana, a Marcha das Pessoas Pobres foi atacada repetidamente pela polícia, perpetrando detenções planificadas dos ativistas que levavam máscaras ou aqueles que se negavam a serem registrados. Os participantes da marcha estiveram de acordo em não empregar a violência porque a marcha incluía muitas pessoas de diferente origem, como imigrantes e não brancos, os quais os organizadores, de forma ostensível e consciente, acreditavam ser mais vulneráveis à detenção. Mas quando os ativistas - pacificamente - cercaram os policiais em uma tentativa de desencorajar as prisões, foram obrigados a ignorar as prisões e a continuarem o movimento, com “forças de paz” e policiais da marcha gritando mensagens idênticas à multidão (“Movam-se!” ”Continuem a marcha indicada!”). Obviamente, todas as tentativas de reconciliação e diminuição da tensão fracassaram, a polícia foi em todo momento tão violenta quanto quis.
 
 
No dia seguinte, Jamal Holiday, um negro de Nova Iorque oriundo de regiões desfavorecidas, foi preso por se defender da “agressão” de um detetive civil do Departamento da Polícia de Nova Iorque. Foi um dos tantos feridos entre a multidão da Marcha das Pessoas Pobres. Isso aconteceu no final do encontro, quando muitos dos participantes, inclusive aqueles considerados supostamente como mais “vulneráveis”, estavam descontentes com a passividade dos líderes da marcha ante a brutalidade policial. Numa hora, uma multidão de participantes que tinha sido atacada pela polícia começou a gritar com um ativista, que gritava para eles que se afastassem da polícia (não tinham lugar para ir), acusando eles de a "provocarem". A resposta à prisão de Holiday mostra a hipocrisia ante a violência do Estado, que privilegia a passividade acima, inclusive, do direito das pessoas de se defenderem. Os mesmos segmentos pacifistas do movimento que protestaram energicamente contra os participantes pacíficos detidos em massa no dia 31 de agosto (um dia reservado para os protestos de desobediência civil) permaneceram em silêncio e não apoiaram Holiday enquanto ele suportava a atroz e dilatada violência do sistema penal. Aparentemente, para os pacifistas, proteger um suposto ativista violento de uma violência ainda maior significaria a desfiguração dos seus princípios, erguidos, precisamente, contra a violência.
 
 
Os ativistas não violentos vão além de aprovar a violência do Estado com seu silêncio: frequentemente tomam a palavra para justificá-la. Os ativistas pacifistas não perdem a oportunidade de declarar a proibição do uso da “violência” nos seus protestos, porque a violência poderia “justificar” a repressão policial, que se percebe como inevitável, neutra e irrepreensível. Os protestos antiglobalização de 1999, em Seattle, são um típico exemplo. Mesmo que a violência policial (neste caso, o uso de táticas de tortura contra os manifestantes pacíficos que bloqueavam a entrada e a saída do lugar do encontro) tenha precedido a "violenta" destruição da propriedade por parte do ''Black Bloc'', todo o mundo, desde os pacifistas até os meios de comunicação, culparam ao ''Black Bloc'' pela carga policial. Talvez, o maior erro consistiu em que a organização anarquista descentralizada e não hierárquica roubou o protagonismo das ONGs de grande orçamento, que precisavam revestir-se dessa aura de autoridade para continuar recebendo doações. A afirmação oficial foi que a violência de alguns manifestantes demonizava o movimento inteiro, mesmo que, inclusive, o próprio presidente, Bill Clinton, tenha declarado de Seattle que uma minoria marginal violenta tinha provocado o caos.<ref>Allan Dowd, “New Protests as Time Runs Out for WTO”, ''The Herald (Glasgow)'', 3 dez. 1999, p. 14.</ref>. De fato, a violência de Seattle fascinou e atraiu mais pessoas ao movimento do que faria a tranquilidade de qualquer uma das mobilizações massivas posteriores a essa data. Os meios de comunicação não explicaram (e nunca o farão) os motivos dos ativistas, senão a violência, a manifestação visível de paixão e fúria, do comprometimento militante em um, por outro lado, mundo absurdo, que motivou milhares a fazer esta procura por si mesmos.  Este é o porquê que se conhece a atemporal Seattle como o “início” ou o “nascimento” do movimento antiglobalização.
 
 
De uma maneira parecida, um artigo de apoio à não violência, publicado no ''The Nation'', queixou-se de que a violência em Seattle e Gênova (onde um policial italiano disparou e assassinou o manifestante Carlo Giuliani) “criou uma imagem negativa nos meios de comunicação e deu a desculpa para, inclusive, endurecer a repressão”<ref>Cortright, ''The Power of Nonviolence''. Achei este artigo como uma fotocopia distribuída e elogiada por um autodenominado “anarquista pacifista”.</ref>. Vou parar por aqui por um momento para assinalar que o Estado não é um ente estático. Se quer reprimir um movimento ou uma organização, não espera ter uma justificativa; a inventa. O Movimento Indígena Americano (AIM) não foi uma organização violenta - a maioria de suas práticas era pacífica -, mas praticaram a autodefesa armada e a ocupação pela força de prédios governamentais, frequentemente com excelentes resultados. Para “justificar” a repressão do AIM, o FBI inventou o “Dog Soldier Teletypes”, mensagens que se faziam passar por comunicados do AIM, nos quais se discutia a suposta criação de brigadas de terror para assassinar turistas, fazendeiros e oficiais governamentais<ref>Churchill e Vander Wall, ''Agents of Repression'', p. 281-284.</ref>. Estes teletipos formaram parte de uma campanha instrumental geral de desinformação conduzida pelo FBI para se proteger (especialmente no caso do governo) e poder prender e assassinar vários dos ativistas e simpatizantes do AIM. O FBI diz, a respeito destas campanhas: “Não importa se existem ou não fatores para sustentar as acusações [...] a difusão [através da mídia] pode ser realizada sem fatos que a ampare”<ref>Ibid., p. 285.</ref>. Se, aos olhos do governo, não importa se uma organização considerada ameaçadora para o ''status quo'' cometeu ou não uma ação violenta, por que os partidários da não violência continuam insistindo em que a verdade lhes farão livres?
 
 
O artigo anteriormente mencionado do ''Nation'' pede a aderência estrita do movimento inteiro à não violência, criticando organizações pacíficas que rejeitam abertamente condenar os ativistas que usam uma diversidade de táticas. O autor lamenta que “é impossível controlar todas as ações de todos aqueles que participam numa manifestação, é claro, mas os esforços mais vigorosos para assegurar [sic] à não violência e rever os comportamentos destrutivos são possíveis e necessários. Que 95 por cento dos participantes estejam comprometidos com a não violência não é suficiente”. Sem dúvida, um comprometimento "mais vigoroso" para a não violência significa que os líderes ativistas devem contar mais com a policia como uma força de paz (para prender os alvoraçadores). Esta tática já tem sido aplicada pelos pacifistas. (De fato, a primeira vez que fui atacado em um protesto não foi pela polícia, mas por um “Peace Officer”<ref>Informantes e colaboradores; figura comum nos Estados Unidos e no resto do mundo ocidental a partir das grandes convocações antiglobalização, que consiste em sujeitos que se distinguem visualmente por algum sinal (couraças, pulseiras etc.), cujo objetivo durante a manifestação é controlar e vigiar o desenvolvimento "pacífico" da mesma, colocando-se estrategicamente frente a pontos sensíveis - às vezes, inclusive, rodeando a multidão - para impedir e censurar atos "de raiva" incontrolados. [N. do T.].</ref>, que tratou de me empurrar para a valeta enquanto eu e outros cortávamos uma estrada para evitar que a polícia separasse a marcha para poder realizar detenções massivas no segmento menos numeroso. Neste caso, resisti aos empurrões do ''Peace Officer'' que tentava me apartar e me deixar sozinho frente à polícia, a qual estava supervisionando o trabalho destes lacaios, e tive que me submergir de novo na multidão para evitar ser detido ou agredido.)
 
 
Pode alguém imaginar os ativistas revolucionários reivindicando que devem ser mais vigorosos e garantindo que cada participante de um evento bata num policial ou jogue um tijolo contra uma janela? Pelo contrário, a maioria dos anarquistas e outros militantes rebaixou sua postura, trabalhando com pacifistas e assegurando que, nas manifestações conjuntas, as pessoas que se opõem ao confronto, assustados pela brutalidade policial ou especialmente vulneráveis às sanções legais, possam ter um “espaço de segurança”. O pacifismo trabalha com os esforços por centralizar e controlar o movimento. O conceito resulta essencialmente autoritário e incompatível com o anarquismo, porque nega às pessoas o direito à autodeterminação direta de suas próprias lutas<ref>Algumas pessoas poderão argumentar que um movimento revolucionário que seja misógino ou racista não poderá fazer uso do direito à autodeterminação como uma justificativa. As óbvias contra-argumentações são que a) equiparar autodefesa com misoginia ou racismo dificilmente pode equiparar-se com uma postura moral, e que b) ver a violência como uma atividade imoral e livremente escolhida é simplista e impreciso. Render-se à violência é finalmente tão repulsivo como matar a quem te oprime (se é que a nossa moral nos impele a considerar o fato de matar quem nos escraviza como algo repulsivo), e os privilegiados não violentos beneficiam-se e são cúmplices da violência e da opressão. Desse jeito, a pretensão de que os pacifistas podem, justificadamente, condenar a violência das pessoas oprimidas com a que eles podem, por outro lado, aliar-se, é tão estúpida quanto hipócrita.</ref>. A dependência pacifista para a centralização e o controle (com uma liderança que pode realizar “vigorosos esforços” para prevenir um comportamento destrutivo) preserva a figura do Estado dentro do movimento, e preserva as estruturas hierárquicas para assistir às negociações do Estado (e à repressão estatal).
 
 
A história nos mostra que, se um movimento carece de um líder, o Estado inventará um. O Estado eliminou violentamente os sindicatos anti-hierárquicos dos começos do século XX, enquanto subornou e negociou com a liderança do sindicato hierárquico. Os regimes coloniais nomearam os “chefes” para as sociedades sem Estado que não os tinham, para impor o controle político na África ou negociar enganosas ameaças na América do Norte. Além disso, os movimentos sociais sem líder são especialmente difíceis de reprimir. As tendências do pacifismo para a negociação e a centralização facilitam os esforços do Estado para manipular e cooptar os movimentos sociais rebeldes; também facilitam ao Estado reprimir os movimentos, se decidem que existe a possibilidade de fazê-lo.
 
 
A visão pacifista da mudança social provém de uma posição vantajosa e privilegiada, onde a repressão completa por parte do Estado não constitui um medo real. Um ensaio sobre a estratégia não violenta, que recomendam alguns pacifistas, inclui um diagrama: os ativistas não violentos de esquerda, seus oponentes - presumivelmente reacionários - são de direita, e um indeciso terceiro partido é do centro<ref>Irwin e Faison, ''Why Nonviolence?'', p. 7, p. 9.</ref>. Os três segmentos são agrupados equitativamente ao redor de uma decisão autoritária aparentemente neutra. Esta é uma visão completamente ingênua e privilegiada do governo democrático, no qual todas as decisões são tomadas pela maioria, com, no pior dos casos, uma limitada violência praticada só fora do conservadorismo obstinado e apático para mudar o'' status quo''. O diagrama supõe uma sociedade sem hierarquias raciais, classicistas (e patriarcais), sem privilégios, poder e elites violentas, sem meios de comunicação controlados pelos interesses do Estado e do capital, preparados para dirigir as percepções da cidadania. Não existe uma sociedade como esta em nenhuma das democracias industriais e capitalistas.
 
 
 
Dentro deste modelo de poder social, a revolução é um jogo de tipo moral, uma campanha de apoio que pode ser ganho mediante “a habilidade de dignificar o sofrimento [por exemplo, os estudantes antissegregação que sentavam nos lugares “somente para brancos” enquanto eram atacados verbal e fisicamente para atrair a simpatia e o apoio político”<ref> Cortright, ''The Power of Nonviolence''.</ref>. Em primeiro lugar, este modelo supõe uma análise do Estado substancialmente caritativa e parecida a como o Estado descreve a si mesmo nos livros didáticos nas escolas públicas. Nesta análise, o Estado é um órgão que toma decisões neutras e passivas que respondem às pressões públicas. É, no melhor dos casos, imparcial, e no pior dos casos está empapado de uma cultura conservadora e ignorante. Mas isso não é estruturalmente opressivo. Segundo, este modelo coloca os pacifistas na posição de quem pressiona e negocia com esse órgão de tomada de decisões que, na verdade, está conscientemente limitado pelos seus próprios interesses, e está disposto a romper qualquer lei que lhe seja inconveniente, e é estruturalmente integrado e dependente de um sistema de poder e opressão que busca neutralizar os movimentos sociais antes de tudo.
 
 
Os governos modernos, que estudaram em profundidade os métodos de controle social, não vêem mais a paz como condição social padrão, que só é interrompida pelos agitadores externos. Agora entendem que a condição natural do mundo (o mundo que criaram, temos que esclarecer) é a do conflito: a rebelião contra suas normas é constante e inevitável<ref>Para ler mais sobre a evolução da visão do Estado sobre o controle social, leia-se Williams, ''Our Enemies in Blue''.</ref>.
 
 
A habilidade política tem se convertido na arte de dirigir o conflito, de forma permanente. Na medida em que os rebeldes continuem se armando com galhos de oliveiras e tendo uma visão ingênua da luta, o Estado sabe que está a salvo. Mas os mesmos governos cujos representantes falam educadamente ou, pelo contrário, despacham grosseiramente alguém em greve de fome, também espiam constantemente a resistência e treinam agentes com técnicas para a guerra contrainsurgente – extraídas das guerras de extermínio que se declararam para subjugar rebeldes, desde a Irlanda até a Argélia. O Estado está preparado para usar esses métodos contra nós.
 
 
Quando estamos inseridos num tipo de repressão exterminadora, dignificar o sofrimento simplesmente deixa de ser divertido, e aqueles pacifistas que não dedicaram completamente seu futuro à revolução declarando guerra ao ''status quo'', nesse contexto, perdem a clareza de sua convicção (talvez fizeram algo de alguma maneira que “provocou” ou “mereceu” repressão?) e se retiram. Consideremos os protestos de Seattle em 1999 e as sucessivas mobilizações de massas do movimento antiglobalização: os ativistas em Seattle foram tratados brutalmente, mas se mantiveram de pé, contra-atacando, e muitos se empoderaram a partir dessa experiência. O mesmo aconteceu nas manifestações de Québec contra a Área de Livre Comércio das Américas (FTAA, por sua sigla em inglês). Em outro extremo, a repressão policial nos protestos anti-FTAA em 2003, em Miami, foram totalmente injustas, inclusive para os padrões legalistas<ref>Existem mais alguns exemplos menores de luta contra a polícia, mas foram todos durante a retirada. Os anarquistas internalizaram a ideia de somente a polícia poder iniciar a violência, então quando lutaram, foi somente em retirada. Para um bom resumo da informação sobre os protestos anti-FTAA em Miami, especialmente com um olhar para os efeitos traumatizantes para muitos dos ativistas, leia-se ''The Miami Model: A Guide to the Events Surrounding the FTAA Ministerial in Miami'', 20 e 21 nov. 2003 (Decentralized publication and distribution, 2003). Para mais informações, escrever a theresonlynow@hotmail.com.</ref>. Os participantes do protesto não se sentiram mais empoderados ou dignificados pela violência unidirecional que sofreram; foram tratados brutalmente, e muita gente evitou uma maior participação por essa brutalidade, que incluiu o episódio de que alguns ativistas foram agredidos sexualmente pela polícia enquanto estavam presos. Em protestos ainda mais passivos, como em Washington DC – as manifestações anuais contra o Banco Mundial, por exemplo –, a resistência não violenta, que consiste num ocasional e orquestrado círculo de reclusão, detenção, prisão e liberação, não foram tão empoderadoras, e sim tediosas e marcadas por cifras de participação em constante diminuição. Certamente foram menos exitosas na hora de ganhar atenção mediática ou influenciar as pessoas com o espetáculo do sofrimento dignificado, apesar de que o critério usado pelos organizadores pacifistas para afirmar a vitória foi uma combinação do número de participantes e da ausência de confrontação violenta com autoridades ou propriedades.
 
 
Em última análise, o Estado pode utilizar a não violência para vender inclusive um movimento revolucionário que tenha se tornado suficientemente poderoso para ter sucesso. Na Albânia, em 1997, a corrupção do governo e o colapso econômico levaram a que várias famílias perdessem todas suas poupanças. Em resposta, o “Partido Socialista convocou uma manifestação na capital, esperando alçar-se como líder de um movimento de protesto pacífico”<ref> Wolfi Landstreicher, “Autonomous Self-Organisations and Anarquist Intervention”, ''A Journal of Desire Armed'', n. 58, outono-inverno 2004, p. 56. As duas citações que seguem no parágrafo são da mesma página. Landstreicher recomenda ''Albania: Laboratory of Subversion'' (Londres: Elephant Editions, 1999). Disponível em: <http://www.endpage.com/Archives/Mirrors/Class_Against_Class/albania.html>.</ref>. Mas a resistência se estendeu muito além do controle de qualquer partido político. As pessoas começaram a se armar, queimaram ou atentaram contra bancos, delegacias, edifícios governamentais e escritórios dos serviços secretos e liberaram prisioneiros. “Muitos dos militares desertaram, ou unindo-se aos insurgentes, ou voando até a Grécia”. Os albaneses tiveram a lucidez de derrubar o sistema que os estava oprimindo, o que lhes deu a oportunidade para criar novas organizações sociais para si. “Em meados de março, o governo, incluindo a polícia secreta, foi forçado a abandonar a capital.” Pouco depois, várias centenas de tropas da União Europeia ocuparam a Albânia para reinstalar a autoridade central. Os partidos da oposição, que antes negociaram com o governo para encontrar um conjunto de condições que induzissem os rebeldes a abandonar as armas e convencer o partido dirigente a se retirar (para favorecer sua ascensão), foram centrais na hora de permitir a ocupação e pacificar os rebeldes, conduzir às eleições e reinstalar o Estado.
 
 
De maneira similar, Frantz Fanon descreve os partidos de oposição que denunciaram a rebelião violenta nas colônias através de um desejo de controle do movimento: “Depois dos primeiros enfrentamentos, os líderes oficiais se desarticularam rapidamente” a ação militante, que “qualificaram de infantilidade”. Então, “os elementos revolucionários que se rebelaram foram rapidamente isolados. Os líderes oficiais, protegidos pelos seus anos de experiência, renegaram implacavelmente estes ‘aventureiros e anarquistas’”. Como Fanon explica, em particular em relação à Argélia e às lutas anticoloniais em geral: “a máquina do partido mostra a si mesma oposta a qualquer inovação” e os líderes “estão amedrontados e preocupados com a ideia de que possam ser apagados por um furacão cuja natureza, força e direção eles não podem imaginar”<ref>Fanon, ''The Wretched of the Earth'', p. 124.</ref>. Apesar de que estes líderes políticos da oposição, na Albânia, Argélia ou em qualquer outro lugar, geralmente não se identificam como pacifistas, é interessante dar-se conta de como jogam um papel similar. Por sua parte, os genuínos pacifistas são mais capazes em aceitar os enganosos galhos de oliveira dos políticos pacificadores do que em oferecer sua solidariedade aos revolucionários armados. A aliança e a fraternidade padrão entre pacifistas e líderes políticos progressistas (que aconselham moderação) servem para fraturar e controlar os movimentos revolucionários. É na ausência de penetração pacifista significativa dentro dos movimentos populares que os líderes políticos fracassam na hora de controlar tais movimentos, e somente então são rejeitados e amputados como os sanguessugas elitistas que são. É quando a violência é tolerada pelos movimentos populares que tais movimentos ficam tolhidos.
 
 
Em última instância, os ativistas não violentos dependem da violência do Estado para proteger seus “ganhos”, e não opõem resistência à esta violência quando é usada contra os militantes (inclusive, várias vezes a animam). Negociam e cooperam com a polícia armada em suas manifestações. E, mesmo que os pacifistas honrem seus “presos de consciência”, sei por experiência que tendem a ignorar a violência do sistema penitenciário nos casos em que quem está preso tenha cometido um ato de resistência violenta ou de vandalismo (para não mencionar um delito apolítico). Quando eu estava cumprindo uma sentença de prisão de seis meses por um ato de desobediência civil, choveu apoio dos pacifistas de todo o país. Mas, em conjunto, mostraram uma falta de preocupação incrível em relação à violência institucionalizada que enjaulou os 2,2 milhões de casos da Guerra Contra o Crime<ref>''War on Crime'', no original. [N. do T.].</ref> do governo. Parece que a única forma de violência à qual se opõem de uma maneira consistente é a rebelião contra o Estado.
 
 
O próprio sinal de paz é uma metáfora perfeita para sua função. Em vez de alçar o punho, os pacifistas alçam seus dedos indicadores e o anular em forma de V. Este V significa vitória e é o símbolo dos patriotas que se regozijam na paz que segue ao triunfo de uma guerra. Em conclusão, a paz que os pacifistas defendem é a dos militares vencedores, a de um Estado sem oposição que conquistou toda resistência e monopolizou a violência até o ponto em que a violência não precisa mais ser visível. Esta é a Pax Americana.
 
 
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[[Categoria:Como a Não Violência protege o Estado, de Peter Geoderloos]]
 

Edição das 21h10min de 17 de julho de 2018