O decrescimento é a solução da crise?

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Serge Latouche

Publicado na Revista Écologie et Politique, 2010/2 (nº 40), pp. 51-61

«“Futuramente, o decrescimento é inelutável e a sabedoria seria controlar o decrescimento dos países industriais mais que tentar “relançar” o motor do crescimento por meios que conduzissem ao desemprego, à agravação do hiato entre os ricos e os pobres do planeta, com os riscos incalculáveis vindos da utilização da energia nuclear, em suma, a um tipo de normalização da crise que margeie, em razão do próprio sucesso do progresso tecnológico, o desastre irremediável”. Ivo Rens e Jacques Grinevald[1]»


A crise enfim chegou! Qual crise? Não a crise social, nem a crise cultural, nem a crise ética, nem a crise ecológica; essas nós sofremos há muito tempo. Havia uma crise cultural desde Maio de 1968, uma crise ecológica desde 1972 e o primeiro relatório do Clube de Roma, uma crise social desde 1986 e a política ultraliberal de Reagan e Thatcher. A nova crise nasceu do estouro da bolha financeira americana dos subprime durante o verão de 2007. Ela desencadeou uma crise mundial, apesar das afirmações dos responsáveis pela oligarquia político-econômica, a partir de outubro de 2008, com a queda do Lehman Brothers, um dos maiores bancos estadunidenses. De fato, trata-se do prolongamento da crise do modo de regulação keynesiano-fordista iniciada em 1974 e cujos efeitos foram retardados em trinta anos graças, entre outros fatores, à habilidade diabólica do responsável pelo Banco Federal Americano, Alan Greenspan. A partir dos anos 1970, de fato, os ganhos de produtividade industrial que permitiram os "Trinta Gloriosos" se esgotaram. O endividamento extraordinário das famílias e dos Estados permite prolongar o crescimento do mercado de ações favorecendo o desenvolvimento de bolhas especulativas, mantendo assim a ilusão de opulência. Contudo, para a imensa maioria, os custos do crescimento tornam-se já superiores aos seus benefícios. Atualmente, todas essas crises se acentuam e acumulam, criando uma situação inédita. Essa crise do “turbo capitalismo” é uma crise de civilização. Ela talvez pudesse nos oferecer a oportunidade de resolver todas as outras.

Ao proclamar que o crash financeiro iniciado pelo abuso dos subprime não é necessariamente algo ruim, mesmo se ele deu início a uma crise econômica e bancária que arrisca ser longa, profunda e possivelmente mortal para o sistema, podemos ser tachados de provocadores. E, contudo, para os objetores de crescimento, essa crise constitui o sinal que anuncia o fim de um pesadelo.

Não se trata, certamente, de negar que essa crise vá causar o desemprego de milhões de pessoas e que vá engendrar sofrimentos para os desprivilegiados do Norte e do Sul. Enquanto a reunião do G20 em Londres na primavera de 2009 colocou em cena a farsa de uma pretensa luta contra os paraísos fiscais e silenciou sobre os escândalos das agências de avaliação e sobre o privilégio abusivo do dólar, não param de nos repetir na mídia que os povos do Sul vão sofrer ainda mais que nós e que os precários serão as primeiras vítimas dos traders loucos. Entretanto, o fato de que os banqueiros e as autoridades financeiras e políticas, com o bom senhor [Michel] Camdessus na liderança, sejam os primeiros a colocar ênfase na ameaça desses sofrimentos deveria nos levar a colocar questões. Existe certamente nessa solicitude dos grandes predadores egoístas e de seus porta-vozes governamentais uma parte de propaganda destinada a nos convencer da necessidade de pôr a mão no bolso para salvar os bancos e as instituições financeiras cujos responsáveis banquetearam stock-options e golden handshakes às nossas custas. É claro que, apesar das grandes declarações sobre a refundação do capitalismo e sobre a sua moralização, trata-se, para os grandes deste mundo, de fazer reiniciar o sistema exatamente como antes. A sua súbita compaixão é mais que suspeita. A reação de Abdoulaye Wade, presidente de Senegal, nos parece muito mais sã. Perguntado pela mídia sobre a crise vista a partir da África, ele teve um grande ataque de riso. Não há necessidade de se preocupar para encontrar bilhões para salvar os bancos africanos pela boa razão de que não existem bancos africanos.

Escreve Hervé-René Martin: "O que poderia acontecer de melhor aos habitantes dos países pobres do que ver o seu PIB diminuir? (…) O aumento do seu PIB não mede nada além do crescimento da hemorragia. Quanto mais ele aumenta, mais a natureza é destruída, os homens alienados, os sistemas de solidariedade desmantelados, as técnicas simples mas eficazes e os saberes-fazeres ancestrais jogados no esquecimento. Decrescer para os habitantes dos países pobres significaria então preservar o seu patrimônio natural, deixar as suas fábricas precárias para se reconectar com a agricultura de subsistência, o artesanato e o pequeno comércio, retomar o controle sobre o destino comum”[2]. Efetivamente, já habituados a viver no improviso, os africanos do informal não se sentiram pior. Amplamente desconectados do mercado mundial, eles aprenderam por necessidade a serem relativamente autônomos e a pôr a sua sobrevivência ao abrigo das flutuações da bolsa. Os representantes dos camponeses do Sul, no congresso mundial da Via Campesina em Maputo, em outubro de 2008, confirmam isso para os agricultores, para grande surpresa de seus camaradas do Norte. A crise poderia constituir para eles até mesmo uma oportunidade de se libertar das correntes da dependência econômica, se eles tiverem sucesso ao romper as do imáginário. Esse era também o diagnóstico de François Partant, ex-banqueiro e um dos precursores do decrescimento. “Se desaparecessem, de um dia para outro, todos os aportes da “civilização”, resultaria disso uma completa desorganização de uma economia que se sub-desenvolve, por causa de sua organização atual, assim como uma desorganização do poder que prospera sobre o sub-desenvolvimento, mas não haveria nenhum efeito desagradável para a imensa maioria da população, ao menos nos países em que esta é essencialmente composta por camponeses e desempregados” [3] Uma coisa é certa, os africanos não terão que colocar a mão no bolso para salvar a sua indústria automotiva, já que ela não existe, assim como os bancos!

Importa, portanto, compreender por que a crise econômica e financeira pode ser uma oportunidade para nós também no Norte, e como fazer para que ela transforme a estagnação, e mesmo a regressão material, em melhoria da qualidade de vida.

[editar] A oportunidade da crise

Sob o título provocador de Que a crise se agrave!, François Partant publicou, em 1978, uma obra cuja mensagem torna-se mais do que nunca atual. Ele via em uma crise profunda o único meio para evitar a autodestruição da humanidade. “Seria necessário que em todos os lugares as sociedades ex-nacionais autogerenciem as suas crises, vivendo progressivamente as relações que elas querem instaurar em seu seio e entre elas”[4].

Nos anos 1990, de euforia especulativa e financeira, os jornais noticiavam frequentemente: “A economia (escolha: japonesa, inglesa, canadense, americana…) vai bem, mas as pessoas vão mal”. Era a consequência das realocações, da destruição das proteções e do mínimo social, do aumento da precaridade e do desemprego. Pode-se pensar, inversamente, que, se economia vai mal, as pessoas vão melhor…

Aparentemente, isso não é nada. Face à crise, os objetores de crescimento estão em uma situação duplamente paradoxal. Por um lado, após dois semestres de crescimento quase nulo na maior parte dos países da OCDE em 2008, não era raro ouvir ou ler de jornalistas que “Já estamos no decrescimento” [5]. Era um julgamento apressado. Primeiramente, não estamos ainda em um crescimento geral negativo. O nosso crescimento estava fraco, é certo, mas não esqueçamos que com um PIB de 1 trilhão de euros, 1% de crescimento gera 10 bilhões, ou seja, 10% do crescimento de um países cujo PIB é de 100 bilhões de euros (ordem de grandeza dos países do Sul). Dez bilhões de retiradas de recursos naturais, de dejetos e de poluição suplementares; dez bilhões de mais de desregulação climática e de extinção das espécies. É ainda mais para a regeneração da biosfera.

Mas, sobretudo, o decrescimento escolhido não é o decrescimento sofrido. O projeto de uma sociedade de decrescimento é radicalmente diferente do crescimento negativo, aquele que conhecemos agora. O primeiro é comparável a uma cura de austeridade empreendida voluntariamente para melhorar o seu bem estar enquanto o hiper-consumo vem a nos ameaçar de obesidade. O segundo é a dieta forçada que pode levar à morte por fome. Já dissemos e repetimos muito isto: não há nada de pior que uma sociedade de crescimento sem crescimento. Sabe-se que a simples desaceleração do crescimento mergulha as nossas sociedades no desarranjo, em razão do desemprego, do crescimento do hiato que separa ricos e pobres, dos ataques ao poder de compra dos mais desfavorecidos e do abandono dos programas sociais, sanitários, educativos, culturais e ambientais que asseguram um mínimo de qualidade de vida. Pode-se imaginar que catástrofe pode trazer uma taxa de crescimento negativo! Essa regressão social e civilizacional é precisamente o que nos ameaça se não mudarmos de trajetória. Certamente, como já dizia André Gorz em 1974, “Esse declínio do crescimento e da produção que, em um outro sistema, poderia ser um bem (menos carros, menos barulho, mais ar, jornadas de trabalho mais curtas etc.) terá efeitos inteiramente negativos: as produções poluentes tornar-se-ão bens de luxo, inacessíveis à massa, sem deixar de estar à disposição dos privilegiados: as desigualdades se aprofundarão: os pobres tornar-se-ão relativamente mais pobres e os ricos mais ricos.”[6] Continua ele: "Os partidários do crescimento têm razão sobre um ponto ao menos: no quadro da sociedade atual e do modelo atual de consumo, fundados sobre a desigualdade, o privilégio e a busca do lucro, o não crescimento ou o crescimento negativo podem significar somente estagnação, desemprego, aumento da distância que separa ricos e pobres.”. É exatamente por isso que importa mudar o sistema.

Se, contudo, a crise é uma boa notícia, é porque ela pode nos tirar da nossa esquizofrenia oferecendo a oportunidade de romper com a religião do crescimento. Essa esquizofrenia é a dos chefes de Estado que se apressam em esquecer os seus compromissos com a limitação das emissões de CO2 para relançar os setores responsáveis pelas mais graves poluições: a indústria automobilística e imobiliária. Também aquela da esquerda, social-democrata, comunista, trotskista e outras, que está presa na armadilha do compromisso keynesiano-fordista. Ela se deixou seduzir pelo mito do bolo que cresce indefinidamente. Tendo indexado a solidariedade ao crescimento, ela escolheu colaborar com realização dele, e, portanto, com a acumulação capitalista. Essa solução fácil permite melhorar as partes de todos a menores custos, ao invés de reivindicar com vigor para dividir um bolo de tamanho quase imutável. Sem economia de crescimento, sem sociedade de consumo, não haveria simplesmente social-democracia. O movimento socialista estaria condenado a fazer a revolução para tirar o proletariado da miséria e para impor uma outra repartição da riqueza. O crescimento é o que permitiu os países ocidentais fazer a economia da revolução sem encarar o problema de fundo da partilha e da justiça. Mesmo o projeto partilhador do comunismo original se dissolveu no consumismo. O volume do bolo certamente aumentou consideravelmente, mas esse crescimento, sempre mais tóxico, foi feito em detrimento do planeta, das gerações futuras e dos povos do terceiro mundo. Como as melhores coisas têm um fim, esse “socialismo reduzido às aquisições”, como se pôde classificar esse momento dos Trinta Gloriosos, não mais funciona bem desde os anos 1970, desde que a torta reluta em crescer e que os benefícios marginais do crescimento são inferiores aos seus custos. Os altos funcionários do Capital já entenderam mais ou menos isso e se apressaram em aumentar substancialmente (de 5 a 10% do PIB), graças ao jogo de cassino mundial, a sua parte do bolo antes que o bloqueio não seja total. Com o capitalismo de ações [actionnarial] e financeiro dos anos 1980, assistimos à explosão das remunerações indiretas (salários, prêmios por presença, dividendos, bônus, stock-options) dos stockholders (os proprietários do capital) em detrimento daqueles dos stakeholders (os atores da empresa)[7].

Intoxicada por suas derrotas sucessivas no passado, a esquerda “responsável” não pode senão se refugiar em um liberal-socialismo miserabilista. Usou-se o famoso “trickle-down effect” (“efeito de percolação”), ilustrado pela metáfora da maré montante. Quando o mar sobe, ele eleva todas as embarcações, tanto as pequenas quanto as grandes (“A rising tide will lift all boats”). O crescimento da produção beneficia todos, os patrões, certamente, mas também os assalariados. Contudo, por um longo tempo, se as ondas elevam os grandes, elas afundam os pequenos… O efeito de percolação se degrada então em “efeito ampulheta” [effect sablier]. Os que caíram são comprimidos cada vez mais. Como há mais ricos e eles são cada vez mais ricos, é preciso também que haja mais lavadores de carros, garçons, entregadores, faxineiros e guardas privados para se proteger dos pobres cada vez mais numerosos. É o socialismo reduzido às migalhas… O crescimento dos Trinta Gloriosos havia sido impulsionado pelas exportações; o dos Trinta “Medíocres" que se seguiram pôde se manter mal ou bem graças ao gênio diabólico de Alan Greenspan, à proliferação financeira (securitização, produtos derivados, mercados futuros) e ao endividamento fenomenal das famílias e dos Estados.

Hoje a festa acabou; não existem sequer mais essas margens de manobra. O bolo não pode mais crescer. Mais ainda (e sabemos disso há bastante tempo, mesmo que nos recusemos a admitir), ele não deve crescer. A única possibilidade para escapar à pauperização tanto no Norte quanto no Sul é retornar aos fundamentos do socialismo, mas sem esquecer desta vez a natureza: partilhar o bolo de maneira justa. Ele era de trinta a cinquenta vezes menos em 1848, mas Marx e também John Stuart Mill já pensavam que o problema para os países europeus e, em particular, a Inglaterra, não era o tamanho do bolo, mas a sua repartição injusta! Crescendo, o bolo torna-se cada vez mais tóxico – a taxa de crescimento da frustração, seguindo a fórmula de Ivan Illich, excedendo amplamente a da produção – e será necessário mudar a receita. O bolo torna-se tóxico por duas razões: por um lado, cresce poluindo e destruindo o nosso ecossistema, por outro, ele o faz em detrimento dos milhões de pequenos bolos que as pessoas produzem localmente com os seus meios. Era a economia vernacular ou de subsistência. “E essas pessoas”, observa Majid Rahnema, “por causa da produção do grande bolo, são privadas de seus meio para cozinhar os seus pequenos bolos”[8]. Inventemos então belos bolos com produtos orgânicos, de uma dimensão razoável para que os nossos filhos e netos possam continuar a refazê-los, e os dividamos equitativamente. Os pedaços talvez não sejam tão grandes a ponto de nos tornar obesos, mas cada um terá a sua suficiência e, além disso, a alegria pode estar no próprio encontro. Dito de outra forma, a crise nos oferece a oportunidade de construir uma sociedade ecossocialista mais justa e mais democrática. Esse é o programa do decrescimento, a única receita para sair positiva e duravelmente da crise de civilizações que vivemos.

[editar] Mudar de software: uma pista para o futuro

Infelizmente, nem a crise econômica e financeira nem o fim do petróleo são necessariamente o fim do capitalismo, nem mesmo da sociedade de crescimento. O decrescimento somente é concebível em uma “sociedade de decrescimento”, isto é, no quadro de um sistema que repouse sobre uma outra lógica. A alternativa é então decrescimento ou barbárie! Uma economia capitalista ainda poderia funcionar com uma grande raridade de recursos naturais, mudança climática, colapso da biodiversidade etc. É a parte de verdade dos defensores do desenvolvimento durável, do crescimento verde e do capitalismo do imaterial. As empresas (ao menos algumas) podem continuar a crescer, a ver as suas cifras aumentarem, assim como os seus lucros, enquanto as fomes, as pandemias, as guerras exterminassem nove décimos da humanidade. Os recursos, sempre mais raros, veriam seu valor aumentar mais que proporcionalmente à sua diminuição quantitativa por causa da rigidez da sua demanda. A raridade do petróleo não é tóxica à saúde das empresas petrolíferas – pelo contrário. Vale o mesmo para a pesca: ela controla a existência de substitutos para o peixe cujo preço não pode aumentar à proporção de sua raridade em um mercado concorrencial. Em uma economia de penúria, o consumo diminuirá substancialmente, enquanto seu valor continuará aumentando. O capitalismo reencontraria a lógica de suas origem, crescer às custas da sociedade.

Desde 1750, ao menos, com o nascimento do capitalismo e da economia política, o Ocidente sonha com o crescimento infinito. Durante um século, esse sonho só se realizou para as empresas industriais inglesas. É preciso revisitar a história ocidental e, em particular, murchar a grande narrativa do crescimento. Essencialmente, o crescimento magnífico do capitalismo em seu início é um mito. Certamente, há enriquecimento colossal da burguesia, mas ele é produzido em detrimento da sociedade, isto é, o crescimento se nutre da destruição do artesanato e dos campesinatos inglês e indiano. Globalmente, a massa de valor de uso, e mesmo a produção material, não deve ter crescido consideravelmente durante esse período, apesar das mudanças drásticas. As estatísticas nos enganam ao registrar somente o crescimento mercantil, sem ter em conta enormes destruições da esfera vernacular. Certos historiadores, como Eric Hobsbawm, reconhecem isso, mas esse reconhecimento de detalhe não põe questiona o diagrama geral de um mítico enriquecimento da “sociedade”. Perto de 1850, ao entrar na via “termo-industrial”, conforme a expressão de Jacques Grinevald[9], o Ocidente pôde enfim dar consistência ao seu desejo de esposar a razão geométrica. Desta vez, a massa global produzida cresceu consideravelmente em detrimento do patrimônio natural. O crescimento chinês atual nos fornece uma nova ilustração. Segundo o vice-ministro chinês do meio ambiente, pode-se avaliar em 10 a 12% do PIB o custo anual de destruição dos ecossistemas, ou seja, exatamente a taxa de crescimento chinesa! Entretanto, até a invenção genial da sociedade de consumo, essa economia de crescimento da produção se furtava aos limites do consumo e conhecia crises periódicas.

Para transformar a recessão atual em sociedade de decrescimento convivial, é preciso renunciar à religião do crescimento e escapar das armadilhas do "mito do bolo".

Vimos que a crise constitui uma "boa nova" para a África. A nossa situação seria diferente se fôssemos capazes de nos libertar da dependência tóxica do consumo e do trabalho para recuperar a nossa autonomia? Que o sobrecrescimento em uma sociedade moderna não traz a felicidade, é fácil de demonstrar e de compreender. Uma sociedade fundada sobre a avidez e a competição produz necessariamente uma massa enorme de "perdedores" absolutos (aqueles deixados à própria sorte) e relativos (os resignados), e portanto frustrados, juntamente com um pequeno grupo de predadores cada vez mais ansiosos para consolidar a sua posição ou reforçá-la. Quando a economia está em crise, a sociedade não pode se sentir melhor de modo a diminuir o consumo de antidepressivos e que fazer os predadores perderem o seu orgulho?

Mesmo sem entrar explicitamente em um decrescimento desejado, temos nas guerras mundiais e nas desconexões forçadas das sociedades do Sul do mercado mundial exemplos de experiências vividas de “prosperidade decrescimentista”[10]. Esse é o caso, em particular, para a América Latina e a África. O Brasil, a Argentina e alguns outros países da região conheceram um período de relativo bem-estar nos anos 1930-1950 que foi teorizado posteriormente com o nome de substituição de importações. A ruptura dos circuitos comerciais os condenava a uma autonomia que se mostrou benéfica para a população. Mesmo que o fenômeno não tenha sido muito estudado, ocorreu o mesmo para a África durante a Segunda Guerra Mundial. O projeto de self reliance [autossuficiência] (contar com as suas próprias forças) de Nyerere depois da independência da Tanzânia visava a renovar voluntariamente essa autossuficiência forçada.

Uma sociedade de sobriedade escolhida, aquela proposta pelo movimento dos objetores de crescimento, terá como base trabalhar menos para viver melhor, consumir menos mas melhor, produzir menos lixo, reciclar mais. Em suma, inventar a sua felicidade na convivialidade, e não na acumulação frenética. Tudo isso implica uma séria descolonização de nossos imaginários, pois nos tornamos dependentes tóxicos da droga consumista. “Pode-se dominar a desmesura enquanto ela ainda está solta, legitimada e massivamente individualizada”, pergunta-se Marc Guillaume. E, fazendo eco, Peter Sloterdijk responde que com essa “psicose de ganância”, todo mundo quer ter sua parte “das agradáveis injustiças do mundo rico”. Contudo, as circunstâncias podem justamente nos ajudar a romper com a droga tóxica[11].

Essa pode ser a ocasião de ver florescerem todos os tipos de inciativas decrescimentistas[10] e solidárias: AMAP [Associação pela Manutenção da Agricultura Camponesa], SEL (sistema de trocas local), jardins compartilhados, autorreabilitação das moradias, autoprodução assistida ou acompanhada: jardins, cozinha, segundo a experiência do PADES (Programa de autoprodução e desenvolvimento social)[12]. O movimento das cidades em transição nascido na Irlanda (em Kinsale, perto de Cork) e que se espalhou pela Inglaterra talvez seja a forma de construção por baixo do que se aproxima mais de uma sociedade de decrescimento. Essas cidades, segundo a carta da rede, visam em primeiro lugar à autossuficiência energética, projetando o fim das energias fósseis e, de modo geral, a resiliência[13]. Esse é o projeto político da utopia concreta do decrescimento e dos dez pontos do programa eleitoral apresentados no Pequeno tratado do decrescimento sereno[14]. Para os fundamentos de toda sociedade libertada da obsessão do crescimento, propomos formalizar a ruptura por um "círculo virtuoso" de sobriedade resumido em oito R: Reavaliar, Reconceitualizar, Reestruturar, Relocalizar, Redistribuir, Reduzir, Reutilizar, Reciclar. Esses oito objetivos interdependentes foram escolhidos porque nos parecem suscetíveis de iniciar uma dinâmica de decrescimento sereno, convivial e sustentável. Eles dão forma a uma utopia no melhor sentido do termo, isto é, a construção intelectual de um funcionamento ideal. Mas essa utopia também é concreta, no sentido em que faz parte dos dados existentes e das evoluções desejáveis para tentar construir um outro mundo, ou ainda uma nova civilização. Nesse nível, o lado utópico prevalece sobre o aspecto concreto. É claro que nesse detalhe não se pode e não se deve pensar em uma sociedade do decrescimento do mesmo tipo no Texas e em Chiapas, no Senegal e em Portugal. O segundo nível, aquele da prática, supõe uma inserção muito maior que o contexto. O programa “eleitoral” seguinte em dez pontos proposto para a França em 2007 visa a esse objetivo:

1. Reencontrar uma pegada ecológica sustentável; 2. Reduzir os transportes internacionalizando os custos por eco-taxas apropriadas; 3. Relocalizar as atividades; 4. Restaurar a agricultora camponesa; 5. Reafetar os ganhos de produtividade reduzindo o tempo de trabalho e criando emprego; 6. Relançar a “produção” de bens relacionais; 7. Reduzir o desperdício de energia do fator 4; 8. Restringir fortemente o espaço publicitário; 9. Reorientar a pesquisa técnico-científica; 10. Reapropriar-se do dinheiro.

Não detalharemos aqui os dois conjuntos. Notemos somente que, para os objetores de crescimento, com a exclusão (em princípio) da saída da crise pelo consumo e, portanto, pelo crescimento estando, um plano massivo de reconversões se impõe. Uma redução substancial do tempo de trabalho imposto é, por outro lado, uma condição necessária para sair de uma sociedade trabalhista de crescimento, mas constitui também um complemento às reestruturalizações para assegurar a todos um emprego satisfatório no horizonte (para a França) de uma redução necessária de dois terços de nossa exploração de recursos naturais.

Com os eventos (crise financeira e econômica), reapropriar-se do dinheiro, que aparecia difusamente no projeto inicial, torna-se uma prioridade explícita do programa. É preciso se reapropriar progressivamente da moeda e não mais deixá-la exclusivamente nas mãos dos bancos. Ela deve servir e não escravizar[15] É preciso sonhar em inventar uma verdadeira política monetária local. Para manter o poder de compra dos habitantes, os fluxos monetários deveriam ficar o máximo possível na região, enquanto as decisões econômicas deveriam ser tomadas o máximo possível no mesmo nível. Palavra de especialista (neste caso, um dos inventores do euro): “Encorajar o desenvolvimento local conservando o monopólio da moeda nacional é como tentar desintoxicar um alcoólatra com gim”[16] ». O papel das moedas locais, sociais ou complementares é colocar necessidades insatisfeitas em relação com recursos que de outra forma ficariam ociosos. Uma moeda complementar permite mobilizar bens disponíveis que sem ela seriam inutilizados para satisfazer uma demanda não resolvível. É o caso, por exemplo, da hotelaria, da restauração, dos transportes coletivos para os lugares vagos. Se uma municipalidade distribui para os desempregados remunerações em moeda local (convertíveis, por exemplo, em vale-alimentação, bônus de transporte, pernoite em hotel) em troca de trabalhos de interesse coletivo, ela injeta poder de compra que pode, por sua vez, ser utilizado para comprar produtos locais da agricultura e do artesanato ou serviços (por exemplo à pessoa).

De imediato, trata-se de conter a crise e remediar a proliferação financeira[17]. Para fazê-lo, convém enquadrar as atividades dos bancos e financeira. É preciso recompartimentalizar o mercado financeiro mundial. Refragmentar os espaços monetários implica, como se viu, de inverter a globalização financeira, por exemplo, anulando a securitização dos créditos ou o excesso dos efeitos de prêmios (aumentar a taxa de cobertura). Muito provavelmente, seria necessário suprimir os mercados futuros e retornar a sistemas mais clássicos de seguro para os importadores e os exportadores (cujas operações deveriam, por outro lado, ser levadas novamente a níveis mais razoáveis, pelo necessário questionamento dos excessos do livre comércio e deslocalização). Desenvolver moedas alternativas locais, bio-regionais, específicas (como os cupons de alimentação), complementares (com fórmulas diversas para experimentar e adaptar: crédito mútuo rotativo, taxa de interesse negativo etc.) integra esse objetivo, mas também constitui um poder alavancador para relocalizar, isto é, se reapropriar de seu território de vida e reabitar o mundo[18], em reação ao desenraizamento, aos não lugares e à atemporalidade do produtivismo local.

A principal dificuldade para realizar esse programa deve-se ao fato de que, enriquecendo-nos materialmente, o crescimento econômico muito nos empobreceu humanamente. Perdemos essa capacidade de fazer por nós mesmos que constituía a potência dos pobres e mais ainda as solidariedades sobre as quais podiam contar os membros das sociedades tradicionais[19]. Precisamos reaprender a ser autônomos e a fazer tudo para que a recessão não seja a antecâmara do caos ou de um eco-fascismo odioso mas, ao contrário, uma etapa rumo ao decrescimento sereno e convivial. Para isso, precisamos inventar um outro modo de relação com o mundo, com a natureza, com as coisas e os seres.


Notas

  1. I. Rens et J. Grinevald, « Préface à la première édition (1979) », in N. Georgescu-Roegen, La décroissance. Entropie, écologie, économie, Sang de la terre, Paris, 1995, p. 46.
  2. H.-R. Martin, Éloge de la simplicité volontaire, Flammarion, Paris, 2007, p. 190.
  3. F. Partant, Que la crise s’aggrave !, Parangon, Lyon, 2002 [1978], p. 178.
  4. Ibid., p. 193.
  5. Por exemplo, Pierre-Antoine Delhommais em sua crônica em Le Monde de domingo 23-segunda-feira 24 de novembro de 2008.
  6. A. Gorz, "A ecologia deles e a nossa", Le Monde Diplomatique, abril de 2010, p. 28.
  7. Ver sobre este ponto F. Lordon, La crise de trop, Fayard, Paris, 2009, em particular cap. 4 : " Le paradoxe de la part salariale".
  8. M. Rahnema et J. Robert, La puissance des pauvres, Actes Sud, Arles, 2008, p. 12.
  9. J. Grinevald, « L’effet de serre de la Biosphère. De la révolution thermo-industrielle à l’écologie globale », Stratégies Énergétiques, Biosphère et Société, n° 1, mai, 1990, p. 9-34. Ver igualmente o seu livro La Biosphère de l’Anthropocène. Climat et pétrole, la double menace. Repères transdisciplinaires (1824-2007), Georg Éditeur, Genève, 2007.
  10. 10,0 10,1 N.T. No original, “décroissante”: “decrescente”.
  11. P. Dockès, F. Fukuyama, M. Guillaume et P. Sloterdijk, Jours de colère. L’esprit du capitalisme, Descartes et Cie, Paris, 2009, p. 26 e 44.
  12. Ver D. Cérézuelle et G. Roustang, L’autoproduction accompagnée. Un levier de changement, Érès, Toulouse, 2010.
  13. R. Hopkins, The transition handbook. From oil dependancy to local resilience, Green Books, Darlington, 2008.
  14. S. Latouche, Petit traité de la décroissance sereine, Mille et une nuits, Paris, 2007.
  15. N.T.: Trocadilho intraduzível entre “servir” (servir) e “asservir” (escravizar).
  16. B. Lietaer, « Des monnaies pour les communautés et les régions biogéographiques : un outil décisif pour la redynamisation régionale au XXIe siècle », in J. Blanc (dir.), Exclusion et liens financiers. Monnaies sociales. Rapport 2005-2006, Economica, Paris, p. 76.
  17. Com 100 dólares, por exemplo, pode-se, em um banco de investimento, obter 1000 dólares que permitam tomar posição no mercado de derivados (futuros) para 375 mil dólares.
  18. Ver B. Lietaer et M. Kennedy, Monnaies régionales. De nouvelles voies vers une prospérité durable, Éditions Charles Léopold Mayer, Paris, 2008. Pode-se igualmente assistir ao filme La double face de la monnaie de Vincent Gaillard e Jérôme Polidor.
  19. M. Rahnema et J. Robert, op. Cit.

Tradução: Reticente

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