João Wyciffe, A Rebelião dos Camponeses Ingleses

De Protopia

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Comunalismo
Kenneth Rexroth

     Cada um dos seguidores de Eckhart, Johann Tauler, Henry Suso, Jan van Ruysbroeck, esforçaram-se por ajustar sua teologia mística à mais estrita ortodoxia mas nenhum deles teve sucesso. Até mesmo a Imitação de Cristo de Thomas Kempis, o manual devocional mais popular produzido no Ocidente, e a única exposição universalmente conhecida da sensibilidade religiosa dos Irmãos da Vida Comum, até hoje é tido como desqualificado pelo Catolicismo Romano. Tauler exerceu uma grande influência sobre Lutero ao popularizar a Teologia Germânica, uma coleção escrita ou editada por um desconhecido discípulo de Tauler. Já no tempo de Nicholas de Cusa essa tradição tornara-se completamente divorciada e contrária à filosofia medieval. A obra OfLearned Ignorance de Nicholas de Cusa é uma reinterpretação em termos da Renascença. Pela complexa teosofia de Jakob Boehme (1575-1624) nos movemos para um mundo completamente estranho ao catolicismo e luteranismo.</p>

     Naqueles dias, tanto quakers, menonitas, como grupos similares faziam questão em destacar que eles não eram nem católicos nem protestantes, mas pertencentes a uma velha igreja que ressurge na vida dos apóstolos e que emerge novamente na história dois séculos antes de Lutero. Isto é verdade. Não deveríamos pensar nesta grande onda de espiritualidade na Europa do Norte como algo novo, mas como a redescoberta de algo antigo; não como um corpo de teologia doutrinai, mística, muito menos em termos de episódios sensacionais da história de suas lutas com o papa e a Igreja, mas como um modo de vida. Em toda cidade havia pequenos grupos de pessoas que se encontravam nas casas uns dos outros, ou em grandes cômodos destituídos de decoração e imagens, vivendo juntos em casas comunais nas cidades ou reclusos no campo. A maioria deles ainda iam à Missa aos domingos e confessavam na Páscoa. Mas sua vida religiosa estava centrada em seus próprios encontros, onde sentavam ouvindo e estudando tranqüilamente as passagens bíblicas, orando juntos espontaneamente ou aguardando na quietude a Luz Interior, o movimento do Espírito. Distante de todos os conflitos e controvérsias, perseguições, julgamentos, execuções na fogueira, e guerras, esse modo de vida permaneceria intato. Os homens e os eventos apocalípticos se levantariam e floresceriam nos melodramas da história [como fogo de palha], até que finalmente ficavam para trás, absorvidos pela quietude da vida das comunidades apostólicas.

     Em meados do século XIV as tensões geradas pelas profundas mudanças econômicas e sociais no final da Idade Média tornaram-se insuportáveis, contudo o esqueleto do velho modo de vida sobrevivia de uma forma apertada e difícil. Em termos objetivos, a situação tornava-se pior a cada dia. A Inglaterra entrou em convulsão pela Guerra das Rosas, uma luta intestina da aristocracia pelo controle do comércio de lã. Enquanto isso, os camponeses se revoltavam por toda parte. O papado estava aprisionado em Avignon pelo reinado francês. Eventualmente haviam dois papas, cada qual reivindicando o trono, e finalmente três. Ao mesmo tempo em que Roma se deteriorava a Itália se viu infestada por exércitos em guerra, tanto dos Guelphs contra os Ghibellines, como dos papalistas contra os imperialistas. Em meados do século XIV a Peste Negra infestou a Europa e exterminou um terço ou mais da população. As conseqüências econômicas e sociais, especialmente o aumento dos preços e a escassez de trabalho, acelerou a falência do sistema feudal. Enquanto isso o novo império dos turcos otomanos se espalhava continuamente pela península balcânica até finalmente alcançar os muros de Viena, controlando o Mar Mediterrâneo, e ameaçando subjugar a cristandade. Da Peste Negra até o final da Guerra dos Trinta Anos, ou seja, durante trezentos anos, a Europa Ocidental mergulharia em um contínuo tumulto.

     A primeira explosão aconteceu na Boêmia, com a pregação de João Hus (1369-1415), a tomada do Conselho de Constance, o crescimento do cisma da Igreja de Boêmia, e as Guerras Hussitas. Com exceção da cruzada albigense, o conflito religioso permaneceu localizado, até mesmo individualizado. Na Boêmia tornou-se um movimento nacional envolvendo conflitos militares em larga escala, foi quando pela primeira vez o comunismo religioso deixou de ser uma questão envolvendo comunidades intencionalmente pequenas, muitas vezes clandestinas, passando a envolver cidades e territórios inteiros.

     Considerando que João Hus foi acusado pelo Conselho de Constance de pregar doutrinas hereges do inglês John Wycliffe, deveríamos voltar um pouco e analisar as teses de Wycliffe, embora as acusações do Conselho fossem injustas. João Wycliffe (1329-1384) não foi o último herege medieval mas o primeiro líder da Reforma. Não falou a uma obscura seita clandestina mas a toda a nação inglesa. Embora iniciasse como filósofo e teólogo, suas preocupações posteriormente tornaram-se amplamente políticas. Ele não era um líder pessoal mas pregador e escritor. Ele não reivindicava nenhuma revelação especial e não pregava nenhum apocalipse. Suas idéias revolucionárias foram desenvolvidas racionalmente a partir das condições aceitas pelo realismo escolástico. A maior parte de sua vida ativa foi gasta como professor em Oxford no Balliol College e depois de ser expulso, ou melhor, depois que ele se aposentou de sua paróquia de Lutterworth, ele continuou a escrever e fazer publicações, morrendo em completa comunhão com a Igreja. Ele nunca foi um porta-voz da revolução social, embora alguns seguidores e propagandistas de suas idéias, os Lollards, fossem acusados de envolvimento na Rebelião dos Camponeses em 1381. Na verdade, ele era um porta-voz, não dos pobres ou proletários, mas dos grandes magnatas, dos senhores, do rei, e do poder do Estado contra a Igreja. Embora muitas de suas idéias tenham se tornado parte do credo protestante, elas pouco tem a ver com os movimentos apocalípticos e comunais que desafiaram o poder do Estado e da Igreja e se esforçaram por estabelecer uma sociedade modelada na comunidade dos apóstolos.

     Para Wycliffe a Bíblia era a autoridade exclusiva em todos os assuntos religiosos ou seculares. Ele aderiu uma noção peculiar, derivada do seu extremo realismo escolástico, da Bíblia como uma incorporação terrestre da palavra sagrada de Deus, de uma Bíblia eterna e celeste que refletia como um espelho a segunda pessoa da Trindade, o Logos, a Palavra. Esta é uma idéia muçulmana, do sagrado Alcorão, e que aparece com Wycliffe pela primeira vez no Ocidente. Embora tal conceito perdesse um pouco de seu extremismo original, ele explica a bibliolatria do protestantismo inglês. Wycliffe também foi responsável pela primeira tradução completa da Bíblia para o inglês. Seu efeito foi tal que a Igreja proibiu bíblias desautorizadas em inglês e eventualmente, por um tempo, a posse particular de bíblias vernáculas de qualquer tipo.

     Wycliffe acreditava que a Igreja deveria ser completamente sujeita ao Estado e que deveria ser desprovida pela força de seu poder temporal, ela não deveria possuir poder temporal algum, poder religioso, e nem mesmo propriedades. As ordens religiosas deveriam ser abolidas. Todos os ministros e pregadores deveriam limitar-se à pregação. A pregação era mais importante que a Missa. Não havia nenhum suporte bíblico para a Missa enquanto um sacrifício no qual Cristo estaria presente sacramentalmente. As confissões orais eram desnecessárias. Os sacramentos eram inválidos se administrados por um pregador em pecado mortal, o mesmo valia para toda a autoridade hierárquica. Nenhum papa pecador deveria ser obedecido. Como, de acordo com Wycliffe, por definição o clero geralmente estava em pecado mortal, toda a estrutura da igreja desabaria.

     Wycliffe, em sua pregação pelo esvaziamento do poder da Igreja, tomou uma medida estritamente prática. Em uma petição ao parlamento, seus seguidores argumentaram que se a Igreja fosse destituída de sua propriedade e reduzida à pobreza evangélica seria possível financiar quinze novos títulos de condes, quinze mil cavalarias, quinze universidades, cem casas de caridade, e quinze mil novos ministros do Evangelho, fora as vinte mil libras que iriam para o tesouro real. Esse movimento não tinha quase nada de misticismo popular nem de espiritualidade, era o começo de uma luta pelo poder entre as duas classes governantes da Idade Média.

     De modo algum Wycliffe condenou a riqueza secular. “Os homens seculares podem ter uma infinita quantidade de bens . . . desde que os adquira de fato, e os use para a honra de Deus, prosperando na verdade, e ajudando seus irmãos cristãos, desde que eles não se rendam aos apelos do clero anticristo para destruir os senhores seculares, e roubar seus inquilinos pela lei do Anticristo”. As propriedades do rei, dos grandes senhores, dos barões da lã, dos mercadores, tornaram-se coisa sagrada, e o papa, os arcebispos, os abades, tornaram-se o Anticristo. Wicliffe estava historicamente correto no que diz respeito a essa nova forma de propriedade — a Inglaterra daria seu grande salto no desenvolvimento capitalista a partir da secularização da riqueza da Igreja por Henry VIII.

     Assim, Wycliffe entrou bem cedo nesse cenário. O Estado e os grandes senhores não estavam preparados para embarcar em um programa tão revolucionário. A Santa Inquisição fora banida da Inglaterra e a Igreja da Inglaterra ficou mais independente do papa do que as demais, especialmente durante o papado de Avignon quando a maioria dos ingleses tinha o papa como um vassalo do rei francês. Depois da Rebelião dos Camponeses e da morte de Wycliffe, seus seguidores passaram a ser perseguidos com freqüência. Eventualmente o estado inglês estabeleceu sua própria Inquisição. Com o declínio da alfabetização no movimento, a adeptos dos Lollardry passaram cada vez mais a ser vítimas do uso da força. Assim, tornaram-se completamente subversivos, não por serem apocalípticos, nem por lutarem por um reino milenar, mas por exigirem uma revolução política nas relações entre a Igreja e o Estado. Este foi o primeiro movimento pre-Reforma que respondeu por uma parcela do caráter político assumido imediatamente após a revolta Hussite na Boêmia. Os Lollardry tiveram participação ativa durante todo o período que durou a Guerra das Rosas, favoráveis ao trono e aos ataques econômicos contra a Igreja.

     Entre os Lollards, como é o caso de qualquer movimento, haviam aqueles radicais mais extremados. É verdade que durante um certo período de tempo Wycliffe, de uma forma resumida e em todos seus escritos, passou a defender uma sociedade comunista. Em seus escritos no De Civili Domínio: “Todas as coisas boas de Deus deveriam ser [compartilhadas] em comum. A prova disso é que todo homem deveria estar em um estado de graça. Se ele está em um estado de graça ele é o senhor do mundo e de tudo o que o mundo contém. Então todo homem deveria ser o senhor do mundo inteiro. Mas por causa da multidão de homens isso não acontecerá a menos que eles possuam todas as coisas em comum”. Mas isto está em Latin e em um tratado instruído, e Wycliffe apressou-se em dizer que a história, desde o pecado de Adão, conduziu à autoridade e à distribuição desigual da riqueza, coisas que todos os bons cristãos deveriam aceitar, contanto que estejam nas mãos de leigos. Esta é uma abordagem ortodoxa padrão. Se todos os homens estivessem em um estado de graça, não existiria pobreza nem riqueza.

     A Rebelião dos Camponeses ingleses de 1381 começou com uma erupção espontânea em Essex, com um massivo protesto dos escribas contra os impostos que se tornavam cada vez mais pesados, uma medida que hoje seria chamada de deflacionária. O Estado tentava superar os altos salários e a inflação resultante da Peste Negra que se abatera sobre a geração anterior. Os camponeses se revoltaram contra as tentativas dos nobres de destruir o status feudal dos escribas reduzindo-os a servos. Os rebeldes elegeram Wat Tyler como líder e designaram Jack Straw seu principal auxiliar. Com a disseminação da revolta eles capturaram cidades e castelos em Essex, Kent e eventualmente tomaram Londres. Mas antes tomaram de assalto o palácio do arcebispo e libertaram os prisioneiros da prisão episcopal, entre eles João Bali, tido como um Lollardo, mas mais provavelmente um herege milenário do velho estilo. O panfleto de William Morris A Dream of João Bali tornou Bali famoso, atribuindo-lhe um grande papel na revolta, algo que na verdade nunca teve.

     As exigências oficiais dos camponeses apresentadas ao rei eram bastante simples e práticas. Essencialmente exigiam a abolição das dívidas e obrigações feudais, a substituição do trabalho assalariado e uma drástica redução de impostos. A prova de que eles não se inspiraram em Wycliffite é revelada pelo saque e incêndio do grande palácio de João de Gaunt em Savoy, um antigo protetor de Wycliffe.

     Por outro lado, João Bali tornou-se famoso também pelo seu dístico, “When Adam dalfand Eve span, Who was then a gentilman?”. Segundo o historiador Jean Froissart, tais citações eram típicas dos sermões de John Bali, ele foi preso antes da insurreição por dizer coisas assim.

Ah, sim gente boa, as coisas não andam bem na Inglaterra, somos impedidos de compartilhar nossos bens, ainda existem cavalheiros em nossas aldeias, podemos unir todas nossas posses, e os senhores não serão maiores do que nós. O que foi que fizemos de errado para viver assim em servidão contínua? Todos viemos de um pai e de uma mãe, Adão e Eva: de modo que ninguém pode de forma alguma dizer que é maior do que nós, porque temos que viver de migalhas enquanto eles usam o fruto de nosso trabalho em proveito próprio? Eles se vestem de veludo e carmesim forrados com peles, enquanto nos vestimos com tropos: enquanto vivemos de migalhas e bebemos água, eles bebem dos melhores vinhos, comem do melhor pão e da melhor mistura; enquanto eles vivem dentro de seus palacetes, vivemos nos campos, na labuta, na dor, na chuva e no vento; usam nosso trabalho para sustentá-los e manter suas propriedades: somos chamados para servi-los, e se não atendemos prontamente ao seu chamado, somos espancados; e não temos a quem reclamar, quem nos ouça ou faça justiça. Vamos até o rei, ele é jovem, vamos mostrar-lhe a servidão em que estamos, se as coisas permanecerem inalteradas mostraremos aquilo que somos capazes de fazer; e se nos unirmos, todos aqueles que estão em escravidão nos seguirão tentando conquistar a liberdade; e quando o rei vier até nós, já teremos encontrado a cura para nossos males, já teremos alcançado a justiça pelas nossas próprias mãos.

     Thomas Walsingham em sua Crônica menciona o sermão de Bali — de uma forma indireta:

No princípio todos os seres humanos foram criados livres e iguais. Homens maldosos por uma opressão injusta p ela primeira vez introduziram a servidão contra a vontade de Deus. Agora é o momento dado por Deus em que as pessoas comuns podem, e conseguirão, rejeitar o jugo que agüentaram durante tanto tempo e ganhar a liberdade que sempre ansiaram. Eles deveriam ser puros de coração e proceder como sábios chefes de família que ajuntam trigo em seus celeiros, e que capinam o mato que sufoca os grãos quase maduros; quando a época da colheita se aproxima. O mato são os grandes senhores, os juizes e os advogados. Eles devem ser exterminados, da mesma forma que devem ser exterminados todos aqueles que representem perigo à comunidade no futuro. Então, com os grandes fora de combate, todos os homens desfrutarão de liberdade em igual grau e poder, e compartilharão todas as coisas em comum.

     Isso é tudo o que realmente sabemos sobre Bali. No ápice da revolta o jovem rei eventualmente participaria de duas reuniões com Tyler e Jack Straw nas quais concederia o fim da escravidão, das obrigações feudais, a remoção de todas as restrições na liberdade de trabalho e comércio, e uma anistia geral para os rebeldes. Na segunda reunião os rebeldes foram dispersados. Wat Tyler foi morto e a rebelião suprimida. João Bali, Jack Straw, e centenas de outros foram executados. As promessas do rei foram revogadas. Os rebeldes remanescentes foram caçados por toda parte e a revolta foi sufocada sem qualquer efeito imediato.

     A Rebelião dos Camponeses, por sua vez, foi bem mais articulada e aparentemente conduzida por homens bem educados, de uma forma semelhante ao que ocorreu na França e em Flandres. O ocorrido revela um padrão que se repetiria por muitas vezes. Há uma insurreição popular contra as relações feudais economicamente moribundas. Ela assume a forma de reivindicação pela liberdade do trabalho e dos mercados capitalistas. A revolta se amplia e transforma-se num levante generalizado contra os ricos. Em seu curso arrasta consigo proeminentes ex-pregadores e outros que pregam o advento de uma revolução religiosa, a chegada do apocalipse e do milênio. Eles não fazem parte do corpo principal da revolta mas parasitam sobre ela e quando a revolta é suprimida, e até mesmo quando ela tem sucesso, eles são executados. Porém, há uma certa continuidade. Considerando que os apocalípticos são os maiores propagandistas e os pregadores mais apaixonados, suas palavras permanecem na memória das pessoas e repetidas geração após geração, provendo combustível para a próxima revolta.

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