A ecologia deles e a nossa

De Protopia

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André Gorz


Evocar a ecologia é como falar do sufrágio universal e do descanso dominical: em um primeiro momento, todos os burgueses e todos os partidários da ordem lhes dizem que vocês os levam à ruína deles, que é o triunfo da anarquia e do obscurantismo. Depois, em um segundo momento, quando a força das coisas e a pressão popular tornam-se irresistíveis, eles concordam com aquilo que recusaram anteriormente e, fundamentalmente, nada muda.

A tomada em consideração das exigências ecológicas conserva muitos adversários no patronato. Mas ela já tem muitos partidários patronais e capitalistas para que a sua aceitação pelos poderosos com dinheiro se torne uma possibilidade séria.

Tanto melhor, desde o presente, não brincar de esconde-esconde: a luta ecológica não é um fim em si, é uma etapa. Ela pode criar dificuldades ao capitalismo e obrigá-lo a mudar; mas quando, depois de ter por muito tempo resistido pela força e pela esperteza, ele finalmente ceder, porque o impasse ecológico se tornará inelutável, ele absorverá essa limitação como absorve todas as outras.

É porque é preciso desde já colocar a questão abertamente: o que queremos? Um capitalismo que se acomode aos limites [contraintes] ecológicos ou uma revolução econômica, social e cultural que vá abolir as limitações do capitalismo e, do mesmo modo, instaurar uma nova relação dos homens com a coletividade, com o seu meio ambiente e com a natureza? Reforma ou revolução?

Não responda sobretudo que essa questão é secundária e que o importante é não destruir o planeta a ponto que ele se torne inabitável. Pois a sobrevivência não é mais um fim em si: vale a pena sobreviver em “um mundo transformado em hospital planetário, em escola planetária, em prisão planetária e onde a tarefa principal dos engenheiros da alma será fabricar homens adaptados a essa condição” (Illich)?

Se vocês ainda duvidam de que é exatamente esse mundo que os tecnocratas da ordem estabelecida nos preparam, leiam o dossiê sobre as novas tecnologias de “lavagem cerebral” na Alemanha e nos Estados Unidos [Les Temps Modernes, 1974]: depois de psiquiatras e neurocirurgiões americanos, pesquisadores ligados à clínica psiquiátrica da Universidade de Hamburgo exploram, sob a direção dos professores Gross e Svab, métodos próprios para remover dos indivíduos a agressividade que os impede de suportar tranquilamente as maiores frustrações: aquelas que lhes impõe o regime penitenciário e também o trabalho forçado, o excesso de população em cidades superpovoadas, a escola, o escritório, o exército.

É melhor tentar definir, desde o início, para que se luta e não somente contra o quê. E é melhor tentar prever como o capitalismo será afetado e mudado pelas limitações ecológicas do que acreditar que elas provocarão o seu desaparecimento, sem mais.

Mas, inicialmente, o que é, em termos econômicos, uma limitação ecológica? Peguem, por exemplo, os gigantescos complexos químicos do vale do Reno, em Ludwigshafen (Basf), Leverkusen (Bayer) ou Rotterdam (Akzo). Cada complexo combina os seguintes fatores:

Em uma economia capitalista, a combinação desses fatores, no seio do processo de produção, tem por objetivo dominante o máximo de lucro possível (o que, para uma empresa preocupada com o seu futuro, significa também: o máximo de poder, e portanto de investimentos, de presença sobre o mercado mundial). A busca desse objetivo ressoa profundamente no modo no qual os diferentes fatores são combinados e na importância relativa que é dada a cada um deles.

A empresa, por exemplo, não se pergunta nunca como fazer para o trabalho ser mais prazeroso, para que a fábrica preserve os equilíbrios naturais e o espaço de vida das pessoas, para que os seus produtos sirvam para os fins que se dão as comunidades humanas. Ela se pergunta somente como produzir o máximo de valores mercantis ao mínimo custo monetário. E a essa última questão ela responde: “Preciso privilegiar o funcionamento perfeito das máquinas, que são raras e caras, em relação à saúde física e psíquica dos trabalhadores, que são rapidamente substituíveis por outros menos caros. Preciso privilegiar os baixos custos de receita em relação aos equilíbrios ecológicos cuja destruição não será minha culpa. Preciso produzir o que pode ser vendido caro, mesmo que as coisas menos custosas possam ser mais úteis.

Tudo carrega a marca dessas exigências capitalistas: a natureza dos produtos, a tecnologia de produção, as condições de trabalho, a estrutura e a dimensão das empresas…

Mais eis que, especialmente no vale do Reno, o excesso de população humana, a poluição do ar e da água atingiram uma tal degradação que a indústria química, para continuar a crescer ou somente a funcionar, se vê obrigada a filtrar os seus gases e efluentes, isto é, reproduzir condições e recursos que, até aqui, passariam por “naturais” e gratuitos. Essa necessidade de reproduzir o meio ambiente terá incidentes evidentes: é preciso investir na despoluição, portanto crescimento na massa dos capitais fixos; é preciso em seguida assegurar a amortização (a reprodução) dos equipamentos de tratamento dos efluentes; e o produto destes (a limpeza relativa do ar e da água) não pode ser vendido com lucro.

Em suma, existe aumento simultâneo do peso do capital investido (da “composição orgânica”), do custo de reprodução deste e de dos custos de produção, sem aumento correspondente das vendas. Em consequência, de duas, uma: ou a taxa de lucro diminui, ou o preço dos produtos aumenta.

A empresa procurará evidentemente aumentar os seus preços de venda. Mas isso não ocorrerá tão facilmente: todas as outras empresas poluidoras (cimenteiras, metalúrgicas, siderúrgicas etc.) procurarão também que os seus produtos sejam vendidos mais caros ao consumidor final. Levar em conta das exigências ecológicas terá finalmente esta consequência: os preços tenderão a aumentar mais rápido que os salários reais, o poder de compra popular será então comprimido e tudo se passará como se o custo da despoluição fosse deduzido sobre os recursos que as pessoas dispõem para comprar mercadorias. A produção deles tenderá então a estagnar ou diminuir; as tendências à recessão ou à crise se agravarão. E esse declínio do crescimento e da produção que, em um outro sistema, poderia ser um bem (menos carros, menos barulho, mais ar, jornadas de trabalho mais curtas etc.) terá efeitos inteiramente negativos: as produções poluentes tornar-se-ão bens de luxo, inacessíveis à massa, sem deixar de estar à disposição dos privilegiados: as desigualdades se aprofundarão: os pobres tornar-se-ão relativamente mais pobres e os ricos mais ricos.

Levar conta os custos ecológicos terá, em suma, os mesmos efeitos sociais e econômicos que a crise do petróleo. E o capitalismo, longe de sucumbir à crise, a gerirá como sempre fez: grupos financeiros bem colocados lucrarão com as dificuldades de grupos rivais para absorvê-los a preço baixo e expandir a sua dominação sobre a economia. O poder central reforçará o seu controle sobre a sociedade: tecnocratas calcularão normas “ótimas” de despoluição e de produção, editarão regulamentações, expandirão os domínios de “vida programada” e o campo de atividade dos aparelhos de repressão. A ira popular será desviada por mitos compensadores, contra os bodes expiatórios convenientes (as minorias étnicas ou raciais, por exemplo, os “cabeludos”, os jovens…) e o Estado colocará o seu poder em ação através de seus aparelhos: burocracia, polícia, exército e milícias preencherão o vazio deixado pelo descrédito da política partidária e pelo desaparecimento dos partidos políticos. Basta olhar em torno de si para perceber, na França e em outros lugares, os sinais de uma degenerescência desse tipo.

Vocês dirão que nada disso tudo é inevitável? Sem dúvida. Mas é bem assim que as coisas arriscam a acontecer se o capitalismo somente levar em conta os custos ecológicos sem que um ataque político, lançado em todos os níveis, o arranque do domínio das operações e lhe oponha todo um outro projeto de sociedade e de civilização. Porque os partidários do crescimento têm razão sobre um ponto ao menos: no quadro da sociedade atual e do modelo atual de consumo, fundados sobre a desigualdade, o privilégio e a busca do lucro, o não crescimento ou o crescimento negativo podem significar somente estagnação, desemprego, aumento da distância que separa ricos e pobres. No quadro do modo de produção atual, não é possível limitar ou bloquear o crescimento repartindo com mais equidade os bens disponíveis.

De fato, é a própria natureza dos bens que mais frequentemente impede a sua repartição equânime: como você querem repartir “com equidade” as viagens nos [aviões] Concord, os [carros] Citröen DS ou SM, as coberturas com piscina, os mil novos produtos, raros por definição, que a indústria lança a cada ano para desvalorizar os modelos antigos e reproduzir a desigualdade e a hierarquia sociais? E como repartir “com equidade” os diplomas universitários, os postos de contramestre de obras, de engenheiro ou titular de cátedra?

Como não ver que a principal motivação do crescimento reside nessa fuga inicialmente generalizada que estimula uma desigualdade deliberadamente mantida: nisso que Ivan Illich chamou de “a modernização da pobreza”? Uma vez que a massa pode esperar ascender ao que era um privilégio, esse privilégio (o diploma, o carro, a televisão) desvaloriza-se, o limite da pobreza é aumentado um nível, novos privilégios dos quais a massa é excluída são criados. Recriando sem cessar a raridade para recriar a desigualdade e a hierarquia, a sociedade engendra mais necessidades que ela não satisfaz e “a taxa de crescimento da frustração excede amplamente aquela da produção” (Illich).

Uma vez que se pense nos limites dessa civilização não igualitária, o crescimento aparecerá à massa das pessoas como a promessa – ainda que inteiramente ilusória – de que elas um dia deixarão de ser “sub-privilegiadas”, e o não-crescimento como a sua condenação à mediocridade sem esperança. Também não é tanto o crescimento que é preciso atacar, senão a mistificação que ele mantém, a dinâmica das necessidades crescentes e sempre frustradas sobre a qual ele repousa, a competição que ele organiza incitando os indivíduos a querer se elevar “acima” dos outros. A divisa dessa sociedade poderia ser: o que é bom para todos não vale nada. Você não será respeitável a menos que você tenha “melhor” que os outros.

Ora, é o inverso que é preciso afirmar para romper com a ideologia do crescimento: somente é digno de você o que é bom para todos. Só merece ser produzido o que não privilegia nem diminui ninguém. Podemos ser mais felizes com menos opulência, pois, numa sociedade sem privilégio, não há pobres.

Tentar imaginar uma sociedade fundada sobre esses critérios. A produção de tecidos praticamente indestrutíveis, sapatos que duram anos, máquinas fáceis de consertar e capazes de funcionar por um século, tudo isso está, já no presente, à disposição da técnica e da ciência, assim como a multiplicação de equipamentos e serviços coletivos (de transporte, de lavanderia etc.), dispensando cada pessoa de comprar máquinas caras, frágeis e devoradoras de energia.

Suponham em cada imóvel coletivo duas ou três salas de televisão (uma por programa); uma sala de jogos para as crianças; um ateliê bem equipado com instrumentos de bricolagem; uma área de serviço com máquina de secar e passar; vocês ainda terão necessidade de todos os seus equipamentos individuais, e vocês ainda vão se engarrafar nas estradas se existirem transportes coletivos cômodos indo para os lugares de lazer, estacionamentos de bicicletas e de ciclomotores nos lugares, uma rede densa de transportes coletivos para os subúrbios e o centro das cidades?

Imaginem ainda que a grande indústria, centralmente planificada, se limite a produzir somente o necessário: quatro ou cinco modelos de sapatos e de roupas que durem, três modelos de carros sólidos e transformáveis, mais tudo aquilo que é preciso para os equipamentos e serviços coletivos. É impossível isso haver em uma economia de mercado? Sim. Seria o desemprego em massa? Não: a semana de vinte horas, com a condição de mudar o sistema. Seria a uniformidade e a monotonia? Não, pois imagine o seguinte: cada bairro, cada comuna [município] dispõe de ateliês, abertos dia e noite, equipados com gamas tão completas que possibilitam ferramentas e máquinas, onde os habitantes, individualmente, coletivamente ou em grupos, produzirão para si mesmos, fora do mercado, o supérfluo, segundo os seus gostos e desejos. Como trabalharão vinte horas por semana (e talvez menos) para produzir o necessário, os adultos terão todo o tempo para aprender o que as crianças aprenderão por sua vez na escola primária: trabalho com tecido, madeira, pedra, metais; eletricidade, mecânica, cerâmica, agricultura…

É uma utopia? Talvez seja um programa. Porque essa “utopia” corresponde á forma mais avançada, e não à mais grosseira, do socialismo: em uma sociedade sem burocracia, onde o mercado se deteriora, onde há muito para todos e onde as pessoas são individual e coletivamente livres para elaborar as suas vidas, para escolher o que querem fazer e ter a mais que o necessário: uma sociedade onde “o livre desenvolvimento de todos seria o objetivo e a condição do livre desenvolvimento de cada um”, dixit [dizia] Marx.

Tradução: Reticente

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